LUNZAMBA: Uma localidade mítica que está no fúlcro da história do Tokoísmo.

 

Por: CENTRO DE ESTUDOS TOCOÍSTAS1

# 01/01/2017

1. Nota Introdutiva.

Com a publicação do presente artigo da série História da geografia sagrada do Tocoísmo”, o Centro de Estudos Tocoístas procura materializar um dos seus projectos inseridos no âmbito do PROCESSO DE PRODUÇÃO DO TOCOÍSMO para o periodo de 2017-2020, que trará à público mais de 60 artigos focalizados em oito séries temáticos sobre fenómenos Tocoístas, a saber, 1. História da geografia sagrada do Tocoísmo, 2. Aspectos enigmáticos sobre o Tocoísmo, 3. Realidades Tocoístas, 4. Vaticínio Tocoísta, 5.Futurologia Tocoísta, 6.Escatologia Tocoísta, 7.Avauki Ampungu – o eleito Povo de Yave e 8.Dissidências Tocoístas e emergência do Neotocoísmo.

Ao ser o primeiro desta série num conjunto de oito artigos, é importante dizer, que para além de Lunzamba, nos próximos números debruçar-nos-emos sobre as localidades de Landangu, Wembo, Sadi, Zulumongo, Ntaya Antigo, Ntaya Novo, Kibokolo, Vale do Loge e quiça Kiluangu Kye Makumbani, pelo facto destas povoações fazerem parte dos principais locais que conformam a geografia sagrada do Tocoísmo, intimamente ligada ao percurso trilhado pelo Povo eleito de Deus (Avauki Ampungu) da Igreja de Cristo relembrada em África em 25 de Julho de 1949.

De referir que será um brevíssimo estudo sócio-antropológico da localidade de Lunzamba e sua mítica lagoa que está no fulcro da história do Tocoísmo, e que se apresenta como um local que detém a chave do desenlace futuro da humanidade, encerrando consigo não só o mistério do porvir, mas também o do desfecho do maior trama da história humana que está relacionado com a vida e obra do Profeta Simão Gonçalves Toco (Mayamona)1.

Os dados aqui expostos, resultam de um aturado trabalho de campo, de levantamento de factos historiográficos e de recolha de informações através das fontes orais, bibliográficas, factuais e da cosmologia dos Tocoístas e dos povos da região2. Ainda não é um trabalho acabado, sendo por isso o início de um longo trabalho de investigação, que culminará com a publicação da História Geral do Tocoísmo. Daí a nossa homenagem antecipada a Nkuma Makuta, Ndongalasya Nzau (Garcia), Zwau Makanzi, Don Delefwele Kyufuta, Mpetelo Nzokamenga, Ndompetelo Mwabi, Mfumu Ndongalasya Syasya, Ndona Namadungu, etc, sendo estes fundadores e co-fundadores de Mbanza Lunzamba e, a Sebastião Kyongolo, Simão Lukoki, Pedro Nzila e Pedro Zyesu, Toko Rosado, etc, seus divulgadores.

2. ORIGEM E ETIMOLOGIA DO TERMO LUNZAMBA.

Ainda continua ser uma responsabilidade incontestável e ariscada assumir o compromisso de trazer à público dados atinentes a localidade de Lunzamba, por ser uma história quase desconhecida pelos Tocoístas, pese embora alguns estudos preliminares já realizados que constam nas várias obras literárias, mas que se limitaram apenas na descrição dos factos narrativos sobre Yanga dye Lunzamba “Lagoa de Lunzamba”. São os casos de Pedro Mumbela (1980-1990), Vasco Nzila (2008), Neves Álvaro (2008, 2014 e 2015), Ruy Blanes (2017), Paracleto Mumbela (2015), GCNET (2012, 2013, 2016), Simão Lukoki (2015), Sebastião Kyongolo (2015), Avelino Mbiyavanga (2016) e Pedro Zyezo (2017), estes últimos, os que foram muito mais profícuos quanto caracterização histórico-geográfico de Lunzamba e seus arredores. Nas mesmas, ficou bem patente a dimensão histórico-cultural-espiritual de Lunzamba e a sua relevância para os Tocoístas e estudiosos.

    1. Origem de Lunzamba

O termo Lunzamba é de origem Kikongo e provém da expressão nzamba que em Português significa elefante ou do seu plural manzamba (elefante grande ou muitos elefantes), ao passo que «lunzamba» é o seu diminuitivo e que significa pequeno elefante ou elefantezinho.

Culturalmente falando, lunzamba apresenta-se como uma pequena tribo (fragmento) que desmembrou-se de manzamba, a grande tribo (Jean Cuvelier 1971:52). Neste caso, a pequena tribo é Namadungu, sendo Nawembo a grande tribo e do «casamento» de ambos, gerou-se Namadungu na Mfutila Nawembo (Paracleto Mumbela 2015:38).

Lunzamba também é o nome atribuído ao Soba Grande de Mbanza Lunzamba pertencente a tribo Namadungu que se subscreve em NAMADUNGU-MUNGUTI YE NZIMA YE NGO YE KAKATU, que se pode traduzir em: “Namadungu o progenitor de yenas, leões e répteis venenosos”, significando deste modo a sua força, poder, sagacidade e agilidade (Sebastião Kyongolo 2014 e Paracleto Mumbela 2015:38).

Do ponto de vista botânico, «lunzamba» é uma espécie de erva (capim) que se reproduz no verão, na véspera da plantação e da colheita de jinguba, sendo verdadeiro alimento para os pássaros, mas também é utilizado pelas crianças e adultos como armadilha para a colheita de «Kyusu», um insecto comestível semelhante a mosca, pertencente a ordem diptera (salalé).

Para Simão Lukoki (2013 e 2015), lunzamba é um local onde se produziu toda espécie de maldades bestiais e pecaminosas (prostituição, feitiço, possessão demoníaca, assassinatos, constante separação de clãs e aldeias, etc), havendo por isso uma entidade espiritual maligna associada a ela que vive perseguindo desde Mbanza Lunzamba os eleitos e filhos de Deus, principalmente as ovelhas do aprisco da Igreja de Cristo congregados por Mayamona1. Daí a destruição de Mbanza Lunzamba há três séculos atrás (Séc. XVIII d.C.) 2, a semelhança do que sucedeu no tempo de Noé.

Na perspectiva teológica, Lunzamba é tido como um dos três principais fundamentos do surgimento do Tocoísmo3 e da crença escatológica sobre o desfecho do plano de Deus para a rendenção da humanidade, por ter sido o prenúncio do surgimento do Profeta Simão Toco para cumprimento da sua derradeira missão de Deus4 no mundo.

    1. Relação existente entre Nzamba de Nabokolo e Lunzamba de Namadungu

Fazendo uma incursão histórica à partir dos dados sobre o percurso trilhado pelos povos que se estabilizaram na região do Zombo, oriundos desde Nsanda A’zondo em Mbanza Kongo”, a mesma revela-nos de que após uma longa caminhada e terem atravessado baixas, rios e subirem montanhas, o soberano Tekele Nabokolo ao separar-se do ancestral Mbwenze, levou sua gente até a floresta de Vunda (descanço) e de lá veio construir a sua antiga capital denominada Mbanza Nzamba (elefante), sendo Mbanza Wembo wa Kibokolo e Mbanza Mfutila na Wembo (local onde foi construida a Missão Baptista de Kibokolo) suas aldeias satélites. Daquí se pode constatar que as tribos Nawembo e Namadungu da região do Lunzamba, terem fortes ligações hitóricas com as tribos de Wa Mfutila Nawembo Mpangazi Ntambakani. (Avelino Mbiyavanga 2016).

E isto leva-nos a concluir que existe na verdade uma relação lógica e etmológica entre a localidade de Nzamba e de Lunzamba, quer pelas suas afinidades histórico-culturais, como pelas ligações sócio-linguísticas.

  1. SURGIMENTO E CARACTERIZAÇÃO GEOGRÁFICA DE LUNZAMBA

    1. Seu surgimento e caracterização geográfica

Baseando-se nos depoimentos dos Anciãos Simão Lukoki (2014 e 2015) e Sebastião Kyongolo (2015), Mbanza Lunzamba foi fundada há mais de 300 anos pelos sobas Nkuma Makuta e Don Galasya Nzau (Garcia) e ocupava uma área de 11.972 km, possuindo 160 residências com uma população estimada em 2.940 habitantes, sendo este uma das razões que motivaram o Soba Mpetelo Nzokamenga a criar novas aldeias (aldeias satélites), nomeadamente Mbanza Selelé, Mbanza Tady, Mbanza Tumba, Mbanza Nzengeta, Mbanza Nkondo, Mbanza Makuta, Mbanza Nzau, Mbanza Kitenga e Mbanza Nsenga, algo que coincidiu com a recepção do penúltimo povo oriundo de Nzamba sito em Kibokolo na jurisdição de Bokolo dye Mlau (Nabokolo ou Kibokolo).

A quanto a sua projecção pelo ancestral Nkanza (Pedro Mumbela 1972:11) e posterior construção, Mbanza Lunzamba tinha duas divisões que se chamavam de Lunzamba baixo e Lunzamba alto, com a árvore Nsanda plantada no meio dele onde reuniam os sobados e anciãos para resolução dos seus assuntos (Simão Toco 1955:17)1. De referir que antes da chegada dos Zombo, a mesma teve os Bosquímanos ou «Mbaka» como primeiros habitantes, isto é, os «baixinhos» comumente designados nas lides Ngunga Ngele por Irmãos Kambutas1.

Actualmente, a localidade de Lunzamba com as suas típicas características, seus enigmas, tabús, mitos e cultos portadores de um modelo social pré-existente, situa-se num extenso vale no norte de Angola, Província do Uíge, Município de Makela do Zombo, limitada à leste/nordeste por Yuva/Kiwembo, Kimbata na fronteira de Kimpangu (RDC) e pelos rios Kinkele, Kimbungu e Kinzi; à norte por Mbanza Zulumongo, Sadi e pelo rio Malema e pela Missão de Ntaya que dista à 12 km, perfazendo mais de 20 km até a Vila de Maquela do Zombo; à noroeste pela montanha Kitumisiko, Mbanza Mpambu e mais além o Kilwangu Kye Makumbani; à sul por Malele e pelo rio Nzadi; à oeste a cerca de 3 km pela aldeia de Nzolo Tulumba.

    1. Rios, lagoas, florestas e montanhas que circundam a localidade de Lunzamba

Ao corroboramos com o Ancião Sebastião Kyongolo (2015), diremos que a localidade de Mbanza Lunzamba possuí vários rios, sendo os principais os rios Kinkele, Kimbungu e Kinzi. Para além destes rios, possui ainda as lagoas de Mansasa, Kilongo, Kibwatu, Dyumba e a de Soni que se encontra muito próximo da actual lagoa do Lunzamba. Diz a lenda de que a lagoa de Lunzamba possuí maiores bagres em todas regiões e vezes há, que os pescadores chegam de pescar bagres secos, na sua maioria sinalizadas com panos vermelhos e argolas (Kwawazolele Francisco 2013).

Quanto as florestas, Lunzamba possuí as seguintes: floresta de Lunzamba e floresta de Kisundi. Em relação as montanhas que a rodeia, temos a destacar a montanha de Kitumisiko, Nkoka, Kinkosi, Senga, Mango, Kelengenze, Kiwembo, Langa e a montanha de Mbanza.

    1. Aldeias circuvizinhas de Lunzamba

A localidade de Lunzamba antes da construção da estrada (lula lo Kongo), esteve rodeada pelas seguintes aldeias: Mbanza Yuva (a capital das seis aldeias seguintes) governado pelo ancestral Ndompetelo Mwabi, Mbanza Kiwembo, Mbanza Kimene-menekondo, Mbanza Dyumba, Mbanza Tavudi, Mbanza Landangu que está na origem do surgimento de Mayamona e Mbanza Kimbembi. Seguem-se as aldeias de Kimpangu (RDC), Kimbata, Sadi, Mbanza Mpambu, Kilwangu Kye Makumbani, Mbanza Zulumongo, Missão de Ntaya, Nzolo Tulumba e Malele ao sul.

4. A PROBLEMÁTICA DA DESTRUIÇÃO DE MBANZA LUNZAMBA E A EMERSÃO DA LAGOA COM O MESMO NOME.

    1. Factores que estão na origem do dilúvio de Lunzamba e de suas aldeias

Na verdade, somente um aturado trabalho de pesquisa desencadeado por pouquíssimas pessoas, permitiu que fossem acedidas informações sobre as acções divinas ocorridas na região e que visaram a materialização plena da decisão do Criador do universo em enviar seu Filho amado que se encarnou nesta parte inóspita do planeta terra, num momento conturbado e crucial da história da humanidade.

A destruição de Mbanza Lunzamba deveu-se fundamentalmente pelo facto da maldade ter tomado conta da sua gente e devido a recusa destes em acatarem os divinos apelos dos Mensageiros de Nzambi (Deus), face a pré-eleição desta localidade para cumprimento de missões que visa a consumação dos seus desígnios de redenção da humanidade no final dos tempos.

Logo, o pecado e a reiterada desobediência destes povos, motivada pela quebra da aliança com Nzambi estão na base da sua destruição, tendo o Senhor os castigados por meio da água, condenando-os ao desaparecimento. E com a única família de 04 membros salva do infortúnio, Nzambi celebra uma nova aliança para humanidade. A sentença divina foi executada pelo enviado de Nzambi que lá esteve e cumpriu com a sua missão.

    1. Narrativas sobre a emersão da Lagoa na localidade de Lunzamba

Todos os dados apontam pela descrição de narrativas que revelam ter havido intervenção divina sobre o infortúnio dos povos que habitavam Mbanza Lunzamba e suas aldeias satélites pelas razões acima evocadas, isto, após um cero periodo de ocupação territorial do Vale de Lunzamba.

Narrativa nº 01

A primeira narrativa sobre o dilúvio ocorrido em Lunzamba, foi a que recolhemos da literatura já existente e das cosmologias dos povos da região Zombo e Tocoísta, intimamente ligadas ao sucedido no extenso vale onde hoje existe a mítica Lagoa do Lunzamba. A mesma nos dá conta de ter ocorrido o seguinte:

Em tempos ídos, uma chuva torrencial terá provocado a inundação de uma localidade que englobava algumas povoações, tendo apenas sobrevivido da tragédia membros de uma única família. O infortúnio ocorrido no referido local (vale do lunzamba), gerou uma lagoa existente em Maquela do Zombo que é designada de Yanga dye Lunzamba «lagoa do lunzamba». Foi desta forma que Nzambi (Yave, Deus) decidiu castigar através de Nakumi (profeta Naúm) as populações das povoações aí desaparecidas, por causa da sua elevada malvadez. E Nzambi ao ter ordenado Nakumi para visitar as referidas povoações, este simulando a sua aparência e fingindo estar com sede, suplicou à todos moradores para que lhe dessem de beber, mas como exibia um corpo que se assemelhava a de um homem pobre, doentio, mal cheiroso, cheio de chagas e ranho, foi rejeitado, zombado, repelido e mesmo andando de casa em casa, apenas no fim da última aldeia encontrara uma adolescente que cuidava do seu irmão que o recebeu, deu-lhe água e comida com todo o carinho.

Depois de comer e beber, recobrou o seu normal aspecto e orientou à menina para que fosse chamar os seus pais que se encontravam na lavra, dizendo-lhes que Nakumi tinha um recado urgente para os transmitir. E quando estes chegaram, Nakumi dissera-lhes de que era um enviado de Nzambi a Mpungu (Yave) e que vieira para pôr a prova as populações destas aldeias, visto suas acções serem tão maldosas, ao ponto de Nzambi ter decidido extermina-los. E ordenara-os: ‘Tomai agora mesmo os vossos haveres e transportai-os para o topo do monte (indicara-lhes o monte Kitumisiko), porque estas populações, a partir de hoje não serão mais dignas de permanecerem neste mundo, assim como as aldeias não voltarão mais a existir’. E de seguida, fez cair uma chuva torrencial que inundou toda aquela localidade onde encontra-se hoje a misteriosa lagoa”. Naúm 2:1,8-10.

Narrativa nº 02

Uma segunda narrativa foi-nos descrita pelo Ancião Simão Lukoki e corroborado pelo Ancião Sebastião Kyongolo que nos relata o seguinte:

Há 250 anos atrás, Yave (Deus) ordenou o Anjo Gabriel a fim de visitar as populações daquelas regiões. O mesmo veio à partir do território da República de Democrática do Congo (RDC), através de Kimpangu e quando atravessou o rio Kinkele, a sua fisionomia e estado transfigurou-se. E sabendo ele que os homens da localidade possuiam coração duro, se fez passar por faminto, indo de casa em casa e de bairro em bairro pedindo água e mantimento, mas era rejeitado com violência, porque o seu corpo não oferecia condições dignas aos olhos dos homens, por apresentar-se magro, cheio de chagas, facto que atraiu crianças a sua volta, a fim de o zombarem e ridicularizarem.

Quando aproximou-se no final da aldeia de Selele à 3 km de Nzolo Tulumba, foi sentar-se justamente em casa do então conselheiro do Soba, conhecido na aldeia como Mbikudi (visionário), onde se encontrava uma adolescente aparentemente dos seus 12-14 anos que cuidava do seu irmão de 2 anos, que o recebeu e deu-lhe de beber água enquanto preparava o funje para a criança. Seguidamente, a menina convidou o estranho visitante mal cheiroso e com chagas, para que partilhasse da refeição com a criança. A princípio o homem tivera negado, mas como a menina conquistou a sua simpatia, em gesto de afeição, lá se pós a comer. Terminado a refeição, o homem pergunta a menina: ‘onde estão os teus pais?’ A menina respondeu que ‘foram à lavra’. Este volta a questionar: ‘é muito distante?’. Ela respondeu que “nem tanto”. No convívio das pessoas do mato, quando alguém diz não ser muito distante, é mesmo ali ou aqui, saibe-se de antemão que se trata de uma distância que pode distar de 5 a 9 km, ao passo que quando diz que acolá ou «e kuna», saiba que a distância é de 10 à 15km.

Daí, o homem disse a menina: ‘dê-me o teu irmão e vai chamar os teus pais. Diz-lhe que tem um senhor lá em casa e que não é de cá, que solicita com urgência a vossa presença’. Lá foi a menina chamar os seus pais, e quando estes chegaram em casa, o enviado apresentou-se e disse-lhe: ‘eu sou um envido de Yave. Vim para testar as populações destas aldeias, visto que devido as suas más acções, Yave decidiu banir toda esta geração da face da terra e vós fostes achados dignos diante dos olhos de Yave. Pegam agora nas vossas coisas e vão em direcção ao monte Kitumisiko1, porque à partir de hoje este povo vai desaparecer no mundo e restará apenas a sua história que contareis de geração em geração. Não sintais medo, porque há-de cair uma chuva que inundará as aldeias, mas vós permaneceis aqui nesta montanha e não ireis molhar com a chuva’.

Após a família ter subido ao monte Kintumisiko, surgiu um grande temporal que arrazou as casas, troncos, utensílios e tudo a sua volta, e a terra iniciou a estremecer-se, e de seguida a chuva começou a cair. Inicialmente foi uma chuva serena, depois começou aumentar e por fim já era uma chuva torrencial, acompanhado de trovadas (bandani), faíscas, e pedras (chuva de granísio) – os rios Kinkele, Kimbungu e Kinzi encheram-se, e transbordaram suas águas para Lunzamba e todo este filme mistérioso foi acompanhado pela família na presença o Anjo Gabriel. Depois de terminar o infortúnio, o Anjo ordenou aos membros da família para que ajoelhassem e os abençoou, e de seguida sentiram uma brisa. E tendo este se despedido da família, tomou a sua vara e pós-se a andar por detrás da montanha Kitumisiko em direção ao Congo (RDC). Posteriormente, a família fazendo uma curva acrobática, dirigiu-se até a localidade de Landangu onde se fixaram”.

Sebastião Kyongolo (2015), actual chefe dos Namadungu, afirma que é nesta família onde nasceram os avôs maternos do Profeta Simão Gonçalves Toko «Mayamona», nomeadamente: Ndona Landu e Mfumu Mbala Mpova e deste casamento surgiu o nascimento de três filhas, a saber: Ndona Ngundu, Ndona Mvindu e Ndundu Nsimba. Quando nos debruçarmos sobre Landangu e Zulumongo seremos mais profundos neste aspecto.

    1. Mitos e tabús que envolvem a localidade de Lunzamba

É um dado acente e de acordo com os levantamentos que estão sendo feitos sobre o local, Lunzamba cada dia que passa vai se tornando envolto à enigmas, mistérios, mitos e tabús, alguns deles datam de centenas de anos e já fazem parte de todo o aparato cosmológico sobre o universo destes povos. Para os moradores de Nzolo Ntulumba, Yuva/Kiwembu e Ntaya, muitas maravilhas têm acontecido na lagoa de Lunzamba, tais como: Roupas estendidas sobre a superfície das águas, galos a cantarem, homens batucando, pescas de bagres já fumados e as vezes com laços vermelhos em sua volta, a partir de Yuva/Kiwembu contemplarem casas na lagoa e tantos outros sinais enigmáticos. As vezes as pessoas que passam nas proximidades da lagoa Lunzamba, deparam-se com sinais místicos.

Existem também várias restrições que sustentam as lendas e o mito sobre lunzamba. As populações locais dizem que apenas as pessoas de coração limpa podem de forma segura visitar aquela lagoa, de modo a evitar-se acidentes misteriosos. Existe muito medo das pessoas frequentarem tal localidade, sob pena de lhes acontecer alguma desgraça. Actualmente, as suas águas têm sido utilizadas pelos Pastores, curandeiros, místicos e sobas para diversos fins ritualísticos.

    1. Afinidades com Simão Toco e o Tocoísmo

É bem sabido pelos Anciãos da Igreja “Tocoísta”, que o misterioso Lunzamba está intimamente ligado a vida e obra do Profeta Simão Gonçalves Toco. E desde Leopoldville nos anos de 1948-1949 até 1982 a quando da preparação da sua deslocação ao norte de Angola com 431 pessoas, que ele sempre revelou isto aos seus directos colaboradores. Razão pela qual em Setembro de 1982 em Luanda, na altura da resolução dos conflitos do Ntaya, ele questionou-os e disse-lhes: Aquele lugar onde vos coloquei, que lugar é aquele?”. Os irmãos e Anciãos que integravam as duas Comissões do Ntaya (Esi Ntaya e Esi Colonato) responderam: “Estamos na fonte do Lunzamba”. Pergunta novamente: “O quê que este Lunzamba foi no passado?”. Disseram-lhe: “Foi uma aldeia”. Este replicou: “E agora, o que é hoje?”. Responderam-lhe de que “é uma lagoa”. Por último, Mayamona advertiu-os:Cristo é muito misericordioso. Porque senão, o Ntaya deveria mergulhar-se na água tal como o Lunzamba”. E a prova mais que evidente deste fenómeno sobrenatural é a fonte do SOMBO que surgiu no Ntaya depois deste encontro, para saciar a sede dos Esi Colonato que viram-se privados de água pelos Esi Ntaya devido o conflito que se instalou no Ntaya aos 19 de Setembro de 1982.

    1. Visão cosmogónica sobre Lunzamba

Presentemente, na cosmologia das populações das aldeias circuvizinhas da lagoa lunzamba, a exemplo de Nzolo Tulumba, Yuva/Kiwembo, Kiluangu, Kimbembi, Kimbata e outras, incluive as da RDC, a volta dos mistérios desta lagoa criou-se novos elementos mitológicos que dão conta de que “o futuro do mundo dependerá do que irá acontecer quando as águas de lunzamba e do pequeno rio Kinkele se ligarem”, cuja ravina em torno do rio Kinkele vai abrindo passagens em direcção a Lunzamba. Existem vários tabús, ritos e cultos à volta desta lagoa e que dão suporte ao mito.

Segundo nossos informantes na localidade de Yuva/Kiwembo (soba) e de Nzolo Tulumba, Osiswa Maria e Kwawazolele Francisco, disseram-nos de que falta pouco menos de 30 metros para que as águas de Lunzamba e de Kinkele se juntem (via Google é bem visível a grande ravina que se abre em tornos dos mesmos), referindo de que “é na localidade de lunzamba onde se encerra o mistério do futuro do mundo, e o dia em que as suas águas ligarem-se com à do rio Kinkele, não se sabe ao certo qual será o desfecho da humanidade. É no Lunzamba onde se encontra a chave do desenlace futuro do mundo, pois, tudo está relacionado com Simão Toco, o homem que Deus enviou entre nós e que foi enterrado no Ntaya”.

  1. IMPORTÂNCIA QUE SE REVESTE LUNZAMBA PARA O TOCOÍSMO

    1. Quem se identifica como Lunzamba e persegue os Tocoístas

Como atrás já nos debruçamos sobre a acção imptuosa do maligno na localidade e que está na origem da destruição de Mbanza Lunzamba, alguns Anciãos da Igreja defendem que existe uma entidade espiritual maligna (demónio) que auto-identifica-se como Lunzamba, mas que procura contrapor a vontade do Criador, a fim de travar a marcha da Igreja de Cristo e os propósitos de Deus na humanidade. Por isso vive perseguindo os filhos de Deus, fazendio-se presente em todos os lugares onde se encontram os verdadeiros Tocoístas. Ele persegue os eleitos de Deus para destruir e ofuscar a Estrela da Alva «Ntetembwa Nkielelo» que se encontra nas suas testas.

Que o Lunzamba com suas entidades espirituais benignas está em toda a parte onde Simão Toco e os Tocoístas estiverem, isto é uma realidade dominada por eles. Mas também sabem que há uma entidade espiritual maligna que os acompanha e por sua causa tem ocorrido situações que embaraçam a vida dos Tocoístas. Pela negativa podemos divisar:

  1. Lunzamba: local situada em Makela do Zombo, que se transformou em «Yanga dye Lunzamba» onde dizimou milhares de pessaos;

  2. Léopoldville: a lagoa de Lunzamba está situada em Nsona-Bata, tomando o nome de SOMBO, local onde nos anos 50 invocou-se o espírito que lutou contra a Igreja na época;

  3. Colonato do Vale do Loge: o Lunzamba está situada à escassos quilómetros do aerodromo Albano Cunha, local onde Ancião Nkanza nos anos 50 realizou o ritual para surgimento do espírito de madogosi que posteriormente apossou-se no Ancião Ntumissungu Cardoso (Aroni/Arão que conjutamente com Simão Toco, iniciarão o trabalho de ressurreição dos mortos no Kanga dye Naim, antes da mesma estender-se para todo mundo)1;

  4. Sul de Angola: Caconda, local que está na origem dos terríveis acontecimentos contra Simão Toco, sua esposa, os Tocoístas e o surgimento da dissidência na Igreja do grupo de João Mankoka na Baia dos Tigres e Luanda, e que aderiram às testemunhas de Jeová2, uma acção desencadeada por John Cook em 1955;

  5. Luanda: Lunzamba esteve situado no local onde hoje é a Cidadela Desportiva. No passado, foi uma lagoa enorme – local onde em 1954 se realizou ritos de invocação e que estão na origem do mau comportamento de alguns Anciãos de Luanda;

  6. Uíge: situado na localidade de Quitexe na famosa lagoa de feitiço. Até aqui não temos nenhum dado que se relaciona com os Tocoístas;

  7. Béu: a lagoa de Lunzamba está situada na aldeia de Mbanza Mbata “Kimakondo”, aldeia natal de Dona Maria Rosa Toco. Aí a lagoa toma o nome Vomba e localiza-se ao lado do monte Ngunguti, local onde foi morto Tocoístas em 1963 (Mwana Ngangu 2015);

  8. Ntaya: na missão de Ntaya, o Lunzamba tem três fontes – as mesmas foram utilizadas por Pedro Massukinini e João Zino à quando da invocação de 7.000 espíritos imundos que arruinaram a Igreja;

  9. Ainda nos relatórios de Ntaya e Luanda podemos ler que em 1982, o Ancião Kutendana João se apercebendo do poder satânico desta lagoa, foi a Lunzamba na companhia de Ntemu António Kissenda e de alguns Anciãos Esi-Ntaya, onde realizou ritos no túmulo do velho Ndombele Luvumbu (pai de Simão Gonçalves Toco), e que está na origem das tempestades que assolaram a Igreja nos 33 anos seguintes (1982-2015);

  10. Em 2000 a mesma lagoa recebeu o então Vate Afonso Nunes com a sua comitiva;

  11. E até hoje, a rumaria na localidade contínua.

    1. Termos de comparação diluviano visto à luz da bíblia

Comparar o infortúnio de Lunzamba com o dilúvio de Noé, só pode ser feita por analogia em termos espirituais, visto serem duas realidades contextualmente diferentes, mas que apresentam dados muito semelhantes. Senão vejamos: 

  1. No passado, Deus envia Noé que resgata a única família composta por 08 membros salva do dilúvio. Em Lunzamba, Deus envia o Mensageiro que salva do dilúvio igualmente uma única família de 04 membros1;

  2. O pecado e a reiterada desobediência do povo, estão na base dos dilúvios;

  3. Desobedecendo, Deus castigou-os por meio da água, condenando-os ao desaparecimento;

  4. No passado, Deus castiga o povo por intermédio de uma chuva que durou 40 dias. Já nos nossos dias, a chuva em Lunzamba durou apenas 5 dias;

  5. Com os salvos, Deus celebra uma nova aliança eterna para a humanidade;

  6. Aos sobreviventes, Deus os manda multiplicar.

    1. A transformação do mito sobre Lunzamba em movimento messiânico Zombo

Tal como no mito sebástico2, a espera messiânica dos Zombo foi marcado por um longo periodo de angústia, pesar, sofrimento, pobreza, escravatura, privações e mortes, até o mito sobre Lunzamba3 se transformar em 1943 num movimento messiânico Zombo que emergiu em Leopoldville (Kinshasa) à partir do Coro de Kibokolo e que veio abalar as estruturas do império Português em Angola. A sua transformação de mito para movimento messiânico (denominado por Tocoísmo) 4 não foi fruto do acaso, pois, o mito de lunzamba ao ser portador de um modelo social pré-existente, com seus tabús, ritos e cultos, está na base da configuração do arcaboiço das instituições da sociedade pré-colonial Zombo.

O periodo da espera messiânica dos Zombo que termina em 05 de Abril de 1943 quando Simão Toco em Leopoldville (Congo Belga) cria o Coro em torno dos vários emigrantes Zombo e que foram lá parar em busca de melhores condições de vida, de sucego e paz, face as acções da colonização que devastara suas terras de origem e que alterara a ordem social Zombo. E o movimento messiânico emerge nestes refugiados marcados pela crença da vinda de um libertador (espera messiânica5) e por vários aspectos messiânicos, onde se evidencia a necessidade de ocorrências de transformações sociais expressas na sua cosmovisão resultante do mito de carácter transcedental, que em 1943 se condensara com as narrativas profeticas

 

obre Kimpa Vita (1706), Simão Kimbangu (1921) e de vários outros movimentos proféticos surgidos naquela localidade que anunciavam o surgimento de um poderoso profeta no Kongo, que desencadearia um verdadeiro processo de mudança social tendente a pôr fim a dominação colonial e missionária.

Daí não termos como negar a teoria sociológica de Queiróz (1965) sobre a transformação de mitos pré-messiânicos (no caso, o mito sobre o lunzamba) em movimentos messiânicos (Tocoísmo)1, permitindo-nos aferir deste modo como a crença mitológica lunzambista dos Zombo enquanto “força latente e um remédio aos males sociais dos Zombo”, se transformou e faz despoletar na sociedade colonial o Tocoísmo, sendo um movimento de protesto à situação colonial.

    1. Sua relevância para o Tocoísmo.

Lunzamba representa-se como sendo de uma importância preponderante na História Geral do Tocoísmo e em particular do messianismo em Angola, pois, o seu espaço até hoje conserva factos, vestígios e memórias relevantes para o Tocoísmo, a saber:

  1. Está no fulcro do surgimento da Igreja de Cristo, do Tocoísmo e dos Tocoístas, contendo em si a chave do desenlace futuro da humanidade, por encerrar o mistério do porvir e do desfecho do maior trama da humanidade: a crença sobre o desfecho do plano de Deus para a rendenção da humanidade;

  2. Lunzamba foi o prenúncio do surgimento do Profeta Simão Gonçalves Toco para cumprimento da missão divina;

  3. Faz parte da Geografia Sagrada da Cidade Santa do Grande Rei que será erguida no norte de Angola;

  4. Faz parte do PATRIMÓNIO CULTURAL DO TOCOÍSMO E DA HUMANIDADE;

  5. Para os Anciãos, uma entidade espiritual maligna se identifica como Lunzamba e se transformou numa força espiritual diabólica que desencadeia terríveis batalhas espirituais contra a Igreja de Cristo e o povo eleito «Avauki-Ampungu» por Deu.

Para as populações Kongo da região Zombo de Angola e RDC, Lunzamba reveste-se de suma importância para suas vidas e crenças, pois, não é tido somente como o fulcro do surgimento do Tocoísmo, como também é prova mais do que evidente da preleição divina dos Zombo para o cumprimento da missão de Deus na humanidade2 e que actualmente relacionam-no com o Profeta Simão Gonçalves Toco, aquele que Nzambi enviara junto do eleito povo para os salvar e curá-los de todos os males sociais. 

Embora termos sido um pouco exaustivo na abordagem do tema, pensamos termos esgrimido os principais argumentos que configuram a realidade aqui exposta sobre o mítico lunzamba, não obstante não ser um trabalho acabado e encontrarmos dificuldades em uniformizar a periodização dos factos mais estruturantes ocorrido neste grande vale.

Mas tudo que dissemos, são coisas espirituais e de natureza antropológica e que somente podem ser discernidas espiritualmente ou no âmbito da filosofia africana.

Bem haja Lunzamba no Tocoísmo!

Centro de Estudos Tocoístas em Luanda, aos 28 de Maio de 2017.

1. O Centro de Estudos Tocoístas, é uma Instituição de Investigação Tocoísta que tem por finalidade: a divulgação periódica de estudos e trabalhos de investigação Tocoísta, a promoção do intercâmbio das fontes, o aprofundamento de conhecimentos científicos e de saberes Tocoístas, a realização da correcta interpretação das dinâmicas actuais do Tocoísmo, a caracterização do Tocoísmo e do pensamento contemporâneo da intelligentsia Tocoísta, a realização de pesquisas especializadas sobre as Comunidades e realidades Tocoístas e suas problemáticas, dentre outras acções. E no âmbito dos desafios que se propõe alcançar no periodo de 2017-2020, como pontapé de saida publicará 08 séries de 08 artigos sobre Realidades Tocoístas, cuja abordagem e problematização dentro do Universo Tocoísta, já se mostram como assuntos inadiáveis.

Consultar o documento original: Lunzamba na história do Tokoísmo

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