Memórias: José Raimundo Narciso do F.C do Uíge.

Por Silvino Fortunato

“Eu agora não saio. Há anos que estou colado a esta cadeira de rodas”, foram com essas palavras nostálgicas que o jornal Nkanda obteve a garantia de entrevistar, no dia seguinte, José Raimundo Narciso, uma das lendas mais cintilantes do futebol angolano e do Uíge em particular.

A padecer de uma doença que lhe paralisou os membros inferiores, obrigado a amputar o pé esquerdo e limitado nos movimentos, vive num retiro forçado, longe do vigor dos anos de glória nos estádios de futebol de Angola e do então Zaíre, actual República Democrática do Congo.

Raimundo, como era conhecido nos campos de futebol, vive dependente de terceiros, até para se locomover. Está confinado no anexo de uma residência com o olhar para o estádio 4 de Janeiro, onde alegrava os amantes do futebol.

Ganhou a casa em que vive do seu primeiro contrato, celebrado com os donos do Futebol Clube do Uíge (FCU), na antiga cidade de Carmona. Fazia parte de uma geração que emergiu e começava a ser integrada nos clubes dos mais velhos e que continuou depois com os trumunos entre bairros, que envolviam equipas do Tangi, Tomessa, Caxixi, Ngunza, Senga, Nkulu, assim como do seu bairro, Kimakungu, nos arredores da cidade do Uíge, em pleno período colonial.

Foi no tempo em que nas sanzalas, jogadores como o Fernando Correia, Jeremias Correia, Fernando Fiety, João Lusambu, Ramiro Rodrigues Kaniangu, Joaquim Benjamim, Alfredo Mbundu, Domingos Mário e jovens da sua idade, como o Kananito Alexandre e outros começaram a despontar e iam sendo integrados nos clubes onde já brilhavam os mais velhos.

Na altura, havia as equipas do Sporting de Kandombe Velho, Futebol Clube do Porto de Kixinkongo, Sporting de Mbanza Mpolo, a Académica de Kimakungu, onde Raimundo Narciso jogou com os irmãos Correia, seus mais velhos, com os quais seguiu, depois, para o clube da cidade.

Nas lembranças cita ainda o Russo e Raul, que eram famosos no Clube de Kaxixi, o Domingos Zarra, o Paiva e o Distinto Wazaba, que era o guarda-redes, que pertenciam ao Clube do Tangi. Raimundo chegou a interromper a sua carreira no clube Académica de Kimakungu, na época em que teve de seguir um tio, que fixara residência em Mbanza Ngungu, uma aldeia da RDC, fronteiriça com Angola.

“Foi daqui que me vieram buscar, quando ouviram o meu futebol, para jogar nos Diabos Vermelhos do Kongo, provavelmente em 1969 ou 1970”, lembra. Lá, jogou com o famoso jogador congolês Raul Kidumo. Chegou a receber, na altura, um convite para ir jogar no Anderlech da Bélgica, mas, por ser angolano, os dirigentes do clube não aceitaram a contratação e intermediaram o Kidumo, que acabou devolvido pouco tempo depois dos testes. “Não serviu lá, mas quando regressou tornou-se no famoso jogador que conhecemos na Selecção do Zaíre”.

Em 1971, regressou a Angola e ao seu Académica de Kimakungu. No mesmo ano, é contratado pelo Futebol Clube do Uíge, clube que diz ter até hoje no coração. A transferência, do regressado Raimundo, para o “clube dos brancos” da cidade ocorreu na altura em que o presidente da Câmara Municipal do Uíge, Matahu Pinto, como lhes chamavam, começou a organizar torneios, a partir do final da década de 60, que decorriam no actual Estádio “4 de Janeiro”, propriedade de Ferreira Lima, o dono do então Clube Recreativo do Uíge.

PRIMEIROS ANOS

“Vivi intensamente o futebol que comecei a jogar ainda miúdo no Académica de Kimakungu, antes de amar intensamente o Futebol Clube do Uíge, onde ingressei em 1971”. Muitos colonos portugueses amantes do futebol iam regularmente aos bairros da periferia da antiga cidade general Carmona, para assistirem aos jogos das equipas dos nativos.

Daí ter sido descoberto pelo João Ferreira e Orlando da Fonseca, donos do Futebol Clube do Uíge, neste primeiro ano da década de 70. “Os brancos diziam: se esse gajo que come bombó com ginguba joga assim, aqui no bairro, se comer à portuguesa na cidade, imagine o que ele fará, misturado aos risos o Kota Rai, como a geração desse tempo o trata”, revela as nuances em que foi parar no FCU. Afirma que naquele tempo pagavam-lhe bem. O contrato valia 3 mil escudos e, mensalmente, auferia 25 mil escudos, além dos prémios por vitória. Se a equipa empatasse, recebia apenas metade do valor.

Depois, o clube ofereceu-lhe a primeira residência onde vive até ao momento, com a família. Fazia as refeições na Pensão Peixoto. “Valorizavam-me muito. Eu tinha valor, por aquilo que fazia em campo”, desabafa. No início da carreira, Raimundo actuou como atacante, ponta de lança, posição que trocou para defesa central depois da saída do clube do seu titular, um moçambicano que tinha pedido para regressar à sua terra.

“O treinador tratou-me por aldabrão porque dizia que eu jogava melhor na defesa, como central, do que na posição em que actuava”, sublinha. Daí para frente, a antiga estrela de Kimakungu, nunca mais jogou noutra posição. Como atacante, destaca ter tido dificuldades de violar a baliza defendida pelo Cordeiro, do Clube Recreativo do Uíge, e uns poucos guarda-redes daquele tempo colonial. Conta que contra os demais marcava com menos ou maior dificuldade.

“Marquei muitos golos de cabeça, nos cruzamentos, pontapés de canto ou de livres”, lembra. Quando a equipa jogasse no sistema 4x4x2 fazia a dupla com o Arménio e quando optasse por 4x3x3 jogava com o Risanó. Fruto das boas exibições, o Porto quis levar-lhe, para Portugal, depois de acompanhar nos jogos que fazia. Inicialmente recusou-se, porque queria antes terminar o vínculo contratual com FCU.

Depois o Futebol Clube do Porto insistiu que o Raimundo seguisse primeiro para o Futebol Clube de Luanda de onde seguiria depois para o Clube da cidade do Porto. Entretanto, o clube de Luanda condicionou a sua ida com a saída do seu central, igualmente moçambicano, que queria interromper o contrato para ir-se embora. Já em Luanda e com a nova equipa efectuou alguns jogos.

Foi jogar a Brazzaville, no Congo, com uma equipa local, no dia da Independência daquele país. Cansado de esperar, decidiu abandonar o FCL e regressou ao Uíge, de autocarro, da então Empresa de Viação de Angola (EVA), tendo reintegrado no seu clube do coração. “Eu não queria jogar no clube de Luanda. Queria ir a Portugal, mesmo que fosse para um período de experiência, como tínhamos concordado com o Porto”, lembra.

O futebol nos primeiros anos da Independência

Depois da revolução, em 1975, as competições foram interrompidas, sendo retomadas somente em 1976, sob batuta da JMPLA. A revolução precipitara a saída dos jogadores brancos, que tinham ido embora. O Manuel Póvoa tinha ficado, até falecer muito mais tarde, em Angola. Foi ele, com a ajuda de outros nacionais, que tinham reorganizado o clube.

“O Serafim, o Cananito Alexandre, o Arménio, um mulato do Sanza, o Ilunga, o Garcia Kamungua, o Eduardo André e outros jovens que tinham sido contratados de equipas do Lobito, pelos anteriores donos do Clube, constituíram o núcleo que continuou com FCU”. Sob orientação do Póvua, a equipa participou em vários torneios no território da província do Uíge, disputando jogos amigáveis com as equipas do Negage, Sanza, Camabatela (CuanzaNorte).

Disputava também jogos com o arquirrival, a equipa do Ministério da Construção e Habitação, primeiro como MCH e, mais tarde, o famoso Construtores do Uíge, onde jogou o Vicy. “O Futebol Clube do Uíge e os Construtores do Uíge não eram clubes à toa.

Eram verdadeiros clubes que muita alegria e rivalidades proporcionaram entre os adeptos da província. Muito mais, quando veio o Vicy do Maquela do Zombo”. Disse ter sido ele a trazer o Vicy. “Fui convidar o Vicy, em Maquela, para jogar no Futebol Club do Uíge. Ele não aceitou porque queria jogar com os seus colegas das antigas equipas do Congo, antes de entrarem em Angola para as equipas do município de Maquela do Zombo”.

Entretanto, tinha aceite o convite de Raimundo para jogar pelo Futebol Clube do Uíge, quando foi participar num torneio alusivo ao Café, no Sumbe, no Cuanza-Sul. “Ele fez grandes jogos no torneio, que atraiu a simpatia de muitos dirigentes dos clubes presentes, partindo daí a sua fama”.

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