Músico Teta Lágrimas aponta aumento da qualidade no produto musical angolano

Por Tchinganeca Dias

Luanda – Membro de uma família de músicos, que desde criança apaixonou-se pela arte, Teta Lágrimas considera que a música angolana ganhou muito nos últimos anos em termos de qualidade. Em entrevista à Angop o músico faz uma abordagem geral sobre o mercado musical angolano, da Lei do Mecenato e do Fenacult.

Angop: Teta Lágrimas começou a cantar ainda miúdo. Como foi a sua trajectória artística?

Teta Lágrimas (TL): Comecei a cantar muito jovem, por, se calhar, já correr nas veias o sangue de artista. Tenho um avô que foi guitarrista, um português que tocava e cantava o fado, a minha mãe que tocava guitarra e o acordeão, o meu irmão, o Teta Lando, que na altura, eu miúdo, já tocava gaita, guitarra, e tudo isso influenciou na minha carreira.

Logo que aprendi a tocar guitarra surgiu o “bicho” da música, não com aquela vontade de ser famoso, mas com a vontade de mostrar às pessoas que eu podia fazer coisas bonitas. Eu não canto a pensar em cifrões; faço a arte para me comunicar com o público. Isso é o mais importante para mim.

Cantei várias vezes em concursos dos mais pequenos. No tempo do Ngola Cine, dos Kutonocas, eu era pequeno. Depois fui para o Uíge, onde formei uma banda; era guitarra baixo. Em 1974, fui para República Democrática do Congo (RDC), onde comecei a trabalhar de forma profissional, passando por Lisboa, Portugal, onde vivi, e estamos até a agora a trabalhar de forma a fazer sucessos.

Angop: Chegou a ser, de forma directa, influenciado pelo seu irmão Teta Lando?

TL: Não fui muito influenciado por ele. Eu sou muito original, gosto de ser original, embora veja o Teta Lando como um ícone da nossa música, para mim, um dos melhores autores e compositores. Mas sou muito original, gosto de cantar aquilo que me vem da alma. Muitas vezes, quando inadvertidamente aparece alguma coisa que se pareça com o trabalho do meu irmão, tento tirar, para dar a entender que não existe influência do meu irmão.

Mas é difícil, nós somos irmãos de pai e mãe e, nestes casos, o génese sempre puxa alguma coisa. Há quem diga que a minha voz é semelhante à voz do Teta Lando. Há quem diga que em palco somos iguais, mas tento ser o Teta Lágrimas; procuro ser mais original possível.

Angop: Esteve exilado no estrangeiro. Como foi a sua vivência na República Democrática do Congo e em Portugal, onde deu continuidade à carreira musical?

TL: No Congo, logo que cheguei, como era óbvio, procurei integrar-me na sociedade dos artistas. Na classe artística congolesa, o que foi muito difícil por não dominar o lingala e francês. Depois de começar a dominar essas línguas, fiz uma reaproximação, mas o ciclo deles era muito restrito. Fazia aparições na televisão e cantava com a orquestra VV. Foi difícil, depois cantei com a orquestra Bobongo Star. Mas eles, os congoleses, gostam e valorizam muito as suas raízes. As suas músicas são as mais tocadas, dificilmente ouvias artistas de outros quadrantes. Os estrangeiros só nos programas específicos.

Foi difícil impor-me na RDC, mas ia aparecendo uma vez ou outra. Já em Portugal consegui dar continuidade à minha carreira e foi um dos meus melhores momentos. Lanço o primeiro disco “Amizade Colorida”, que me catapultou para o mercado angolano. Na altura não havia um mercado nacional, mas consegui colocar o meu nome. Em Lisboa, lancei quatro ou cinco discos.

Havia uma actividade boa, produzia sem muitos problemas. Depois vim para Angola, tendo sido convidado pelo MPLA, para as eleições, e vi que o meu sítio era mesmo aqui. Já havia abertura democrática e a partir dai, por já estar no meu país, procurei dar o meu contributo. Então organizei a minha editora e comecei a lançar os meus discos. Tenho quatro discos lançados, todos eles editados pela Teta Lágrimas Produções.

Angop: A Teta Lágrimas Produções também edita discos de outros artistas?

TL: Não! Não edita, porque não tenho certeza se ao produzir discos de outros artistas terei o retorno favorável, por um lado e por outro, eu consigo obter apoios mínimos, apoios de serviços e não financeiros quando os discos são meus. Agora tirar de outros artistas era necessário muito dinheiro. Não podemos investir 40 ou 50 mil dólares em um artista, sem saber se teremos retorno. Então, enquanto a situação da nossa música estiver indefinida, a editora só vai editar as minhas músicas. Não é fácil, porque o mercado está monopolizado, todos os artistas choram para tirar um disco, alguns fazem sacrifícios e o disco nem se quer tem o retorno, por não ter a divulgação necessária, a distribuição necessária.

Isso é que faz com que a Teta Lágrimas Produções não edite outros artistas.

Angop: Como aparece o nome Lágrimas. É de família, ou um pseudónimo artístico?

TL: É o meu nome, só que invertido. Isto foi em Portugal, a quando do meu primeiro disco. A editora que lançou o disco decidiu trocar o nome: perguntaram-me como era o nome de família e assim decidiram colocar um nome mais artístico, que despertasse o interesse e que ficasse na mente das pessoas. No meu primeiro single, o meu nome era Belito Teta. Foi uma mudança radical, mas por questões comerciais tinha que ser.

Angop: Quais são os projectos em que está actualmente envolvido? Sabemos que lançou muito recentemente a obra “Lágrimas do Coração”.

TL: Lancei recentemente o meu nono disco, intitulado “Lágrimas do Coração”. Esse disco comporta 10 músicas, todas inéditas. Depois vou promover a obra por algumas províncias do país.

Angop: Tem dado algum contributo para o engrandecimento da sua província, o Zaire, e a sua cidade, Mbanza Congo?

TL: Gostaria de dar, não só pela minha cidade mas pela cultura em geral. Mas todo o esforço que faço para o desenvolvimento da música angolana é atirada para baixo, só para dizer que não fui convidado para o Festival Nacional de Cultura(Fenacult/ 2014), que terminou recentemente.

Quanto a Mbanza Congo, particularmente, tudo depende de facto das autoridades locais, porque o artista não tem condições financeiras para poder materializar os seus projectos nas províncias. Eu aproveito para agradecer o governador do Uíge que apoiou um projecto meu, quando lancei o disco de homenagem ao Teta Lando, que apoiou para a realização de um espectáculo e venda e disco. Foi muito bom, gostei.

Mas é necessário que haja mais iniciativas, que o povo do Uíge sinta que tem um filho da terra que não os esquece e que está a dar lá o seu melhor. Tudo depende do apoio das autoridades locais, porque os artistas são pobres e alguns que têm projectos não conseguem fazer face as despesas que comportam um show numa província.

Todos sabemos que aqui só existe uma empresa que é a LS Republicano, que é poderosa financeiramente. Depois temos a Blue e a Unitel, que são as empresas que dominam o show business. Devia haver as pequenas, médias e micro empresas no ramo da cultura, mas não há.

Tem duas ou três com o monopólio dos shows e não existe mais outras, para o desenvolvimento da nossa música, porque o poder financeiro faz com que eles decidam quem deve ou não representar os seus espectáculos.

Angop: E que avaliação faz do actual momento da música nacional?

TL: A música ganhou muito em qualidade, nos últimos anos. Há cinco anos para cá que a música subiu em quantidade e qualidade e o público peneira, porque sabe o que é bom e o que não é.

A música angolana está de saúde e se recomenda, mas o que não está de saúde é o show business, os artistas não têm trabalho. Os artistas ainda são pedintes. Entretanto vão fazendo muito pela cultura, por isso é importante que se mude essa situação que afecta a classe artística.

Angop: Tem trocado experiência com outros artistas, tanto da velha como da nova geração?

TL: Tenho trocado experiências, até porque neste meu último disco contei com a participação de dois jovens talentos, o Presília e o Cláudio Chingue, com quem abordei questões actuais da música. Mas, para além dessa interacção com a juventude, é preciso acompanhar a globalização, as novas formas de fazer música, seguir a modernidade, para não perder o comboio, e o meu segredo tem sido esse. Eu bebo muito da música que é feita no Brasil, e em outros quadrantes.

Assim procuro desenvolver a nossa música e conquistar outros mercados, mas sempre cantando com alma e de coração.

Angop: Na sua opinião, porque é que a música actual é “descartável”?

TL: É descartável pelo facto das empresas que lideram o show business promoverem, muitas vezes, artistas sem talento. Artistas como estes são apoiados pelas grandes empresas e aparecem na media como artistas de talento, com grandes performances. Esses artistas sentem-se felizes, são pagos, vão vivendo. Daí vem a música descartável, porque eles não cantam do coração, não cantam da alma, vão atrás do dinheiro. Há alguns que são bons, mas há na sua maioria artistas que não são bons e nem deviam estar a cantar.

Isto não abona a favor da nossa cultura, a classe artística e dos cantores em particular. Enquanto essas empresas promoverem a mediocridade, a música jovem vai ser sempre descartável.

Angop: Qual o artista nacional que mais aprecia?

TL: Eu sou fã número um do meu irmão Teta Lando e os trabalhos de outros artistas nacionais, como a linha melódica do Waldemar Bastos, da sua forma de cantar, embora digo, eu seja muito exigente em relação as letras. O Waldemar Bastos se caprichasse mais nas letras seria de facto, para mim, um dos melhores cantores no país.

Angop: O que pensa sobre a Lei do Mecenato?

TL: O mecenato seria a ferramenta mais importante para de facto se colmatar todos os problemas da classe artística. O mecenato catapultaria todos aqueles que estão esquecidos, havia de diversificar e melhorar o nosso quadro artístico e faria com que muitos que estão no anonimato tivessem projecção, podendo mostrar o seu talento.

O mecenato é uma lei que em grandes países fez desenvolver a classe artística, é uma forma de financiar, patrocinar projectos culturais, sendo que as individualidades que se engajam ganhavam alguns bónus nas suas importações. Por isso, o Ministério da Cultura, como órgão que traça as políticas culturais, devia ter um projecto mais inteligente para que os artistas não continuem a lamentar.

O mecenato vai distinguir “o joio do trigo”. Ao financiar um projecto cultural, se saberia se um artista está ou não em condições de participar do respectivo projecto. Os mecenas sempre foram aqueles amantes da cultura que valorizam aquilo que de facto é bom, em termos artísticos.

Angop: Teta Lágrimas vive da música apenas ou tem outras actividades remuneratórias?

TL: Tenho uma empresa, pequena, no ramo das artes gráficas. Fazemos cartões de visitas, timbramos camisolas, chapéus, convites de casamentos, digitalizamos documentos. Enfim, uma série de coisas que temos feito.

Tenho alguns empreendimentos que dão alguns rendimentos e que dão para viver, sem depender da música. Mas o que queria mesmo era viver da música: uma entrega a 100 porcento na música e ser um profissional de mão cheia.

Angop: De onde vem a inspiração para nos proporcionar bonitas e novas “amizades coloridas”?

TL: Vou buscar no meu dia-a-dia, com a experiência de vida, com amigos, conhecidos, com a realidade social e política do país. E é isto que me move a compor estes temas. Vou buscar lembranças do passado e procuro comunicar-me com o público.

Angop: O Ministério da Cultura tem sabido fazer o seu papel, proporcionando aos homens da cultura as ferramentas necessárias para produzirem trabalhos de qualidade?

TL: Ouvi a ministra Rosa Cruz e Silva a dar esperança à classe artística, no que diz respeito a novas políticas culturais, a falar do mecenato e de outras questões. Um dos últimos discursos da senhora ministra foi prometedor e a classe está a espera que de facto algo mude.

Agora é bom que se passa das palavras à acção, agora vamos ver se este programa se materializa, para o bem dos artistas.

Angop: Que avaliação faz do trabalho da União Nacional Artistas e Compositores (UNAC)?

TL: A UNAC é uma instituição que existe para ajudar e unir os seus associados, que são os artistas. Há um projecto da UNAC de financiamento aos programas dos artistas empreendedores. Tenho um projecto que não consigo acabá-lo por falta de dinheiro. Inteirei-me da forma como obter o empréstimo por via deste projecto, constatei que é muita papelada que é exigida e tem muita burocracia para ter o dinheiro: “Da boa vontade aos actos existe uma distância muito grande”.

Até agora, que eu tenha conhecimento, não existe alguém que tenha beneficiado deste financiamento da UNAC. Esse financiamento foi a coisa mais inteligente que a UNAC já teve, porque o objectivo é dar trabalho aos músicos, financiar artistas e agentes culturais empreendedores, abrir mais casas de espectáculos como centros culturais, de forma a ver espectáculos, não só nos fins-de-semana, mas também no meio da semana.

Para implantar este projecto é necessário, não só, a boa vontade, é preciso desburocratizar toda esta questão em torno do financiamento. Nós precisamos de ver coisas, e não vimos nenhum artista ou agente a se beneficiar.

Se o artista pedir um financiamento, por exemplo de 200 mil dólares americanos, tem que ter já 20 porcento, que são 20 mil. Os artistas não têm esse dinheiro, são poucos que conseguem este valor, senão estavam a realizar os seus próprios projectos. É difícil.

Se o artista tem um terreno onde vai fazer o projecto, deve ter a documentação da compra do terreno por parte do Estado, um documento que é difícil obter. Só estes factores afectam a materialização do projecto.

Agora, a UNAC tem feito alguma coisa de bom, como o direito à saúde de todos os seus associados que têm as cotas em dia. Temos que convir que a saúde de qualidade no nosso país ainda custa caro e a UNAC tem feito um esforço ao propiciar serviços de saúde a todos.

Quem é Teta Lágrimas

Abel Lágrimas da Conceição Santos Teta nasceu na província do Zaire. Filho de Roberto Teta Lando e de Maria Teta, cresceu nos bairros Operário e Popular, em Luanda, onde começou a cantar aos 14 anos, incentivado pela família, não de forma profissional.

Oriundo de uma família de artistas, o seu avô tocava e cantava fado, a sua mãe era guitarrista e tocava também acordeão, ainda tinha o irmão Teta Lando. Tem ainda três sobrinhos que cantam, Guto (ex-Black Company), Manuela Teta e Bibiana Teta (coristas).

Em 1974 foi viver para a RDCongo, onde trabalhou com a Orquestra Babongo Star e a Grande Orquestra Veve Center. Teve participações em vários espectáculos e programas televisivos.

No ano de 1985 viaja para Portugal onde deu continuidade a sua carreira musical, onde lançou a sua primeira obra discográfica “Amizade Colorida”, seguindo-se outras três obras, “Luanda já foste linda”, “Esta preta me mata” e “Dilema”.

Em 1992 regressa a Luanda, a convite do MPLA para cantar nas eleições que se realizaram no respectivo ano, tendo desde esta data fixado residência.

Tem 9 obras discográficas publicadas, “Mãe de todos nós”, “Coisas da vida”, “Dilema”, “Luanda já foste linda”, “Renascente esperança”, “Genuinamente”, “Letra chorada”, o DVD “Letra Chorada” e “Lágrimas do Coração”.

Via Angop

 

Teta-Lágrimas – Vai com jeito

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