PRENOMES E SOBRENOMES LATINOS DE ANGOLA – SUA PERSPECTIVA LINGUÍSTICA

Por Reinaldo Tomás Kiwila (*)

Todo e qualquer conhecimento, seja ele científico, técnico ou filosófico tem sempre uma explicação e sustentação à altura do seu nome e dimensão. Desde a antiguidade, as ciências humanas, sociais e exactas foram alvo de pesquisas e estudos, bem como o seu aprofundamento e aprimoramento por vários homens do saber ao longo dos séculos da existência humana e cujos resultados foram trazidos à luz de todos para o benefício da própria humanidade. Assim, os nomes pessoais e de identidade dos seres humanos também foram alvo de tais estudos e pesquisas nas diferentes sociedades. Essa comunicação tem o intuito de demonstrar que a Linguística, como uma área do saber muito importante, intervem directa ou indirectamente nos nomes de pessoas. Consultas, pesquisas bibliográficas e documentais foram o foco principal para a detecção de irregularidades que se verificam nos antropónimos de Angola. Tem se constatado que no nosso país muitos nomes não obedecem os critérios estipulados pela Linguística, havendo nomes desajustados e sem a mínima concordância do ponto de vista antroponímico. Nomear não deve ser aleatório, mas sim, deve obedecer a uma serie de critérios socio antropológicos inerentes a uma dada cultura, e que devem ser respeitados e preservados, apesar da globalização vigente.

Introdução 

Em todos os idiomas e culturas existentes no globo terrestre, quando nasce uma criança, os progenitores atribuem-lhe um nome completo para sua identificação. “Os nomes primitivos tinham um significado exato, o que, aliás, correspondia às exigências psicológicas e simbólicas das tribos que os usavam”. (http://www.infopedia.pt/$antroponimia). 

No decorrer do tempo os nomes foram sendo dados de diversas formas, havendo até sociedades ou famílias que os atribuem sem a mínima observância às regras estipuladas para tal, desvirtuando-as totalmente.

Fazendo uma introspecção sobre os nomes completos dos cidadãos em Angola notar-se-á que existem ainda muitas incongruências no que tange a esse tipo de matéria. Tudo isso ocorre, por falta de conhecimento sobre a aludida matéria. 

Definição de conceitos

a)- Nome:

No sentido amplo, qualquer palavra que siga a flexão nominal, ou seja, a declinação em contraposição a flexão verbal. Portanto, não só substantivo, mas também adjectivos e, por vezes, as formas nominais do verbo, podem ser considerados nomes (…). No sentido restrito e no uso comum, o nome é um vocábulo ou locução que tem a função de designar uma pessoa, um animal, uma coisa ou um grupo de pessoas, animais e coisas. (pt.wikipedia.org.)

b)- Pessoa:

É o sinónimo de um ser humano. Na Filosofia, uma pessoa é uma entidade que tem certas capacidades ou atributos associados a personalidade, por exemplo em um contexto particular moral, social ou institucional. Essas capacidades ou atributos podem incluir a autoconsciência, a noção de passado e futuro, e a posse de poder deôntico, entre outros. (pt.wikipedia.org.)

c)- Antropónimos:

 “São substantivos próprios que numa dada sociedade se aplicam aos indivíduos componentes, para distingui-los uns dos outros. Geralmente o indivíduo se identifica por dois ou mais vocábulos antroponímicos que formam uma locução ”. CAMARA JR. (2009, p. 62)         

d)- Linguística:

“Ciência que se ocupa em estudar as características da linguagem humana”. (significados.com. br/linguística)

  1- Fundamentos da Antroponímia

Tal como noutras nações, o povo angolano, desde os tempos imemoriais, sempre atribuiu nomes próprios aos seus descendentes. Segundo YAMBO (2003, pp. 23-24), as circunstâncias que orientaram os nomes bantu são:

1- […] assim as crianças nascidas de uma mesma mãe sabem cada um o seu lugar. Habitualmente encontram-se duas séries: rapazes e raparigas;

2-Os gémeos segundo os sexos e os que vêm depois;

3-Os dias de semana;

4-O nome do genitor;

5-Os traços físicos do recém-nascido;

6-Uma circunstância ligada ao nascimento;

7-Coincidência com os acontecimentos sociais (viagens, prisões, falecimentos, festas, etc.);

8-Em relação com os falecimentos dos seus antecessores;

9-As relações sociais;

10-Nomes mensagem: (de agradecimento a Deus; de pedido de protecção; de lamentações; de censura; de preocupações quotidianas);

11-Nomes teófobos;

12-Nomes de honra… […].

Essas realidades foram corroboradas por CHIMBINDA (2009, p. 52) quando afirma que “… […] os nomes como expressões da vida, não nascem do nada. Não emergem da tabula rasa ou de um vazio. Cada nome teve um início temporal e local contextuado. As fontes inspiradoras dos nomes são vários, tais como as pessoas, a fauna, a flora, astros, terra e ar […]”.

Por razões históricas, ou seja, com a colonização e a cristianização, esse povo começou a usar nomes portugueses, exemplo que lhes foi dado pelos primeiros reis católicos que com o baptismo receberam nomes cristãos, sobretudo os dos reis e fidalgos de Portugal, (MARTINS, 1958). Apesar disso e, exceptuando alguns casos pontuais, como é óbvio, tem se constatado que a Antroponímia angolana padece de algumas mazelas estruturais que, neste artigo, vale a pena destacar e levar a uma profunda reflexão.

Hoje, um considerável número da população angolana, mormente os citadinos, usa para sua identidade nomes latino-europeus com uma antroponímia baseada no modelo português que apresenta um certo pendor científico, (LEI nº 10 de Outubro de 1985). No entanto, essa antroponímia nem sempre é bem empregue pelo facto de se constatarem os seguintes elementos em nomes completos:

  • Nomes desajustados;
  • Sobrenomes latino-europeus.

A Antroponímia é a parte da Onomástica que trata dos antropónimos, ou seja, é do nome próprio que a antroponímia se ocupa. Como uma área do saber tem os seus princípios, regras e métodos de aplicação prática. O modelo português (existem outros modelos), estabelece que o nome completo de um indivíduo assenta na fórmula básica seguinte:

Nome = Prenome + Sobrenome

OBS: Este modelo (português) do nome não é comutável, quando esse facto ocorre num determinado nome está-se perante um erro ou desvio. Por exemplo João Pedro Ngoma é diferente de Ngoma João Pedro.

O prenome e o sobrenome são componentes fundamentais de um determinado nome e têm pressupostos apropriados, onde, têm posição e função dentro de um nome completo. Assim, prestemos atenção nos seus conceitos:

Prenome, primeiro nome, nome de baptismo ou hierónimo: é o nome próprio individual. São nomes de origem hebraica, helénica, germânica, anglo-saxónicos e até bantu. Regra geral, colocam-se na altura do nascimento ou no acto do baptismo. Há casos em que um indivíduo pode possuir dois prenomes.

Sobrenome, segundo nome, nome de família ou apelido: tem como objectivo de melhor identificar os indivíduos. De salientar que para se chegar à origem do sobrenome, é necessário remontar à primeira pessoa que o utilizou e identificar claramente a língua falada na época e o local onde tal pessoa residia. Tem a ver com a árvore genealógica e com a ancestralidade dos indivíduos. Segundo (holacv.com/geneabril/historiagrafia.htm) as cinco principais fontes para o sobrenome foram: ocupação, localização, característica pessoal ou alcunha, patronímicos e religiosa.

  • Ocupação: Zimmermann, sobrenome alemão. Significa carpinteiro. Schummacher (sapateiro), Taylor (alfaiate), Maurer (pedreiro) e Schafer (tosquiador de ovelhas).
  • Localização ou toponímico: Roberto Carlos Braga, cantor e compositor brasileiro. Braga é uma cidade de Portugal. Outros exemplos, Silva, Oliveira, Milanesi e Modenesi.
  • Característica pessoal ou alcunha: Paulo Delgado, deputado brasileiro, tem o sobrenome originário de uma família espanhola de pessoas magras. Outros exemplos: Leitão, Coelho, Salgado, Passarinho e Goulart.
  • Patronímicos: Sobrenomes de origem portuguesa como por exemplo, Fernandes que significa ”filho de Fernando”, Rodrigues “filho de Rodrigo”, Simões “filho de Simão”, Henriques “filho de Henrique”, Nunes “filho de Nuno”, Marques “filho de Marcos”, etc.
  • Religiosa: a maioria dos sobrenomes de origem religiosa não possuem brasão, visto que os filhos bastardos não tinham pai legal, as mães acabavam por acrescentar um nome em devoção a algum santo católico ou símbolo religioso, as pessoas achavam que isso poderia trazer protecção e sorte. Alguns exemplos: Assunção, Santos, Cruz, Sacramento, Nascimento, etc. 

Assim, os nomes latino-europeus com essas duas partes: prenomes e sobrenomes, estipula-se que entre eles, há aqueles que são colocados exclusivamente na posição de prenomes e outros apenas para posições de sobrenomes, evitando-se o contrário.

1.1. Sobrenomes portugueses mais comuns de Angola:

Rodrigues, Sousa, Gonçalves, Martins, Dias, Jesus, Monteiro, Mendes, Lopes, Vaz, Gomes, Carvalho, Teixeira, Viegas, Pires, Neves, Antunes, Correia, Ferreira, Oliveira, Álvares, Conceição, Vieira, Santos, Rosa, Pacheco, Fonseca, Lourenço, Afonso, Fernandes, Mendonça, Almeida, Pereira, Silva, Melo, Medeiros, Costa, Tavares, Ferraz, Pinto, Magalhães, Cardoso, Cunha, Morais, etc.    

Estes sobrenomes encontrados em muitos nomes de angolanos autóctones, tendo em conta os ditames da Antroponímia, não se enquadram, na maioria dos casos, com as contextualizações genealógicas dos grupos bantu, apesar de algumas excepções à regra, ou seja, há sobrenomes latino-europeus que coincidem semanticamente com nomes ou realidades bantu. Muito destes sobrenomes são, erroneamente, atribuídos como prenomes em muitos casos.

Assim, sem pretensão de generalizar o assunto, tem-se observado que muitos nomes completos de cidadãos, isto é, prenomes e sobrenomes de angolanos bantu não se ajustam na fórmula atrás referenciada. Verifica-se que, elementos que exclusivamente só devem figurar como prenomes, muitas vezes, são encontrados no lugar de sobrenomes e vice-versa. Quando se posiciona o sobrenome como prenome num dado nome por motivos de honra, considera-se um erro, porque sobrenomes são nomes exclusivamente de consanguinidade e ancestralidade.

Analisemos “antroponimicamente” alguns dos seguintes nomes:

  • António Sofrimento
  • Kunzika Emanuel 
  • Maria Helena José
  • Moisés André 
  • Reinaldo João Tomás
  • Pacheco Magalhães 
  • Pedro Filipe
  • Segunda Bartolomeu

                          

                                       Quadro 1 – Análise de um nome completo

Prenome (s) Sobrenome (s)
António Sofrimento
Kunzika  Emanuel 
Maria Helena José
Moisés André
Reinaldo João Tomás
Pacheco Magalhães
Pedro Filipe
Segunda Bartolomeu

Alguns nomes completos referenciados no quadro apresentam graves desajustes normativos e estruturais, já que:

– As regras de Antroponímia estipulam que os nomes de baptismo (hierónimos), alguns de origem hebraica, helénica, germânica, anglo-saxónicos ou bantu masculinos e femininos já pré-definidos, só devem figurar na 1ª posição com a função de prenome e não na posição e função de sobrenome, os quais também transportam consigo sempre o seu valor semântico.

– O sobrenome para além de apresentar um significante, também, e fundamentalmente, reveste-se de um significado ou valor semântico, alicerçado nas raízes genéticas e da ancestralidade do seu detentor.

– Assim, Emanuel, José, André, Tomás, Filipe e Bartolomeu que aparecem no quadro como sobrenomes, quanto a sua natureza são considerados de hierónimos, portanto, só podem posicionar-se como 1º nome e com a função de prenomes. O nome Pacheco Magalhães é constituído integralmente de elementos considerados sobrenomes. O nome Pacheco por exemplo, a exercer a função de prenome não está correcto, ocorrendo, assim, um desajuste.

Considerações finais

Os prenomes latino-europeus atribuídos aos cidadãos bantu de Angola estão enraizados e aceitáveis, em certa medida, porque a maioria do povo angolano professa a fé alicerçada no cristianismo. Assim, se constata que tais prenomes são atribuídos pelos progenitores com base a três critérios fundamentais:

    • Por motivos cristãos;
    • Por honra
    • Por bel-prazer ou outros motivos.

 

 

Todos os prenomes e sobrenomes nas suas línguas de origem têm sempre uma descri-

ção semântica (significado), com reflexos dos contextos de onde se originaram. Porque os nomes são palavras e as palavras dizem sempre alguma coisa.   

Quando se opta em honrar uma pessoa ilustre para perpetuação de seu nome, deve se primar pelo seu prenome e não pelo sobrenome por razões já apontadas.

Será que sobrenomes latino-europeus atribuídos aos angolanos nativos reflectem a sua origem e ancestralidade?

Os sobrenomes de origem latino-europeia predefinidos atribuídos aos cidadãos bantu, não se coadunam com as suas matrizes genealógicas, nem tão pouco de seus ancestrais. Os detentores de tais sobrenomes, isto é, partindo dos seus genitores por ordem de ascendência, os adquiriram por imposição, honra ou a bel-prazer. Portanto, demonstram, um certo vazio, ou seja, tais, não representam nenhuma essência profunda da alma e do espírito bantu, mas algo superficial e fictício.

Inquéritos realizados em várias pessoas adultas com prenomes e sobrenomes latino-europeus, declararam, peremptoriamente, que desconheciam os reais significados dos mesmos.

O resgate dos valores culturais, não passa apenas pela educação moral e cívica, mas também pela revisão de aspectos concernentes a Antroponímia e a identificação. Os prenomes, e sobretudo os sobrenomes não são meros letreiros decorativos ou de identidade supérflua com significante, mas, sim, arautos duma função linguística, baseada na língua e na cultura ancestral de cada povo.

Deveria se colocar no Sistema Nacional de Ensino, desde muito cedo, nos conteúdos programáticos de História e Geografia elementos, ou mesmo, a cadeira de Onomástica para uma visão geral do assunto.

Os Serviços de Registos de Nascimento do país devem dispor de linguistas ou indivíduos versados no assunto, com o intuito de fornecer subsídios técnico-científicos sobre a matéria. Outrossim, devem programar seminários para os seus quadros.

Hoje, o desconhecimento das regras que regem a constituição de um nome completo, baseado na Antroponímia (modelo português), faz com que haja o fenómeno de desajustes de nomes, ocasionando, deste modo, uma confusão e amálgama que continuam a sua marcha imparável, perpetuando, assim, o erro. Tal confusão e amálgama que se constatam nos nomes actuais são o resultado dos primeiros desajustes que foram ocorrendo na atribuição dos nomes latino-europeus de Angola.

O povo angolano sofreu profundamente a aculturação ocidental. Neste caso, a atribuição de nomes latino-europeus nos nomes é um facto desse processo, um facto incontornável. Contudo para nossa reflexão, propomos que se devia preservar a antroponímia angolana com sobrenomes nativos, àqueles baseados nas nossas línguas e raízes, ou os equivalentes em português para a manifestação da identidade bantu;

Resumindo e concluindo, e sem preconceitos ou tendências xenófobas, pode-se afirmar que muitos nomes latino-europeus de Angola estão mal formatados e desajustados pelo facto de não se inserirem, verdadeiramente, na fórmula: Nome = Prenome + Sobrenome. O que se nota é, sobretudo, a usurpação de sobrenomes alheios – os sobrenomes de famílias portuguesas e de outras partes da Europa, bem como a colocação de prenomes e sobrenomes nos lugares indevidos e vice-versa.

quo vadis, Antroponímia angolana?! 

Para terminar, que se recorde à reflexão de alguns versos dum poema do Saudoso Presidente Neto, “Havemos de Voltar”.

 

Bibliografia

CAMARA JR., Joaquim Mattoso, Dicionário de Linguística e Gramática, Petrópolis, Editora Vozes, 2009.

CHIMBINDA, Jorge Simeão Ferreira, O Nome na Identidade Umbundu – Contributo Antropológico, Huambo, ETU, 2009.

MARTINS, Manuel Alfredo de Morais, Contacto de Culturas no Congo Português, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar, CEPS, 1958.

YAMBO, Francisco Xavier, Pequeno Dicionário Antroponímico Umbundu, 1ª Edição, Luanda, Editorial Nzila, 2003.

http://www.infopedia.pt/$antroponimia-Acessado em 21. O1.2014

holacv.com/geneabrasil/historiagrafia.htm-Acessado em 25.08.2016.

http://www.geocities.ws/cantoni.geo/dietz/historio.htm-Acessado em 25.08.2016.

(*) Mestre em Linguística Bantu (renekiwilatom@hotmail.com)

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