A humildade e sabedoria do Soba KYALA Kya NZINGA

Por Barroso Kyala “Bwa-Telema”

Esta é a história de um humilde e sábio chefe tradicional que dava aulas de bem governar. O criador da célebre frase : Ter poder é morrer, ter fama é morrer. Soba Kyala Nzinga vivia na aldeia de kimayala e era um grande soba, lúcido, tratador de gente, humilde, protetor da cultural e da constituição tradicional Kôngo. Não é a atoa que era conhecido e afamado de entre todos os Sobas que governavam a área do município da Damba, província do Uíge, até 1961. O carismático Soba governava 19 aldeias desde Nzadi a Kivulu até Kazumbi. E era também juiz, filósofo, humilde sábio de cortar a respiração e interessado no desenvolvimento quer da área em que governava como no de toda a área da Damba. Sua fama de bom governante chegou até aos padres ao governo colonial” e ao Arcebispo em Luanda. Os padres Capuchinhos da província de Veneza-Itália chegaram a Damba em 1948, para conhecer tal forte figura que representava e servia “muito bem” o povo Dambense da província  no norte de Angola.

Diz-se também que foi a convite do soba Kyala Nzinga e do seu homólogo soba Kyala kya Ntalu que os padres lá chegaram. No fundo era uma demonstração de capacidade governativa das entidades tradicionais para com os missionários e as entidades Portuguesas coloniais.

Soba Kyala Nzinga agia em conformidade com o provérbio que diz que “a saliva tem o seu caminho, o ranho tem o seu caminho”, isto é, sabia colocar-se na posição de soba, e colocar-se numa posição não de soba quando o assunto não dissesse respeito àquela posição, porque ter o poder é morrer, ter fama é morrer. Um dia o Soba Kyala Nzinga resolveu fazer uma daquelas agradáveis visitas ao pai Fwalevo que vivia na Regedoria de Kazumbi. Assim que as pessoas viram o soba Kyala Nzinga disseram :”Eis ai o soba!” chegado ele na casa do pai Fwalevo, puseram-se em conversa “como de habitué” bebendo Malavo (bebida tradicional) com os outros mais velhos que se faziam presente.

No acto da conversação, quando o pai Fualevo se dirigia a Kyala Nzinga, mencionava sempre o nome de Soba antes do nome Kyala Nzinga. E isso incomodara de tal maneira o soba Kyala Nzinga. Como o soba Kyala Nzinga era alguém de deixar tudo a prato limpo, então dissera : “Peço encarecidamente a todos mais velhos (e não só) que se fazem cá presente, que parassem de me chamar ou me tratar de soba em todo o momento, mesmo onde não existem assuntos relacionados com o Sobado: Se não se colocam assuntos relacionados com o sobado, tratem-me por Kyala Nzinga ou Nzinga a Mbengi porque o meu pai e a minha mãe não me deram o nome de Soba. Soba é um título de chefia que me foi atribuído. E eu não vim aqui fazer-vos uma visita como soba(chefe tradicional ou governante tradicional de uma determinada região, aldeia ou município), mas sim como um filho ou um simples indivíduo despido de tal cargo administrativamente tradicional ou cultural. Portanto, chamem-me pelo meu nome se não há assuntos relacionados com o sobado, porque ter poder é morrer, ter fama é morrer. Assim que acabou de ejacular “falar” tais sapientes palavras, chegara de repente uma queixa de pessoas que tinham lutado e se tinham ferido.

Logo que começaram a apresentar a queixa (os indivíduos lesados) ao soba, Kyala Nzinga dissera: agora sim, já estou nas vestes de soba! Pós a se ouvir as duas partes. E de repente veio de si a célebre frase: Quem decide um caso sem ouvir a outra parte não pode ser considerado justo, ainda que decida com justiça. E a posterior analisou e resolveu o problema de forma justa, ou melhor, dera a sentença que se merecia.” Segundo a constituição tradicional, assim como os princípios fundamentais direitos e deveres sociais e culturais do Sobado.

O Soba não é nomeado para fazer favores com a justiça em caso de houver um eventual problema no seio da população, mas sim, para julgar e auxiliar segundo a lei e a situação tradicional. Faço das minhas as palavras do escritor Filipe Nzinga : “Aquele que pratica a justiça na sua vida é um justo, aquele que anda conforme a justiça, o bom senso e razão, que gosta da exactidão é considerado como pessoa justa.

Convêm a sociedade civil e aos superiores chefes serem justos e praticar justiça como virtude. Pensar justo evita muitas injustiças. Temos que ser justos connosco mesmos e com os outros. O perdão também é um acto de justiça, visto que se não perdoar o que se deve, e como se deve, comete injustiça. Por falta de justiça houve muitas guerras no mundo. Quando praticamos a justiça, salvaguardamos a paz, visto que a injustiça é fonte de muitos males.” Este pensamento se enquadra com a filosofia de vida do soba Kyala Nzinga. Na verdade o cargo de soba vai além de uma visão jurídica ou governativa. É preciso saber chefiar até metafísicamente. Porque na prática os desafios que um soba enfrenta vão além de uma perspectiva física, se não mesmo cultural cosmologica o espiritual. O soba para além de ser um líder dentro da sua área de jurisdição, também é um pedagogo, ou seja, um educador ou pai. Mas um pai que prima pela boa educação segurança paz e justiça no seio familiar; “familiar porque na tradição Kôngo todos nós “os homens” somos no fundo parentes uns para com outros. Tudo pelo facto de pertencermos a mesma árvore genealógica da vida.”

Para o soba Kyala Nzinga, ao fazermos justiça devemos agir como um pai. Pois a justiça de um pai tem fins educativos. Ou melhor, a justiça de um pai deve servir para enquadrar educar e reeducar o filho quando comete. Daí a velha máxima : Um pai injusto, faz com que os seus filhos tenham separação e problemas dentro deles. A injustiça provoca a rebelião, perturba a ordem já estabelecida em qualquer tipo de sociedade. A injustiça destrói o amor e faz surgir o ódio de acordo com os seus efeitos. Ser justo é reconhecer o direito do outro, de ter os mesmos que você tem. Ser justo é ser bom, é guiar a sua vida pelo bom senso, pela imparcialidade e pela verdade.

Ora bem, voltando ao assunto do Soba Kyala Nzinga. Apesar do seu exemplar comportamento e de sua boa governação, o cerne da questão está baseada na frase que a sua boca vomitara quase sempre : ter poder é morrer, ter fama é morrer. Porque é que dizia que “ter poder é morrer, ter fama é morrer?” será que fugia do seu cargo de soba? Não. Com isso ele queria dizer o seguinte: Se não houver nada relacionado com o sobado, que é questão de poder e de fama, é melhor que o sobado seja posto de parte porque o poder atrai a fama, juntos eles libertam o aroma que nos da a sensação de estar acima de todos e até do impossível e não só. Temos facilidades quando temos poder e fama. Mas atenção, o veneno do poder e da fama está na sua arrogância. Ambos arruinam e matam, já que se os assuntos forem mal resolvidos você soba pode ser morto e também o chefe não é bem gostado. Ou melhor, um chefe não é amado por todos. Não existe ninguém nesse mundo que consegue agradar a todos, óbviamente que eu não sou exceção. Na vida é melhor ser uma pessoa escondida, reservada, discreta de quando em vez para sobreviver do que ser uma pessoa poderosa, exposta, afamada, pois que aquele que é aclamado pelo povo, o mesmo povo é que lhe atesta também a cacetada na nuca.

Não devemos nos esquecer que o homem é dos seres mais imprevisíveis que existe no mundo. Apesar de tudo ele confiava no seu trabalho! Soba Kyala Nzinga dizia : Um bom líder não basta só confiar, e sim, mostrar-se confiável mediante aos desafios que a vida nos proporciona, em particular ao seu povo. Porque um povo sem confiança é uma flor sem perfume. Para um soba, a confiança é o reflexo do conhecimento. Um verdadeiro soba deve ser a princípio alguém imparcial generoso e bondoso. Pois a bondade é o princípio do tato, e o respeito pelos outros é a primeira condição para saber viver em harmonia paz e segurança.

«Lições de boa governação do Soba Kyala Nzinga na década de 40 e 60.»

Fonte: Extrato do livro “Longoka Kikongo”

Soba Kyala Kya Zinga no Kumbi, a escola tradicional para os rapazes no antigo reino do Kongo. Imagem do Dr. Morais Martins
Soba Kyala Kya Zinga no Kumbi, a escola tradicional para os rapazes no antigo reino do Kongo. Imagem do Dr. Morais Martins.

 

 

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