“Somos nós é que sabemos a história do Congo e de Angola: o Ntotila no centro do conflito”

Fotografia com membros dos Filhos do Congo, incluindo Pinock e Borralho. 1956. In: PT-AHD-MUGM-GNP-RNP-0235-01631
Por  Bruno Pastre Máximo

Ao final dos anos de 1950, consolidavam-se as independências dos países africanos. De alguma forma, este período encerrou um ciclo que tivera início em 1885. Para o Kongo dia Ntotila, estas marcas foram irreparáveis. Irremediavelmente dividido, suas lideranças articulavam a partir de Kinshasa a reestruturação do reino em um contexto de descolonização.

E aí residia uma questão fundamental: o acesso e a reapropriação da capital. Mbanza Kongo não era apenas uma mera capital, em seu sentido político e administrativo. Era, principalmente, a paisagem sobre a qual a ordem, a ancestralidade e justiça estavam assentadas. Fora de Mbanza Kongo, tais elementos não se alinhavam. No contexto das independências, a paisagem de poder representada pelos lugares do Ntotila, a Yala-Nkuwu, e o Kulumbimbi, teria outro papel político a cumprir.

Ocorre que, diferente da República Democrática do Congo que obteve a independência em 30 de junho de 1960, Angola permaneceu sob a condição colonial durante toda a década de 1960, conseguindo obter sua independência somente de 11 de novembro de 1975. Mbanza Kongo, em território angolano/português era novamente uma paisagem dividida entre dois mundos: o Kongo dia Ntotila e Nação angolana.

Se no primeiro caso, Mbanza Kongo representava o centro de um poderio ancestral insurgente, no segundo, era necessário (re)definir os sentidos deste lugar em face à Angola moderna prestes a conquistar sua independência e em meio à onda pan-africanista que ensejava um sentimento supra-étnico e pós-colonial. As nuances desta disputa por Mbanza Kongo, curiosamente, aparecem na documentação do Ministério das Relações Exteriores, pois foi produzida em Kinshasa, onde Portugal mantinha uma embaixada.

Estas fontes testemunham o surgimento dos movimentos populares que visavam conseguir a independência política do Kongo dia Ntotila e/ou de Angola, de forma violenta ou negociada. Neste momento, urgia um consenso entre os grupos independentistas kongo sobre as causas e funções que o Ntotila deveria defender e desempenhar. Esta busca por legitimidade gerou uma diversa gama de documentos, que expressam, de uma maneira ou outra, reflexões e (re)definições sobre a identidade kongo e sobre os elementos da paisagem que a permeiam.

Das dissonâncias políticas, surgiram a NGWIZAKO e a UPA, dois dos grandes movimentos independentistas angolanos. A nós interessa compreender como o Ntotila e a paisagem de Mbanza Kongo, cujas referências são abundantes na documentação colonial, foram articulados dentro dos discursos de independência, representando ora a unidade, ora a divisão nos projetos de Kongo dia Ntotila e nação que se desenhavam no período. Entre a contestação da legitimidade do Ntotila, a revolta armada e o regicídio, até a violenta guerra civil pelo governo da Angola independente, está a permanente questão kongo e a soberania da região do antigo Estado.

Esta carta, escrita após a morte de Jhonny Lengo, D. Pedro VII representa e resume, ao nosso ver, os anseios e aspirações políticas dos envolvidos no processo de sucessão do Ntotila do Kongo, no ano de 1955. Após um longo governo, não reconhecido por parte do povo, a sua morte iria despertar os sonhos dos nacionalistas em restaurar o Kongo dia Ntotila e colocar Mbanza Kongo novamente no centro das atenções. Este era um desejo principalmente dos expatriados da cidade no Congo Belga, aonde influenciados pela ABAKO, viam a nomeação de um novo Ntotila não atrelado aos interesses portugueses como a solução para a restauração do Kongo dia Ntotila, um reencontro com a paisagem ideativa da cidade. Os portugueses, no entanto, não deixariam que este fato acontecesse. Na bibliografia consultada, não existe nenhum autor que descreve os problemas envolvendo a sucessão de D. Pedro VII de forma minuciosa. Visando suprir esta lacuna, faremos um resumo dos eventos ocorridos, pois só assim é possível entender a divisão que fez surgir os dois movimentos alvos de estudo: a UPA (UPNA) e a NGWIZAKO. Pretendemos expor os fatos e eventos para depois entrarmos na questão de qual o papel de paisagem de Mbanza Kongo para os movimentos de libertação. No dia 16 de abril de 1955, faleceu o Ntotila D. Pedro VII384. Ao saber da morte do monarca, os expatriados iniciaram reuniões visando escolher um novo Ntotila.

Eduardo Pinock enviou cartas a administração portuguesa solicitando que não houvesse uma nova eleição sem a presença dos expatriados e de representantes kongo de outras regiões do Kongo dia Ntotila, pois o objetivo dos expatriados era escolher um Ntotila culto e autônomo. Enquanto isto, na cidade de Mbanza Kongo, os regedores (chefes escolhidos pelos portugueses) se reuniram e indicaram ao cargo o secretário do Ntotila Álvaro Casimiro de Água Rosada como seu candidato. O administrador refutou tal indicação, por não considerar o candidato popular entre o povo. A discussão foi protelada entre os conselheiros do Kongo dia Ntotila. No dia 12 de junho aconteceu uma grande reunião em

(…) Leopoldville de cerca de 500 pessoas de Matadi, Thysville, Leopoldville e Brazzaville. Discutiu-se: a Assembleia reúne os homens de boa vontade, independentemente do seu credo religioso. Em tempos idos o Congo foi governado por qualquer um das tribus. Presentemente há uma tendência para ser governado só pela tribu Kivugi. A bem do Congo deviam chegar a um acordo e escolherem um Rei de entre todas as tribus, que desse melhores garantias de capacidade, diplomacia e iniciativa. “Estamos autorizados a que o Rei seja eleito por nós e quem estiver de acordo connosco que levante a mão”. Os católicos mantiveram-se quietos. Interpelados, declararam não ser tradicional o Rei ser eleito em território belga. (…)

O administrador marcou como data final para escolha o dia 16 de julho. Os expatriados, reunidos em torno da organização Filhos do Congo, foram convidados a participar da eleição. Este grupo possuía uma maioria Protestante, e eram liderados por Pinock, Barros Nekaka e Borralho. Em resposta, estes enviaram uma carta a rainha, secretários e conselheiros, recusando a data por ser muito próxima, e ainda colocando algumas questões a eleição:

O Congo é bastante grande: terias pensado em mandar avisar todos quantos vivem em Noqui, Lufico, Tomboco, Stº Antônio do Zaire, Cabinda, Ambrizete, Ambriz, Dembos, Uije, Bembe e Zombo? Todas estas regiões são complementares do Reino do Congo. (…) além de que muitos filhos do Congo nunca viram como se elege e se coroa um Rei e é nosso veemente desejo que muitos deles vejam o que nunca viram. (…) Pedimos pois que penseis seriamente nisso porque a essas cerimónias deveis assistir também muitos extrangeiros a quem queremos provar que apesar de vivermos longos anos nestas paragens ainda nos lembramos dos costumes da nossa terra de origem. (…) Escolhemos a data de 15 de agosto.

O grupo de Mbanza Kongo, no entanto, seguiu com a eleição no dia 15 de julho, claramente para favorecerem a si próprio. Em reunião entre os conselheiros da tribo Kivusi, foi escolhido Kiditu como candidato a Ntotila. O conselheiro Gama, apoiado pela Igreja Católica na pessoa do padre italiano Fellette, ficou surpreso com a escolha de Kiditu, por já se considerar o escolhido. Ele então “(…) logo que soube da nomeação de Kiditu, começou a chorar ficando muito zangado”, não aceitando o resultado, e se encontrou com administrador português Manuel Martins, que disse-lhe “(…) que descansasse que o Kiditu não seria eleito Rei, enquanto ele fosse administrador”.

No dia 16 de julho, o administrador convocou uma reunião com todos os conselheiros no palácio do Ntotila, e perguntado, eles disseram que escolheram Kiditu como Ntotila. O administrador pediu para que fosse escolhido um Ntotila fora da tribo Kivusi. Os conselheiros em reunião tornaram a escolher Kiditu como Ntotila. O administrador recusou, “(…) não! pois o Kiditu era assimilado”.

O administrador convidou-os a reunir novamente para escolha de um novo Ntotila, e estes escolheram o candidato Rosa Ginga, o que causou protestos do padre Fellette, que não o aceitou por ser protestante. A escolha foi então adiada para o dia posterior. Logo cedo, os conselheiros se reuniram, e já consternados com a confusão tomada, acordaram entre si que o administrador escolheria o novo rei. Quando ele e o padre chegaram, para surpresa de todos, “(…) o regedor Pedro Armando Boavida pegando na mão do Gama apresentou-o como rei (…)”. A escolha foi aprovada pelos dois, e Gama fez um pequeno discurso de posse “.

(…). O antigo Rei só tinha feito bem às gentes do Congo e que ele tudo quanto lhe fossem pedir o iria pedir ao Snr. Administrador que se autorizasse o faria, caso contrário não contassem com ele.

A eleição de Gama gerou protestos pela forma ilegal que foi realizada, não obedecendo a tradição e os costumes. A coroação foi marcada para o dia 15 de agosto, tendo o administrador dado instruções para que “(…) as cerimônias de coroação decorressem com brilho, dentro da tradição, que todos estivessem vestidos à moda antiga e devidamente limpos”. Gama convidou os expatriados a virem à sua cerimónia de coroação.

A eleição de Gama gerou protestos pela forma ilegal que foi realizada, não obedecendo a tradição e os costumes. A coroação foi marcada para o dia 15 de agosto, tendo o administrador dado instruções para que “(…) as cerimônias de coroação decorressem com brilho, dentro da tradição, que todos estivessem vestidos à moda antiga e devidamente limpos”. Gama convidou os expatriados a virem à sua cerimónia de coroação.

No dia 16 de agosto iniciaram-se as cerimônias de coroação no recinto da missão católica, estando presente dez mil pessoas. Após a missa, realizou-se dois discursos, um por parte do professor Tiburcio, e outro de José dos Santos Kasakanga, que comentaremos depois. O Ntotila seguiu então ao palácio (do outro lado da rua) e a multidão entusiasmada o acompanhou, invadindo o lugar, tendo o rei solicitado a intervenção do padre Fellette para dispersar o povo.

Na parte da manhã, o monarca recebeu diversas pessoas, entre elas o expatriado Antônio Ernesto Tomaz, que disse “(…) apesar de os residentes no Congo Belga terem pedido para esperarem por eles para a eleição do Rei e não terem sido atendidos, não levavam isso a mal, mas desejavam que fossem nomeados: para ministro, o Martins Kiditu, para secretário, o Francisco Lourenço Borralho, e para conselheiro Eduardo Pinok”.

O administrador respondeu que este não era o momento, devendo ser resolvido isto em outra hora. Eles não obedeceram tal afirmação e continuaram a discutir a nomeação destes, até que o padre Fellette interveio e conseguiu convencer o Ntotila a postergar a decisão para 30 dias. Neste momento, “Ginga e o Nemuanda, fazendo-se desentendidos vêm à varanda e perguntam ao povo se desejam nomeados para aqueles cargos os três atrás citados, o que o povo aprova por aclamação, dando largas à sua satisfação”.

Os conselheiros e o Padre foram a varanda e perceberam o que tinha acontecido. Neste momento, “(…) apareceu o Padre Fellette que os mandou calar [o povo], ao que o povo o mandou embora, alegando que nada tinha a ver com o reino”. A festa terminou, e o Ntotila pediu para que os expatriados voltassem dia 20 de setembro. Após a coroação, o padre Fellette e o Ntotila chamaram o conselheiro Nemuanda e pediram para que não fossem nomeados os três conselheiros, o que Nemuanda refutou, afirmando que o povo já havia decidido.

No dia 10 de setembro, o grupo Filhos do Congo enviou carta ao Ntotila e Kiditu, afirmando que estavam satisfeitos com a nomeação de Kiditu, Pinock e Borralho. Foram recebidas cartas vindas de Brazzaville para o Governador do Congo Português, afirmando que discordavam da forma como foi feita a eleição para Ntotila, e denunciando a má atuação do administrador.

No dia 20 de setembro apareceram em Mbanza Kongo Pinok e Borralho, e estes foram informados pelo administrador e pelo Ntotila que deveriam voltar em trinta dias. Eles retornaram novamente dia 20 de outubro, e foram comunicados que não podiam assumir os cargos por não residirem em Angola, e se quisessem teriam que morar três anos pelo menos.

A situação se deteriorou entre os expatriados e o Ntotila. O grupo Filhos do Congo se organizou para ir em massa no Natal para destronarem o Ntotila, elegendo um novo. Em carta distribuída na região de Mbanza Kongo, eles relataram o motivo de sua ida:

O motivo que nos leva a ir para ai é que tendo falecido o Rei D. Pedro VII, consta ter-se escolhido já um outro Rei, mas nós não estavámos presentes. (…) Assistimos de facto à sua coroação e sabemos que foi o Padre J. Fellette que o elegeu, não foi o povo. (…) Estes [Pinock, Borralho e Kiditu] já se apresentaram três vezes para trabalhar, mas o Rei não os quer receber. Escrevemos então recentemente uma carta ao mesmo Rei o qual não nos respondeu: quem nos respondeu a essa carta foi o Padre Fellette (…). Isto nos leva-nos a lembrar o provérbio da nossa terra que diz: “Ao sair de minha casa, deixei minha mulher deitada na cama, no meu regresso, no lugar dela, encontrei a minha sogra”. Quanto ao nosso Governo, não temos nada contra ele; o trono do Congo é que está a estragar a nossa terra.

Um grupo de Matadi, chamado Liga Muxicongo, composto de maioria católica e liderado por José Kasakanga, escreveu cartas ameaçando o Ntotila de descumprir suas funções de defender o povo, e nomear os conselheiros. Repudiavam a presença e interferência do padre Fellette em todo o processo de coroação, e acusavam o Ntotila de ser um fantoche do sacerdote. No dia 26 de novembro a Liga Muxicongo enviou nova carta para o Ntotila, contendo um balanço da situação até agora:
Esperávamos a todos, nesta soleníssima hora, uma era gloriosa de ressurgimento do reino do Congo, em vez de uma fase de fragmentação política – que está em via de explodir se V. Magestade não examinar concretamente as causas desta decadência, e a responsabilidade da vossa Missão tão espinhosa num Mundo de hoje. A opinião pública Conguesa, já começou a pregar, e talvez com justa razão, que V. Magestade não quer trabalhar para a restauração do Reino do Congo nem dos interesses pessoais dos congueses. (…) Tem diante de V. Magestade, como primeiro conguês do Nenzinga, duas responsabilidades pesadas que deve medir a sua distância: – a primeira é perante ao Governo da Nação que deseja uma perfeita colaboração que possa traduzir o melhor sentimento Nacional entre Portugal e o Congo. – e a segunda, é perante aos milhares de congueses que ambicionam pela transformação da fisionomia da dinastia do Congo, caída desde há muito, por negligência dos próprios Soberanos. Falando a verdade, não temos a esperança da melhora da situação, porque V. Magestade já cometeu três erros gravíssimos logo na fase inicial do seu reinado: – o primeiro erro é da negação dos protestantes como Ministros do reino do Congo (…) – o segundo erro, V. Magestade e o Superior da Missão Católica de S. Salvador acusaram grandemente a Nação Portuguesa (…) [ao] pedi[r] trinta contos mensais para custear as despesas para educação dos nosso filhos (…) constitui uma violação dos termos Colonizar e Civilizar (…). – o terceiro, dos mais importantes e mais gravíssimo diante do Mundo, é do silêncio sem formação do Gabinete ainda, apesar de estarmos caminhando cento e vinte dias (…). Duas coisas são mais indispensáveis com a maior urgência neste momento: 1º/- a formação do Gabinete (…). 2ª/- Conseguir a criação do Concelho Superior do Reino do Congo e o respectivo regulamento. Este Concelho deve reunir duas ou três vezes por ano na própria Banza Congo, perante o Rei, os Ministros, os Representantes dos povos, e um Representante do Governo. (…) Sem esses dois factores oficiais, os olhos do Mundo não podem considerar devidamente a dinastia do Congo, e muito menos ainda a V. Magestade, pois na condição como está o Trono do Congo, sem ensignes reais e prestigiosos, não passa duma Banza, dum Chefe indígena qualquer sem categoria de Magestade.

A partir dai, os grupos se silenciaram e concentraram suas movimentações para a vinda de 24 de dezembro. No dia 24, eles iniciaram suas jornadas à Mbanza Kongo, sendo revistados nas fronteiras. Para despistar sua ação, a “(…) viatura arvoram a Bandeira Nacional [Portugal] e numa delas um quarteto toca o Hino Nacional”.

A excursão chegou a cidade, e foram avisados que não poderiam encontrar o Ntotila sem a autorização do administrador. Eles entregaram uma carta com as principais reivindicações, que vão muito além da questão do Ntotila, englobando também reformas sociais e políticas em Angola.390 Uma grande reunião aconteceu com a presença das principais lideranças expatriadas, principalmente ligados aos Filhos do Congo.

O Ntotila recebeu Pinock no dia 26, com a presença de europeus e o administrador, contendo “(…) os residentes no Congo Belga como em S. Salvador, num total aproximado de 2000 indivíduos.” Pela magnitude do momento, o grupo abortou a tentativa de destronar o Ntotila.391 No outro dia foi marcada nova reunião com o Ntotila, em que Pinock pediu para que fosse aceito a colaboração dos expatriados no governo, o que o Ntotila afirmou que concederia se estes viessem morar no mínimo dois anos em Mbanza Kongo. Após esta reunião, o grupo se juntou no palácio novamente, e, após ouvir afirmações críticas, o Ntotila:

Irrita Irrita-se e desembainhando a espada a aponta para o céu e em seguida espetaa na terra, o que simbolicamente significava que quem mandava no céu era Deus e quem mandava na terra era ele. Isto foi o mesmo que chamar escravos a todos os portugueses [população bakongo] do Congo, pelo que todos os assistentes se ofenderam profundamente.

Após este momento os expatriados, se sentindo profundamente ofendidos, afirmaram que não queriam mais saber do Ntotila. O povo presente entoou os dizeres “O Congo é terra dos antepassados”. Em carta de 7 de janeiro de 1956, a Liga dos Muxicongo, alertou para a situação caótica que se aproximava, repudiou a ação do Ntotila com relação a condução do processo, porém ainda reconheceu a autoridade dele. Esta posição marcou uma clara divisão dos grupos Liga dos Muxicongos e Filhos do Congo. Os segundos romperam definitivamente com o Ntotila, enquanto os primeiros continuaram e acreditavam na possibilidade de reverter a situação. A divisão era de ação, e não de ideias: “Declaram que perfilhando as mesmas ideias que “Filhos do Congo”, todavia deploram os seus métodos de trabalho.” A situação para o Ntotila se agravava, tendo o seu prestígio diminuído, e que em contrapartida o “(…) número de adeptos dos “Filhos do Congo” tem aumentado assustadoramente e as ideias que professam vão-se infiltrando solidamente no meio indígena, não só entre os protestantes como muitos povos católicos, os quais se encontram incondicionalmente contra o Rei”. O grupo Filhos do Congo iniciou um novo movimento para ir destronar o Ntotila em março.

Destronar o Rei D. Antônio III do Trono do Reino do Congo: (…) visto que não foi escolhido pelo povo e este não o quer, como bem o sabe, fique sabendo ainda que a partir e hoje, todos nós quantos assinamos esta carta, já não o consideramos Rei. (…). Motivos porque não reconhecemos Rei a D. Antônio III. 1º/- Está a estabelecer uma separação de irmandade entre a população, pois ele diz que não querer colaborar com os Protestantes. Essa afirmação é uma prova de separação. 2º/- É medroso, e assim tem sido incitado e enganado por suspeitos de quem ele tem muito receio. 3º/- Não tem palavra certa, é um troca-tintas e levanta falsos testemunhos contra a sua gente. 4º/- Confia o poder do Reino do Congo nas mãos do Padre, simples ministro de Deus. 5º/- Desembainhou a sua espada diante do povo que fora apresentar cumprimentos o que mostra que a população então presente é escrava da tribu Kivuzi.

Em represália, o governo português aprisionou parte dos envolvidos na situação (principalmente os protestantes) e proibiu a entrada de qualquer pessoa nascida em Mbanza Kongo394. Em carta enviada por Pinock ele declarou, enfim, sua posição contra Portugal: “Eu e Borralho somos inimigos declarados contra o Senhor Antônio José da Gama e mesmo contra a nação dominante (Portugal)!!!”395 Gama morreu repentinamente em julho de 1957, e os portugueses decidiram deixar o cargo vago por um tempo. Vamos agora analisar os eventos à luz de nossa preocupação.

Com a morte de John Lengo, o sentimento de retomada do Kongo dia Ntotila que já existia e estava se organizando encontrou um consenso. Apesar de a ABAKO – aparentemente – não estar diretamente envolvida, eles viviam neste meio de nacionalismo kongo, e eles, naturais de Mbanza Kongo, tinham a autoridade necessária para buscar uma mudança.

Neste momento, os grupos expatriados resolveram que a restauração do Kongo dia Ntotila se daria através da tomada do cargo do Ntotila em Mbanza Kongo. Em sua reunião para discutir os candidatos e a forma da eleição, apareceram, segundo a fonte portuguesa, um número de 500 pessoas, o que demonstra a importância do tema para os expatriados e a vontade de mobilização política deste grupo. As suas conclusões revelam o desejo do grupo de expatriados de Mbanza Kongo em realmente realizar uma eleição legítima no sentido de empoderar o Ntotila com uma legitimidade que então não possuía.

Eles buscavam um Ntotila de verdade que representasse os kongo em sua totalidade de regiões, e não somente um grupo reduzido de Mbanza Kongo. É interessante em como a tradição era crucial para a nomeação. Não era uma questão simplesmente política, pois se assim o fosse, eles teriam nomeado outro Ntotila – mais legítimo seguramente – e empoderado ele no território do Congo Belga. Eles não poderiam ultrajar a tradição que pregava que o Ntotila deveria ser um representante das 12 tribos, passando por discussões e uma eleição.

E para nosso caso, é muito simbólico o fato do Ntotila ter que ser eleito e coroado na cidade de Mbanza Kongo. Somente a cidade, ou lugar que o Ntotila ocupa na paisagem ideativa de Mbanza Kongo é que possui a legitimidade necessária para reconhecer o governante enquanto tal. O que aconteceu, no entanto, não seguiu o desejo dos expatriados, tendo sido escolhido um governante de forma provinciana, na própria cidade e entre os já ligados ao antigo Ntotila. Aos olhos dos expatriados a eleição foi um verdadeiro golpe.

Não esperaram que os representantes do Congo, ou de outras regiões de Angola estivessem presentes para eleição – foi um conchave de cartas marcadas entre os interessados, comandados pelo administrador colonial. Dentre o grupo eleitor fica claro o desejo de todos pela eleição de Kidito. Porém este, não sabemos o porque, não agradava a administração colonial.

Impossibilitada a sua nomeação, foi orquestrado conjuntamente ao superior católico a nomeação de Antônio Gama. Ele dedicou sua vida a Igreja Católica trabalhando na tipografia e era secretário de Johnny Lengo, portanto próximo do poder colonial. Sua proximidade o fez rapidamente recorrer ao colono para sabotar a eleição. Na ação do administrador percebese a intimidade e o poder que ele julgava ter para interferir na questão tradicional. No entanto, sua autoridade foi desafiada pelo Lumbu que o enfrentou e exigiu a eleição de Kidito.

Usando de seu poder e ameaça, ele burlou o sistema, inventou uma nova regra e conseguiu impor sua vontade aos velhos. Ele foi recompensado pelo seu “afilhado” Antônio Gama, que em frente do Lumbu submeteu a coroa ao mando dele, um gesto bastante simbólico de submissão. O povo e o Lumbu ficaram inconformados com a situação. O dia da coroação foi marcado por estes conflitos prévios.

Como mencionado, José dos Santos Kasakanga realizou um discurso que nos parece muito simbólico para entendermos o papel de Mbanza Kongo. O discurso foi feito diante das autoridades portuguesas e, portanto, respeitando e valorizando a presença portuguesa na região, caso contrário seria preso ali mesmo. Este movimento simbolizou a direção que a NGWIZAKO/Liga Muxicongo tomaria, de tentar, a todo custo, uma solução negociada com Portugal para suas demandas de autonomia do Kongo dia Ntotila. O discurso também possui uma defesa velada do catolicismo português, marcando sua posição de diferença frente aos Filhos do Congo/UPA. O discurso é longo e complexo, e reproduzimos a parte dele que nos interessa, na qual comenta diretamente sobre Mbanza Kongo

Por esta razão, nos reunimos aqui no mesmo sentimento de patriotismo, para felicitar a vossa Majestade e pedir respeitosamente o sabido favor, se Digne espalhar a sua luz de sã filosofia no reino do Congo, conforme a vocação histórica do Nkaka Nenzinga Kuwu, que em 1485, recebeu Diogo Cão neste lugar sagrado que se chama Mbanza e Congo. (…) Sabemos que vossa Majestade é dotada também duma grande mentalidade viva, aliada à sua tenacidade inquebrantável, estamos convencidíssimo por isso, que os problemas que vamos enumerar merecerão(?) no conceito da vossa Majestade e da nação, uma esclarecida atenção dos conguês e da Pátria: 1º/ Conseguir a restauração do antigo catedrale do Congo, para a recordação dos Missionários que nos trouxeram a civilisação Cristã 2º/ Conseguir à construção do cimeterio onde repousam os restos mortais dos antigos reis do Congo, mandando construiro ali, os respeitivos mausoléus com respeitivas letras indeléveis; (…).

Sua fala enfatiza diretamente a cidade de Mbanza Kongo, como sendo sagrada para o povo Kongo. Das oito demandas que José dos Santos Kasakanga fez para o rei, as duas primeiras são diretamente relacionadas com a identidade da cidade, componentes fundamentais da paisagem de Mbanza Kongo. O sentido de valorização da Catedral é a do catolicismo e da presença portuguesa, compartilhando (bom lembrar que falava diante as autoridades portuguesas) dos motivos que levaram a monumentalização do lugar pelo Estado colonial. Inclusive, Kasakanga, compartilhava do desejo existente na cidade de restauração das ruínas para utilização como igreja, ligando o passado ao presente.

Com relação ao cemitério dos reis do Kongo, há uma crítica encoberta a sua situação, de abandono por parte da administração, que não o valoriza da mesma forma que os nativos. Kasakanga sabe das críticas por parte da ABAKO sobre a cidade, pois ele próprio era dirigente do partido na cidade de Boma.397 Suas demandas buscavam revitalizar a imagem de Mbanza Kongo perante os nacionalistas Kongo, reativando sua importância dentro da tradição. Após a missa, aconteceu a confusão com relação aos secretários.

Os expatriados, ligados aos Filhos do Congo, decidiram como estratégia de retomada do poder a presença deles na corte, tentando um movimento de utilizar o Ntotila a partir do Lumbu. Ao perceber a negativa por parte do Ntotila (e dos portugueses), tentaram manipular a sua situação, buscando se legitimarem junto ao povo. Fica evidente que os presentes no dia em Mbanza Kongo conheciam a situação a ponto de confrontarem a autoridade portuguesa em favor de um Ntotila mais autônomo e legítimo. A revolta com relação ao Ntotila somente cresceu, com suas constantes ações de ilegalidade e falsidade, que são respondidas a altura pelos expatriados, que estavam muito bem informados da situação corrente.

Mesmo estando em Brazzaville, a mais de trezentos quilômetros de Mbanza Kongo, eles fizeram uma crítica precisa a situação da eleição. A informação circulava entre os ciclos nacionalistas. Já no final de 1955, ficou claro para este grupo que o Ntotila traidor não iria mudar sua posição com relação aos cargos deles no Lumbu.

Então, eles planejaram uma grande excursão para a cidade, com o motivo velado de destituir o Ntotila e realizar uma assembleia para nomeação. Consideramos os eventos decorridos do natal como pontochave de viragem da situação, e quiçá do início do movimento UPNA. O Ntotila de forma autoritária e arrogante, tratou os presentes na reunião – muita gente – como escravos, inferiores a ele.

O desejo de diálogo por parte dos envolvidos acabou, e começaram já a tomar um novo rumo de luta e ação direta que não envolvia diretamente a nomeação do Ntotila para o início da sua missão. Os presentes – Borralho e Nekaka – desistiram dos seus cargos após escutarem isso. Parece claro que o povo estava do lado de um Kongo dia Ntotila atuante e que valorizasse a tradição – O Congo é Terra dos nossos Antepassados.

Este momento também marcou a divisão entre os dois grupos interessados, os Filhos do Congo, embrião da UPNA/UPA, e Liga Muxicongo, embrião da NGWIZAKO. Se aparentemente a questão religiosa era um fator que os dividia, pensamos que o motivo principal seja a da orientação em ruptura de negociações com os portugueses, tomado pelo Filhos do Congo, posição esta que não foi aceita pela Liga dos Muxicongos. Também a questão sobre o poder do Ntotila dentro do Estado colonial. Até este momento, tanto a ABAKO, como os outros grupos faziam críticas diretas a ele, o responsabilizando pelas mazelas do povo Kongo, como um verdadeiro chefe autônomo.

A UPA rompeu com este discurso, e já atribuiu o problema do povo ao colonialismo português, aceitando a situação de impotência do Ntotila, ou redimindo o Ntotila dessa responsabilidade. O fato é que toda esta manifestação contrária, este enfrentamento público à imagem do rei, esta luta pela valorização de melhores condições de vida através do Ntotila fez com que a população apoiasse os movimentos restauracionistas, ingressando em suas  fileiras e principalmente adotando suas ideias. A partir daqui, vamos analisar o desenvolvimento dos dois movimentos de forma independente. Como bem afirmou Marcum, a ação dos portugueses em não permitir “(…) ter o rei ou os conselheiros que eles queriam, prevenindo então de ter mesmo um rei, transformou frustração dos monarquistas bakongo em alternativa de organizar um movimento político sub rosa como o único meio possível para continuar a luta por reforma política.

Fonter> www.mbanzakongo.com

 

 

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