Sobrevivência de famílias passa pelo lixo no Uíge

Por Alfredo Dikwiza

Uíge, 27/12 (Wizi-Kongo) – A procura do lixo nas ruas do Uíge é um facto, venceu a vergonha e encontra-se “nua” a deambular de um lado para o outro, por passar a ser uma das alternativas para assegurar a sobrevivência de muitas famílias na sede da cidade do Uíge, que, por via disso, conseguem colocar um pão a mesa.

Logo nas primeiras horas da manhã, na sede da cidade do Uíge, é notório encontrar crianças e adultos com seus sacos grandes ou banheiras, colocados as costas, nos braços ou a cabeça cercarem as ruas e lixeira na recolha de latas, garrafas, plásticos e não só, um processo que se estende ao longo do dia, para, a posterior irem-nas vender para os fazedores de certos sumos e bebidas caseiras.

Mas, a maior concentração das crianças e adultos na caça ao lixo é abundante no aterro sanitário a “céu aberto” localizado há uns cinco quilómetros na sede da cidade, concretamente, na estrada que parte do Uíge para os municípios do Songo, Bembe e até a vizinha província do Zaire. Naquele sítio, essa franja vulnerável de cidadãos nacionais, que na sua maioria são mulheres, suportam o cheiro do lixo, ofensas morais, provocações e as algumas vezes tendências e violações por parte de certas pessoas.

“Noutro dia, enquanto estava abaixada e focada na recolha do lixo, quando assustei rodearam-me cinco jovens, que apresentavam características de drogados e bandidos, pegaram-me entre os braços e disseram para obedece-los apenas e começaram a levar-me para o capim com tendência de ser violada, sorte que, em seguida apareceu uma equipa de depósito do lixo e gritei em voz alta, eles fugiram e fui socorrida sem antes sofrer a violação, graças a Deus”, contou em lágrimas, hoje, sexta-feira, nesta cidade, ao Wizi-Kongo, Joana Clemente, uma menina de apenas 14 anos de idade, apanhadora de lixo, há um ano.

Foi um dos dias mais triste da minha vida, sustentou, pois, suspirou, Joana Clemente, eram homens maiores da minha idade, altos e grosseiros, pior que isso, estavam em estado bêbados, “voltei a casa sem ânimos, força, alegria e esperança de vida, apenas lágrimas atrás de lágrimas caiam de meus olhos e até hoje quando imagino aquele dia, perco a vontade de viver“.

Ninguém escolheu ser apanhadora de lixo, nem nos sonho isso é uma realidade, começou a observar, Fátima Rodrigues Nguengi, outra menina de 16 anos encontrada pela equipa do Wizi-Kongo no aterro sanitário do Uíge, mas, continuou, “somos olhados com desprezo no seio da sociedade e até mesmo por parte dos dirigentes que governam essa província, só que eles esquecem-se que, graças ao lixo que recolhemos aqui, conseguimos garantir a nossa sobrevivência sofrível”.

Por aquilo que a equipa do Wizi-Kongo observou durante dias e dias nas urbes desta cidade, descobriu que a disputa pelo lixo entre moradores de um bairro para o outro tornou-se um hábito normal no seio de muitas famílias, claro, “as mais desfavorecidas”, apesar destes estarem a enfrentar maus olhares, desprezos, ofensas e outros maltratos de gentes com estômago repleto, é a partir do lixo que os mesmos conseguem alimentar os seus filhos e outros membros.

Os malucos, pessoas com perturbações psicológicas que vivem nas ruas, disse um munícipe entrevistado pelo Wizi-Kongo, Maludy Ngombo, que, sentem-se nos dias de hoje ofuscados, pois, agora, estão com adversários sérios (pessoas saudáveis), que, também vão ao lixo procurar a sua sobrevivência, caso para dizer, acrescentou, se ver alguém na lixeira, não tire conclusões sem antes o observar de perto, porque hoje por hoje, malucos e pessoas saudáveis, estão a comer na mesma panela, no caso, as lixeiras.

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