A RELIGIÃO EUROPÉIA E A SUA PRESENÇA NO KONGO

Por Camilo Afonso Nanizau Nsaovinga

 

 

 

 

 

 

As concepções religiosas dominaram a vida do conguês em todos os aspectos, integrando-a num todo harmônico. As suas principais manifestações estavam ligadas ao culto dos antepassados, aos processos ritualísticos e de socialização, e comandaram a organização social em todos os seus escalões. A organização política, quanto às suas instituições fundamentais, integrava a organização social, que se baseava nos grandes agrupamentos familiares consanguíneos, de sucessão matrilinear.. Os antepassados através de uma cadeia de elos constituíam uma hierarquia que encabeçava nos fundadores míticos do grupo étnico, que transmitiam aos vivos, para reforço do que possuíam, a força vital recebida de Nzambi Deus criador.

Essa transmissão era operada através dos seus descendentes mais chegados, isto, é dos anciãos dos clãs e das suas linhagens. Os antepassados continuavam a fazer parte destes grandes agrupamentos e eram os verdadeiros senhores do solo e de tudo quanto espontaneamente nele nascia e se desenvolvia. Por isso o solo não era susceptível de apropriação individual e tinha um carácter quase sagrado. (MARTINS, 1958, P, 74). A concepção religiosa Bakongo, em particular e de modo geral para dos povos bantu, assenta na crença de que existe um Único Ser Supremo, Nzambi-a-Mpungu, o Deus todo Poderoso. Assim, aparece na Bíblia Sagrada Africana (2004, p.981), no Salmo 90, (89): Senhor, tu foste o nosso refúgio de geração em geração. Antes de surgirem às montanhas, antes de nascerem a terra e o mundo, desde sempre e para sempre, tu és o Deus. Tu podes reduzir o homem ao pó, dizendo apenas: Voltai ao pó, seres humanos!. Ou ainda na Carta a Timóteo, – 1 Tim, 1-17, encontra-se escrito: Ao Rei dos Séculos imortal, invisível, deus único. Honra e gloria pelos séculos dos séculos. Amem. A Palavra de Deus é a mesma em todas as bíblias, que ao Senhor se dirigem e fazem fé do Verbo.

O Bakongo desde os tempos remotos acreditou e se referiu sempre ao Nzambi-a-Mpungu na sua vida existencial. A Bíblia Sagrada Africana surge no âmbito da nova evangelização para o Terceiro Milénio, em 1994, quando o Papa João Paulo II, convidando os cristãos a voltarem-se para a Bíblia com interesse renovado (Tertio Millennio Adveniente, n40). E para se responder as necessidades do Povo Africano ao desafio lançado pelo Papa, João Paulo II, os Bispos Africanos e as Filhas de São Paulo assumiram com coragem o projecto de publicar uma Bíblia para os povos de África. Segundo, esta reflexão bíblica sobre a crença em Deus único e invisível, atinge a vida espiritual dos Kongo e dos Bantu, desde os tempos ancestrais. Esta realidade foi notória e reconhecida pelos primeiros cronistas e missionários chegados no Kongo.

Todavia, os autores que efectuaram as primeiras descrições da vida religiosa Kongo, pintaram-na de forma grosseira, exótica e fantástica, sem qualquer laivo de verdade. Entretanto, após a destruição dos valores da religião tradicional Kongo, vulgo feitiços na visão, eurocêntrica e exclusivista de Pigafetta (1958) apud Martins (1958, p. 63): E, por certo, se viram inumeráveis causas tais, porque, como cada um reverenciava aquilo que mais lhe agradava sem regra, nem medida nem razão de espécie alguma, que se achou grandíssima quantidade de Demônios de estranha feição e espantosos. Muitos tinham em devoção Dragões com asas, que ceavam em suas casas privadas, dando-lhes a comer das mais estimadas viandas; outras serpentes de horrível figura; outros adoravam os Cabrões maiores; estes, as Onças e outros animais mais monstruosos; e quanto mais estranhos eram e disformes, mais os honravam; certos tinham por veneráveis as imunidades aves e noturnas, a saber; morcegos, corujas, mochos e semelhantes.

Em suma, elegiam por Deuses várias cobras e serpes e bichos, pássaros e ervas e árvores e diferentes tarântulas de pau e de pedra e figuras impressas das causas sobreditas assim de pintura, como esculpidas em madeira e em seixo e em outra qualquer matéria. E não somente adoravam os animais vivos, mas também as próprias peles cheias de palha. […] O ato de adoração se praticava em vários modos, todos endereçados à humildade, como seria: ajoelharem-se, deitarem-se por terra de crença, cobrirem a face de pó, fazendo em palavras oração aos ídolos, e em atos oblações das melhores substâncias que possuíssem. Tinham mais os seus feiticeiros, que davam a entender àquelas gentes ignorantes que os ídolos falavam, enganando-as; e se alguém se lhes encomendava em suas enfermidades e sarava, diziam os feiticeiros haverem os ídolos obrados tal, e, se não, que estavam irados.

Isto é em parte o que no tocante a religião se costumava entre os Moxicongos, antes de receberem a água do Santo Batismo e o conhecimento do Deus vivo. (PIGAFETTA, 1951, p ). A descrição de Pigafetta demonstra a visão que os primeiros cronistas tiveram sobre a realidade religiosa bakongo e bantu, que mais tarde, veio a completar o novo quadro de mitos erguidos sobre as populações africanas. Mas, nem tudo foi assim. Houve aqueles que de forma cuidada e aturada se aproximaram da verdadeira realidade dos fatos, apesar dos bakongo procurarem por todas as formas impedirem-lhes o acesso aos segredos da sua religiosidade. É fundamental relembrar que o sigilo era e é uma condição sine qua non para a educação do homem bakongo em particular e para o bantu em geral. Por outro lado, a primeira evangelização fruto do excesso de cristocêntrico, início do processo de integração religiosa, não alcançou os seus objetivos. Para além, dos efeitos negativos dos missionários na vida do Estado do Kongo, da fraca preparação dos mesmos, e do desconhecimento do meio em que iam trabalhar do número reduzido de pessoal missionário, para cobrir o espaço territorial. Os Bakongo de modo particular, e, em geral os demais povos da cultura bantu aproveitaram-se destas debilidades para resistirem na preservação dos seus valores culturais e religiosos até aos nossos dias.

As próprias intrigas entre missionários de diferentes origens e congregações, portugueses, italianos, espanhóis e outros, contribuíram para a deteriorização do clima de sã convivência entre eles e as lideranças políticas locais. O reconhecimento da religiosidade Bakongo e Bantu foi notório em obras de Cavazzi (1687; 1965), J. Cavellir (1946), V.Wing (1921; 1959), Jadin (1954), G. Balandier (1965), Temples (1949), e muitos outros que lhes seguiram os passos. Morais Martins (1958, p.67), faz o reconhecimento religioso Bakongo aliada ao seu misticismo, no seguinte: Para além da crença no Deus Supremo, em Nzambi ou Nzambi Mpungu, e do culto dos antepassados, aparecem-nos na vida espiritual dos Congueses outras manifestações, mas àquelas ligadas e consubstanciadas na crença do poder do feitiço (nkisi). Os minkixi ou muquixes, aportuguesado o termo, encerram forças que intervêm benéfica ou malèficamente na vida dos homens, fazendo aumentar ou diminuir a sua força vital. (MARTINS, 1958, p.67).

A parte das forças benéficas tem a ver com a parte ligada aos processos de socialização e da iniciação das novas gerações. Eles são submetidos a várias provas de formação e cada procura formar-se naquela que achar melhor para si. Pois, há aqueles que preferem formarem-se para o lado maléfico, o ndoki. Entretanto, de que forma os bakongo preservaram e encaram estes poderes especializados do Nkisi, Minkisi e o seu manuseo pelos mestres, os Nkanga? Segundo W.MACCGFFEY (2000, P.37-38) nos seus estudos sobre os Bakongo e os Minkisi ou Nkisi escreveu: No pensamento dos povos Kongo, um nkisi (plural minkisi) era uma força personalizada da terra invisível dos mortos que tinha escolhido, ou sido induzida a submeterse a um certo grau de controlo humano efectuado através de rituais.o perito que conduzia tal ritual era o nganga(operador ou sacerdote:pl. banganga) do nkisi.o ritual podia ser mais ou menos elaborado,demorar uns minutos ou muitos anos a ser completado e requerer a participação de qualquer número de pessoas,de um individuo a uma aldeia inteira ou mais.incluia habitualmente cantos,danças,retrições de comportamentos,recintos especiais e espaços preparados, e um aparato material vagamente prescrito.

O aparato material incluía instrumentos de música, a presença do nganga e dos seus pacientes, ou clientes, artigos de uso, remédios e, finalmente, um objecto central que era o próprio nkisi no sentido restrito de receptáculo da força que dava poder. (…) Segundo a crença dos Kongo, se um nkisi perde uma das suas partes, se as restrições que impõequanto à conduta dos que o rodeiam são ignorados, ou se o nganga morre, o nkisi perde os seus poderes, cessa de ser um nkisi e reconverte-se num mero objecto. Morais Martins referenciando Cavazzi (1937) prossegue no reconhecimento da religiosidade Bakongo: Encabeçando todo o sistema religioso tradicional dos pretos do Kongo, encontra-se a ideia de um Deus Supremo que, no seu dialeto, é designado por Nzambi ou Nzambi-Mpungu. É um Deus todo-poderoso que criou tudo quanto existe.

É um Deus inacessível a quem não se rende qualquer culto direto. Está tão acima dos homens, a sua grandeza é tal, que não se digna ocupar se diretamente da pobre humanidade. Não se lhe oferecem sacrifícios porquê de nada necessita, não se glorifica porque encerra em si a própria glória. Invocam o seu nome em certas circunstâncias, mas talvez sem o caráter de prece. Dele diz Cavazzi: […] Dogma Independente dell Idolatria locale è questo: Nzambiampungù, nome attributo alla divinità, è uno in sè stesso e molto grande; egli solo merita ossequio, non l esercito di dei inferior che gli pullano attorno in número sterminato Ed ognuno con il suo nome. Di questi si fanno rozze imagini di legno e si crede ognuno di essi deputato a far scomparire una determinate malattia. (MARTINS, 1958, p. 65) .

Os Bakongo reconhecem assim, o seu caráter monoteísta da divindade de Nzambi-a- Mpungu, a sua grandeza, e a inexistência de qualquer imagem que o represente. O homem pode representar tudo menos Nzambi. Pois, é impossível fazer-se a sua representação simbólica. Os Bakongo já conheciam Nzambi-a-Mpungu muito antes da chegada dos portugueses no Kongo. Nzambi é poder, Nzambi é força, Nzambi é Vida. Este reconhecimento de Nzambi pelos Bakongo e de forma mais vital, levou nos meados do séc. XIX Leopoldo II, da Bélgica (1853), advertir os padres e pastores belgas, que partiam para o Congo-Belga, nas vésperas da Conferência de Berlim e da partilha do continente africano, dizendo: Padres e Pastores vieram certamente para evangelizar; mas esta evangelização inspira-se do nosso grande princípio: Em primeiro lugar os interesses da metrópole. O objectivo da vossa missão não é de ensinar aos negros a conhecer Deus, eles já o conhecem, desde os seus antepassados.

Eles falam e se submetem a Nzambi-a-Mpungu, Mvide, Mukulu, Akongo, Nzakomba e outros, etc. Eles sabem que matar, roubar adulterar, caluniar, insultar, são maus actos. Tenhamos a coragem de reconhecê-lo. Não viestes para ensiná-los o que eles já sabem, o vosso papel consiste em facilitar a tarefa dos administradores e industriais. Quer dizer, que interpretarão o evangelho de maneira a que sirva melhor os nossos interesses nesta parte do mundo. Desta feita, queiram desinteressar os nossos negros selvagens das riquezas que abundam o seu solo e subsolo para evitar que eles se interessam nelas, que sonhem um dia em nos desalojar desta parte antes de nos enriquecermos e que os façam uma concorrência mortal.

O vosso conhecimento do evangelho permitir-vos-á encontrar textos que recomendam e fazem amar a pobreza tais como: Felizes os pobres, porque o reino dos céus pertence-lhes, é difícil um rico entrar no céu como a um camelo passar pelo orifício de uma agulha, façam tudo para os negros terem medo de enriquecerem para melhor merecerem o céu. (extraído do discurso do rei Leopoldo II aos Primeiros missionários do Kongo, em 12 de Janeiro de 1883). Os ídolos descritos para inferiorizar e denegrir a personalidade religiosa do Bakongo contrasta com o estético e o belo criado pelos habitantes do Kongo, representado pelos seus objetos de arte, muitas vezes sacra. A arte sacra só tem sentido entre os europeus o inverso é idolatria. Nas tradições artísticas Kongo não existe, em todo seu espaço, vestígios que justifiquem a representação da imagem de Nzambi, Nzambi-a-Mpungu, Deus.

Entretanto, para a representação dos espíritos e outros elementos mágico-religiosos, já se reconhecem as manifestações ou representações artísticas sobre os mesmos. E são precisamente estas manifestações ou representações artísticas que criaram os valores do estético, do belo, do ético-moral. O projeto europeu e etnocêntrico de dominação, aqui representado pela colonização portuguesa, desconsiderou muito dos aspectos civilizatórios dos povos africanos. Dessa forma, buscaram esvaziar os sentidos estruturantes presentes na estrutura social e religiosa desses povos, a exemplo dos conguenses, que tiveram seus rituais, seus símbolos e sua mística tomados por folclore, feitiçaria e outras expressões depreciativas e redutoras da pluralidade cultural africana.

Segundo Fontinha (1998p. 138), na tradição oral só a memória perdura e vai sendo avivada através dos tempos com os desenhos nas rochas e na areia, pinturas murais, ritos e marcas nos objectos de uso quotidiano e nos utensílios de artesanato e cerâmica. A representação de Nzambi no sona (grafia) pelos Cokwe assemelha-se a dos Bakongo, que possibilita a compreensão das reflexões feitas sobre o Muntu- pessoa, ser; do Mpeve espíritos, e de outros elementos do mundo cósmico Bantu em geral e Kongo em particular. E tudo isto é aprendido a partir das escolas iniciáticas. Daí a importância das mesmas na educação das novas gerações e dos homens do amanhã. Em suma, Nzambi-a-Mpungu é o ser Supremo, é o Todo Poderoso, é a Força do sentido de tudo quanto criou e existe: Nzambi o Todo Poderoso, o Ente Supremo nunca supõe que possa ser nomeado, porque se Deus tivesse um nome conhecido pelos homens, esses teriam poder sobre este. Quem conhece o nome de outra pessoa pode pronunciá-lo e isto equivale a atuar manipular e controlar a sua realidade íntima. Jamais os Bantu imaginaram sequer a possibilidade de manipular Deus. (ALTUNA 1987, p 404).

O Pe. J.Van Wing (1959), missionário belga, em serviço no Congo-Belga, isto é, durante a colonização Belga. Pois, nas suas visitas de catequese na região do Bampangu, da antiga Província de Mbata, do Estado do Kongo, ao perguntar as populações sobre a existência de Deus e o seu nome, um ancião da comunidade respondeu-lhe: Deus não se pode definir nem representar. Sua essência é indescritível, por que ninguém a conhece. Nzambi é Nzambi. Nzambi não pertence à categoria dos seres que se representam ou daqueles dos quais se tem um conhecimento experimental. Ele não é um homem nem mulher, nem antepassado (Nukulu) nem espírito das águas (kisimbi), nem animal, nem o céu, nem a terra, nem outra coisa a não ser Nzambi-a-Mpungu. Nzambi é único, separado de tudo o resto, invisível e, todavia, vivo, atuando com soberania, independente, incompreensível e inacessível, dirige os homens e as coisas de perto e com absoluta confiança (WING, 1959, p ).

Os preconceitos eurocêntricos e as doutrinas das diferentes escolas européias procuraram desde o início reduzir a religiosidade africana a uma simples crença e criaram estereótipos negativos que perduraram até hoje, sobre o que de real existiu da Identidade Religiosa dos Africanos. Manuel N. Gabriel (1978), contrário a estes escritos, escreveu: Muito se tem escrito sobre os conceitos religiosos dos negros em geral e dos bantu em particular os escritores e missionários dos séculos passados chamaram-lhes pagãos e idólatras, na errônea opinião de que eles adoravam os feitiços, que desempenham papel tão importante na sua vida religiosa e social.

Alguns exploradores e autoridades civis que no século XIX estiveram em contacto com estes povos, sem, no entanto, terem conseguido penetrar profundamente na sua mentalidade, escreveram que muitos deles não tinham religião no verdadeiro sentido da palavra, pois, não podia dar-se tal nome a algumas práticas supersticiosas que eles cumprem sem qualquer ideia dum ser sobrenatural. (GABRIEL, 1978, p. 34). Para o arcebispo emérito de Luanda, Manuel. N.Gabriel (1978), não bastou apenas à justificação dos erros, apontou por outro lado, o caminho para o conhecimento e reconhecimento desta realidade filosófica e teológica da religião tradicional africana. E dando continuidade ao seu pensamento atestou: Mas, quando os missionários e etnólogos conhecerem melhor a mentalidade destes povos, sobretudo, com a prática das línguas africanas, tais ideais vão se modificar. E hoje todos os que têm se dedicado a um trabalho sério neste campo admitem que os bantus têm conceitos religiosos bastante concretos.

Um etnólogo fez a tal respeito estas afirmações: Nunca será demasiado insistir na importância da religião, pois ela regula toda a vida social, política, artística e mesmo econômica do país. Nenhuma instituição será convenientemente correspondida se não se conhecer o sistema religioso que a anima e explica. O africano é um ser essencialmente religioso; os seus actos são todos ditados pelos deveres ou interditos rituais. Destruir-lhe a religião é destruir a sua estrutura social e a própria alma. (GABRIEL, 1978, p. 34). Contudo, nesta altura que Angola caminha para o seu renascimento cultural, a antropologia religiosa deve considerar o estudo da realidade religiosa dos povos bantu de Angola uma necessidade imperiosa. Uma segunda justificação de Nzambi-a-Mpungu, Deus incita que:

Na vida individual e comunitária aflora uma referência essencial e permanente a Deus. O bantu adora a Deus e suplica-lhe sempre que sente uma necessidade ou se recolhe na vivência da vida participada que ele relaciona com a Vida Originante (…).

É pena que o culto dos antepassados, que quase monopolizou as atenções de missionários e etnólogos, por ser o mais imediato e espalhado, tenha fechado o caminho à observação que deveria ter descoberto nos bantu uma referência vital e permanente a Deus. Estes e os negro-africanos em geral também não nos explicaram totalmente as suas experiências de Deus, que todos esperamos para nos enriquecer.

Urge esclarecer até que ponto Deus preside, motiva e vivifica a religião tradicional. (ALTUNA, 2006, p ). As dificuldades encontradas pelos missionários e outras expectativas das ciências sociais sobre a religiosidade dos africanos são resultantes dos subjetivismos exacerbados que foram criados à volta da realidade sócia- antropológica do outro. E este para corresponder aos tratos contra si, recorrerem aos seus mecanismos de resistência cultural, ocultando-os e sem qualquer espaço de manobra ou de abertura. O passado criou a lógica do presente resistindo contra todas as formas de discriminação e de exclusão. Ninguém conhece a essência de Nzambi-a-Mpungu. É inacessível. É um mistério. Na óptica de Mbiti, (1972. Apud. R. Altuna (2006): Os homens conhecem algumas das suas actividades e manifestações, porém, nada sabem da sua essência. Paradoxalmente, o conhecem e não o conhecem. Ele os conhece, porém eles não o conhecem. Assim Deus está presente entre os homens como o misterioso e o incompreensível. Não pode ser descrito e escapa a todo o vocabulário humano. (MBITI 1972 apud ALTUNA 2006, p.396).

Os homens ao não conhecerem o lugar visível de Nzambi, têm-lhe respeito, e o medo de o gerirem. A sua presença e o temor que se tem dele, faz do homem bantu a felicidade de continuar a dirigir as suas preces e as suas solicitudes por tudo quanto aflige o ser humano. Porém, o cosmograma Kongo, é igual aos Cokwe, do leste de Angola, WyattMacGaffey, citado por Robert Farris Thompson (2011, pp ). Os homens e a sua relação horizontal com a natureza. É a sua relação entre o mundo visível e o invisível. Na sua dimensão, entre o dia e a noite, Ntangu ye Ngonde. Nesta intercessão das duas linhas, a vertical e a horizontal, reside a questão mística da vida humana e da sua relação com Nzambi-a-Mpungu.

Na essência dos seres inteligentes há um princípio substancial à personalidade humana, força da vida. É por isso que o Muntu é dinâmico. Ele constitue o valor fundamental da Criação. O seu dinamismo é vital é o que mais se parece com o de Nzambi. Aqui sobressai a sua relação íntima com Nzambi, Muntu-a-Nzambi. E a sua inteligência torna-o superior aos outros seres. Só o homem dá sentido a este gigantesco dinamismo que Deus pôs em movimento para a sua realização. Mas não teria razão de ser se não estivesse ele como centro de convergência do mundo invisível e visível e como sua chave interpretativa. (ALTUNA, 2006, p. 337). Segundo os Bakongo, o muntu dá sentido e interpretação a tudo quanto Nzambi criou e pôs à sua disposição. Assim, o muntu ocupa a base de pirâmide vital. A criação está centrada nele. E no topo da pirâmide está Nzambi. Por isso, a religião tradicional africana concretiza-se quando o indivíduo e a Comunidade comunicam com o mundo invisível e o visível através dos ritos, orações, sacrifícios, festas ritos de iniciação, caça aos feiticeiros. Só assim saboreiam a paz da reciprocidade realizadora. (ALTUNA, 2006, p. 374). Desta interação entre Nzambi e o muntu-homem, e este com os outros seres envolventes, o Bakongo considerou esta ação criadora de Nzambi, de Vangu- dya-nzambi, o que quer significar, criação de Deus.

O homem só se completa na compreensão e interpretação do seu mundo filosófico e teológico na junção de todos os elementos vitais envolventes. Dizem os Bakongo que nada pode criar-se a si mesmo fora de Deus. Deus é uma força em si, inacessível ao homem; ao mesmo tempo, porém, é causa e motor da criação, participado e nunca participante, sede do ser, do poder e da vitalidade. No começo, nada existia fora de Deus. Criar representa a sua máxima manifestação de força. Primeira e última causa, princípio universal e permanente de todos os seres. (ALTUNA, 2006, p. 390).

Pois,os Bakongo associam tudo isto à mulher. E por isso afirmam que ao lado do homem está a mulher. Esta ocupa um lugar específico, de destaque e honroso pela sua vocação para a maternidade. Nestas comunidades matrilineares, a mulher, mãe-agricultora, transmissora da linhagem goza de um estatuto social especial no seio da organização social da comunidade. Ela ocupa o lugar cimeiro no seio da família Bakongo. E, como mãe-agricultora, ajuda a concretizar o mistério da criação de Nzambi-a-Mpungu, a força e o mistério da fecundidade e da realização da Vida. A mãe do mundo bantu em geral e bakongo em particular supera o pai na profundidade sacral.

É a existência da causa mística da vida humana e da natureza. Mãe e terra são as guardiãs da Força Vital. Ela finalmente é a detentora do poder em todos os momentos da vida familiar e comunitária, é aquela que não é consultada em público, depois de atingir a plena idade, e pelo respeito que lhe é devida entre os Bakongo e os outros povos bantu. É mãe-agricultora, porque desde os primórdios da vida humana, ela estabeleceu uma relação íntima entre si e a sua irmã terra. Dois mundos que se complementam na ação de Nzambi-a- Mpungu.

Para os Bakongo, a mãe-agricultora e a terra são a mesma coisa. Ambas são fecundadas para procriarem e dão uma dimensão vital as coisas. Daí a assimilação rápida do cristianismo, após uma reinterpretação do mesmo dentro do seu contexto sociocultural. A agricultura modificou a economia do sagrado porque foram adquirindo primazias outras forças: fecundidade, sexualidade, mitologia da mulher e da terra, que se apresentavam mais dinâmicas, concretas, acessíveis e próximas do homem. A experiência religiosa torna-se mais concreta, mistura-se mais intimamente com a vida. Suplantam pela acessibilidade, o distante Deus criador. (R: Altuna, 2006, p 403). Como ficou aludido, Mãe e Terra são ambas fecundadas estabelecendo laços inseparáveis com os seres criados. É a simbiose natural e mística deste fenômeno.

É a sua relação íntima de sangue com os filhos. Daí a importância da linhagem materna cuja continuidade está assente nos laços de sangue. A mulher, neste caso, torna-se a depositária fiel do passado, da continuidade e da garantia Comunitária. Os antepassados prolongam-se e as linhagens vão rolando pelos séculos através do sangue materno. É assim que o tio materno, Mfumu-a- Kanda toma conta da kanda-linhagem e dão-lhe sentido e continuidade dos laços que os unem ao Bakulu fundador e comum. Finalmente, a mulher, a mãe bakongo, responsabiliza-se pela continuidade da vida, do sangue que vem dos seus antepassados e conserva a tradição e os laços sagrados que os une dentro da Kanda-linhagem. Este é o fundamento da existência e do respeito que se deve a mãe, ao seu tio materno e a linhagem.

É o fundamento vital na compreensão de todo o fenômeno religioso bakongo. Existe uma conexão indestrutível das coisas. Assim, o estudo da cosmologia Kongo não se diferencia muito da realidade de todos os povos bantu. Apesar de existirem povos que utilizam um sistema patriarcal, mas, em menor escala. O culto aos Bakulu, Nkulu, que são os antepassados é lhes comum. E as escolas iniciáticas são os espaços privilegiados para a formação das novas gerações até a sua idade adulta. Para os Kongo e os bantu em geral, a educação tradicional nunca tem fim.

Ela só tem fim quando o Muntu- Ser, parte para junto dos Bakulu. Isto é, sua educação só tem fim após a sua morte. Daí a máxima Kongo: E longui kadina nsuka ko. A educação ou o aconselhamento nunca tem fim. Ou ainda, E lulongoki ka lwa kala nsuka ko. A educação nunca tem fim. Finalmente, a aceitação da fé cristã no Kongo deveu-se aos vários somatórios feitos e da análise e comparações dos elementos novos e sua contextualização com os elementos religiosos Kongo.

Assim desta presença houve trocas e assimilações de elementos que foram identificados como comuns entre as duas realidades religiosas. Nzambi e Nzambi- a Mpungu passaram a constar da liturgia cristã até aos nossos dias. Em contra partida, muitos elementos religiosos Kongo foram queimados em haste pública. Esta foi à forma encontrada para obrigar a população Kongo aceitar a nova religião e sua assimilação.

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