Mbanza Kongo corre o risco de ser considerado “património em perigo”

Fotografia: Garcia mayatoko| Edições novembro | Mbanza Kongo

Por João Mavinga

Trata-se de um desafio para as autoridades angolanas, pois o não cumprimento do acordado pode colocar em risco o feito alcançado por Mbanza Kongo, que implicou muitos sacrifícios consentidos por todos os envolvidos no projecto que durou 20 anos.

A Unesco orientou a criação de condições que garantam o funcionamento eficaz dos sectores da educação, saúde, energia eléctrica, da rede viária e, concomitantemente, exigiu a transferência, até ao próximo ano, do actual aeroporto para fora do perímetro considerado “zona tampão” do Património Histórico-cultural da Humanidade. Ficou, igualmente, estabelecida a realização de estudos científicos, através de escavações arqueológicas, para aprofundar o conhecimento sobre a antiga cidade.

O Jornal de Angola sabe que a construção do novo aeroporto de Mbanza Kongo, por razões financeiras, apesar da declarada vontade política, já acumula um atraso de dois anos.

As exigências da Unesco estão, igualmente, relacionadas com a preservação do cemitério onde repousam os restos mortais dos antigos reis do Kongo, da árvore secular conhecida por Yala-Nkuwu, que segundo o mito popular verte sangue quando sofre corte, numa clara alusão à coloração vermelha da sua seiva, e ainda das 12 fontes de água encontradas na circunscrição pelo seu fundador, Nimy a Lukeny, no século XIII, e que simbolizam as 12 tribos do antigo Reino do Kongo. A descoberta dessas 12 fontes de água, segundo reza a história, convenceu Nimy a Lukeny a fixar-se na região, a qual veio posteriormente a ser declarada capital do Reino do Kongo. De lá para cá a cidade teve cinco nomes que a identificavam como terra do Kongo.

Antigos nomes da capital

O responsável da Cultura na província do Zaire, Biluka Nsakala Nsenga, faz recurso aos arquivos para detalhar os cinco nomes que identificavam a região no decurso do tempo. Conta que a cidade capital do Reino do Kongo chamou-se primeiro “Mpemba”, que significa “província”, depois “Mkumba Ungudi”, que traduzido significa “cordão umbical e traço de união entre os povos”, posteriormente “Kongo dia Ngunga”, em referência às 12 igrejas existentes. Seguir-se-ia o nome São Salvador do Kongo, que é já uma expressão da era colonial e, finalmente, Mbanza Kongo da era de Angola independente, que identifica a região dos Kongo no dialecto da terra.

Neste momento, um conjunto de projectos está na forja, com vista a aumentar o número de estabelecimentos hoteleiros e restaurantes. “Vamos ter espaços que vão preparar  comida africana, como a nossa kizaka, o feijão macunde, o gergelim, a ervilha, entre outros”, garante Biluka Nsenga, para quem, entretanto, ao turista o que interessa são os “factos atraentes de uma realidade histórica” e não prédios, que “nos seus países até são melhores”.

“Cá interessa-lhes ver o Kulumbimbi, que nunca viram em local algum, um Nhala-Nkwo, que é a árvore misteriosa secular que brota sangue com golpes de catana. São os mitos que atraem os turistas”, explicou.

A Évora de Angola

Biluka Nsakala Nsenga valoriza a consagração da cidade como Património Cultural da Humanidade e cita alguns historiadores, segun-do os quais os portugueses, quando chegaram a Mbanza Kongo reconheceram  o nível de beleza e organização que ostentava.

“A nossa capital do Zaire era uma cidade muito bonita, era comparada com a cidade portuguesa de Évora na época. Para quem conhece Évora, pode imaginar como era brilhante a nossa capital do Zaire antigamente”, elucida Biluka Nsenga, para quem as três mesas redondas que serviram de antecâmara à reunião de Cracóvia permitiram aos especialistas da Unesco desmistificar os mal entendidos diante da realidade actual do município sede do Zaire do ponto de vista económico e social.

Outra exigência crucial da Unesco, que deve ser honrada este ano, tem a ver com a remoção das antenas da Unitel e da Rádio Nacional de Angola localizadas na zona nobre da cidade, além da entrega à Unesco do Plano Urbanístico de Mbanza Kongo, onde constem as regras para a construção do Centro Histórico da Cidade e da Zona Tampão. “O plano urbanístico vai ser regulamentado pelo Ministério da Administração do Território”, segundo informação prestada pelo historiador Biluka Nsenga.

O encontro de Cracóvia recomendou ainda a conservação das ruínas do Kulumbimbi (a primeira igreja construída ao Sul do Equador – 1491) e do Museu dos Antigos Reis do Kongo, antigo tribunal tradicional. A classificação de Mbanza Kongo aconteceu numa altura em que o Executivo aprovou para a cidade histórica uma carteira de acções de capital importância no domínio da energia eléctrica e no sector das águas e saneamento e das vias urbanas, além dos sectores da educação e saúde.

“Não houve margens para dúvidas, sobre o crescimento de Mbanza Kongo”, assevera a nossa fonte, que tece elogios ao Executivo por ter criado, em tempo oportuno, as condições que garantiram a conservação e preservação do valor excepcional da cidade de Mbanza Kongo.

Biluka Nsenga reitera que a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade deveu-se ao respeito pelo seu valor universal excepcional e por se manterem vivos os vestígios históricos, que ainda podem ser visualizados a “olho nú”. “Daí que a Unesco exigiu a Angola a conservação e preservação do Centro Histórico da Cidade, bem como a transferência do actual aeroporto para fora da cidade”, explica Biluka Nsenga.

O historiador desdramatiza a situação e tranquiliza a população com o facto, em seu entender, do processo “estar a caminhar na normalidade”. Uma normalidade duvidosa, dizemos nós, face ao que se constata no terreno e ao facto de ser curto o tempo disponível para tarefas tão gigantescas como, por exemplo, a transferên-cia do actual aeroporto de Mbanza Kongo para a localidade de Nkiende, 33 quilómetros distante.

O país corre mesmo o risco de não cumprir as exigências estabelecidas pela Unesco. Caso isso aconteça Mbanza Kongo entra na lista dos bens patrimoniais da humanidade em perigo. Biluka Nsenga cita como exemplo a República Democrática do Congo com oito bens classificados como Património Mundial, dos quais seis estão na lista de bens patrimoniais mundiais em perigo, por violação dos requisitos exigidos pela Unesco, muito por causa dos conflitos armados e da devastação ambiental.

Gestão Participativa

Sobre o tema em questão, muito recentemente (neste mês de Janeiro) os membros do Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo reuniram-se, para entre outros propósitos avaliar a questão da transferência do actual aeroporto da cidade para a comuna do Nkiende. O assunto é muito badalado por estas bandas de Mbanza Kongo.

Até ao momento foram realizados trabalhos preliminares de limpeza e desminagem à volta do perímetro do futuro  aeroporto, faltando a efectivação, ao nível do Executivo, dos acertos de ordem técnico-financeira para definição do início das obras.

“O Comité de Gestão Participativa e o governo provincial do Zaire estão de mãos dadas com os órgãos que vão realizar os trabalhos da remoção das antenas da RNA e da Angola –Telecom”, esclarece o director provincial do Zaire da Cultura.

Os membros do Comité de Gestão Particpativa aguardam pela deslocação a Angola das equipas da República Democrática do Congo, Gabão e do Congo Brazzaville  para também tratarem do dossier sobre a construção do novo Museu do Reino do Kongo, segundo informação da nossa fonte.

Festi-Kongo

De acordo com Biluka Nsenga, o Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo, que inclui, além de Angola, a RDC, o Congo Brazzaville e o Gabão, em reunião presidida pela secretária de Estado angolana da Cultura, Maria Piedade de Jesus, decidiu-se pela realização anual, em Mbanza Kongo, do Festi-Kongo, um festival de artes, música, culinária, usos e costumes do povo Kongo. Ao que soubemos  o primeiro Festi-Kongo realiza-se em Junho deste ano. Mês em que se realiza também a IV Mesa Redonda sobre o antigo Reino do Kongo.

Quanto às futuras instalações do Comité de Gestão Participativa do Centro Histórico de Mbanza Kongo, Biluka Nsenga garante que o Governo provincial já entregou a estrutura ao Ministério da Cultura.

“A estrutura mereceu obras valiosas de restauro, faltando apenas, neste momento, o mobiliário e a instalação dos aparelhos de ar condicionado”, explica o responsável provincial da Cultura,que acrescenta: “Está garantido, dentro do orçamento da província, a intervenção nas ruínas do Kulumbimbi e também no Tadi Dia Bukikua, pedra virada, outro monumento classificado como sítio histórico, localizado no antigo Palácio Real”.

Via JA

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