“Pretendemos sair da agricultura de subsistência para a produção em escala virada para o Mercado” – Paulo Pombolo

Uíge – O governador provincial do Uíge, Paulo Pombolo, disse segunda-feira que a agricultura é a base do desenvolvimento económico da província. O dirigente acresecentou que a grande aposta das autoridades locais é a transformação da agricultura de subsistência em produção em escala, virada para o mercado.

Que avaliação faz do desenvolvimento actual da província do Uíge?
O desenvolvimento da província do Uíge baseia-se fundamentalmente no Programa de Desenvolvimento, elaborado pelo Governo Provincial, que os órgãos locais têm vindo a materializar. Para o seu cumprimento, definimos a agricultura como a base do desenvolvimento económico da província. Hoje, o sector da agricultura deve merecer uma especial atenção e trabalhamos no sentido de alterarmos o quadro actual em que é exercida a agricultura no Uíge. Isso significa que pretendemos sair da agricultura de subsistência para uma agricultura mecanizada, da produção em escala e virada para o mercado.

Aliás, esta é a missão que o Plano Nacional reserva para a província do Uíge. Produzir alimentos no sentido de vender nos grandes centros comerciais, em Luanda e nas províncias que fazem fronteira connosco (Zaire, Cuanza Norte e Malanje). Mas, para desenvolver a agricultura, precisamos de organizar os produtores em cooperativas agrícolas, para permitir que os incentivos que o governo vai conseguindo sejam distribuídos da melhor forma possível, de forma equitativa para que cada cooperativa possa cumprir o seu papel. Ainda no domínio da agricultura, além da formação dos camponeses e produtores, a sua organização em cooperativas, os incentivos necessários para que os produtores possam ter a motivação de continuar a trabalhar, precisamos também de formar agrónomos, através da nossa Universidade Kimpa Vita, e procurar formas de que esses técnicos agrónomos que estão a terminar a sua formação superior possam ir pra os municípios, comunas, para sustentar este grande projecto ou programa de produção nacional do café.

É uma forma tímida de voltar aos tempos áureos da produção cafeícola?
O Uíge, em termos do café,  nos anos 70, já esteve na pole position, ao ter atingido indicadores muito elevados. A produção de café no Uíge fez gerar recursos financeiros que sustentaram o esforço de construção de muitas cidades angolanas. Luanda, por exemplo, tem dois grandes bairros tradicionais da cidade construídos com recursos provenientes da produção do café do Uíge: o Alvalade e a Vila Alice. Mas, para nos aproximarmos dos índices de 1970, precisamos dessa engenharia toda a que acabamos de fazer alusão.

Nós precisamos definer claramente o que queremos. Já dissemos não à agricultura de subsistência. Precisamos de uma agricultura que esteja virada para o mercado, ou seja produzir para o consumo da província mais o excedente para o mercado. Este, em princípio, é o objectivo que pretendemos alcançar. Mas só com a acção do governo, não é possível atingirmos essas metas. Precisamos de recorrer ao privado, mobilizando aqueles que têm dinheiro, os chamados investidores, e que possam vir investir aqui na nossa província no domínio da cultura ou da produção do café. E esses produtores, investidores, precisam encontrar algumas condições mínimas criadas no terreno.

E como seria essa engenharia?
Primeiro, o governo tem de ter disponíveis as terras, as fazendas por recuperar, porque há alguns produtores que abandonaram as suas fazendas, outros até substituíram a cultura do café com a produção de outros produtos. O governo tem trabalhado, desde 2010, para a captação de investidores e a mobilização de recursos financeiros para o sector do café, através de feiras agro-pecuárias ou de fóruns de oportunidades de negócios, em que participam vários operadores económicos, provenientes de várias províncias e de alguns países.

Acabamos de conversar agora, por exemplo, com uma investidora norte-americana, com quem abordamos esse aspecto em Julho de 2013 e que hoje veio para concretizar aquilo que tínhamos conversado no ano passado. A ideia é produzir café em grandes quantidades, aumentar o número de produtores, de sete mil que temos para 70 mil, e instalar aqui uma unidade fabril que vai produzir o café que temos com a marca do Uíge e que pode ser vendido em outros países. Aliás, a investidora pode criar também um mercado onde o café do Uíge poderá ser comercializado. Podemos concluir que a agricultura é a base do desenvolvimento da nossa província, apesar de haver outras áreas colaterais que também contribuem para esse crescimento.

Pensamos que a agro-indústria pode desenvolver-se também, porque produzimos vários outros produtos, como frutas, que podem ser transformadas em bebidas e refrigerantes, para, paulatinamente, diminuirmos as importações.

O que falta para que isso aconteça e o como será feito?
A investidora norte-americana precisa que lhe sejam fornecidas informações ou dados que têm a ver com o mapeamento, em termos de produção de café, quais as zonas mais ricas, qual era a quantidade de café produzida em 1970 e quanto é que estamos a produzir agora. Depois disso, é preciso elaborar o projecto, já que o investimento está mobilizado. A investidora tem esses recursos, falta apenas concluir-se o projecto e pô-lo em marcha.

Só no ano passado, produzimos cerca de 10 mil toneladas de café e foram todas comercializadas, porque conseguimos colocar no mercado compradores que comercializam todo o café produzido no Uíge. Há momentos, inclusive, que os próprios produtores colocam seis camiões até lá onde está o café, para o recolher. Significa que temos de virar agora para a produção em grande escala, produzir mais para permitir que os comerciantes e compradores tenham esse produto disponível a qualquer momento. Mesmo o PAPAGRO, que está a comercializar os produtos, também hoje compra o café. Temos várias formas de como vender o café. É preciso apenas mobilizar os produtores, criar as condições para que arranque, e penso que já não haverá grandes problemas.

Que programas existem para exploração de minerais?
Identificados, só podemos dizer o cobre. Neste momento, a empresa que ganhou o concurso de exploração do cobre, na região de Mavoio e Ntetelo, está a fazer a prospecção para saber se esta mina pode ou qual é a quantidade de cobre que tem, se é uma mina comercial, ou então se reúne essas condições de ser considerada uma mina comercial. A informação recebida da nossa visita à região de Mavoio, com o ministro da Geologia e Minas, dá-nos indicações de que a mina tem condições de ser commercial, podendo ser explorada nos próximos anos. Em relação a outros minérios, temos informações de que há diamantes na província, na região de Milunga, no Cuango, no Quimbele, Alto Zaza, Cuilo Pombo (Sanza Pombo), mas precisamos de confirmar.

De que depende a confirmação?
A sua confirmação passa pelo projecto de levantamento geológico nacional que o Ministério da Geologia e Minas está a fazer. Acreditamos que a província tem essa potencialidade. Mas precisamos de saber onde se encontram, a quantidade desses minérios que temos. A nossa estratégia é de associar a agricultura, os minérios, as indústrias que surgirão na província e olharmos para o crescimento da província. Como se diz, os minérios não poderão substituir a produção agro-pecuária, temos cerca de 350 mil hectares disponíveis, cultiváveis, chovem nove meses na província, temos uma bacia hidro-gráfica muito extensa, com 46 rios, as terras são aráveis, pode-se produzir qualquer tipo de produtos.

Estamos a experimentar no Lucelua a produção do café, do arroz. No Negage, temos o projecto da Agricultiva, com a produção de diversos produtos, fundamentalmente hortícolas. Em toda a extensão do Uíge podemos produzir seja o que for, desde que tenhamos a motivação e a capacidade de o fazer, porque as terras têm essas condições. Esperamos que, com o nosso plano de desenvolvimento de 2013-2017, que contém acções concretas no domínio da agro-indústria, tenhamos resultados satisfatórios e com isso melhoremos as condições de vida da nossa população.

Que quadro apresenta o sector do turismo?
A indústria turística na província só vai conhecer o resultado desejado por todos nós depois da conclusão do Plano Director do Turismo no Uíge. Esse plano vai identificar esses locais, porque só dizemos que temos muitos locais, mas não sabemos onde estão, como estão as condições de acesso até lá, as vias. Precisamos melhorar as vias e definirmos onde montar as pequenas unidades hoteleiras, para acomodar os turistas. Tudo isso virá no plano director, prestes a ser concluído. Em função disso, poderemos dizer que vamos começar aqui e terminar noutro sítio.
Acreditamos também que o plano director vai trazer outras informações que não dominamos, porque é um trabalho profundo que está a ser feito, e que poderá permitir ao governo ter os instrumentos necessários para investir no sector do turismo. Agora, com a eleição das nossas grutas do Nzenzo como uma das 7 Maravilhas de Angola, veio também nos motivar, quer a direcção provincial de hotelaria e turismo, os operadores económicos no domínio do turismo, que se encontram aqui na província, e outros que estão a chegar, para acelerar a conclusão desse plano director para que passemos à fase seguinte, de colocar essas ideias e indicações em prática.

Qual é o ponto de situação relativamente à imigração ilegal?
Temos uma fronteira vasta com a República Democrática do Congo (RDC) e também somos povos irmãos. E com alguns familiares que estão em Angola e são responsáveis ou chefes de famílias que estão na RDC. A imigração ilegal não difere muito das demais províncias fronteiriças. E ultimamente até a RDC vai se tornando no centro de recolha e acomodação de vários imigrantes provenientes do norte de África, e outros continentes, passam primeiro pela RDC, depois de atingir o nosso país, utilizando a fronteira que temos em Maquela do Zombo, que se estende até Quimbele. Diariamente são expulsos do país uma média de 8 a 10 imigrantes ilegais e esse número às vezes tende a crescer.

Os órgãos de segurança, nomeadamente a Polícia, têm esse papel e têm desenvolvido bem a sua missão, para conter essa onda de imigração ilegal que se tem registado na nossa fronteira norte. Agora, precisamos de criar condições para que essa imigração não tenha a cumplicidade de alguns dos nossos cidadãos, porque em outras localidades os cidadãos angolanos promovem mesmo esse tipo de situações, albergando nas suas residências pessoas que estão nessa condição, e até alguns deles criam condições no sentido de transportar esses imigrantes para centros urbanos, tentam passar por aqui, dentro de camiões, hiaces, mas são sempre interceptados pela Polícia Nacional. E aí a polícia age de acordo com a Lei. É um problema que existe e que deve ser estancado, com instrumentos à disposição.

Traz outras consequências. Angola é um país com uma determinada cultura, muitos imigrantes trazem hábitos e vícios que não correspondem com a nossa vivência, nomeadamente o fenómeno religioso, a feitiçaria. Entram com religiões que chegam a separar familiares, acusam as pessoas de feitiçaria, isso não tem nada a ver com os nossos hábitos e costumes, penso que devemos continuar a trabalhar no combate à imigração ilegal, reduzir drasticamente o número de pessoas que tentam entrar para nosso país para criar essas dificuldades, e aqui a nossa polícia está atenta para impedir isso.

A rede escolar é satisfatória?
A rede escolar atravessa alguns problemas. Neste momento temos 399 mil e 94 crianças no sistema do ensino geral, isto é do primário ao secundário, primeiro ciclo e segundo ciclo. Estamos com 95 mil crianças mal acomodadas, porque o número de crianças que entra no sistema de ensino não foi acompanhado por um programa ininterrupto de construção de escolas. Construímos poucas escolas porque os recursos financeiros colocados à disposição também não respondiam, digamos assim, às nossas necessidades.

Mas, mesmo assim, o governo provincial encontrou alguma forma de tentar suavizar essa situação, porque o nosso objectivo é que não queremos ver crianças em casa. A ideia do governo provincial é levar todas as crianças em idade escolar para o banco da escola, à frente de um professor, à frente de um quadro. Apesar dessas dificuldades que acabo de apontar, com exemplos de salas muito abarrotadas com crianças, vamos ter de mudar, construindo novas salas de aulas, para enfrentarmos a grande explosão escolar que estamos a viver na província.

Cerca de 18 mil crianças aqui na cidade capital do Uíge estão em condições difíceis de acomodação, mas estamos a trabalhar para inverter o quadro, com a construção de novas salas de aulas, que infelizmente vão terminar no princípio do próximo ano. E aí será para acomodar as crianças que estão nessa situação e também as que irão aceder pela primeira vez ao sistema escolar. Ainda no sector da Educação, podemos dizer que 37 mil crianças em 16 municípios e 31 comunas estão fora do sistema de ensino. Se não é por falta de professores, é por falta de escolas.

Há necessidade de se solicitar apoio ao executivo também para um programa de emergência, que ajude a província a ultrapassar essa situação, construindo mais escolas, porque a nossa perspectiva para acudir a essa situação são necessárias 173 escolas, 40 deveriam ser concluídas pelo menos até Dezembro. As restantes seriam  173 incluídas no nosso plano de desenvolvimento até 2017. Assim, se houver recursos financeiros, teremos a situação praticamente controlada. Precisamos de aumentar também o número de professores. Temos 14 mil professores, muitos deles dispersos em áreas muito distanciadas das sedes municipais e comunais. Esse número é insuficiente para atender as 399 mil crianças que temos, porque há três anos que não há recrutamento de professores, por terem acabado os concursos públicos naquele formato que havia anteriormente.

Agora, precisamos de recrutar professores em função da massa salarial que o governo provincial tem disponível para a Educação, e, às vezes, tem de haver vagas para o fazer. Assim, a situação complica-se e, às vezes, temos algumas dificuldades em aumentar o número de professores para atender à procura.

E o ensino superior?
Tem mais de 13 mil estudantes, no ISCED e na Universidade Kimpa Vita. O aumento de número de salas de aulas é fundamental para que a universidade dê um salto na formação de estudantes nas áreas técnicas, como as engenharias, porque o ISCED forma professores para o ensino médio. Quanto à universidade, além dos cursos de Direito, Economia, Enfermagem e Informática, tem de começar a preparar as condições para introduzirmos os cursos técnicos, que formem jovens desta província que futuramente podem ser chamados a contribuir no crescimento desta província.

Hoje, por exemplo, se falarmos de arquitectos, às vezes, é um pouco difícil encontrar localmente, porque os que estão na província estão todos ocupados, e às vezes temos de ir a Luanda procurer arquitectos. Por isso, para resolvermos esse problema temos que formarmos localmente. Assim, se começarmos em 2015, em 2021 teremos os primeiros engenheiros formados na nossa própria universidade. Esse é um grande desafio que a província tem, para resolvermos a situação dos quadros aqui no Uíge.

Por outro lado, queríamos afirmar que precisamos alterar o quadro actual da formação dos nossos jovens. Muitas das nossas crianças que terminam a quarta classe não sabem ler, nem escrever. Às vezes,  nos limitamos a avaliar o processo olhando apenas do lado das crianças, mas esquecemo-nos de que quem forma essas crianças são os professores. Então, se uma criança termina ao cabo de 4/5 anos e não sabe ler e nem escrever é porque a pessoa que esteve à frente dela durante esse tempo é que não soube transmitir os conhecimentos. A formação dos professores, fundamentalmente, no ensino primário, tem que merecer uma especial atenção. Daí que o governo provincial está a pensar em 2015 arrancar com o magistério primário, virado na formação de professores para o ensino primário e na pré-escolar.

Em quanto tempo todas as crianças estarão totalmente inseridas no sistema de ensino?
É arriscado definir o tempo. A perspectiva é atingirmos anualmente a entrada no sistema de ensino de cerca de 50 mil crianças, o que significa que estamos à espera de 200 mil crianças até 2017. Para resolver isso, temos de ter dinheiro. O plano provincial do governo vai resolver essa situação, porque já não vamos trabalhar com dados aleatórios. O plano provincial tem indicadores, metas e orçamento.

Se quisermos colocar 200 mil crianças no sistema de ensino, temos de pensar quantas salas de aulas precisaremos, e esse número de salas tem de estar no nosso plano. E, anualmente, saberemos quanto gastar para acomodar determinado número de crianças. Então, o plano é um instrumento fundamental para a gestão dos vários problemas de diversos sectores, pois não é só na educação, temos de pensar também na saúde, electricidade, água e outros.

Goza-se de boa saúde no Uíge ou são necessários mais hospitais?
Temos 340 unidades sanitárias construídas em toda província. Dessas, 334 são do nível primário e seis do nível secundário. Em 2010, apenas funcionvam nos municípios centros de saúde, que nem tinham a mínima capacidade de internamento, porque o espaço era muito pequeno. A partir daquele ano, trabalhámos no sentido de construir e inaugurar oito hospitais municipais. Neste momento, podemos ir em oito municípios e temos hospitais construídos de raiz, com todas valências necessárias, e, no ano passado, começámos com a construção de mais quatro hospitais municipais, nomeadamente em Ambuila, Bembe, Milunga e Cangola. Estão em construção, com a perspectiva de serem concluídos este ano, e aí entrarão então outros dois hospitais, que são de Maquela do Zombo e Bembe. Também constam do nosso plano para o orçamento desse ano, mas, por razões técnicas ao nível do Ministério das Finanças, os projectos estão atrasados. Estamos a ampliar o hospital municipal do Negage, e vamos construir também uma maternidade que a unidade não possuía. Na cidade do Uíge, estamos a reabilitar o hospital provincial, apesar de o empreiteiro ser lento no cumprimento dos prazos estabelecidos, mas está a ser reabilitado, até porque existe desde 1968. Nunca sofreu nenhuma reabilitação profunda.

Por outro lado, estamos a investir seriamente na prevenção. Na verdade, podemos ter hospitais, mas não estancamos as doenças, se não tivermos trabalho de base na periferia, mobilizando a população na prevenção de determinadas patologias, que podem surgir nas comunidades, evitar que a população acorra aos hospitais. Esse trabalho junto das comunidades na prevenção reduziu o índice de patologias.

Temos quatro centros especializados na província: além do hospital sanatório, que foi reabilitado e reequipado, temos no município do Bungo o centro oftalmológico, que trata problemas da visão; hoje, a maior parte da população aqui da região (Malanje, Cuanza Norte, Zaire) vem parar aqui, pois antes ia para Benguela. O que precisamos apenas é tentar criar condições para expandir um pouco a área onde funciona esse centro; temos o serviço de tratamentos de fístulas, uma patologia que afecta muitas mulheres e que, ao nível do país, não tem outro sítio para ser tratado. Há mulheres que sofrem com essa doença 10 a 20 anos, porque nunca foram tratadas e provoca muitos problemas nos casamentos. Nós, no Uíge, temos um centro de tratamento de fístulas, no município da Damba, que precisamos de separar do hospital municipal para se construir um centro próprio para o tratamento desse tipo de doenças. No Negage, temos o centro ortopédico, e tivemos a felicidade de receber um apoio da Fundação Lwini, na pessoa da Primeira Dama, Ana Paula dos Santos, que está nos ajudar a reabilitar e construir o novo centro ortopédico para atendermos pessoas com deficiência, e melhorar as condições de vida dessas pessoas afectadas.

Como está a província no sector de energia e águas?
Desde Dezembro de 2010 que a energia provém da barragem de Kapanda. Temos energia eléctrica em três municípios, abastecidos por Kapanda. São cerca de 80 megawatts que o Uíge recebe, distribuídos para os municípios do Negage, Maquela do Zombo e a capital. Neste momento, estamos a reforçar a nossa capacidade de produção, substituindo os transformadores de 100 kilowatts (tínhamos quatro na província) e adquirimos quatro de 250 KVAs, o que vai aumentar a produção e o número de beneficiários. Decorre neste momento um projecto gigantesco, na cidade do Uíge. Trata-se da electrificação, que vai abranger bairros da periferia com nove mil ligações domiciliares. Os municípios funcionam com geradores. Os geradores trazem várias consequências. Além da manutenção, basta falhar combustível para o município ficar às escuras.

Queremos alterar esse quadro. Propusemos ao Ministério da Energia e Águas a possibilidade de se fazerem estudos nos rios que temos na província, para passarmos para construção de míni-hídricas, que possam fornecer um ou dois megawatts para atender dois ou três municípios.  E assim estaríamos a resolver a situação desses municípios para que entrem também na senda do desenvolvimento. Não há desenvolvimento sem esses dois elementos: energia e água. Com geradores não iremos resolver o problema. Essa discussão com o ministério continua. Coloca-se o problema de energia para o corredor Norte para três municípios, nomeadamente Damba, Mucaba e Bungo, bem como Songo, que tem a linha de transportação para Kapanda que passa por si, mas que esse município não tem energia eléctrica.
A nossa luta neste momento é ver se conseguimos resolver esse problema com o Ministério da Energia e Águas. E vamos conseguir isso, porque já esteve aqui uma equipa do ministério a estudar e fez o levantamento, e está a elaborar um projecto para o executivo com o objectivo de conseguirmos colocar energia nesse município.

Como está servido Uíge em termos de vias de circulação?
Temos na província 613 kms de estrada asfaltada. Refiro-me da estrada que sai de Caxito para aqui, do Negage, Negage-Quimbele, Negage-Maquela do Zombo, Uige-Mucaba. A perspectiva, essa é a maior dificuldade do momento, é a ligação com os municípios do Songo-Bembe, Buengas, Cangola, Milunga e Ambuila. São esses troços que faltam asfaltar, e continuamos a discutir seriamente com o Ministério da Construção a possibilidade de se ir resolvendo gradualmente essa situação. Vamos também intervencionar em Alfândegas, Alto Cawale-Bengo, que faz fronteira com Malanje, na área de Massangano, e também no Uige-Songo-Lucunga-Bembe. É uma estrada nacional, que sai até à província do Zaire.

Segundo informações do ministro da Construção, essas interveções serão ainda este ano. Já recebi pedidos de empresas a solicitar áreas para a instalação dos seus estaleiros. A via Songo-Bembe-Lucunga é importante porque é um dos acessos que o Uíge tem para o mar. Reabilitada toda ela, iria facilitar o escoamento da nossa produção, e também ir buscar aquilo que o Uíge não tem para colocar aqui, como o peixe. Muitas vezes, temos de ir a Luanda ou Benguela, quando temos aqui o Zaire, através do Soyo ou Nzeto, que têm peixe e sal. Produzimos coisas que o Zaire não produz. Podemos fazer trocas comerciais.

Quando for resolvida a questão destas quatro estradas,  teremos a situação praticamente melhorada em termos de ligação da capital da província à sede dos municípios. Faltará então um outro esforço que é gigantesco, a reabilitação das estradas que ligam as sedes municipais às comunas e as comunas às aldeias e regedorias, chamadas estradas terciárias. Esses acessos fazem falta porque é nessas localidades onde produzimos, por exemplo, a mandioca, ginguba, batata-doce, que precisamos para alimentação e comercialização. No casco urbano, também precisamos. O bairro Popular terá as ruas reabilitadas este ano e outras ruas por melhorar, como nos troços do aeroporto até ao Bispado, do bairro Popular até Pedreira, do Dunga até Bemba Ngando suburbano. A luta aí tem de ser anualmente colocar um ou dois bairros a serem requalificados em termos de arruamentos e passeios.

Relativamente à tranquilidade e segurança, qual é a situação do Uíge?
Há tranquilidade, porque se não houvesse as pessoas não viriam para aqui. Estamos a ver até o número de expatriados a aumentar cada vez mais. Antigamente havia disponíveis tantas casas de arrendamento. Hoje,  para se encontrar uma habitação, pode levar-se três a quatro meses. É porque há segurança, garantida pela nossa Polícia Nacional e pelas Forças Armadas. Há estabilidade política, o número de viaturas vai aumentando cada dia que passa. Aqui não havia engarrafamentos, mas ultimamente já se regista isso. Só há esse fluxo porque há segurança e tranquilidade.

Diz-se que as cadeias no Uíge estão super-lotadas. Como melhorar o quadro?
A nossa cadeia está super-lotada. Temos mais de 600 reclusos, num espaço construído para albergar 200 ou 300 pessoas. Ultimamente, o comando da Polícia Nacional tem transferido os presos para outras cadeias do país. Mas essa situação estará resolvida, porque está em construção na área de Kindoki uma nova cadeia, com uma nova filosofia também de trabalho.

Aí não teremos só presos para comer, beber e dormir. Vai haver presos para serem reeducados, também para serem aproveitados em outras áreas de conhecimento. Dentro de um ou dois meses, esse problema da acomodação de reclusos será ultrapassado.

Como descreve a relação com partidos políticos com assento parlamentar?
Há bem pouco tempo, recebemos a direcção do partido Unita, na pessoa do seu secretário-geral, que veio cá nos anunciar algumas modificações verificadas no partido. Acabei de reunir com outras quatro forças políticas com lugar na Assmbleia Nacional, com quem abordamos aspectos relacionados com a província do Uíge, quer para o desenvolvimento, quer para a vida dos próprios partidos políticos.

As relações são boas, a única coisa que nós sempre apelamos é que temos de saber distinguir as coisas. Só tem de ser iguais quando falamos do nosso país e de interesses comuns e colectivos; e admitimos a diferença quando falarmos dos nossos partidos políticos.

O que existe em termos de cultura e desporto?
Culturalmente, temos programas que o governo provincial tem estado a desenvolver, no sentido de massificar a cultura no Uíge. A primeira iniciativa continua a ser o Concat, que tem o objectivo de descobrir novos talentos, na música, dança, e outros domínios da nossa cultura, bem como os movimentos da cultura, o artesanato, produção de livros. O governo provincial tem estado a apoiar no sentido de manter a província informada.

Em termos desportivos, o Uíge continua a ser aquela província que tem muitas dificuldades. Continuamos a utilizar infra-estruturas do tempo colonial para a prática do futebol. O estádio 4 de Janeiro foi construído para albergar 150 pessoas, hoje são várias centenas de pessoas que vão para o campo e não temos condições pra acomodá-las. O nosso campo está velhinho. O Uíge já precisa de um estádio para 15 mil espectadores.

Regressamos ao Girabola, 25 anos depois, infelizmente não temos tido bons resultados, porque o União do Uíge apresenta problemas de organização de base. Mas acredito na melhora dos resultados, pois os adeptos estão a pressionar. Existem outras modalidades como basquetebol e andebol. A grande dificuldade é a falta de infra-estruturas para a prática destas modalidades.

Quanto às políticas para a juventude…
Temos muitos projectos para atender a juventude, partindo do emprego, formação e também os jovens que pretendem créditos nos bancos. Precisamos de criar mais postos de trabalho, para absorver mais jovens. Na formação, temos as universidades. Na habitação, temos o programa da habitação social que o governo central está a levar a cabo, com a construção de duas centralidades, uma de mais de 4.500 apartamentos, no Uíge, e outra no Negage, 2.500 apartamentos.

Também não devemos deixar de lado outros projectos com o mesmo objectivo e são o Kakapa, bairro da juventude, com 200 residências, e estão em construção cerca de 100. E o programa dos 200 fogos, em construção nos diversos municípios, menos no Uíge e Negage. Já construímos 1.400 casas sociais para acomodar jovens que estão a trabalhar nos municípios e que não tem essa oportunidade. Muitos até vão lá trabalhar mas regressam por não ter casa.

Continuamos apoiar jovens empreendedores, quer ao nível de bancos, quer ao nível de bancos comerciais. O governo tem estado a investir para mobilizar os bancos em apoiar as iniciativas dos jovens e, com a implantação do INAPEM na província, ganhamos mais algo, que hoje os projectos da juventude são avaliados e elaborados pelos técnicos do INAPEM.

Biografia

Paulo Pombolo é natural do município da Damba, província do Uíge. Nasceu em 12 de Abril de 1962. Foi secretário nacional da JMPLA e deputado à Assembleia Nacional, possui curso superior de Ciências da Educação. Entre 1977 e 1979, foi coordenador do Comité de Acção da JMPLA na Damba. De 1980 a 1981, foi chefe de Departamento de Educação e Alfabetização da JMPLA no Uíge. De 1982 a 1985, foi chefe de Departamento de Trabalho Produtivo e Social do Conselho Nacional da JMPLA. De 1985 a 2000, foi chefe de Departamento de Actividades Recreativas e secretário do Comité Nacional da JMPLA. De 2002 a 2009, foi segundo secretário nacional da JMPLA e primeiro secretário da JMPLA no mesmo período. Actualmente, é governador provincial do Uíge.

 

Via Angop

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