Mestre Kapela apresenta “Regresso à Unap” no Camões

Por Jomo Fortunato

A arte de Paulo Kapela apresenta cortes e descontinuidades, consubstanciados em dois segmentos fundamentais, imprescindíveis à compreensão da sua portentosa obra.

Numa primeira fase, o seu traço se dilui guiado pela influência da Escola “Poto-Poto”, ou seja, um segmento a que podemos designar, mais tradicional, para depois, num período mais avançado, encontrarmos uma criação voltada para intervenção social, de pendor satírico, com recortes de jornais, muitos dos quais ilustram figuras proeminentes

da política angolana, transportando a componente do simbolismo africano dos espelhos.
Kapela empreende uma visão ilimitada do poder da arte, onde “tudo”, objectos e jornais encontrados de forma aleatória, ou previamente seleccionados, têm passaporte para além do místico e do surreal. A verdade é que a “poeticidade” do conjunto obra de Kapela, resulta sempre em peças de inegável reflexão filosófica, passíveis de imediata digestão artística.

Auto-didacta, Paulo Kapela começou a pintar em 1960 na Escola “Poto-Poto”, fundada em 1950, Brazzaville, pelo pintor francês Pierre Lods e artistas africanos, primeiro designada, Centro de Artes Africanas e depois, Escola de Arte “Poto-Poto”. Homem modesto mas de incalculável magnitude artística, Kapela trabalha em Luanda desde 1989 e sempre viveu em condições adversas, primeiro no edifício da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos, depois no Beiral, passou pelo Bairro Palanca, contudo, actualmente, tem residência fixa no Bairro Vila Alice. Mesmo vivendo em condições infra-humanas, Paulo Kapela tem participado em exposições internacionais desde 1995 e a sua obra esteve presente na exposição itinerante, “Africa Remix”, 1995, e exposições em Londres, Paris e Tóquio.
Filho de Mena Kuluse Afonso e de Mafuta Maria, Paulo Kapela nasceu em Maquela do Zombo, Província do Uíge, no dia 6 de Abril de 1947. Apesar do reconhecimento internacional, escreve a investigadora e curadora alemã, Nadine Siegert, “o trabalho de Paulo Kapela, apenas se pode compreender no contexto local, ou seja, no seu atelier, no centro da cidade de Luanda”, referindo-se, à época, no atelier da UNAP.

Exposição

A exposição individual, denominada “Regresso à UNAP”, apresenta sete fotografias, trinta e três pinturas e um vídeo e foi preparada em residência artística no ELA – Espaço Luanda Arte, na capital do país, com curadoria de Dominick Tanner.

A mostra é uma homenagem de Kapela à UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos Angolanos, local que serviu de sua morada e oficina artística, desde 1989, ano em que regressou a Angola. Desde essa data, a UNAP tornou-se indissociável do espírito das suas obras, como de um lugar sagrado ou santuário se tratasse. Um edifício degradado, com paredes a cair, onde estavam expostas as suas obras e que Kapela considerava “A Casa dos Artistas”. Até 2015, data em que foi forçado a sair, Kapela viveu e exerceu o seu labor artístico nesse espaço, onde viveu e conviveu com várias gerações de artistas, facto que o marcou, profundamente, como pessoa e artista, reflectindo-se nos contornos estéticos da sua obra.

Colecções

As obras de Paulo Kapela pertencem a várias colecções, tanto nacionais como internacionais, das quais destacamos as seguintes, Fundação PLMJ, pessoa colectiva sem fins lucrativos, Colecção Costa Lopes, as duas em Lisboa, Portugal, Colecção Nuno Lima Pimentel, Colecção Lopes Crespo, Colecção Privada António Seguro, Fundação Sindika Dokolo, Colecção SEORF, Fundação Arte e Cultura, todas de Luanda, Colecção Hotz, Cidade do Cabo, África do Sul, e C.A.A.C. Colecção Pigozzi, Genebra, Suíça.

Influenciados

Artistas da dimensão de Lino Damião, Marco Kabenda, Toy Boy, Nelo Teixeira, Kiluanji kia Henda e Yonamine, reconhecem terem sido influenciados e inspirados pela vida e obra de Paulo Kapela, até porque a maior parte deles viveu e conviveu importantes momentos das suas vidas com o seu Mestre e amigo. A exposição “Regresso à UNAP” pode ser considerada um tributo espiritual das novas gerações ao artista pelo prestígio, instinto de sobrevivência, renascimento e vicissitudes porque passou, ao longo da sua trajectória de artista.

Homenagem

A exposição colectiva, “Pai grande nosso, tu és”, um singelo tributo ao Mestre Paulo Kapela pelo seu renascimento e instinto peculiar de sobrevivência, foi inaugurada no dia 27 de Abril de 2018 e ficou patente até 9 de Maio do mesmo ano. A homenagem juntou artistas de várias gerações com as seguintes obras e respectivos autores, Niandu, “Kapela II” e “Kapela I”, 2016, Kwame Sousa, “Poto-Poto Kapela”, 2018, Diongo Domingos “Paz & Amor”, 2018, Francisco Vidal “Mestre Paulo Kapela”, 2017, Fernando Vinha “Luvuvamu+ Nzola”, 2018, Ricardo Kapuka, “Kapela”, 2018, Suekí “Rei dos Reis”, 2017, Uólofe “Kapela”, 2018, Van “Kapela Visto Por Mim”, 2017, Guizef , “Kota Kapela”, 2018, Meso Mumpasi, “Papa Kapela”, 2016, e Binelde Hyrcan com a obra “Jah”, 2017.

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