13 Dezembro, 2017

Vrakichakiri Abelardo: o escritor que aprendeu a ler na 4ª Classe

 
Por José Bule
Vrakichakiri Abelardo, 27 anos de idade, cresceu no seio de uma família cristã, em Luanda, ali no bairro da Madeira, próximo do supermercado Jumbo. Os pais são co-fundadores da Paróquia da Igreja do 7º Dia da Maianga.
 
Desde muito cedo que os pais do Bebeto, como é carinhosamente chamado pelos mais próximos, obrigavam-no a frequentar a Igreja, onde aprendeu a amar o próximo e a respeitar os mais velhos.
 
“Se eu não fosse a Igreja podia ficar sem comer. O meu pai não tolerava desculpas sempre que eu e os meus irmãos faltássemos a Igreja”, lembrou.
 
Aos oito anosde idade ganhou o vício pelo futebol 11. Chegou mesmo a jogar nos cassulinhas do Petro de Luanda, numa altura em que já sonhava emfazer carreira nesta modalidade. “Eu jogava bem na posição de avançado. Mas, sempre que fosse necessário, o míster me colocava a jogar como médio ala direito. Só não fui mais longe porque tinha de estudar”, disse.
 
Depois de alguns meses de treinos no núcleo do Catetão, Bebeto fez o seu primeiro jogo com a camisola do Petro de Luanda no campo do Golfe. Lembra que apesar de ter jogado a ponta de lança não conseguiu marcar um golo. “No princípio estava um pouco tímido por causa da multidão que acorreu ao campo para assistir apartida. Mas joguei bem”, afirmou.
 
Vrakichakiri Abelardo perseguia o sonho de ser um grande futebolista. Algum tempo depois mudou de clube. Foi parar ao núcleo da Fesa que realizava os treinos no campo da Rádio Nacional de Angola. Mas a maior dificuldade estava na escola. As notas eram muito baixas e o pai ficava furioso.
 
Explicou que o seuprimo, o Mingo, tinha a responsabilidade de levantar os resultados das suas provas e de todos os irmãos para entrega-los ao pai. Naescola, asituação agravou-se quando reprovou duas vezes na 3ª Classe e acabou sendo expulso.
 
Depois disso, o seu progenitor matriculou-o na escola do Lar Kuzola e passou a prestar maior atenção ao Bebeto.
 
“Começou a me dar explicações de Matemática e Língua Portuguesa em casa. Foi a partir daí que, aos poucos, comecei a subir de rendimento”.
 
“Ele já não nos deixava sair a vontade. Sempre que ele fosse trabalhar e enquanto a minha mãe ia vender no antigo mercado do Roque Santeiro, o Mingo nos levava a passear um pouco. Mas não parávamos de espreitar no relógio por causa da hora que o pai regressava a casa”, referiu.
 
Foi graças a esposa do tio Kiza, que resolveu sair do município do Puri, no Uíge, para passar as férias em Luanda, que o escritor Vrakichakiri Abelardo, autor da obra “Cicatrizes do Silêncio” aprendeu a ler em condições.
 
“Quando a mulher do meu tio instalou-se em nossa casa notou que eu soletrava muito mal. Ela tinha paciência de me ensinar a ler todos os santos dias. Foi a partir daquele momento que ganhei o gosto pelos livros. Comecei a mexer nas coisas do meu pai e descobri que ele escrevia poemas”, revelou. Lembra que foi no ano de 2006 que começou a escrever.
 
Naquele ano, sempre que saísse de casa para ir treinar futebol no campo da Rádio, não deixava de entrar na União dos Escritores Angolanos. Certo dia , viu a porta da instituição abarrotada de gente. Perguntou ao guarda o que sepassava mas este não sabia explicar. Deu a volta pulou o murro e viu um grupo de crianças declamando poesias.
 
“Outro dia encontrei o jornalista Macedo a transmitir a sua experiência a um grupo de adolescência, Depois disso comecei acreditar mais em mim. Pensei que seria capaz de escrever o meu livro de poêsia”, contou.
 
Quando o pai do Abelardo descobriu que o seu filho escrevia poêmas, começou a oferecer muitos livros, apesar de nâo lhe emitir qualquer opinião. A mãe também não lhe dava qualquer apoio necessário. A família não acreditava que o jovem fosse capaz de escrever um livro.
 
Falava muito mal. Por causa disso, os seus amigos também não acreditavam nele. Gaguejava muito. Perdeu a esperança e enveredou para o mundo das Artes Marciais, que abandonou por causa das múltiplas lesões. Foi fazer teatro no Grupo Kamba Diami, que ensaiava no eixo viário. Dificuldades financeiras estiveram na base da desistência. O pai tinha sido desmobilizado, mas a mãe continuava a vender no Roque Santeiro.
 
“Depois consegui emprego na Teixeira Duarte, como ajudante de pedreira. Mas não fiquei lá muito tempo. Comecei a cobrar num táxi e depois virei motorista. Certa vez dei falida a um amigo, o motorista da viatura em que eu era cobrador. Infelizmente ele duplicou as chaves e deu a cópia ao seu irmão.
 
Roubaram a viatura no parque. Eu era o motorista da viatura e por isso fui considerado culpado. Fiquei pelo menos seis meses preso. Eles estavam foragidos. Depois de concluir o ensino médio na especialidade de Máquinas e Motores, Vrakichakiri Abelardo deslocou-se em 2011 para a província do Uíge com objectivo de frequentar o ensino superior. Frequenta nesta altura o 3º ano do curso de Língua Portuguesa.
 
Já no Uíge, conseguiu emprego na Administração Municipal do Mucaba. Com o dinheiro que ganhava e mais alguns apoios que recebeu de alguns amigos e familiares, resolveu viajar para o Brasil, onde foi editada a obra “Cicatrizes do Silêncio”.
 
Fonte: J.A / Wizi-Kongo
O Escritor Abelerdo, 4° apartir da esquerda, acompanhado de José Bule, Luís Fernando e Sebastiâo Kupessa, na Feira Agro-Industrial do Uíge, em 2016. Imagem do Wizi-Kongo.

 

Abelardo Domingos com a nova Vice-Governadora da Província do Uíge, para o Sector Político, Social e Económico, Catarina Pedro Domingos, terceira apartir da esquerda. Imagem do Wizi-Kongo

 

Abelardo Domingos como organizador de Eventos no Uíge. Aqui é acompanhado da vencedora de um concueso sobre a maquilhagem na cidade do Uíge, em 2016. Imagem do Wizi-Kongo.
Abelardo Domingos, nas vestas do responsável do Portal do Uíge e da Cultura Kongo, wizi-kongo.com em Angola e membro do Movimento da Literatura “Viv’Arte”. Imagem do Wizi-Kongo.
Comentário

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*