Mbianda Ngunga, herói desconhecido da resistência contra o colonialismo em Angola

Makesa aoserviço do Soba Mbianda Ngunga

Por Honoré Mbunga

Mbianda Ngunga (século XIX-1945) nasceu no Kipasa, na actual região do Nsoso, na parte Leste e Sudeste do município da Damba, por volta da década de 1860. Ele foi soberano do Nsoso na época em que os portugueses iniciaram, a partir de 1911, a campanha militar para a ocupação da região Damba-Pombo.

As irregularidades e violências com que se cobravam os impostos, no antigo Kongo português, deixavam sempre as populações locais irritadas e revoltosas. Assim sendo, quando os portugueses entraram e ocuparam Nsangui (sede da Damba), ele acompanhava, atentamente, os acontecimentos naquela parte da Damba.

Quando informado pelos seus homens do avanço da coluna de expedição militar dos portugueses, Mbianda Ngunga declarou: «Aqui na minha zona, eles não podem chegar!»41. Com a ocupação da Damba, ele fez um recuo estratégico, para as zonas mais a Leste (Pombo), convidando os outros soberanos da região para uma aliança mais forte, contra os portugueses. Era uma respos- ta contra as violências praticadas pelos estrangeiros, no seio das populações. A partir de 1913 ele chefiou uma guerra, através da qual conseguiu congregar muitos chefes das regiões, à sua causa: Sanza Pombo, Kimbele, Buengas, Kuilo-Mfuta, Damba, Zombo, até às áreas do Kwango. Ele conseguiu isolar a Damba, fechando os caminhos que levavam até lá, promovendo o boycott dos produtos vindos da europa.

Contudo, ele estava sempre em contacto com os chefes das outras aldeias da Damba (Nzau Mbákala, Nekunje, Inhungu, Mbongo Ndom- be, Ndualu Mbuta e Nkama-Ntambu). Este acto paralisou completamente o comércio na região, ocasionando o enfraquecimento das receitas arrecadadas, provindas das alfândegas e dos impostos de cubata. Um documento do Gover- nador do Distrito do Kongo (em Cabinda), enviado ao chefe do Estado-Maior de Luanda, fala do «estado de enfraquecimento em que se encontra a força que guarnece os postos da Capitania-Mor da Damba, bem como os que foram mon- tados recentemente pela coluna de operações ao Pombo e Sosso»42. (sic)

É esta coligação dos povos do Nsoso, dirigida pelo próprio Mbianda Ngun- ga, que infligiu uma severa derrota à coluna de operações militares portugue- sas, em 1913. Sobre esta coligação, José Cardoso escreveu o seguinte:

«A coligação dos povos do Sosso contra a capitania-mor representava maior gravidade do que a insurreição do Bembe, não só pelo seu próprio as- pecto, como também pela grande densidade de população dos povos amo- tinados […]43.»

Apesar de terem levado consigo muitos soldados, recrutados em diversas áreas (Luanda, Ambrizete, Soyo, Mbanza Kongo, Madimba, Cabinda e mesmo voluntários das localidades submissas de Maquela e Damba), muitos portu- gueses ficaram no campo de batalha, o que obrigou o comandante a recuar. Os portugueses foram simplesmente derrotados no Pombo.

Num documento confidencial, datado de 19 de Outubro de 1913, emitido pela capitania-mor da Damba, o relato da derrota resume-se nas seguintes frases do capitão-mor ao chefe da Secretaria Militar, em Cabinda:

«Nunca vi, nem imaginei, que houvesse, tropa tão ordinária; sendo de admirar que, com semelhantes guerreiros, a coluna tenha sofrido uma for- midável derrota44.»

Destes mesmos confrontos com os povos do Nsoso, René Pélissier escreveu o seguinte:
«Durante três meses, a penetração portuguesa para o Leste da Damba deparou com uma resistência que desmentia a reputação militar dos Bakongo. Depois de armazenar 2000 toneladas de pólvora e 10 000 espingardas entre os anos de 1911 e 1913, os Sossos bateram-se tão bem no Pombo que conseguiram matar o capitão Praça e um sargento45.»

Segundo os velhos que entrevistamos no Nsoso, foi após uma preparação de cerca de dois anos, que os Portugueses voltaram. Porém, levavam consigo mais armamento pesado, à procura de Mbianda Ngunga. Foi em vão, porque nunca o apanharam. Na verdade, após ter constatado que foi traído por al- guns dos seus homens e, sobretudo com a morte do seu comandante adjunto, Mbianda Ngunga começou a recuar, evitando todo o resto da sua existência de ser localizado e apanhado por esses estrangeiros. Para não ser humilhado, ele iniciou a sua longa viagem, para «lugares seguros», dentro das matas vir- gens. Na sua passagem ele fundou, na região dos Buengas, duas aldeias que ele próprio baptizou de Kimbianda-Kumbi e Kimbianda II. Foi nessas áreas que passou os seus últimos dias da vida.

As revoltas de Mbianda Ngunga tiveram grande impacto no seio da co- munidade local, assim como em toda a parte Leste da região do Distrito do Kongo. Com efeito, Mbianda Ngunga escolheu o momento propício; a revolta de Álvaro Buta, para desencadear o seu combate independente. Na verdade, a guerra de Mbianda Ngunga não foi a extensão da revolta de Álvaro Buta. Apenas o fez coincidir porque ele sabia que iria ser mais difícil aos invasores estrangeiros levarem duas frentes ao mesmo tempo. Aliás, sobas de outras regiões também se aproveitaram da mesma situação, para atacarem os postos portugueses. Daí, muitos autores falarem do alastramento da revolta de Álva- ro Buta, para muitas regiões do Distrito do Kongo.

São as revoltas de Mbianda Ngunga que provocaram o primeiro êxodo massivo das populações, para o vizinho Congo Belga (actual RDC). Mbianda Ngunga foi um dos principais impulsores da estratégia aplicada pelos sobas da região da Damba, que consistiu no abandono, pelas populações, da área ocu- pada pelos estrangeiros, mas continuando a atacá-los, tornando assim difícil a administração colonial. Além desta qualidade de estratega, Mbianda Ngunga foi um bom diplomata.

Mbianda Ngunga nunca foi apanhado pelos europeus e nunca aceitou ficar numa área sob jurisdição dos estrangeiros. Ele foi uma grande figura da resistência, nas regiões da Damba, Pombo, Buengas, Maquela do Zombo e outras mais a Leste, conforme os textos reproduzidos a partir dos diferentes do- cumentos que tiramos das caixas do Arquivo Nacional de Angola, ilustrando a ocupação da região e a resistência das populações locais.

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