Línguas Nacionais desobedecem normas

AFIBA advoga que as línguas devem ser escritas de acordo com a pronúncia dos seus falantes Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

Por Francisco Pedro

A escrita da maioria das línguas nacionais não obedece às normas estabelecidas pela Associação Fonética Internacional (AFI) e pela Associação Fonética Internacional das Línguas Bantu (AFIBA), segundo o linguista Jorge Kapitango.

Existem muitos erros ortográficos, de acordo com o docente da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, que domina 8 línguas nacionais, tendo afirmado que a transgressão ortográfica regista-se quer nas línguas nacionais, quer nas línguas de outros países africanos de origem bantu.

A AFIBA advoga que as línguas nacionais devem ser escritas de acordo com a pronúncia dos seus falantes, em que um grafema (letra) tem um som invariável, seja qual for o contexto gramatical, diferente das línguas latinas ou ocidentais, como o português, francês e inglês.

Para cada língua bantu existe um alfabeto exclusivo, imutável, “e quem dominar  o alfabeto do kimbundu tem a facilidade de aprender as demais línguas”, garantiu o docente.

Referindo-se aos erros ortográficos das línguas nacionais, como por exemplo acontece no alfabeto da língua kimbundu em que não existem as sílabas “ca; ce; ci; co; cu”, essas fazem parte do alfabeto da língua umbundu, por isso, a grafia das províncias Cuanza- Norte, Cuanza-Sul, Cuando Cubango e Cunene é errada, devendo ser substituída por “K”, pois o correcto será: Kwanza Norte, Kwanza Sul, Kwando Kubango, Kunene.

O docente explicou que o grafema “u” é substituído pela “w” porque a AFIBA estabeleceu que, a junção de uma ou duas vogais com o grafema “u” esse deve ser substituída pela “w”, situação semelhança acontece com “i” que deve ser substituído pela letra “y”.

A escrita correcta de “uafua” será “wafua”, “uaue” por “wawe”, “calema” por “kalema”, “calemba”, por “kalema”, “Cassai”, por “Kasayi”, “Luanda”, por “Luwanda”, “musongué”, por “muzonge”, “mucesseque”, por “museke”, “Calulu”, por “Kalulu” e “Quibala”, por “Kibala”. Lembrou, ainda, que as palavras “Kalemba” e “Kalema” diferem em significado. A primeira designa um pequeno “Consolador” (Kalemba), e a segunda, “Kalema”, refere-se as ondas gigantes (enchentes do mar, em época de Lua Cheia).

Jorge Kapitango frequenta um mestrado em Pedagogia de Línguas Africanas, no Kenya. Considerou que a actual Lei 14/16, de 12 de Setembro, que estabelece normas para a atribuição de nomes às ruas, praças, largos, avenidas, aldeias, povoações, bairros, vilas, cidades, distritos urbanos, comunas, municípios e províncias, entre outros, “contém divergência”, pois se transgride o estipulado no Artigo 7, do Parágrafo 2, Capítulo III – Normas da Toponímia, que refere o seguinte: “Os topónimos, nas demais línguas de Angola, são escritos em conformidade com as regras de grafia da língua correspondente, devendo ser certificados pelo Instituto de Línguas Nacionais”.

Referiu que a resolução número 3/ 87, de 23 de Maio,  publicada em Diário da República, consta o alfabeto de todas as línguas nacionais, o que permite que estudantes e investigadores nacionais e estrangeiros, incluindo políticos, escrevam correctamente, embora tenha admitido a existência de preconceitos.
“O pensamento de assimilação, infelizmente, persiste em algumas pessoas que sentem vergonha de falar as suas línguas maternas, o que, às vezes, faz com que existam erros ortográficos”, afirmou o docente.

Por outro lado, a história da evolução da humanidade permite afirmar que a raiz da maioria das línguas do mundo tem uma base africana, por que os primeiros habitantes da terra habitavam em África, as primeiras palavras serviam para designar animais, uma teoria da linguística que justifica a origem das línguas.

Associação Internacional

A Associação Fonética Internacional (AFI) é uma organização que promove o estudo científico da fonética e várias aplicações práticas dessa ciência. A maior contribuição da AFI para a comunidade académica é o Alfabeto fonético internacional, um padrão de notação para a representação fonética de todas as línguas.
Em 1886, em Paris, um pequeno grupo de professores de língua formou uma associação para encorajar o uso da notação fonética em escolas a fim de ajudar as crianças a adquirirem uma pronúncia de línguas estrangeiras realista e também para ensinar leitura às jovens crianças.

O apogeu da Associação, em número de membros associados e influência na educação, se deu por volta de 1914, quando contava com 1751 membros em 40 países.

Via JA

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