Os Bakongo em Luanda: – “Mobilidade, gênero e geração”

Por Luena Nascimento Nunes Pereira (*)

O domínio das diferentes línguas – kikongo, português e lingala – desenha também diferenças dentro do grupo bakongo, no que toca a maior ou menor mobilidade, à autoridade e às relações de poder internas ao grupo, bem como às possibilidades abertas a determinados setores, e não a outros, à ascensão social, a partir também das relações com outros grupos dentro e fora dos bairros.

O domínio da língua portuguesa permite o acesso ao mercado de trabalho mais amplo e ao trânsito dentro da sociedade luandense, onde o português é de uso quase exclusivo. A fluência do português, sem o sotaque que legou aos regressados o forte estigma nos primeiros anos de retorno, é um trunfo entre os jovens bakongo que lidam hoje com duas heranças, a de pertencerem ao grupo Bakongo, geralmente filhos de pais regressados e de terem nascido e/ou crescido em Luanda.

Embora a dupla aquisição obtida por estes jovens traga a garantia de maior mobilidade na sociedade luandense, sem perder os vínculos comunitários no grupo de origem, previsivelmente ela incrementa os habituais conflitos de geração, tendo em vista o suposto afastamento deste grupo dos interesses pela tradição e reprodução das antigas hierarquias.

A vontade de integração na sociedade luandense, buscando a indiferenciação do ponto de vista étnico e recebendo a influência da cultura luandense – a música, as roupas, o modo de vida mais informal, a sedução por elementos da cultura brasileira e norte-americana – são fatores de atração. Ela impele a uma composição cultural por parte dos jovens dispostos a construir um modo de vida que possa abrigar todos estes elementos. Esta busca recebe duras críticas por parte dos mais velhos recaindo normalmente em críticas moralistas, quanto à liberação dos costumes, sobretudo pela escolha das roupas e comportamentos mais informais, escondendo a incapacidade de controle sobre a atuação e a mobilidade destes jovens.

Um dos aspectos da discriminação dos primeiros anos de retorno foi a referência aos ex-exilados como regressados, termo até hoje utilizado junto com outros termos ainda mais pejorativos (langalanga, zairotas, zazás). A reação foi de também nomear os luandenses como chungos, uma referência a uma dança luandense chamada sungura. Os jovens bakongo que entrevistei me falaram das dificuldades enfrentadas por serem considerados regressados por parte dos luandenses e, ao mesmo tempo, serem chamados de chungos por parte de jovens angolanos e zairenses chegados mais recentemente do Congo/ Zaire, ainda sem a vivência de Luanda. A mobilidade e o trânsito entre culturas e meios sociais diferentes implicariam assim na perda de legitimidade por parte de um segmento que busca sua afirmação e uma identidade própria entre dois universos sociais e culturais vividos como distintos.
Situação interessante para a observação é o momento que alguns destes jovens são chamados a assumir algumas responsabilidades quanto à chefia familiar, quando estão em certa posição na hierarquia familiar na qual falta algum mais-velho. Neste momento, muitos jovens passam a se interessar pelo aprendizado mais sistemático do kikongo e dos conhecimentos veiculados através desta língua, participando de algumas reuniões junto com tios e pais, assumindo aos poucos algumas tarefas e papéis rituais.

A grande presença de jovens nas igrejas apresenta o duplo aspecto da permanência do controle social sobre estes jovens e a formação de um espaço de sociabilidade paralela à estrutura familiar. A presença crescente de jovens nas igrejas pentecostais, como veremos, indica um afastamento destes das igrejas mais antigas e de adesão tradicional dos Bakongo, como a batista, a católica, a kimbanguista e a tocoísta, revelando os mecanismos de escape do controle familiar e sugerindo novas formas de relação familiar78.
A relação entre os jovens e os mais velhos reedita a tensão recorrente do sistema social kongo entre gerações. Esta implica, no contexto originário, em cisão e saída das linhagens mais jovens em busca de novos territórios, fugindo à falta de espaço territorial como político, buscando reproduzir as mesmas hierarquias em novos espaços. É bom lembrar que a mobilidade e o espírito empreendedor são qualidades extremamente valorizadas nas sociedades kongo, especialmente aquelas dedicadas ao comércio (caso dos Bazombo). A capacidade de assimilação e criação de novos códigos culturais são outros elementos também valorizados. A questão parece residir na vontade de controle dos mais velhos sobre as novas gerações, que se repõe na medida em que alguns destes jovens passam a ser chamados a assumir determinadas responsabilidades no seio familiar. Ou seja, a médio prazo, as escolhas culturais feitas pelos jovens em determinado contexto, podem encontrar posteriormente um espaço de legitimação, de acordo com os novos papéis que estes assumem no âmbito familiar ou grupal e do status que passam a conquistar.

A mobilidade exibida pelos jovens, em parte proporcionada pelo domínio da língua veicular, como de um aprendizado cultural múltiplo, é contrastada com a relativa menor mobilidade das mulheres, especialmente das mulheres mais velhas. Embora bastante dinâmicas no que toca a iniciativa econômica – vide o desenvolvimento do pequeno comércio e sua presença nos mercados – o lugar da mulher é ainda mais restrito que o masculino e pequeno ainda é o seu papel público, no sentido de uma menor presença no mercado de trabalho formal e de transitarem bem menos entre os diversos meios sociais de Luanda. Embora as mulheres mais velhas tenham um papel mais atuante nas reuniões de famílias em relação às mães jovens, este papel é bem mais limitado em relação ao protagonismo masculino neste campo.

As jovens solteiras recebem o mesmo estímulo que os rapazes com relação aos apelos da cultura luandense e ao desejo de transitar e usufruir entre diversos meios culturais e sociais. Entretanto, as moças são bem mais controladas que os homens e francamente desfavorecidas no que toca ao estímulo a permanecerem nos estudos, pois mais facilmente deixam de estudar para ajudar as mães no mercado ou no cuidado com os irmãos mais novos.

As mulheres têm um papel fundamental no sustento do dia-a-dia e também na transmissão da cultura de base, como a língua e todo o repertório cultural que se reproduz na vida doméstica e no convívio cotidiano. É interessante pensar, neste contexto, no papel da igreja no desenvolvimento de uma sociabilidade própria das mulheres, nos grupos de mamãs que se reúnem semanalmente. Com variações, dependendo das igrejas, as mulheres são responsáveis por toda a organização de seus encontros, seleção de temas para a pregação do dia, pela animação e execução dos instrumentos musicais além da organização financeira do grupo, que tem função de ajuda mútua entre as fiéis.

Parece haver um claro contraste de papéis masculinos e femininos do ponto de vista do protagonismo político/público e as fundamentais funções privadas/domésticas. No caso Bakongo presenciado em Luanda, a presença feminina no mercado parece mediar este contraste. Apesar do mercado, como vimos, não desempenhar mais as funções políticas de antes, o papel fundamental exercido no sustento da família no dia-a-dia e o trabalho autônomo de compra e venda de produtos dá as mulheres bastante autonomia no que toca a organização do seu tempo e o controle dos rendimentos auferidos.

Vamos ver mais a frente, quando abordarmos as reuniões familiares, que o espaço dos quintais das casas onde ocorrem as reuniões é espaço de debate, mediação de conflitos e decisões de grande protagonismo masculino (e de algumas mulheres mais velhas). A atividade exercida nos quintais faz duvidar serem estes espaços apenas privados ou domésticos. Supomos assim que para definir âmbitos públicos ou privados devemos levar em consideração o uso e os significados que os atores em jogo conferem aos espaços em questão.

(78) – A possibilidade de retorno dos jovens às igrejas de seus pais após um tempo é uma hipótese a ser verificada, tal como percebi a retomada de interesse e participação de jovens adultos nas reuniões familiares

(*) – Luena Nascimento Nunes Pereira é Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Extrato da tese: “Os Bakongo de Angola: religião, política e parentesco num bairro de Luanda”

 

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