Os Bakongo em Luanda: -“Chegando ao Palanca”

Bairro Palanca, em Luanda.

Por Luena Nascimento Nunes Pereira(*)

O Bairro do Palanca, estimado em 70 mil habitantes em 1998 (DW, s/dA) era um bairro semirural nos últimos anos do tempo colonial. Foi efetivamente ocupado com a chegada dos ex-exilados do Congo a Luanda, principalmente a partir dos anos 1980. Vizinho ao Bairro Popular, foi iniciado deste lado, se expandindo ao longo da Estrada de Catete, fazendo seu limite com a Estrada do Sanatório, assim conhecida pelo hospital ali mantido pela igreja católica. Embora limitado e bem identificado por estes três marcos (Bairro Popular a noroeste, Estradas do Catete a nordeste e Sanatório a sudeste), a última fronteira do Palanca, a sudoeste, se encontra um tanto quanto confusa nos limites dos Bairros Golfe, Chapa e Sapu.

Ladeando o bairro do Palanca pela estrada do Sanatório é visível a diferença deste bairro dos antigos musseques pela absoluta maioria de casas construídas com blocos de cimento. Considerando a posterior popularização deste material para a construção das casas em outros bairros da periferia, podese dizer que o Palanca ainda se distingue pelas suas casas com imensos quintais, a maioria deles não murados ou com muros baixos, diferente do que se vê em outros bairros, mesmo de predominância bakongo, como a Mabor. Os inúmeros pontos de comércio e as pequenas lojas, principalmente de conserto de carros, chamam a atenção ao longo da estrada movimentada.

Entrando nesta nova estrada, que liga a estrada do Sanatório ao bairro Popular, encontramos os principais marcos do Palanca além dos pontos comerciais: as diversas igrejas. Bem na entrada da estrada, à direita, fica a Igreja do Exército da Salvação. Mais adiante, do mesmo lado, a Assembléia de Deus Pentecostal. Mais a frente, o templo da Igreja Bom Deus ocupa todo um quarteirão à esquerda. Por dentro do bairro, as diferentes igrejas são usadas como ponto de referência para a localização de residências, ainda que o Bairro conte com a maior parte das ruas numeradas, apesar das inúmeras travessas.

Os limites do bairro do Palanca indicam também as levas de ocupação do bairro e a sua heterogeneidade étnica, ainda que pese a imensa maioria bakongo em seu seio.

Na área próxima ao Bairro Popular encontramos uma população um pouco mais diversificada, com presença de pessoas de origem Ambundo, sobretudo da região de Catete. O centro do bairro é marcadamente de população regressada, chegada nos anos 1980 e depois. À medida que o Palanca se estende em direção à Estada do Sanatório vamos encontrando famílias chegadas mais recentemente, nos anos 1990, inclusive muitos zairenses, segundo os próprios moradores do bairro. O “sul” do bairro, na parte oposta a estrada do Catete, é mais empobrecido e a população é ainda mais recente e inclui gente vinda do centro-sul de Angola (Ovimbundu).

Além das diversas lojas e igrejas, há um grande número de organizações não governamentais com sede no bairro. A maioria das ONGs lá existentes é formada por regressados e trabalham em parceria com organizações estrangeiras ou é ligada a alguma igreja. Elas participam em projetos de capacitação comunitária, construção de pontos de água, construção e manutenção de escolas privadas e cooperadas, cooperativas de mulheres comerciantes, formação de agentes de saúde, sobretudo no combate à malária.
Apesar de diferente dos tradicionais musseques pela forma de construção e arruamento, todos os bairros da periferia sofrem as mesmas carências de luz mal distribuída e água não canalizada. O excesso de ligações clandestinas torna mais instável o já precário fornecimento de luz e a água tem que ser obtida junto a chafarizes construídos seja pelo governo, seja por organizações não governamentais. Muitas vezes a água é obtida junto a particulares que constroem grandes tanques de água nos seus quintais e a vendem a preços muito altos para o poder aquisitivo da maioria da população dos bairros. A manutenção dos chafarizes públicos depende da organização comunitária, quando são instalados pelas ONGs, ou sofre a imprevidência habitual do governo. As filas de água consomem boa parte do tempo das mulheres nos afazeres domésticos e parte significativa do rendimento familiar, pois mesmo os chafarizes públicos são pagos, embora a preços bem baixos. O problema é que muitas vezes falta água nestes pontos, tendose muitas vezes que recorrer ao abastecimento com particulares.

Outro drama recorrente é o da recolha de lixo, muito irregular, para não dizer quase ausente. O lixo vai sendo amontoado em terrenos baldios fazendo grandes montes que por vezes são queimados, outras vezes enterrados. Há outros bairros em que a situação da recolha de lixo é ainda pior. O sistema precário de saneamento e de recolha de lixo faz de Luanda um lugar onde a malária é endêmica, piorada com as chuvas irregulares, porém intensas, que caem de fevereiro a abril. Algumas das várias ONGs presentes no bairro do Palanca fazem da campanha de malária um importante programa, com venda de mosquiteiros a preços simbólicos e formação de agentes sanitários que, todavia, pouco minoram o problema.

Chegando ao bairro do Palanca num dia comum de semana percebemos que grande parte dos moradores exerce suas atividades econômicas dentro do bairro, a maior parte em serviços, sobretudo comércio, apesar de uma parte significativa, sobretudo masculina, se deslocar ao centro da cidade, retornando à noite(65). Os inúmeros estabelecimentos de comércio e serviços como alfaiataria, conserto de carros, cabeleireiros, etc., fazem do bairro uma comunidade muito dinâmica dentro do modesto nível econômico em que vive, evidenciando uma grande capacidade de organização e empreendimento.
Além dos pontos de referência das igrejas e a vivacidade do bairro durante todo o dia, os mercados constituem em outro marco fundamental de qualquer bairro periférico e o Palanca não é exceção. Os mercados, ou “praças” são os principais pontos de aglomeração do bairro, principalmente a partir do meio da tarde. É onde se exerce a principal atividade econômica das mulheres, garantindo a subsistência do dia-a-dia da família.

 

(65) Na “baixa” as atividades exercidas pela população residente nos bairros são muito variadas, tanto nas funções privadas como públicas, mas geralmente estão, como a maior parte da população de Luanda, ligadas ao setor informal.

 

(*)-Luena Nascimento Nunes Pereira é Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Extrato da tese: “Os Bakongo de Angola: religião, política e parentesco num bairro de Luanda”

 

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