Mukanda, Longo – Escolas Iniciáticas.

imagem simbólica!

Por Camilo Afonso Nanizau Nsaovinga

A mukanda ou longo são as escolas iniciáticas de formação do homem. Têm sentido teórico prático, pedagógico e ético-moral utilizados no mundo bantu e não só. Elas destinam-se à formação e instrução dos jovens para a vida na e para a Comunidade.

O fim apontado é o da aprendizagem de todo o saber e transmitidos de geração em geração. É a primeira escola do início da socialização da criança. É uma escola virada para a vida. A raiz da mundividência é a vida. A vida encontra-se presente no nosso saber em formas inumeráveis e, no entanto, mostra por toda a parte os mesmos rasgos comuns. (DILTHEY, 1992, p. 111).

Segundo Oscar Ribas, escritor angolano, ao referir-se aos iniciados, escreveu: Todo homem depois da circuncisão passa a ser considerado verdadeiro membro da sociedade e, até ali, como simples criança. A circuncisão deixa sempre, durante a vida inteira, nos operados, certo espírito de camaradagem e de associação, ajudando-se uns aos outros em caso de necessidade. (RIBAS, 1197, p.182-183).

Para os bantu, trata-se do espaço vital para a formação do Homem, é o início da verdadeira socialização Bantu.

Esta iniciação completa-se com os seguintes ritos sucessivos: separação da família e da comunidade, circuncisão, reclusão num lugar reservado (acompanhamento aberto na selva), situação regional, ressureiçãoregeneração e saída – regresso à aldeia com a reintegração na comunidade na qualidade de Homem novo, renascido. Situações, que por estarem carregadas de emoções, mistério, dramático, religiosidade e alegria, originam uma vivencia psíquica que marca e determina para toda a vida o Homem Bantu. (ALTUNA, 1978, P, 280).

Várias têm sido as interpretações da circuncisão, fundamentalmente, todas elas resumem-se nos princípios de asseio, higiene e moral, sinal de virilidade masculina. Para os Bantu, a razão primária da circuncisão é tornar o homem absolutamente progenitor, guarda do sigilo e dos princípios da vida, respeitador e continuador dos seus ancestrais, do amor e respeito que se deve às pessoas adultas e velhas. Ele deve ser chefe, garantindo a justiça e a tranquilidade, gestor da comunidade, da família e defensor dos seus entes, da sua população e dos seus sogros. Daí a importância das autoridades tradicionais e de outras entidades da comunidade, na formação das novas gerações e da passagem do testemunho à escola iniciática.

Para a mulher bantu, o rito da puberdade, que é o Efiko, Efundula, a Casa das Tintas, Nkumbi, Kikumbi ou Ciwila, é a escola da formação e da instrução da mulher. Nela aprende-se a ser mulher: mãe, educadora, responsável pelos cuidados dos filhos, das pessoas adultas, o respeito que se deve aos sogros, da economia doméstica, do sigilo e do auxílio que presta às pessoas mais velhas da comunidade e do respeito pelo estatuto social, adquirido de muher digna e exemplar no seio da sua Comunidade. A iniciação feminina tem um papel valorativo da mulher, contrariamente ao que se apregoa, em como este acto contribuí e empurra à jovem menina para a prostituição. O que é realmente falso. A partida em África nunca foi descrita uma situação da existência de prostituição e praticada pelas jovens iniciadas. A especulação que se faz dela, é desta ter regras próprias e de muito sigilosas, que não podem ser transmitidas a nenhuma menina que não tenha passado pela iniciação feminina. A falta de estudos científicos sérios sobre esta escola iniciática feminina, em Angola conduz a este tipo de especulações falciosas. Normalmente, a idade para participação nos ritos de puberdade, varia de região para região, sendo para os rapazes de dez aos quatorze anos e, para as raparigas desde o início da primeira menstruação ou dos nove aos quinze anos ou mais. Na atualidade e face ao modernismo os ritos são feitos no período de férias escolares, que ficou encurtado pelas novas condições de vida no meio urbano e rural.

Esta iniciação é descrita em várias etapas sucessivas que marcam a vida de um homem, a saber: nascimento, puberdade, casamento e morte, e, adquire uma importância fundamental na vida constitutiva e organizativa da comunidade. Porém, só ela a situa no lugar religioso, social
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e ético-moral, a torna apto para seus direitos e responsabilidades, permitindo-lhe circular sem reservas e traumas, com eficácia na pirâmide vital interativa.

Os ritos de iniciação são executados por especialistas de idoneidade reconhecida pelos anciãos da comunidade, o nganga-longo ou nganga-mukanda, nkanga itapa, nganga nsiabula o mestre da circuncisão. O local onde decorre a circuncisão tem o nome de Kimpasi, Kayidi, no meio da floresta. A floresta escolhida é a recriação do ventre materno, onde os jovens não podem ter contatos ou serem visitados pelas mulheres. Este espaço é interdito às mulheres. Por ser um local sagrado, e somente para o ritual masculino. E, para cada uma das especializações, ofício ou cargo, exige-se uma iniciação adequada. Por exemplo, o culto destinado aos maxixe, akixi, kisokolo (mascarados), aos Ciganai, da investidura dos chefes, da magia, do guerreiro, do curandeiro, da curandeira, do feiticeiro, do adivinhador ou do ingresso numa sociedade secreta.

Entretanto, durante o tempo de iniciação na mukanda ou no longo, os jovens iniciados aprendem a guardar, muito cedo, como princípio fundamental da vida, o sigilo. É assim que se desenvolve a educação e a instrução dos jovens na sociedade Bantu: A iniciação solidifica a personalidade e o reforço da sua identidade cultural. Um jovem que não passou por essa iniciação é desintegrada e não merece acredibilidade social, impura.

Estes são, por sua vez, carregados de um simbolismo mágico-religioso, porque nele repousa a continuidade a vida na comunidade e para a comunidade. Eis a razão da importância de guardar o sigilo de tudo quanto se aprendeu, viu e viveu. Por isso, dentre os vários segredos que o homem bantu tem de guardar zelosamente, com risco da própria vida, os da iniciação ocupam um lugar à parte e de destaque.

Assim, para as raparigas, uma das condições para participar nos ritos de puberdade feminina, é a sua condição de preservação do seu estado de virgindade. Por outro lado, e em caso de irregularidades, atrai para o lar dos pais, primeiro, a vergonha para ela e sua própria mãe, que foi a primeira responsável pela sua educação, até atingir a fase em questão. É a pior humilhação que uma família Bakongo ou Bantu pode sofrer no seio da comunidade. Pois, está em risco o estatuto social da mãe e dela, no seio da comunidade feminina.

A passagem da jovem rapariga pela escola iniciática define, inicialmente, o seu estatuto social e, publicamente, a sua capacidade, valor e estima como procriadora-vivificadora. Ela, ontologicamente, transformou-se renasceu e está preparada para receber o seu estuto social, jurídico e religioso de mulher adulta no sei da comunidade.

A iniciação abrange os dois sexos. Propicia-lhes o ganho do estatuto social no seio Comunitário. Ela concretiza as experiências, didático pedagógica mais interessante da vida Comunitária. O negativo é só visto por aqueles que se desinteressam no estudo profundo desta realidade. R. Altuna (2006, p. 287) citando Thomas, escreveu: “A iniciação parece-se em muitos aspectos com um “Sacramento”, que põe o homem em contacto com o transcendente, quer porque lhe revela parte do sagrado (o iniciado conhece os mistérios) quer porque sacraliza o homem”.

Não há equívocos quanto ao caráter sagrado dos ritos de iniciação. A inculturação não nega isto, pelo contrário reconhece os elementos sagrados de cada cultura.

O culto à vida é a essência da vida religiosa do homem bantu e do homem Bakongo. A justificação é de T. Mbiti, citado por R. Altuna, ao afirmar: “pela iniciação dos rapazes e das raparigas, a existência colectiva da nação.

vivifica-se, o seu ritmo acelera-se e a vitalidade renova-se (…) Esta cerimônia tem um caráter profundamente sagrado, porque sobre ela repousa a continuidade da nação. Á a dramatização solene e religiosa da conquista do homem sobre a morte e o aniquilamento. (ALTUNA, 2006, p 288).

Com a realização destes ritos a Comunidade sente assegurada a sua sobrevivência e continuidade. As suas gerações estão preparadas para todas as funções ético-morais que os manterão vivos na pirâmide vital. Aprenderam a ética individual e social, as noções de política, da educação, a terapêutica, a identificação das plantas alimentícias e todas as outras técnicas indispensáveis para a vida.

O ensino, não é apenas teórico. A aprendizagem que se efetua através da oralidade e ministrado por profissionais de reconhecida idoneidade pela comunidade e pelos Ngonga. É um ensino vivo e experimental em plena floresta devidamente identificada pelos anciãos da comunidade. É a escola da vida para a vida. A floresta escolhida é somente reservada aos atos da aprendizagem do saber e saber fazer. A entrada é reservada aos jovens devidamente escolhidos e preparados psicologicamente pelos seus progenitores e mestres. Na floresta só penetram e convivem apenas os mestres e homens iniciados e circuncisos, aos impuros não lhes são permitidas as entradas: É o local sagrado e de diálogo com os antepassados.

Assim, a iniciação do jovem-homem adquire o seu valor educativo eficaz, atuante ao estruturar a personalidade do indivíduo para o resto da vida. O estatuto social adquirido na “escola da vida” confere-lhe dignidade, respeito e muita honra junto dos seus. As instituições de puberdade tanto masculina como feminina concretizam as experiências psicopedagógicas acumuladas pelos seus anciãos e mestres ao longo das gerações. É a parte mais significativa e importante de um homem, no seu todo.

Para os Bantu em geral e os Bakongo, a floresta sagrada é o espaço de renascimento para a vida, para a compreensão dos fenômenos humanos da natureza, do mundo visível e invisível. É o “ventre” materno que lhe traz o novo sentido da vida do reforço da sua força vital. Oscar Ribas, escritor angolano, ao referir-se aos iniciados, escreveu:

As cerimônias rituais multiplicam-se e regulam tanto as atividades econômicas – agricultura, caça, pesca criação de gado, produção artesanal, comércio – como as operações ligadas à organização social e as formas de parentesco – tais como a iniciação masculina e feminina e o casamento -, que definem as condições de autoridade de dependência. A própria organização do poder depende da intervenção do religioso, igualmente presentes nas mais diversas festas da comunidade. (HENRIQUES, 2004, p. 21).

Finalmente, esta é a situação constatada pelos primeiros missionários e cronistas do século XVI e seguintes. A arqueologia material a efetuar-se em Mbanza Kongo, passa também no estudo desta parte tão importante que serviu de porta de entrada do cristianismo na África subsaariana.

Assiste-se hoje a um duelo titânico neste mundo globalizado entre o tradicional e o moderno. Mas, se para o meio urbano estes valores são retrógrados, “tradicionais”, “ultrapassados”, ao contrário, nos meios rurais do interior do país, estes são preservados e ganham cada vez mais uma nova dinâmica, através do sincretismo religioso, misturando-se facilmente ritos tradicionais com os do culto cristão, incluindo o culto devido aos antepassado.

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