Noções básicas da gramática kikôngo

Por Patricio Batsikama

Nesse trabalho foi exageradamente utilizadas palavras kikôngo, o que leva-nos a explicar – em termo introdutório – algumas noções básicas da sua gramática.

1. Tendo em conta a variante de kikôngo, utilizar-se-á o kikôngo dya kâti, isto é as versões faladas em Mbânz’a Kôngo e suas antigas regiões directamente dependentes. Partimos do pressuposto que o inglês, o português e francês que se fala é das capitais daqueles países. Contudo, anexaremos a esse kikôngo as contribuições de outras variantes. Normalmente contamos: kizômbo, kintându, kinyânga, etc.

2. O alfabeto do kikôngo kya mpa (kikôngo moderno) é o mesmo que das línguas nativas, com algumas particularidades.

a) Consoantes
• Alguns consoantes não existem, nomeadamente: h, j, q e r.
• O consoante C tem a fonologia de nsi ou ainda o ci italiano.
• As metamorfoses de alguns consoantes que ora são bilabiais ora bilabiais-dentais se verificam com b, f, p e v
b) Vogais
• Existem cinco vogais simples: a, e, i, o e u; dois semi-vogais: wu = uu; yi = ii. Exemplos: mwâna = filho; kyâdi = tristeza.

3. Algumas pronúncias

• Gi e ge pronunciam-se GUI e GUE. Exemplos: (a) lôngi (conselho, ensinamento); ngêmba (paz).
• O gha antigo já é retomado na sua forma moderna de v, no caso: ghônda = vônda; ghôgha = vôva.
• Tsi, como já adiantamos é o ce/ci latim (como no lucem, fecit) que somente encontramos nas antigas variantes de kikôngo.

4. Uso de acentos na quantificação fonológica

Kikôngo é uma língua essencialmente fonética de modo que a seguir explicamos algumas noções básicas.
• Vogais longos: o acento circunflexo indicara os vogais longos, como nos exemplos a seguir: (a) sala = soprar; sala = trabalhar; (b) kula = caçar; kûla = crescer/envelhecer.
• Vogais curtos finitivos: alguns sentidos de palavras com a mesma grafia muda de acordo com a quantidade fonética do último vogal. Exemplo: ndîdi (eu comi); ndîdì (tu comeste).

5. Nasalização

• Nasalização fraca. Alguns vocábulos carregam nele uma nasalização fraca onde o prefixo n dissimula-se no consoante que o segue imediatamente. Exemplo: ntînu = velocidade; mbata = zénite (meio-dia).
• Nasalização forte. É, regra geral, o mu comprimido em ñ ou o m que não se dissimula perante o consoante que lhe segue directamente. Exemplo: (a) ñtinu (mutinu) = rei; m’bati (mubati) = calça. Observação: No ñtinu, o ñ leva um tilde e no m’bati o m é apostrofado, mas poderá ser também um traço acima de m, e nesse caso ele junta-se directamente ao consoante, como o fazem alguns autores.

6. Dissolução de alguns prefixos

• Prefixo arcaico DI trocado com KI. Com a função do artigo a/o no singular, dizia-se dilôngi = a lição; ditâmbu = a armadilha. O di é retomado por ki, ou o di/ki caie simplesmente. Exemplo: (ki)lôngi kya ntête (dilôngi dya ntête) = a primeira lição; (ki)tâmbu kya Mpêtelo (ditâmbu dya Mpêtelo) = a armadilha do Pedro.
• Prefixo di/ki nominal caie. Algumas palavras cujo prefixo nominal indica o singular (apenas) têm tendência de perder esse prefixo. Exemplo. Diba torna-se ba (palmeira). As palavras monossilábicas (precedidas de ndi/ki) obedecem a mesma regra: Kinsi (nsi) = país; Disê (sê) = pai.
Importa salientar que o di/ki passou a ser sub-entendido, tal como o indicam os exemplos a exigir. Exemplo: (a) sê dyâni = pai dele; (b) ba dya mbuta Luvwâlu = palmeira do senhor Álvaro; (c) nsi kya Mputulukêzo = país dos Portugueses (Portugal); (d) mbu kya Luwânda = Mar de Luanda (onde busca-se o zîmbu).

Observação: algumas palavras monossilábicas mantiveram o prefixo di/ki. Exemplo: dinu (dente), disu (olho); kimpa (actualidade), etc.

Ou ainda, nas expressões que se seguem:

(i) Lûmbu kya zôle (segundo dia ou Segunda-feira ). Em princípio, a preposição kya indica, por regra de concordância, que lûmbu esteja prefixado sub-entendidamente de ki.
(ii) Sûka kya nzîla: aqui, também, o prefixo ki perante a palavra sûka é sub-entendido.
(iii) Vwa dya bumuntu. O término duma personalidade (divwa dya bumuntu) se diz quando alguém perde a sua personalidade.
(iv) Ñti kimôsi: Primeira árvore, embora possa também significar – contextualmente – uma árvore, subentende-se que a primeira palavra seja ki-nti.

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