Devemos procurar sempre mais e melhor

O Bispo de Mbanza Kongo Compartir este post

Por Víctor Mayala

O bispo da Diocese de Mbanza Congo, Dom Vicente Carlos Kiaziku, faz uma avaliação positiva do desenvolvimento sócio-económico do Zaire nos últimos anos e destaca a reabilitação das estradas principais, que teve grande impacto na economia da província, e a construção de escolas.

Apesar disso, considera ser necessário reparar também as vias terciárias e melhorar a qualidade do ensino. Em entrevista ao Jornal de Angola, afirma que é preciso não nos contentarmos com o que já alcançámos e procurarmos sempre mais e melhor.
JA – Como vê a Igreja os programas de desenvolvimento em curso no país e na província do Zaire, em particular?

 VCK – A Igreja, como toda a sociedade, está atenta ao processo de desenvolvimento, que queremos seja sustentável. Não podemos negar que há melhorias e devemos reconhecer que é um processo longo e difícil de efectuar. Nota-se que há desenvolvimento quando as condições de vida da população melhoram. Há muita coisa a sublinhar, por exemplo, as estradas são muito importantes para o desenvolvimento, porque facilitam o transporte de produtos do campo para outras províncias e a aquisição do que não produzimos, no caso, os bens industriais. As estradas são como as nossas artérias: se não funcionarem, o sangue não circula e o homem morre.

JA – Que impactos podem ser sentidos na vida das populações da região?

VCK – Alguns resultados são mais evidentes e outros menos. O grande impacto a realçar é o facto de termos agora a ligação com a capital do país em menos de seis horas. Isso faz com que a circulação de pessoas e bens seja fluida. Fruto disso, alguns produtos essenciais já desceram de preço, como é o caso de uma botija de gás de 12 quilos, que chegámos a comprar a dois mil kwanzas e hoje custa 800. Temos ainda em mau estado o troço da Casa de Telha até ao município do Soyo, o que tem uma influência negativas na economia da província e, em particular, de Mbanza Congo. O impacto de desenvolvimento no sector da Saúde ainda é menor. Devemos trabalhar muito para melhorar a assistência médica e medicamentosa. Ainda temos muitas dificuldades nesse sector.

JA – Que progressos o Zaire registou com a actual governação?

VCK – Há projectos começados na gestão anterior que tiveram continuidade e outros que são iniciativa do actual governador, mas posso citar as várias escolas e habitações que foram construídas, embora já tivessem sido iniciadas no anterior consulado. Quem vem a Mbanza Congo, fica logo impressionado com a quantidade de estaleiros que há à volta de toda a cidade e isso significa que há obras, porque nenhum empreiteiro cria um estaleiro sem perspectivas de boas construções. Assim, à primeira vista, os progressos podem ser vistos no aspecto da própria cidade de Mbanza Congo, com as ruas asfaltadas e a energia, que também melhorou muito. No primeiro ano, depois de cá ter chegado, todos os dias utilizávamos o gerador e hoje é raro que falhe e se acontece é por algumas horas. Mas é preciso expandir o fornecimento de energia. O abastecimento de água continua deficiente. Temos conhecimento que está a ser executado um projecto nessa área e esperamos que termine o mais depressa possível, para podermos ter água em abundância e de qualidade.

JA – Que projectos gostava de ver realizados?

VCK – A nossa província necessita de mais indústrias. Precisamos de uma a agricultura mecanizada, para podermos oferecer à população uma dieta de qualidade. O sector da indústria está à espera de intervenção, temos poucas fábricas. Além do petróleo, que é um sector à parte, necessitamos de grandes investimentos nesse campo. As poucas indústrias que temos são ainda muito débeis, como é o caso da exploração de granito. Em resumo, precisamos de uma agricultura mecanizada e mais indústrias, para oferecer aos jovens mais trabalho, porque só com o trabalho uma província se desenvolve.

JA – O que pensa do programa de fomento habitacional desenvolvido pelo Executivo em todos os municípios?

VCK – Não podemos deixar de louvar essa iniciativa do Executivo, que vem ao encontro do povo, ajudando-o a construir moradias, mas é uma situação complexa. O Executivo propôs-se construir um milhão de casas e, dessas casas, há várias qualidades, umas podemos considerar óptimas, outras boas e ainda outras de um nível muito simples. Agora, com o Censo, vamos saber melhor como vivemos e levar o Executivo a melhorar a qualidade de certas casas. É importante que nos perguntemos, também, para quem são as casas. São para os funcionários públicos ou para quem tem capacidade financeira para as adquirir? A partir daí, podemos ver qual o impacto real que isso tem na melhoria da situação habitacional da nossa população. Em Mbanza Congo, por exemplo, muitos funcionários públicos vinham para cá e deparavam-se com o problema da falta de casa. Por essa razão, alguns tiveram de abandonar a província. Aos poucos, o Governo Provincial está a resolver essa situação.

 JA – Os quatro milhões de kwanzas fixados pelo Executivo para as casas construídas à luz deste programa é o mais adequado à realidade do Zaire?

VCK –  É difícil dar uma resposta genérica a essa questão, ou seja, é difícil dizer se o preço é bom ou não, porque a pergunta mantém-se: para quem são construídas as casas? Mas acho ser um preço razoável, se o cálculo foi feito para aqueles que têm emprego no Estado e mesmo com um salário modesto conseguem viver de forma discreta.

JA – Além dos projectos de energia e água, o que mais se reclama na região?

VCK – Ter água, nosso elemento essencial à vida, em casa ou próximo é um sinal de desenvolvimento. Ter energia eléctrica 24 horas por dia é outro indicativo. Mas o desenvolvimento não se cinge a isso, passa também pelo ensino. Na nossa província, nota-se que há um aumento do número de escolas e isso é muito positivo, porque dá a possibilidade de estudar. Agora devemos lutar pela qualidade do ensino, por isso, é importante que essas infra-estruturas em construção funcionem bem, com professores competentes, que possam transmitir o saber como deve ser. O desenvolvimento do homem dá-se quando as condições de vida melhoram em todos os sentidos, não só as necessidades básicas, que são o comer e o beber, mas também é fundamental a educação e todos os outros aspectos que fazem parte do crescimento de um povo e de uma nação. Como dizia, o desenvolvimento é um processo lento e complexo. Desde que cheguei aqui, em 2009, noto que alguma coisa se fez na região e houve um certo desenvolvimento. Mas é preciso não nos contentarmos com o que já alcançámos e procurar sempre mais e melhor. As vias secundárias e terciárias não foram todas reabilitadas e, quando isso acontecer, vai permitir o desenvolvimento de vários municípios. Mesmo na questão do ensino, um professor que seja colocado numa comuna onde as estradas estejam péssimas e que quando chove não se consegue deslocar, o normal é faltar muito ao local de serviço.

 JA – O desaparecimento dos magistérios nas dioceses preocupa a Igreja?

VCK – Após a Independência, a Igreja perdeu todos os estabelecimentos de ensino que tinha, porque o ensino foi nacionalizado e toda a responsabilidade passou para o Estado. Agora, a situação política mudou e já há a possibilidade de termos escolas privadas. A saúde e o ensino foram sempre os pontos fortes da Igreja e a nossa preocupação é contribuir para que o ensino melhore cada vez mais, participando nas acções do Estado com professores qualificados, que se identifiquem como cristãos. Estamos a trabalhar para que o Instituto de Ciências Religiosas de Angola esteja um pouco por todo o país, para podermos contribuir para a formação de assistentes sociais e de professores de educação moral e cívica.

 

Via Jornal de Angola.

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