Viagem e Missão no Congo, de Fr. Rafael de Castelo de Vide, (1780 – 1788) (IV)

 

/ p. 157 / Relação terceira

do Missionário Fr. Rafael de Castello de Vide

J.M.J.

Caríssimo Irmão Provincial, a sua bênção.

Corte de S. Salvador do Reino do Congo, 27 de Agosto de 1783

Nos princípios de Junho do ano de 1783, recebi duas cartas do Ir. Provincial dobradas, e todas me vieram à mão, andando em missões; e eram de data de 8 de Fevereiro de 1782, outra de 10 de Abril do mesmo ano. Só então soube da bem acertada eleição do nosso Caríssimo Ir. Provincial, Fr. Domingos do Crato, e da mais Religiosa Mesa de Definição, e mais oficiais, tudo com tanto acerto, como sempre costumou a nossa Mãe e Santa Província. Eu aqui vou continuando com esta missão, ainda que cheia de trabalhos, e moléstias, mas Deus bendito, ainda com vida, sem arrependimentos de ter vindo, antes desejava que muitos me seguissem. Dela não posso dar mais notícia do que a que relato na relação inclusa, que já e a terceira. A segunda mandei o ano passado, e só tenho notícia ter o Ir. Provincial recebido a primeira. Não repare o Ir. Provincial a imperfeição / p. 158 / com que vai feita: é narrar só simplesmente a verdade, e para mais não há tempo: eu a faço, e ao mais, só com os olhos em Deus: não espero por isto alguma recompensa, nem ainda boa opinião. Eu me conheço pelo mais indigno de meus irmãos e depois destas relações serem lidas, melhor seria entregá-las ao fogo, como uma simples carta, e não ficasse mais memória de quem escreve, pela sua indignidade. Deus sabe que mistura isto com as lágrimas nos olhos, e se não fossem os motivos, que nelas refiro, eu nunca o fizera. A primeira e segunda relação que se tem feito em comum, de nós todos, os Missionários do Congo, já as tem enviado para a nossa Soberana, o Senhor Bispo de Angola, por ele no-las mandar fazer de tudo. Agora espero as suas ordens para escrever esta terceira, de que eu me mandei escusar, de que não sei o que aquele Senhor ordenará. Eu, só como filho, quisera contar à Santa Província, minha mãe que como tal desculpará os meus defeitos, o que passo,  e faço fora dela. De meus irmãos e companheiros, eu não tenho alguma notícia; eu há muito lhe escrevi, mas não tenho tido resposta. Eles estão distantes de mim mais de / p. 159 / trezentas léguas. Mas se fossem mortos, teria vindo a notícia a Angola, e dali a mim. Dos Religiosos defuntos, e Pais e Mães, eu já tenho dito algumas Missas, e poucos me restam dos últimos que vieram. Eu sempre vou conservando o costume da Santa Província no  hábito de burel, e tudo o mais, não querendo parecer outro. Só em casa, depois desta moléstia da sarna, uso de algum hábito mais leve, porque o de lã, com o calor, a agrava muito. Se faço mal, espero a repreensão do Ir. Provincial a quem prostrado vou tomar a santa bênção, e me sujeito como súbdito; e peço ao Senhor guarde ao Ir. Provincial, e lhe dê a sua graça, e forças para suportar o peso do seu ministério.

Do Ir. Provincial, súbdito mais indigno,

Fr. Rafael de Castello de Vide

Esta carta com a Relação no mês de Agosto de 83, a enviara para Luanda, mas os portadores se tornaram do caminho, fugindo a uns ladrões, que os queriam apanhar; agora vão outra vez pela ocasião de termos muita necessidade de tudo o necessário para o Santo Sacrifício da Missa, sem falar no mais que falta. Depois deste tempo, tenho tido por duas vezes alguma febre; uma principal que me pôs em perigo. Mas Deus bendito, sem remédio, nem médico, porque nada / p. 160 / há, se tem despedido, e de ordinário dura esta dois, três dias.

Como tornou a Relação, quis fazer outra, ou mudar-lhe alguma coisa, não porque julgasse ser mentira, mas por algum escrúpulo de dizer alguma coisa, que podia deixar; mas como isto é de um pecador, como eu todos me conheçam.

Neste tempo morreu o Rei do Congo, e agora se segue outro, que já dizem ser um seu irmão, que a ser, bom é e nosso amigo, chamado D. Afonso. Dele falo na primeira relação em Micondo. Agora queria sair à missão, mas como o meu companheiro se acha no Ducado de Bamba, por causa de acudir a uma necessidade, espero por ele, porque não se pode deixar esta Corte sem Padre. Aqui de ordinário corre tudo, e é preciso estar sempre ocupado em o Santo Ministério: peço as orações da Santa Província como filho, ainda que indigno, e faço este aditamento hoje, 19 de Janeiro de 1784, e tanta vai a distância desde que mandava as cartas a Luanda, porque nem sempre se pode mandar por causa das muitas chuvas; e, por isso, e pelos ladrões do caminho se padece, mas, Deus bendito, agora vou vivendo não já com tanta sarna, mas sempre a há, e vai-se aumentando mais pelos muitos calores / p. 161 / que agora há.

Esta carta ainda tornou segunda vez do caminho; agora a torno a remeter por uns negociantes que moram em Angola: daqui se verá quanto se padecerá; e ficamos bem necessitados de tudo, o que mais sentimos é a falta no que toca ao Santo Sacrifício: paciência, vamos trabalhando. Amanhã, se Deus quiser, vou para a Missão. Deus me dê forças e guarde ao Ir. Provincial.

16 de Fevereiro de 1784

Fr. Rafael.

 

/ p. 162 / Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Maria Santíssima.

 

Caríssimo Ir. Provincial, sábia, discreta, e muito Religiosa Mesa de Definição e os mais amados Irmãos, filhos de nossa Mãe e Santa Província da Piedade.

Esta é a terceira relação que faço da minha missão com simplicidade, sem composição alguma, e sem fazer antes rascunho, se não ir escrevendo o que me lembrava ter-se passado, escrita em muitos poucos dias depois que me recolhi da última missão, e ainda muitas vezes interpolada com alguns serviços de Deus, que acudiam. Deus mesmo sabe, que nela não minto, e o fim por que o faço. Peço ao Ir. Provincial a sua santa bênção e a todos os meus Irmãos as suas orações; eu não me esqueço de pedir ao Senhor pela nossa Santa Província, de quem me honro muito ser, ainda que indigno, filho, súbdito, e de todos os meus Irmãos os Religioso =o mais inútil e vil =

Fr. Rafael de Castello de Vide

Corte de S. Salvador do Reino do Congo, 20 de Agosto de 1783.

/ p. 163 / Terceira parte da relação das Missões que faz em o Reino do Congo, o Missionário, Fr., Rafael de Castello de Vide, indigno filho da Santa província da Piedade, e Vigário Geral das Missões do mesmo Reino: refere-se o grande serviço que se faz ao Senhor em acudir a estas almas tão necessitadas de obreiros evangélicos, como se verá em o discurso de toda esta relação.

Se eu não imaginasse que nestes meus escritos podia fazer algum serviço a meu Senhor, animando a meus Irmãos a seguir o meu destino para o bem destas pobres almas no cultivo de tão imensa vinha do Senhor, tão destituída de obreiros evangélicos, que apenas nos achamos dois em um Reino, tão dilatado; e se a obediência mesma não me obrigava, eu não escrevera, para que não julgasse alguém, que eu o fazia, fundado em alguma mortal glória. Não, meus Irmãos, não vendo por tal preço os meus trabalhos, nem espero por eles alguma recompensa humana. Não foi este o fim que me conduziu a esta / p. 164 / missão: Deus sempre foi toda a minha esperança; ainda que  não mereça nada na sua presença; ainda que me condene, como mereço, até à morte, trabalharei sempre pela sua glória, e pela mesma glória de meu Deus, e outros fins já referidos na primeira, continuo esta terceira relação.

Pouco direi das fomes, sedes, trabalhos, faltas do necessário, moléstias, e outras incomodidades, que se padecem nestas missões; porque estas não devem desanimar a ninguém, antes devem dar maior esforço a alguém que conhecendo o meu pouco espírito que os atura, muito mais aquele, que for melhor do que eu; e que tiver melhor consideração, de que padece por amor daquele Senhor, que por nós padeceu e morreu ; não façamos caso de trabalhos, vamos já a narrar os serviços que se fazem ao Senhor em as Missões, e dos seus caminhos, e algumas mais notícias úteis.

A primeira missão a que saí depois de concluída a segunda relação foi para as partes de Hiva, para onde já referi ter ido outras vezes: o motivo foi porque o Infante daquela Província já me havia vindo buscar, / p. 165 / quando me achava em  Missão de Mapinda, para lhe ir administrar o Santo Matrimónio, porque se achava amancebado, e fazer outros serviços de Deus em suas terras. Saí desta Corte no primeiro dia de Outubro do ano de 1782; e no mesmo dia, com trabalho, cheguei à sua Banza, passando por outras Povoações. Fui recebido com todo o aplauso e alegria dele, e de toda a sua gente, que me haviam vindo esperar ao caminho, saltando todos de alegria, e cantando louvores a Deus, e a Maria SS.ma e assim me levaram em procissão até ao seu Povo.

Nos dias seguintes me ocupei bastantemente, a administrar o Santo Baptismo, e penitência a muitos fiéis, que de longe concorriam, até que o dito Infante dispôs o seu casamento, lançando fora muitas mancebas, que tinha, ficando só com a mulher, a quem tinha dado palavra de esposa, fazendo grandes festas, segundo o seu costume, que não excediam os termos da modéstia, segundo o que lhe tinha ensinado; além de outros ensinos, que eles são fáceis de tomar, ainda que alguns se prevaricam, e com liberdade evangélica os repreendo, sem / p. 166 / temor algum que se rebelem.

Deste povo quis passar para as partes de Entalla; mas como era alguma coisa distante, e principiava o tempo das chuvas, e eu me achava algum pouco doente,  tinha notícia que o P.e Fr. João, que havia ficado na Corte, estava doente, e se achava só porque o P.e Dr. havia também ido para a Missão, deixei para outro tempo mais cómodo a missão de Entalla, junta com a de Lemona, e depois de dez ou doze dias me tornei a recolher para a Corte; aonde achei o Padre doente sem poder ocorrer a muitas necessidades espirituais que aqui ocorrem.

Desde este tempo me principiou a afligir a impertinente moléstia da sarna, mal tão universal em este Reino, que não perdoa aos meninos inocentes, e a nós estrangeiros nos convida ainda mais: o P.e Fr. João que já o Senhor passou para a eternidade, como direi adiante, a padeceu bem terrível, cheio de chagas por todo o corpo. Nós os dois que restamos, ainda a padecemos, e se tivéssemos de tudo muito, não poderíamos dizer, que só nos faltava sarna para nos coçarmos; mas / p. 167 / de tudo temos falta, só esta não nos falta para nos afligir; a mim, além de outras moléstias, me tem caído em as pernas que me não dá lugar, mais do que estar na cama, e à força me levantar para acudir aos serviços de Deus, ainda que agora, bendito o Senhor, me acho pouco mais aliviado; mas isto não obsta para deixar as missões, que assim doente as tenho feito.

De todos estes meses até Janeiro, não há coisa memorável que referir, porque, detendo-me em todos eles na Corte, se me ocupava em os costumados exercícios de confessar, baptizar os que acodem, que, como Corte, e cabeça da nossa Missão, se vê ordinariamente cheia de muita gente e se pode chamar aqui uma contínua missão: eu lhe pregava todos os domingos e dias santos, ou sobre a moral do Evangelho, ou sobre algum mistério particular. No dia da comemoração dos defuntos, costuma esta gente mostrar uma grande piedade para com os mortos, porque em a noite antecedente, não se ouve mais que cantar o Rosário, por todas as Igrejas, que agora só se podem chamar cemitérios, aonde cada um tem os seus parentes enterrados;  e isto toda a / p. 168 / noite, e no dia seguinte, se ajunta imenso Povo à missa, e ofício dos defuntos, que eu cantei com os Mestres, ou Intérpretes, e discípulos, que o fazem, ainda que com suas imperfeições; porque é o primeiro empenho que têm em o aprender, depois a procissão, como se costuma, etc. Neste dia trazem muitas esmolas à Igreja pelas almas, e a do Rei é mais avantajada, que constam dos seus legumes, e alguns frangos, e zimbro;  que eu reparto pelos mestres, e pobres, e fica para nós alguma coisa para nossas necessidades.

Em a noite de Natal, se ajunta também o Povo na Igreja, e até á meia noite se ocupa em vários louvores de Deus, e Maria SS.ma, a que eu assisto para os animar, e lembrado da grande solenidade deste dia, me dá alguma saudade do Reino, mas me consolo, que também poderei achar Deus no meio destes rústicos pretinhos, e fora da Corte, e Cidades polidas: e, para satisfazer de algum modo a minha devoção, rezo na Igreja as Matinas, em uma voz algum tanto entoada, e no fim canto o Te Deum, e depois digo a missa da noite, e guardo as duas para o dia, para o mais Povo ouvir / p. 169 / e não deixo de pregar ao povo este divino e amoroso mistério: o mesmo tenho feito em as festas da Imaculada Conceição, e outras semelhantes, e aquela singular graça da Senhora eu a faço conhecer a todos, e a todos venerá-la.

Em os princípios de Janeiro, mandámos a Luanda buscar alguma coisa necessária, mas tivemos a infelicidade de nos roubarem tudo no caminho, ou quase tudo; e de uma pipa de vinho que vinha para as missas, apenas nos deixaram um frasco; o que o Rei sentiu tanto, que logo quis mandar a sua guerra contra o Infante roubador para o destruir, e todo o seu povo, mas mandando-me dar disto parte, eu lhe roguei, que lhe não fizesse mal, e que nós vínhamos para salvação deste Reino, e não para destruição, o que o Rei louvou, mas que sempre o mandava avisar para soltar os escravos da Igreja, que também tinha o dito roubador presos, e pagar tudo, se não que havia de fazer justiça para ensinar aos outros  a não tocarem nas coisas da Igreja, e dos Padres.

Com efeito, ainda que o Padre Dr. acudiu logo, e foi até ao caminho para / p. 170 / acudir às nossas coisas, não foi preciso que o Padre lá chegasse, porque o Rei mandou ordem a seus Irmãos, que moram em Micondo para irem castigar o sobredito Infante, que morava em Bamba, se não soltava os escravos da Igreja e restituía tudo aos Padres. Foram os Irmãos do Rei com um exército numeroso; ainda que acudiu logo o Infante prostrado por terra pedindo perdão, e oferecendo um escravo para o Rei pelo crime de não ter executado as suas ordens, que mandavam que a ninguém se fizesse mal em o caminho; mas nós sempre ficámos perdendo o que perdemos, ainda que o Rei deu o sobredito escravo à Igreja, e àquele Infante não lhe custou pouco, porque o exército do Rei lhe comeu, e destruiu todos os seus frutos, e ficou bem castigado e emendado. Eu bem sei que isto não pertence à missão mas pode servir para o nosso fim alguma coisa.

Nos fins de Janeiro, sentindo-me com algum pouco alívio nas moléstias, saí para a missão e quis principiar pela Banza de um grande Infante, que mora pouco distante desta Corte, aonde não tinha ido algum Padre, e julgava que ali teria muitos serviços de Deus. Este Infante não era do partido do Rei, e é aquele / p. 171 / de quem já falei na primeira relação; junto de uma Banza dormimos, quando viemos ter com o Rei para Micondoambamba, e de que suspeitavam os Irmãos do Rei, que nos traziam, lhe faria guerra aquela noite: o dito Infante, ainda que já veio obedecer ao Rei, foi como por cerimónia, ou medo, porque ele sempre se mostra mais inclinado à outra parte; mas eu que me não embaraço com estas coisas, e vim para bem de todos, fui à sua Banza, e passando primeiro por alguns povos, que lhe estavam sujeitos, foi tal o alvoroço de alegria em todos, que cada um me queria levar sobre os seus ombros, e assim me levaram como voando, passando Rios, montes e matos até à presença do Senhor, maior Senhor que me veio receber ao caminho com todo o agrado, e de todo seu Povo, e me levou em procissão até o lugar da sua Igreja, ou casa, que lhe serve de rezar; porque é uma sala da sua casa de palha, já se sabe, como todas as deste Reino. Aí concluímos alguns louvores de Deus e de Maria SS.ma, e logo se seguiram os costumados cumprimentos e festas; fazendo o Infante os seus costumados sangamentos até que me levaram para a casa que me estava destinada para hospedagem. Nos dias seguintes me ia visitar e fazia os costumados presentes: doze ou mais dias que ali estive, / p. 172 / me ocupei em muitos serviços de Deus, concorrendo muitos baptismos, e confissões, porque ali concorriam alguns, que não tinham confiança de chegar à Corte. Administrei a muitos o Santo Matrimónio, e ao mesmo Príncipe, e Senhor da Banza, que ainda estava amancebado, sendo já de crescida idade, deixando todas as suas mancebias e muitas mulheres; ali lhe preguei muito, e repreendia sem temor os seus costumes, o que muitos aproveitavam, por isso concorriam; ainda que outros ficariam como antes, como sucede em toda a parte.

Daqui passei para outra Banza de outro Infante também Príncipe grande, passando por alguns Povos, que  me traziam os seus filhos ao caminho para baptizar, outros me seguiram de longe, de sorte que o Missionário lhe é preciso ir com tudo o necessário sempre pronto para exercer o seu Ministério. Cheguei à Banza, e o Senhor dela me veio receber ao caminho segundo o seu costume, e reverência ao Padre, e me levou à sua casa com as mesmas costumadas cerimónias, agradecendo aos escravos da Igreja, que me tinham levado e mostrando todos os sinais de amor, etc.

Aqui só me detive o dia seguinte, e no terceiro continuei a minha jornada, depois de administrar alguns baptismos, e confissões, que não eram muitos / p. 173 / por ter por ali passado já outras vezes, e fui dormir a Ensuco, e é lugar que pertence aos Padres Barbadinhos Italianos, e foi seu hospício, mas agora se acha destruído, e sem Padres, e ali vivem alguns seus escravos, que são os que de ordinário me acompanham nas missões e os do hospício da Sé, como direi adiante e não tendo aqui muito que fazer, por ter já estado em aquele lugar de outra vez, baptizando alguns poucos, e descansando um dia, passei para Comma, aonde mora um Infante também dos principais do Congo.

Este Infante, sabendo a minha chegada me veio receber como os mais, etc. e em nove ou dez dias, que aqui me detive, foram inumeráveis os Baptismos, e Confissões que acudiram de todas as partes, e pregando-lhe contra as suas mancebias vieram alguns tomar o Santo Matrimónio e entre eles um Infante vizinho, e o sobredito Senhor da Banza estava também pronto, mas nesse tempo tive carta do Padre Dr. , que havia ficado na Corte, de como o nosso companheiro, o P.e Fr. João se achava muito molesto, sacramentado e quase a morrer; e, permitindo o casamento do Infante ainda alguma demora, quis acudir ao Padre companheiro doente, e me tornei a recolher para a Corte, depois de / p. 174 / vinte ou mais dias de missão; depois de satisfazer ao sobredito Infante, prometendo-lhe que outra vez tornaria, a acudir à sua necessidade; como também mandando carta a outro Infante, que ficava da outra parte do Rio Mbrize, que já me esperava.

Cheguei à Corte com dois dias de jornada, e com trabalho, porque, além da sarna, me haviam sobrevindo uns frunchos (= furúnculos) pelo corpo, que nós chamamos leicenços, que algum tempo me afligiam muito. O cuidado do companheiro doente me não dava lugar a deter-me mais tempo no caminho; e contudo ainda administrei alguns baptismos, recolhendo-me por outro caminho mais perto da Corte: quando cheguei, achei o companheiro com algum pouco alívio; mas com moléstias implicadas umas com as outras, ainda durou algum tempo. No mesmo a mim também não me faltou que padecer, também doente, mas não tanto, que ainda me dava lugar para lhe assistir, e acudir aos serviços de Deus em a Igreja, e sendo então o santo tempo da Quaresma, pregar mais ao Povo, ensinar-lhe a doutrina, confessar, etc.. Este mesmo foi o tempo em que nos roubaram as nossas coisas no caminho, e em que o Padre Dr. foi procurá-las, como fica dito, ficando eu só com o Padre doente; nem então o Céu deixava de nos afli/ p. 175 / gir, porque era tempo de grandes tempestades de águas, ventos e trovões tão horrorosos, que a cada passo nos parecia, que éramos o alvo dos raios, e só acompanhados de alguns pequenos pretinhos, mas Deus nos acudiu cuja misericórdia sempre implorávamos; como também me livrou de uma epidemia quase geral em este Reino de cursos de sangue, de que morreu muita gente, e o Padre defunto também a experimentou junto com uma íctica, lançando postas de sangue pela boca, além da sarna já mencionada e bem tinha ao Senhor que oferecer, e não deixava de lhe fazer o ofício de bom enfermeiro, cuidando do seu sustento, e fazendo-lhe a cama, e tudo o mais, que necessita um doente; ainda que também pouco bom, mas não era coisa que me desobrigasse da comida quadragesimal, que eram de ordinário os nossos amados feijões só, porque mais não havia, e até na quinta feira santa; e só no sábado fizemos o nosso banquete com alguns poucos ovos.

Nesta semana maior, já o P.e Dr. estava em casa, e apenas na quinta feira  maior disse missa para comungar o P.e Dr., e ao P.e Fr. João dei a comunhão em casa nas oitavas da Festa. Na sexta feira, fizemos só a adoração da Cruz; e no sábado, tudo no modo possível, e Missa, e é quanto pode permitir este Reino. Na sexta feira lhe preguei não sem lágrimas, o mistério / p. 176 / da Paixão do nosso amante Senhor; no sábado e domingo, em que se ajunta aqui muito povo, e fazem muitas festas, não deixei de lhe ensinar o mistério da Ressurreição do mesmo Senhor.

Depois da Festa, as moléstias do Padre doente se foram mais agravando, até que no dia 8 de Maio deste presente ano de 1783, cedeu aos trabalhos da moléstia, e aos de Missionário, passando para a eternidade, aonde cremos piamente, e julgamos terá já recebido do Senhor a recompensa de todos eles, descansando na sua glória, e a nós nos deixou saudosos da sua amável companhia, mas com a consolação de lhe termos administrado todos os  Sacramentos necessários, que ele recebeu com muita devoção, e verdadeiro conhecimento de que morria, recebendo o Sagrado Viático, que eu lhe administrei duas vezes: mostrou todos aqueles desenganos, que costumam os bons Religiosos naquela hora: no segundo dia lhe administrei a Santa Unção, respondendo ele às orações, sem os soçobros daquele transe: no terceiro dia deu a alma a Deus, depois de ele mesmo invocar o auxílio de todos os Santos e muitas vezes o nome Santíssimo de Jesus e de Maria, depois de eu dizer Missa por sua agonia, e assistindo-lhe ultimamente o Padre Dr., enquanto eu encomendava a sua alma nas mãos de Maria SS.ma diante / p. 177 / de uma devota Imagem, passou ao Senhor, e praza ao mesmo Deus, que eu tenha quem me faça outro tanto, ou morra, se Deus quiser, no desamparo, contanto que a minha alma se salve por graça e misericórdia do meu Deus, por piedade de minha Mãe e Senhora, Maria.

No mesmo dia de tarde fomos depositar o seu corpo na Igreja, e os escravos da Igreja, e muitos outros fiéis, lhe assistiram toda a noite, cantando seus Rosários: no dia seguinte, lhe cantámos o ofício de corpo presente, e Missa, e o ofício da Sepultura, como se costuma aos Religiosos, e o enterrámos na Capela Mor da Sé, e o lugar destinado para os sacerdotes. A este seu funeral assistiu imenso Povo, e o Rei, por ser doente, mandou os seus vassalos maiores, e conselheiros,  sentidos todos amargamente com a morte de seu, como eles diziam, Pai Espiritual, muito mais o sentíamos nós; e eu algumas vezes não podia suster as lágrimas; e se não fosse conformar-me com a vontade de Deus, me seria mais custosa, na consideração de que já neste Reino tínhamos perdido dois companheiros: estes morreram e nós não podíamos esperar outra coisa, porque nesta vida, em que estamos como os Apóstolos, somos como destinados para a morte. Isto, meus irmãos, não deve desanimar a alguns, porque se morremos, morremos pela causa daquele Senhor, que por amor de nós mor/ p. 178 / reu, e quem tem medo à morte, não venha para a Missão.

Depois da morte do nosso amado companheiro, o Rei, e todos nos queriam consolar, mas nós só nos consolávamos na vontade daquele Senhor, que tudo pode, tudo ordena, conforme o seu divino beneplácito. É senhor da vida, e da morte, faz o que lhe agrada a seus misericordiosíssimos olhos. Isto não nos deu alguma perturbação, os dois que ficámos nos determinámos a trabalhar até morrer. Pelo que, no dia 26 do mesmo mês de Maio, eu saí outra vez desta Corte a continuar a Missão, que havia ficado quando vim acudir à doença do Padre companheiro, como já disse, e havendo pouco tempo, que se haviam acabado as chuvas, e por me livrar da terrível passagem de um Rio caudaloso, chamado Loege, que corre junto da Corte, e era preciso passá-lo duas vezes, fiz o caminho mais prolongado, indo dormir a outra Banza, que já fica da outra banda, aonde baptizei e confessei alguns. Nos dias seguintes, passei por toda a Província de Gando, Ensuco e Comma, e no 6.º dia, passei o grande Rio Mbrize. Deste Rio, já falei na primeira relação, de o passarmos de Bamba para as partes da Corte em uma canoa, mas aqui se passa por cima de uns paus com algum perigo, porque é largo e profundo, mas o Missionário a tudo se expõe pelo / p. 179 / bem das almas, mas o Senhor nos guarda e quatro vezes que passei este Rio Mbrize, nesta missão, nunca tive algum perigo: duas vezes aqui mesmo, e duas diferentes no seu princípio, e aqui com mais comodidade; e é de louvar em os pretos o zelo que têm dos Padres nestas passagens, um o leva pela mão nestas terríveis pontes de pau, que não constam se não de um, ou dois paus, não muito grossos, atados às árvores que de ordinário há nas margens dos Rios: outro vai detrás do Padre para o segurar, se tropeçar, outros estão pelos ramos das árvores, prontos para se deitarem logo ao Rio, se o Padre cair; e os que restam, de uma e outra parte, de joelhos cantando a Ave Maria, e tanto que o Padre acaba de passar, então gritam todos de alegria, fazem os seus sangamentos.

Depois da passagem deste Rio que fica em deserto, segui a minha jornada, encontrando muitas Lagoas, e uma delas de bem terrível passagem, profunda e comprida, e destas abunda muito este Reino, porque, como é terra montuosa e de muitas chuvas, em alguns lugares baixos se formam as Lagoas e Rios. Todo o dia caminhei até quase junto aos altíssimos montes de Encanda; e já ao pôr do sol, encontrei um Rio não muito grande, mas fundo, e uma passagem mais terrível que as antecedentes; tentei / p. 180 / passá-lo por cima de um delgado pau, mas indo-se este com o peso ao fundo, me tornei para trás; mas um Infante vizinho me tinha vindo esperar ao Rio com a sua gente, que, como mais práticos nesta passagem, ataram a tipóia a uma árvore, assim mesmo pelo ar com grande trabalho seu, e susto, me passaram a outra banda, e com muita alegria me levaram para o seu Povo, aonde cheguei à noite. No dia seguinte, baptizei muita gente, e o mesmo Infante me mandou dizer, que ele não era ainda baptizado, e que desejava muito receber o Santo Baptismo, mas sendo ele já de crescida idade, e tido por todos como Cristão, se envergonhava de ser baptizado em público, a que eu logo anuí com grande consolação da minha alma por o Senhor, sem eu o merecer, me destinar para um ministério tão santo, e tanto de seu divino agrado. O Infante veio logo e, só na companhia dos Intérpretes, e do que fazia as vezes de seu Padrinho, o catequizei primeiro e instruí nas obrigações de Cristão, o que ele tudo recebia com grande gosto, e devoção, e logo o baptizei com todas as cerimónias, e depois de gosto o abracei, como a um filho gerado pelo Evangelho, e Irmão / p. 181 / em Jesus Cristo; e este não é o só, que assim se tem baptizado.

Antes que passe daqui advirto que até esta Banza desde o Congo, baptizei muita gente pelos caminhos, e que em todas as antecedentes missões se baptizaram muitos adultos, porque como haviam muitos anos que não vinham Padres ao Congo, de ordinário eram tantos os grandes como os pequenos; mas nestas partes aonde agora relato esta última missão, eram mais os grandes, que os pequenos; porque, como ficam distantes da Corte, não podiam lá chegar, e só os Missionários levados do Espírito de Deus chegavam ali, e havia mais de vinte a trinta anos, que não viam Padres, e os mais deles não o conheciam, se não por tradição de seus Pais; pelo que todos me olhavam admirados, já pelo traje, já pela cor, e ficavam pasmados; mas disto ainda direi mais para diante de outras onde cheguei, aonde havia mais tempo não ia algum sacerdote; e aqui logo principiei a baptizar velhos de setenta e mais anos, e me alegrava de achar ainda aqueles ociosos, por não haver quem os conduzisse, que ainda que tarde vieram à vinha do Senhor, vinham receber / p. 182 / a mesma paga do grande Pai de Famílias: aqui me lembrava muitas vezes quando via estes velhos virem ao baptismo e saíam das águas das culpas, para as da graça, me lembrava de um sonho que eu algum dia havia tido. Advirto que conto isto como coisa de sonho, e não porque faça algum mistério, etc., e vem a ser, que, estando ancorados no Rio em Lisboa, sem podermos sair, pelo espaço de dez dias, por falta de vento, alguns da Nau se preparavam de linhas e anzóis para pescarem no mais alto do mar, porque diziam que ali havia muita pescaria, que serviria de proveito e divertimento. Eu também me preparei com os necessários instrumentos, para também pescar, ainda que tenha pouco préstimo para isso. Porém, na mesma noite, quando tinha as minhas coisas prontas, sonhei, ou não sei como o diga, que lançava a minha linha ao mar, e o peixe que tirava era um preto muito velho; isto fosse sonho, ou o que fosse, eu desde então larguei logo tudo, sem nunca mais querer, nem usar daquele inocente divertimento, parecendo-me / p. 183 / que o Senhor pela sua misericórdia me destinava para outro género de pescaria. Rogo a todos, que isto lerem, que não façam caso disto, que eu também destas e outras semelhantes coisas não faço mistério, só conto isto por me lembrar muitas vezes, e me vir à memória no mesmo tempo, que escrevia estas coisas sem alguma advertência de antes, e só na missão, vendo os velhos, logo me lembrava.

Na Banza onde agora vou falando, só dormi uma noite, e me detive no seguinte dia, enquanto baptizava os que havia, e enquanto um Infante maior, que ficava muito vizinho, e de quem este outro Infante, de quem tenho falado, era vassalo, com o título de seu Capitão, me mandava buscar para o seu Povo, aonde todos os que lhe estavam sujeitos, podiam recorrer. Veio o seu Embaixador dizendo como o seu Senhor me esperava com muita alegria, a quem eu logo segui; e achei ao tal Infante no caminho, que me vinha a receber, e levar em procissão para o seu Povo: assim me levaram ao lugar da sua Igreja, que era um grande terreiro com uma Cruz no meio, concluí os louvores de Deus, e de Maria SS.ma e logo o Infante me veio tomar a bênção, e todos, e me levaram com grande / p. 184 / alvoroço de alegria para a casa que me estava destinada para hospedagem, aonde fizeram grandes Festas. O mesmo Infante, seus Irmãos, e filhos, e os mais fizeram seus sagamentos, que são uns brincos como avanços de guerra, com suas espadas e espingardas, e são sinais de alegria, ou de arremeter contra o demónio, por lhe ter demorado os seus Padres, ou contra algum inimigo do Padre, dando muito a entender que estão armados contra quem lhe quiser fazer algum mal. Isto é o ordinário em todas as partes, principalmente quando o Padre lá vai a primeira vez.

A casa de hospedagem em que falo aqui, e em outras partes, não é mais do que uma casa nua, que despeja algum preto para o Padre se acomodar, sem mais nada. O Missionário, se não quiser ou não puder dormir no chão, há-de levar a sua cama e tudo o mais necessário, e para se sustentar, e à sua gente, há-de ser de alguma esmola, que tragam os que vêm ao Baptismo, que é bem pouca, outros nada trazem, pelo que às vezes há muita fartura, de que o Missionário dá já aos pobres, já aos que o acompanham, outras lhe furtam: o Padre de ordinário fica com o menos, e só se satisfazem com os serviços de Deus: o mesmo sucede no prato, que é algum porco bom, que lhe dão os Infan/ p. 185 / tes, que tudo reparte pela sua gente, e também tem cuidado de mandar alguma coisa para o Padre que fica na Corte, que as mais das vezes fica padecendo mais necessidades; mas destas e semelhantes coisas, falarei mais adiante. Falemos agora desta missão.

Aqui nesta Banza me demorei nove dias, e foram inumeráveis os baptismos, que acudiram, quase todos grandes: as mães com dois filhos e três para se baptizarem, uns e outros; homens, e mulheres de bem crescida idade, baptizando cada dia duas e três vezes, e de cada vez cento e tantos, e pouco menos, sem falar de outras vezes, que baptizava no mesmo dia alguns poucos, que tinham vindo atrasados no caminho, ocupado já em confessar, já em catequizar, já baptizando: outras vezes, quando lhe via ao pescoço, ou vestido alguma coisa diabólica, e de superstição, ou arrancava, ou pisava, e queimava, sem deixar nada, sem temor; levado, não sei se diga, do zelo da honra de Deus, lhe pregava contra isto fortemente; repreendia-os, e também os afagava, dizendo-lhe que isto era para seu bem, ensinando-os a guardar a lei de Deus, a renunciar ao Diabo e todas as suas superstições a que eles são muito inclinados, pregando contra as suas mancebias, e contra / p. 186 / outros muitos costumes, que já a experiência me tem ensinado serem eles mais propensos; e é de pasmar a reverência, e humildade com que todos ouvem isto, e sofrem as repreensões sem dizerem palavra, e ainda os grandes que se prostram por terra. A estes, e outros ensinos, beijam a mão do Padre e muitos confessam o seu erro; e são a sua escusa, dizendo: que haviam de fazer sem Padres que os ensinassem e na verdade têm razão. Considere cada um  se o nosso Reino tão católico estivesse vinte, trinta e quarenta anos sem ver um Padre, o que seria! Muito mais estes pobrezinhos desamparados são louváveis ou dignos de compaixão por terem ainda conservado uma tal, ou qual Cristandade, e dignos que haja sempre zelosos, que lhe acudam.

A esta Banza, aonde falo, me veio visitar uma Princesa do Monte Quibango, monte memorável pela sua eminência, pelas suas vitórias, e pela sua Cristandade, e por ser raiz de muitos Reis. Esta Princesa já antes me havia ali mandado visitar por um seu filho, e agora ela mesma, acompanhada de soldados, e de suas escravas, me vinha rogar quisesse eu ir àquele Monte a fazer missão, porque o Príncipe seu Irmão me esperava, e sua Mãe e todos ali com muita alegria. Eu lhe res/ p. 187 / pondi que não tinha saído da Corte com essa intenção; porque havia pouco mais de um ano, que lá tinha ido um Padre, que queria fazer outro giro por partes, que tinham mais necessidades. A Princesa não foi muito satisfeita com a resposta, mas sempre com a esperança que eu lá havia de ir, como sempre fui ao depois, por carta que tive do Príncipe, como direi adiante, mas depois de ter corrido todas as partes, que tinha determinado.

Aqui mesmo me visitou outro Infante com o desejo, que fosse pela sua Banza. Este Infante morava mais acima destes montes de Encanda, e a Banza aonde estava ficava à raiz do Monte. Do maior cume do Monte me mandou visitar outro Infante Maior, que eles chamavam também Príncipe, ou na sua língua, Tumbochi. Este Príncipe me mandou um seu filho com duas cabaças de vinho de palmeira, que é o seu ordinário presente, dizendo-me que ele me esperava com todo o seu Povo, com muita alegria;  e o seu filho ficava para me acompanhar. Daqui coligiram os leitores o grande desejo que esta gente tem dos Padres e grande necessidade pela qual os chamam. Isto também me dava consolação, pelo que, não obstante eu sempre ter vindo doente desde a Corte, não deixava de trabalhar.

Aqui nesta mesma Ban/ p. 188 / za tive carta do P.e Dr., que havia ficado na Corte, em que me dava notícia que tinham chegado ali os portadores, que mandava o Senhor Bispo, e o Síndico, com algum provimento necessário: ele me mandava a carta, que me vinha do Senhor Bispo e do Síndico para eu ou responder de lá, ou vir à Corte receber o que me vinha; mas eu que não me atrevia a deixar aquelas almas, outra vez desamparadas, de lá respondi ao Senhor Bispo e Síndico; e mandei dizer ao Padre companheiro recebesse tudo e me mandasse alguma coisa necessária, pois me achava falto de tudo; e as mais cartas do N. Caríssimo Ir. Provincial, reservando a resposta para outra viagem, por não poder ser já em aquela com a presente relação.

O mesmo Ex.mo Senhor Bispo me dava notícia na sua carta, de ter morrido o General, o Senhor D. José da Câmara, que ainda que aquele Senhor nos favorecia, em S. Ex.ª Rev.ma , que havia ficado com o Governo não havíamos experimentar alguma falta, e que nele tínhamos um bom Procurador, como bem mostrou logo mandando-nos socorrer muito antes que nós o esperávamos, e nos prometia, que breve nos mandava o mais, que agora faltava, e não tinham vindo por causa das chuvas.

Desta Banza, de que tenho falado, depois de acabar os serviços de Deus, que ali havia, segui a minha jor/ p. 189 / nada para subir aos sobreditos Montes da Encanda, e sendo estes muito altos, foi preciso andar de roda deles, para procurar o melhor caminho três e quatro léguas, que ainda estes, melhores, de bons nada tinham; cheguei a uma Banza de um Infante que já disse me tinha visitado, e não se achando ele na Banza, sua mesma Mãe, e Irmão me vieram a receber ao caminho com toda a grandeza, e agrado; e me encaminharam à casa, que estava destinada para hospedagem. Nesta Banza estive só quatro ou cinco dias, e baptizei inumerável gente, e já daqui tinham ido muitos a baptizar-se à Banza antecedente, e no caminho mesmo quando para lá ia, baptizei muitos, que me seguiam, e saíam das suas moradas em seguimento do Padre.

Nesta Banza lhe preguei também muito, como nas outras sobre o cumprimento da Lei de Deus; deixação das suas superstições, principalmente quando dizia Missa, e quando havia de baptizar, ensinando-lhe a santa doutrina; que eu já sabia na sua língua, sobre a existência de um só Deus, e que este é remunerador, como diz S. Paulo, ser precisa esta fé aos que vêm para Deus: o mistério da Santíssima Trindade, o da Redenção, etc. isto era infalível, quando havia de baptizar os adultos, aproveitando o inumerável Povo, uns que vinham ao Baptismo, outros que assistiam, ou por / p. 190 / curiosidade, ou por trazerem os seus filhos, alguma vez lhe fazia alguns argumentos, a que eles não podiam responder, se confundiam e confessavam o seu erro: como assim: propunha-lhe todos estes mistérios, e lhes procurava se os criam: respondiam todos na sua língua: cremos, cremos, quiquili, quiquili, e logo lhes tornava a perguntar: Credes no demónio e nos seus enganos? A isto respondiam com grande voz: pena, pena, que é para eles a negação, e outros termos semelhantes, renunciando o diabo; eu então tomava motivo para lhes argumentar com grande ímpeto, e não sei se zelo: pois se não credes no diabo, porque fazeis as suas obras? Para que vestis e trazeis ao pescoço as neminas, os chifres, os ídolos, e outras diabruras! Para que ides a casa de Quinpage? A isto não respondiam se não com o desengano. Esta casa de Quinpage é uma casa que alguns homens perdidos, e feiticeiros fazem crer ao Povo, que ali o diabo lhes há-de dar a saúde, e outras coisas, que eles procuram; e as estas casas vão muitos, e ainda muitos grandes; e aqueles malditos homens ali fazem vários embustes para lhes roubarem alguma coisa, do que verdadeira assistência do Demónio; e contudo aqueles perdidos homens o invocam com certas palavras, e cantigas, e todos os mais, que lá vão; algumas vezes dizem que salta o / p. 191 / Demónio na cabeça de alguma pessoa, e, perdendo o juízo, diz vários disparates, e enganos, como aqueles mesmos, que lá tem ido à confissão; se doentes foram, pior ficam e sempre morrem quando o Senhor quer e não é por lá irem morrer mais depressa; mas o Povo não se desengana.

Contra estas malditas casas tem sido maior o zelo, em as destruir: eu tenho feito todo o empenho em saber onde estão para mesmo as ir abrasar, e destruir; mas isto é coisa não fácil de descobrir porque todos as ocultam muito bem; o que faço é pregar fortemente contra isto, já desenganando o Povo destes embustes, já arremessando, e ameaçando-os com excomunhões, já metendo-lhe medo, que hão-de morrer se lá forem, coisa de que eles têm muito medo; e sobretudo, propondo-lhes a obrigação de adorar, e amar a um só Deus, e por ele todas as suas esperanças, e confio no Senhor ter nisto aproveitado muito.

Nesta Banza fazia o mesmo que nas outras tirando a todos os que as traziam, as coisas diabólicas., chifres enfeitiçados, queimando-os, pisando-os sem temor; e a uma mulher, Irmã do Infante da Banza, que trazia uma criança ao baptismo, e trazia ao pescoço uns certos idolozinhos, lhe mandei logo que os ti/ p. 192 / rasse e mos entregasse, o que ela logo fez e eu na sua presença lhe fiz o mesmo que fazia às mais coisas, e a ensinei que jamais trouxesse semelhante coisa consigo, que cresse só em Deus, etc., e deste procedimento com que me havia com eles se seguia ninguém mais aparecer com semelhantes coisas, e só traziam alguma cruz ao pescoço como eu lhe ensinava.

Estas e outras superstições e diabruras, são mais ordinárias nestas terras onde então me achava; por isso andava mais vigilante o meu zelo contra eles, sem temor de ninguém, ainda que me via só entre exércitos de pretos não temia a morte, antes a desejava pelo amor do meu Senhor, esperava a sua bondade, que eu me faça digno de tal morte, e por tal causa, para lhe satisfazer as muitas dívidas, em que lhe estou.

No dia do nosso esclarecido Português Santo António, depois de dizer Missa, pregar ao Povo, mais sobre as suas obrigações, do que sobre as virtudes do Santo, depois de baptizar perto de duzentas pessoas, tendo-lhe antes pregado segunda vez sobre os mistérios da Santa Fé Católica, me determinei / p. 193 / seguir a minha viagem, e subir ao mais alto do monte, porque já havia dias que o Príncipe daquele lugar me esperava, e me diziam ficar perto aonde podiam concorrer os mais baptismos de toda a serra, e vale. Fui, e encontrei os mais terríveis caminhos, que jamais tinha encontrado, primeiro de canaviais, palhaçais, de mais altura de dois homens, caminhos muito estreitos, que todos os deste Reino são assim, e cobertos de muito mato, mas estes piores. Logo se seguiu um mato de árvores altíssimas, espesso e medonho, e depois de caminhar por ele largo tempo, principiei a subir o monte, e monte tão alto, que era como subir por uma árvore. Eu, ainda que doente das pernas, e pés por causa da sarna já mencionada, o fui subindo com muito trabalho, quase de gatinhas, pegando-me às raízes das árvores, das quais todo o monte estava coberto, sendo um continuado bosque; muitas vezes se me descalçavam as sandálias, ficando embaraçadas nas raízes, que eram como escadas em algumas partes, já sem poder tomar a respiração, disse aos Intérpretes, que gente era aquela que ali morava, / p. 194 / que isto não era morada para homens, que deixassem aquilo para as feras, que assim se faziam impérvios aos missionários; porque estes montes, além de ser dificultosa a sua subida, de um e outro lado, têm uma horrorosa profundidade; ali é assento das maiores trovoadas, e agora no tempo do cacimbo, se vê ordinariamente coberto de névoas, é imensa a gente, que por ali mora, e toda ela é tida pelos moradores da Corte, e seus circuitos, por gente mobumba, ou como gentios; porém, a mim não me pesava, nem me pesa de lá ter ido; porque a falta ali de padres há mais de quarenta anos é que os tem feito menos Cristãos; e o homem inimigo no sono, ou na ausência dos servos, ou dos Missionários, tinha por ali semeado a sua cizânia, que eu fiz muito por arrancar com a graça do Senhor naquele campo do Pai de Famílias.

Enfim, cheguei com grande trabalho ao cume do Monte, aonde estava a maior Banza, e já o senhor dela tinha mandado alguma gente a esperar-me ao caminho: o dito Príncipe me recebeu com alegria, e o seu Povo, e se fizeram os costumados / p. 195 / sangamentos, e presentes, etc. Nesta Banza, padeci muito da minha moléstia antiga, tendo-se agravado pela custosa subida do monte, inchando-me muito as pernas, e pés, de sorte que muito me custava dar algum passo cheio de chagas, de sorte que para acudir a muitos baptismos me era necessário estar assentado, e ainda isto com trabalho; nem ainda na cama tinha perfeito descanso, de que tudo fazia sacrifício a meu Senhor.

Em a noite em que cheguei àquela Banza, o Senhor dela mandou deitar um bando, dizendo: que nenhum Feiticeiro fizesse mal ao Padre, que era Pai Espiritual, etc., sinal, que ali os havia; mas nem isso me perturbou, antes disse a um Intérprete que então ali se achava, que eu não tinha medo senão do meu Deus, que temia de deixar fazer a sua vontade e a minha obrigação, que nem por isso havia deixar de lhe pregar contra as suas feitiçarias, e superstições ainda que morresse pela sua causa, como assim o fiz com todo o esforço; e até ao Senhor da Banza, vendo-lhe ao pescoço um certo cornicho enfeitiçado, quis / p. 196 / primeiro com prudência avisá-lo, mandando-lhe um Rosário, e uma Verónica, dizendo-lhe que deitasse fora aquela diabrura, que não era sinal de Cristão, aquilo era sinal de gentio. A que ele logo obedeceu, dizendo que os malditos feiticeiros lhe tinham dado aquilo; mas que ele era Cristão que logo o tirava, como fez, trazendo só o seu Rosário.

Nos primeiros dias que aqui estive, não vinham os da Banza, nem de toda a serra ao baptismo, e só alguns poucos de fora; julgava que estavam no mesmo projecto de outros das partes de Ensolo, aonde tinha ido o P.e Dr. , que vinham primeiro ver se aqueles, que se baptizavam, morriam; porque o demónio lhe tinha metido isso na cabeça;  como também antes de eu chegar ali diziam eles, que tendo havido uma grande peste de cursos em todo o Reino, estavam vendo se com o Padre lhe ia também a peste, que ainda lá não tinham; mas eles viram o contrário; mas o demónio lhe metia isto na cabeça para apartar a santa Missão, que lhe levava a vida.

Nesta Banza preguei muito, sobretudo o que conhecia  ter / p. 197 / necessidade, como nas antecedentes; e pregando-lhe sobre a necessidade do baptismo para a salvação, e mais obrigações de Cristão, logo da primeira  vez vieram cento e vinte de uma vez, e se seguiram muitos mais todos os dias, muitas vezes: também lhe pregava sobre suas mancebias, e aos que vinham adultos, além das outras instruções, lhes mandava deixar as mancebias, e virem tomar o Santo Matrimónio: eles tudo prometiam mas ali não fiz algum casamento, nem com o mesmo Príncipe pude acabar que se casasse; tendo muitas mulheres, escolhesse uma, o que me causou alguma desconsolação, porque era já velho, e não podia esperar outra missão; mas isto sucede em toda a parte: uns recebem a doutrina, outros, não.

Mas aqui me satisfez o Senhor com outra consolação, recebendo uma carta do Príncipe de Quibango, cheia de piedade e respeito, cuja carta vai inclusa nestes papéis, para que se conheça o desejo de Padres, que tem este Reino. Este Príncipe o é verdadeiramente, ainda que me muitos tomam estes títulos: este é o maior por descendência de muitos Reis, que reinaram antes / p. 198 / naquele monte, em cuja sucessão tem ele entrado, e os mais antecessores com o título de Duques, e Príncipes, depois que o Rei passou para o monte do Congo, aonde era primeiro assento dos Reis; deste monte de Quibango, direi mais alguma coisa em seu lugar.

À carta do Príncipe, respondi o mesmo que havia dito à Princesa sua Irmã, que me havia visitado, como já disse, e acrescentava, que eu não iria, só se ele quisesse tomar o Santo Matrimónio, como tinham feito os seus antecessores, que haviam sido bons cristãos; e que assim me avisasse para eu então não faltar a coisa tanto do serviço de Deus, etc. Isto lhe dizia eu porque sabia que estava amancebado, e quando lá tinha ido outro Padre não tinha casado, a que ele logo respondeu como direi adiante.

Depois de estar nesta Banza aonde falo pelo espaço de nove dias, vendo que não aproveitava mais, segui a minha jornada até outra Banza de um filho do mesmo Infante de Encanda aonde ainda baptizei muita gente, e em uma e outra, algumas poucas confissões: só três dias ali estive por não haver mais necessidade, e passei para outra, passando por algumas Povoações, aonde mesmo de caminho, baptizei muitos. Cheguei à Banza aonde tinha determinado pernoitar; e, estando já perto mandei recado / p. 199 / ao Infante, que eu ali ia, como é costume: e logo ele por se achar doente mandou um seu Irmão com os maiores do seu Povo a receber-me, o que fizeram com alegria, levando-me em procissão até o Povo.

Ali me detive, parece-me que dez dias, por haver muito que fazer, de baptismos e confissões, que foram inumeráveis, e fui mais fortunoso com o Infante que, deixando toda a sua mancebia, recebeu o Santo Matrimónio, tendo-lhe pregado muito, e a todo o seu Povo, sobre toda a doutrina de que tinham necessidade, e reparando, que outros muitos não vinham receber o matrimónio, me disseram os Intérpretes que aquela gente, e de todas aquelas partes, estavam em um erro, que só o Demónio lho podia inspirar; que era, que os que casavam, logo morriam; e desta sorte se deixavam ficar amancebados do que eu bem os desenganei, e muitos prometeram casar para o futuro, porque ainda não tinham escolhido mulher, e as que tinham eram mancebas, que logo deitavam fora.

Aqui perto desta Banza, tem o seu princípio o grande Rio Mbrize, em que já tenho falado, que sai das entranhas dos montes com grande violência e correndo desde aqui alguma pouco terra, encontrando os montes de Encanda, / p. 200 / e Quibango, que cercam a terra, mais de cem Lagoas, rompe por baixo dos montes a terra, vem a saltar em uma grande altura dos montes, e despenhando-se, continua este grande Rio até o mar, um dos mais memoráveis deste Reino. Aqui também é a terra abundante de excelentes árvores de incenso, que depois de vaporarem aqueles aromas lhes servem aos moradores para o fogo, exalando quando se queima agradável cheiro: dali trouxe eu algum pouco de incenso para a nossa Igreja, e alguns pedaços de pau por curiosidade, e por outra somente, faço esta pequena digressão.

Aqui mesmo recebi a resposta da carta que tinha escrito ao Príncipe de Quibango em Encanda, e nela me rogava quisesse ir àquela cidade para o casar, como mandava a Santa Madre Igreja Católica Romana, assim mesmo se explicava, e que o avisasse eu alguns dias antes da minha chegada, para me vir receber, a que eu respondi de boca, reservando a carta para o avisar, como pedia, depois de ter corrido toda a missão determinada.

A esta presente Banza me mandou visitar outro Infante grande por duas vezes, dizendo-me que ele me esperava, e que, por sinal de amor, e desejo que eu fosse à sua Banza, ele, achando-se fora dela, e longe, ouvindo a minha notícia, se tinha recolhido logo para me / p. 201 / receber, a que eu logo prometi de ir, porque esperava ali fazer alguns serviços a Deus. Este mesmo Infante já me tinha visitado na Corte, e ainda que se achava nestas partes dos Blobumbos, era descendente da Corte, e se dava por meu compadre, por lhe ter baptizado dois filhos, que ele me tinha entregado por afilhados.

Isto de serem compadres dos Padres, e afilhados é para esta gente ou grande honra, ou devoção; por isso, nesta Missão, e nas outras, e ainda na Corte mesmo, muitos me vêm rogar para isso; e eu sempre os satisfaço, e sei o modo, que posso para isso, e para eles não desconfiarem ou perderem a sua devoção, é ponto que eles têm de honra. Nos casamentos dos maiores Fidalgos, Infantes e Príncipes, sempre o Padre há-de ser o seu Padrinho, porque, dizem eles, que não têm outra pessoa maior, mas eu sempre procuro que hajam as testemunhas do Concílio nos casamentos, e no baptizado os legítimos padrinhos, e eles sempre ficam com o título de Compadres, ou afilhados, e se dão por satisfeitos.

Para a Banza deste Infante de que falo, fui depois de estar na antecedente os dez dias, que disse, e antes passei por um Povo, que já lhe estava sujeito, e baptizei alguns, e passando por outros povos, também da sua jurisdição, me veio o sobredito Infante receber ao caminho com / p. 202 / uma indizível alegria: nesta Banza, só me detive cinco, ou seis dias, porque ainda me achava doente, e me desejava já recolher, e tinha muito ainda que fazer, e já me parecia não ter ali já mais serviços de Deus, depois de baptizar inumeráveis, e fazer algum casamento, e confissões, e confessar o mesmo Infante e sua mulher, porque era casado.

Aqui a esta Banza me mandou chamar um Fidalgo grande, não era Infante, mas senhor muito poderoso, porque os Infantes só se chamam aqueles que vêm da descendência dos Reis, que eles na sua língua chamam Muana de Congo e os outros Fidalgos só lhe chamam Mexicongos. Para a Banza deste segui a minha missão, e encontrei para esta Banza bem terríveis caminhos, porque tendo eu já admirado que havia subido muito para o Monte de Encanda, não tinha ainda encontrado igual descida, a que vim neste caminho a encontrar, depois de ter passado quinze ou dezasseis léguas, e era um monte tão terrível como o da subida. Aqui, como ia doente, e me tinha sucedido mal na subida de Encanda, os escravos da Igreja me quiseram levar na rede com grande trabalho seu, e ainda meu, indo às vezes quase de rastos; mas sempre ao depois me foi preciso ir pelo meu pé, e descalço, porque encontrámos um terrível Rio pequeno, mas fundo, e de tan/ p. 203 / tas, que era impossível para a rede: eu o passei muitas vezes arrimado ao bordão e uma destas um escravo se compadeceu de mim, porque havia de passar um grande espaço de água, e me tomou sobre os seus ombros, que eu não consenti outra vez e fui passando, com algum receio de me suceder algum mal, porque estava um grande calor, e me metia na água por muitas vezes, mas Deus bendito nada me sucedeu, mais do que o meu trabalho, que eu oferecia ao Senhor.

Depois destas passagens, como o caminho era cheio de mato, e os pretos escravos da Igreja não eram práticos no caminho, o perderam, e andámos algum tempo errados, até que uma mulher de alguma Banza perto nos ensinou o caminho pelo qual, ainda com muito trabalho, caminhámos algum tempo, passando alguns Rios, e montes custosos; até que, quase à noite, principiámos a avistar alguns Povos, que já estavam sujeitos ao sobredito Fidalgo. Destes Povos, saiu muita gente com alegria a receber-me, e logo se ajuntou outra muita que vinha da Banza maior do Fidalgo, que mandava com ele os seus vassalos maiores a receber-me, por ele ser doente e velho. Toda esta gente me levou em procissão até à Banza, aonde saiu as receber-me o Fidalgo e Senhor dela, com grande agrado, e alegria, e de todo o mais Povo, e logo me / p. 204 / levaram ao lugar da sua Igreja, aonde se concluíram os louvores de Deus, e de Maria SS.ma. Logo me acompanharam todos até à casa da hospedagem fazendo-se grandes sagamentos, e os costumados presentes, que são logo que o Padre chega um frasco de vinho de palmeira, e ao depois, algum porco.

Nesta estive pelo espaço de dez, ou doze dias, e fiz muitos serviços a Deus em inumeráveis baptismos, confissões, pregação, e alguns casamentos, de sorte, que todo o dia era necessário estar ocupado, segundo o ordinário exercício do Missionário em todas as partes.

Aqui me mandou visitar um Infante, que morava para outras partes, e me rogava quisesse eu ir à sua Banza. Mas eu lhe respondi, de que me achava doente, e já cansado com a missão de dois meses; se era só para baptismos e confissões da sua gente que ali podiam vir, ou a Quibango, para onde eu passava para casar o Príncipe, mas se ele também queria tomar o Santo Matrimónio, ou desejava fazer outros serviços de Deus na sua mesma Banza, me avisasse, porque não obstante tudo, tornaria para trás para satisfazer a sua devoção; mas o tal me respondeu, que me agradecia, mas que não queria ir contra a vontade do Príncipe de Quibango, que sabia já me esperava / p. 205 / havia muito tempo, que mandava parte da sua gente ao baptismo, e Confissão, que a outra iria com ele mesmo a Quibango, aonde ele mesmo havia de chegar para receber o Santo Matrimónio, como fez ao depois;  e eu fiquei descansado e os Intérpretes livres daquele susto, porque não desejavam muito lá ir, e não teriam remédio se eu fosse.

Aqui mesmo tornou outra vez a vir Embaixador do Quibango, para saber o dia certo da minha chegada àquele Monte, a que eu não dei logo resposta, porque ainda tinha que fazer na presente Banza, e vendo já que podia dali partir, escrevi ao Príncipe, assinando-lhe o dia pré-fixo de um sábado, mas logo lhe advertia, que, se não fosse naquele dia, seria por causa de algum serviço de Deus, que mo impedisse, porque é necessário sempre pôr estas cláusulas, pelo que pode suceder, porque esta gente tem para si que o Padre nunca pode faltar à sua palavra: com efeito, no tal sábado não pude fazer jornada, por causa dos muitos baptismos, que acudiram, nem também no domingo, porque acabando de dizer Missa ainda cedo, logo levantou o Sol com grande calor, e o caminho custoso, e mais por causa de alguns baptismos e confissões.

Mas na segunda feira seguia minha jornada, e já o Povo não mostra alegria como em todas as partes, antes muito / p. 206 / tristes os Senhores deles, e o País Povo me acompanham algum tempo com muita tristeza pelo Padre ir da sua Banza, e só enquanto o têm se alegram, porque julgam que não podem ter maior fortuna, e bem de Deus.

Nesta jornada me acompanhou um filho do tal Fidalgo, que se dava por meu afilhado, e o fidalgo por compadre, e encontrei também ruins caminhos, e um arrebatado Rio como o Mbrize antecedente: também entra pela terra largo espaço, e quando é maior a enchente, corre por cima, e por baixo dos montes, e ajuntando-se com outro Rio chamado Cuillo, se vão incorporar no Zaire grande.

Cheguei finalmente ao Monte Quibango, e depois de subir o monte, e depois de caminhar por ele três ou quatro léguas, em outro cabeço ficava a Banza ou Cidade do Príncipe; desta Banza que fica para o nascente não é tão alto este monte, mas largo, e espaçoso, da parte do poente, que olha para a Corte é desmarcada a sua altura, e foi por onde desci quando saí da Missão desta Banza do Príncipe. Este Grande do Congo, tanto que viu de longe, que eu vinha para a sua Banza, saiu ao caminho a receber-me com a sua Mãe, filhos e Princesa, com grande alegria; todos me levaram à sua Igreja, que antigamente era grande Templo, ainda que formado de paus, e palhas, segundo a possibilidade e costume do Reino, mas / p. 207 / bem feito, para o que têm boa habilidade os pretos, e não se podem comparar com algumas cabanas, que se fazem em Portugal.

Agora só tinha uma como capela coberta, aonde se ajuntavam a rezar o seu Rosário nos sábados, domingos e dias Santos, e era destinada para se dizer Missa. Aqui nesta Capela, e mais corpo da Igreja, que só se achava descoberta, têm grandes Mausoléus, que eles fazem com alguma semelhança aos dos grandes do nosso Reino, onde estavam sepultados alguns Reis do Congo, Rainhas, Príncipes, Princesas, e alguns dos seus grandes, coisa a que eles têm então grande respeito, que ninguém se pode ali assentar, nem pôs o pé, sob pena de um grande crime: aqui fiz alguma comemoração pelos defuntos, e logo me levaram à casa da hospedagem, acompanhando-me todas as pessoas mencionadas com o Príncipe, e seu Secretário; e logo se seguiram os presentes costumados, que por serem de Príncipe grande foram mais avultados, e de sua Mãe.

Neste monte de Quibango edificaram primeiro o seu Hospício os Padres Capuchinhos Italianos que ao depois um Rei, que ali morava, por causa de discórdias, que tinha havido neste Reino, recolhendo-se para a Corte levou consigo o Padre, que fundou então o Hospício de Ensuco por ficar mais perto da Corte, e do Superior Capuchinho, que morava também no Con/ p. 208 / vento desta Corte, o que tudo hoje se acha destruído; mas a gente deste monte de Quibango conservou sempre a memória da sua Igreja antiga; e a boa Cristandade que aqueles Religiosos Padres eram costumados a ensinar, e ainda hoje aquela Banza de Quibango é uma como segunda Corte: tem havido ali grandes Príncipes, poderosos Senhores de muitas terras, e muitas Povoações de escravos; e os mesmos Infantes que moram por todos aqueles montes, e vales lhe são sujeitos, e uns são seus filhos, outros sobrinhos e netos; e nenhum se atreve a fazer coisa alguma contra ele, e é monte de paz por isto.

Este monte bem necessitava ao menos de um ou dois Padres, ali assistentes para acudirem a todos aqueles Povos, que ficam para aquelas partes mais distantes, e só este monte fica mais de vinte léguas distante da Corte: eles bem desejavam que eu lá morasse; mas não pode ser, porque somos só dois Padres, e é preciso assistir na Corte, que fica no meio do Reino, e é o assento dos Vigários Gerais como foi dos Senhores Bispos, e prouvera a Deus viessem muitos Padres para se fazerem vários Hospícios não só aqui, mas em outras muitas partes, que bem o necessitam; mas também ali me rogavam que os fosse visitar mais a miúdo, e que / p. 209 / em algumas necessidades me haviam de mandar buscar, e eu a tudo lhe dava boas esperanças.

Neste monte me demorei por quinze dias completos, e não obstante haver ano e meio que lá tinha estado o Padre companheiro defunto, foram inumeráveis os baptismos, que ali acudiram, e confissões, e alguns casamentos; entre os que ali tomaram o Santo Matrimónio foi aquele Infante, que me havia mandado chamar quando estava na Banza antecedente, e outros mais, e o Príncipe: a este, antes de casar, o mandei advertir, que devia primeiro deitar fora todas as mancebas que tinha e ficar-se com a sua esposa, a quem dizia ter dado palavra de casamento; a que ele respondeu que sabia ser esta a sua obrigação, e que já os seus velhos lho tinham ensinado, que de boa vontade largava todas, como assim o fez, o que eu lhe tornei a ratificar, assim quando se confessou, como quando se casou, na prática forte que lhe fiz, como tenho de fazer a todos, que tomam este Sacramento, condenando a pluralidade de mulheres, e mancebas que ajuntam com a sua legítima, vício a que são muito inclinados, e é preciso ao Padre bater muito sobre isto.

Aqui nesta Banza tive carta de outro Infante grande que mo/ p. 210 / rava distante, mas para a parte do caminho por onde me havia de recolher para a Corte, ainda que alguma coisa apartado: nela me rogava que fosse à sua Banza, porque todos os Infantes, e Fidalgos estavam com grande alegria, ouvindo dizer que eu me dispunha para ir para aquelas partes: e assim era, porque eu tinha saído da Corte com essa intenção; ainda que esta não era a vontade dos Infantes, e Fidalgos do partido do Rei. D. José, de cujo partido não tinha sido aquele, e ainda lhe não tinha ido obedecer; mas eu, que não olho para isto, senão a acudir às almas, respondi aos que isto diziam, que eu não tinha vindo a fazer a vontade dos partidistas, mas a de Jesus Cristo, e que era Pai Espiritual de todos, e que para bem de todos tinha vindo; e com efeito, já tinha prometido ao sobredito Infante de lá ir, e esperava mandar-lhe o aviso quando chegasse, como ele me dizia na sua carta, que era a Ensuco, a Banza mais vizinha; do que se passou, falarei adiante: a carta do Infante, que era a resposta de outra, que eu lhe havia escrito prometendo-lhe ir à sua Banza que também já era resposta de outra que ele me tinha escrito pedindo-me isto mesmo, vai inclusa nestes papéis, e é letra de um seu secretário, que é um preto que estudou em Luanda para se ordenar, / p. 211 / mas ao depois teve algum impedimento ou por morte de seu Pai, ou semelhante causa, e é a melhor pena e bom Português.

Deste monte de Quibango, desci depois dos quinze dias mencionados; e na verdade é descida terrível desde o mais alto deste monte altíssimo: pelas suas vargens em alguns Povos, ainda de caminho, baptizei muita gente, e confessei alguns, e sobre a tarde, cheguei à Banza de um Infante, a quem já tinha mandado avisar de que passava pela sua morada, e quando cheguei já achei tudo preparado, e a gente acomodada, que me seguia; e na mesma tarde, fiz alguns baptismos, e no dia seguinte lhe mandei recado  se tinha alguns serviços de Deus, que ali fazer, se não que continuava a minha viagem, a que respondeu que os baptismos que havia mos levava, e que podia seguir a jornada; os quais baptizados e alguns que vieram de fora, e depois de confessar alguns, não havendo maior necessidade,  me pus ao caminho até ao rio Mbdrige, aonde antes o tinha passado e um grande círculo que havia feito.

Passei o Rio então com mais temor, porque vi a sua profundidade; e da primeira vez, indo mais cheio e a água junta aos paus da ponte, não me parecia tanta: dali tornei outra vez pelo mesmo caminho até à Banza / p. 212 / do Infante de Comma, a quem havia prometido que, quando tornasse, lhe administraria o Santo Matrimónio, o que ele esperava, não o recebendo da outra vez, quando passava, por se achar ocupado da morte de uma sua filha, que eu lhe enterrei; e agora, quando tornei, detendo-me ali três dias, administrei alguns baptismos, e confissões, e o casei, deixando ele todas as suas mancebas.

Uma delas quis mostrar o seu brio por ser desprezada, e casar com outra que ele escolheu; e quando o Infante se retirava para sua casa, já com a sua verdadeira Esposa, aquela mulher por outra parte rompia o muro com grande fúria, com um alfange na mão, cortando os paus e palhas que formavam o muro, e fazendo com os seus parentes os seus sagamentos ou brincos de guerra, como arremetendo, e dizendo que não havia de sair escondida como as outras mancebas, mas à vista de todos, porque ela era Infanta, e tinha primeiro a palavra do casamento.

Eu ouvindo isto me afligi, porque via que a mulher tinha razão, e me enfadei com os Intérpretes, por não terem explicado bem os impedimentos do Matrimónio, como eu lhe tinha explicado: mas um deles me satisfez que ele morava ali perto, que aquela / p. 213 / mulher não podia casar com o Infante, por ser sua parenta muito chegada, motivo por que o dito já havia tempo a tinha deixado, e dotado aquela com quem casou, e que todo o Povo tinha gritado não haver impedimento, e que todos bem conheciam isto: ora, a voz do Povo entendi eu, porque é costume, quando os esposos estão para se casarem, publicarem-se os impedimentos, e por três vezes, o Povo que então se ajunta muito dá ou não a sua aprovação; e já neste Reino estão cientes dos impedimentos do matrimónio, e não costumam nunca casar com parentes de algum parentesco. Contudo, nós sempre os examinamos bem; e sobre os seus esponsais, algumas vezes tenho feito justiça.

Ainda que isto que disse o Intérprete me satisfazia, quis sempre examinar o Infante sobre isto, e me disse o mesmo. E à mesma mulher desprezada, indo-me tomar a bênção, quando eu já estava em Ensuco, perguntei o mesmo, que ela confessou, e ficou satisfeita, declarando-lhe eu, que ela não podia casar com o Infante, porque seria matrimónio nulo. Ora este procedimento a respeito dos casamentos, que se fazem nestes sertões, é quanto se pode fazer fora da Corte, aonde se faz com outra solenidade e dever.

Daquela Banza de Comma / p. 214 / passei para Ensuco, aonde já falei ter sido antigo hospício dos Padres Capuchinhos e aonde assistem alguns de seus escravos, que têm restado de muitos, que lhes têm apanhado, antes de nós virmos, que agora não, porque nós os defendemos: os mesmos escravos, vendo que por ali passava algumas vezes, e desejando que eu fosse assistir naquele hospício, me fizeram uma casa particular para me hospedar; mas quanto à assistência, não tenho convido como também no da Corte, por não me embaraçar com as missões particulares de outros Padres; e só vivo no lugar dos Vigários Gerais que agora me pertence, junto à Sé, como direi, mas sempre olho por conservar aquele resto, que os ditos Padres têm deixado, porque assim o pede a justiça, e caridade; e a muitos dos escravos, que estavam cativos, temos resgatado, e posto nos seus lugares, para que, se os Padres vierem, lhos entregamos todos.

Neste Hospício de Ensuco estive cinco dias baptizando, e confessando alguns poucos, e daqui mandei recado ao Infante, que me tinha escrito a Quibango para me mandar buscar; mas como a resposta tardava, e tinha tido carta do Padre Doutor, e recado particular, de que ele se achava doente, e me rogava me recolhesse cedo para mandar a Luanda buscar hóstias, porque as que tinham vindo / p. 215 / nesta última condução estavam já arruinadas, deixei recado para o sobredito Infante sobre o motivo da minha retirada, e não por outro fim, a que ele me respondeu ainda no caminho, que não importava: que ele queria ir à Corte enterrar o corpo de sua Mãe, que então, depois de ele tomar a bênção a El-Rei, tornaria comigo para a sua Banza, porque lá tinha muitos serviços de Deus: e este mesmo recado me tornou a mandar, quando eu já estava na Corte, com um presente, o que eu também satisfiz com alguma coisa de aguardente, que tinha vindo de Luanda, e alguns Rosários, o que eles estimam muito, o que eu também não desestimei, porque fiquei satisfazendo a ele, e ao Rei, porque, ainda que este nos não proíbe irmos a todas as partes fazer missão, sempre deseja primeiro que os Infantes lhe venham obedecer, e então o Padre lá ir para ficar mais seguro no Reino e haver paz, ao que nós, quanto podemos, anuímos, segundo a recomendação que temos do Senhor Bispo, e havendo nisto alguma dúvida, nós a não temos, de acudir a todos.

Enfim, cheguei à Corte no dia oito de Agosto do ano de 83, tendo saído desta no dia 26 de Maio do mesmo / p. 216 / ano, com dois dias de jornada desde Ensuco, baptizando pelo caminho alguns, e passando duas vezes o Rio Loège; já então dava mais fácil passagem.  Cheguei com saúde, graças a Deus, depois de tantos trabalhos, e já melhor da minha sarna, que em Quibango tinha acabado, ainda que não de todo; mas agora torna a renascer segundo o seu costume de acabar uma camada e logo sobrevém outra. O Padre companheiro também o achei padecendo terrivelmente, e agora mais que nunca: é mal universal em todos; mas é mal com que podemos, ainda que com trabalho, de que fazemos sacrifício a Deus.

Tanto que cheguei a esta Corte, logo o Rei me mandou visitar por um dos seus grandes Fidalgos, para saber a minha saúde; ao que lhe correspondi, indo visitá-lo no dia seguinte, e me recebeu com grande agrado, segundo o seu costume, e amor, para connosco, e depois de conversarmos algum tempo sobre os serviços de Deus, que fiz pela missão, e outras coisas, me recolhi para nossa casa, e vou continuando com o ordinário exercício , e continuo nesta Corte, de baptizar, confessar, pregar, enter/ p. 217 / rar os mortos, etc., e achando-me já nesta Corte pela Festa de Nossa Senhora da Assunção, a celebrei com a possível solenidade, não tanto, como aquela Senhora merece, mas segundo a nossa possibilidade, e amor, e obrigação que lhe devemos, fazendo procissão, e pregando ao povo, etc.  Em obséquio desta mesma Senhora Mãe de Deus, e dos pecadores, e nossa particular protectora, faço celebrar todos os sábados em louvor da sua Imaculada Conceição, cantando o Povo o seu Rosário na Igreja; logo eu, revestido de capa de asperges, que a temos preciosa, levanto a Salve na mesma língua do Congo, e a canto com o Povo a seu modo. Logo se segue a Missão, no fim a Ladainha cantada com a antífona Tota pulchra, que eu tenho ensinado aos Mestres, e discípulos, como também o hino de Santa Bárbara todos os dias para ser nossa advogada, em terra de tantas trovoadas; e a Antífona Stella Cœli, por causa da peste, que tem havido, o que já eles fazem sofrivelmente.

Aqui também temos já quatro particulares discípulos, além de outros filhos deste Reino, um filho do Rei, outro seu neto, e dois filhos de dois Marqueses gran/ p. 218 / des, e alguns já escrevem e lêem menos mal, e o Padre Dr. os tem vestidos de suas becas encarnadas, e assistem com dois sacristães também de becas, e cotas, ao ministério da Igreja, que nós procuramos ter bem asseada, e ornada, e de ornamentos, cálices  outros vasos sagrados, temos demais, tudo bom de todas as cores, que usa a Igreja e esta nossa excede a muitas boas do Reino.  Tudo isto confere muito para o serviço de Deus, e esplendor da Igreja, e edificação e pasmo do Povo, que nunca tal viram nesta Sé, só se nos tempos antigos, que ele não alcançou: a Nossa Soberana tem concorrido muito para isto e o Ex.mo Senhor Bispo de Angola e Congo, e ainda esperamos mais, como ele me tem prometido, esperando as ordens da nossa Rainha, como ele me diz, por lhe ter dado parte sobre o que necessita ainda esta Igreja.

Falarei agora de algumas notícias particulares, que ainda que são curiosas, não deixam de ser proveitosas.

Nós vivemos junto à Sé, e sempre temos vivido juntos todos os Padres, como em Hospício, de que este / p. 219 / Reino  se edifica; e agora só vivemos os dois que restamos. A nossa casa fica de trás da Igreja cercada de um grande muro, ainda que de paus, e palhas, bem feito, como as casas, para o que esta gente tem sua habilidade; da parte de cima, as paredes da Igreja lhe servem de muro, ficando para a parte de dentro a porta da Sacristia, por onde só nós nos servimos, e os Mestres, ou Intérpretes, que nos acompanham.  Cada um de nós tem o seu quarto, ou cela, e uma sala comum como portaria, aonde recebemos as nossas visitas, e pouco se distingue de um Claustro Religioso.

Da parte de fora do novo muro, moram os escravos da Igreja, que não são outros se não os de um Vigário Geral, que aqui morreu, os quais, andando dispersos, ouvindo a nossa chegada, se têm vindo ajuntar para nos servirem, e para comerem; como também os dos Padres Capuchinhos, mas estes assistem no lugar do seu Convento, que fica para outra parte desta Corte. A uns e outros não permitimos nunca que estejam amancebados; mas sabendo que têm mulher, ou os apartamos, ou os casamos, e já destes tenho casado mui/ p. 220 / tos, como também aos que moram em Ensuco,  que também agora nos estão sujeitos, e todos nos servem principalmente nas Missões, e lavram as terras que pertencem à Igreja para se sustentarem, ainda que não deixamos também de os sustentar e vestir; e com o mesmo fim, aceitamos alguns escravos que nos dão para servirem a nós ou alguns Padres, que vierem, ou ficarem livres; que tais sempre eles o são, quando vêm para nós, ou por algum ofício de defuntos, ou por algum casamento de algum grande do Congo, ou por algum hábito de Cristo, que dá o Rei com o Vigário Geral, que toma o seu juramento, segundo antigo costume deste Reino.  Eu disto tenho pouca ambição, que tenho assistido a mais de vinte hábitos de Cristo, apenas um Infante deu o que costumava; e se não fosse por se não perder esta costumada oferta, e outro Vigário que vier depois se mim se não queixar, nenhum aceitaria, como também nem pelos mais serviços; mas depois de fazer quase tudo de graça daquela sorte, que posso com o intuito de serem para a Igreja para serviço dos Padres, principal/ p. 221 / mente nas Missões; porque, se não fossem os que achámos dos Padres antigos, não teríamos quem nos fizesse alguma coisa; mas de nenhuma sorte é por algum negócio; o que absit a nobis; e nem o Padre companheiro por ser Presbítero secular tal faz, e leva o mesmo fim que eu; pelo que temos alguns pretinhos, que nos têm dado, de que só nos contentamos com o trabalho de os criarmos, doutriná-los e deixá-los na sua liberdade, ou para servirem a Igreja, e, se queremos, que Deus nos pague, ou por misericórdia nos dê a sua graça, e a sua glória, e ainda que nos custe, o que nos custar, nunca nos aproveitamos de algum, e nunca lhe chamamos nossos, se não servos da Igreja, para que nem em o nome se conheça alguma propriedade: isto que eu digo é a sincera verdade; porém, se ainda nisto há algum excesso, eu me sujeito à correcção dos meus Prelados, porque eu não vim ao Congo por alguma ambição se não para salvação das almas de meus próximos, e da minha.

Em nossa casa não entra algum género de mulher, e só nos ser/ p. 222 / vimos com os sobreditos pretinhos, que nós temos ensinado a fazer a cozinha, e só alguns rapazes pouco maiores vão algumas vezes a Luanda com um velho levar algumas cartas, e trazer alguma coisa necessária. As mulheres, ainda que sejam escravas da Igreja, só à porta da sala, ou portaria, pedem alguma coisa, mas em os nossos quartos nenhuma pode entrar. Isto fazemos pela modéstia, pela honra e mais pelo serviço do Senhor, pelo bom exemplo, com a graça do Senhor, em toda a parte se pode conservar a inocência, e não é este Reino e toda esta terra causa de ruína. Eu digo isto para tirar o erro de alguns que imaginam, que vir a estas terras, ou pela liberdade, ou pelas circunstâncias, se vêm a meter como em uma ocasião próxima de perder a castidade; não é assim. Rebelião da carne contra o espírito, pelejas em toda a parte as há, mas tudo podemos naquele que nos conforta.

Nós os dois Padres vivemos em comum, e só da Divina Providência, porque este Reino não dá alguma coisa certa, como ordinária aos Padres, só vive/ p. 223 / mos  das esmolas dos Fiéis; e estas muitas vezes faltam e são muito diminutas e já não dão segundo o costume antigo; pelo que algumas vezes temos abundância e outras grande necessidade. Sim, a nossa Soberana dá a cada um, cada ano em Luanda, oitenta mil reis, estes recebe por mim o Síndico que lá tenho elegido pela licença do N. Caríssimo Ir. Provincial, que me enviou. Este manda em própria espécie aquilo que lhe peço de necessidade, mas, como é tão longe, pouco pode vir; e muito mais se gasta em vinho para as missas, cera, hóstias, e mais coisas necessárias para a Igreja, e em se pagar aos condutores, e de ordinário, do que vem, ou se furta, ou se perde, ou se arruína, como agora nos sucedeu a uma pouca de bolacha, que de dois barris, nada se aproveitou, e até as hóstias se perderam; pelo que vinho não o bebemos, azeite, dois ou três frascos, que é? Pão, é mandioca ralada, e bananas azedas, e azeite de ordinário nos servimos de um óleo de umas sementes, que nascem debaixo da terra, que os deste Reino chamam Gubás, e os de Angola, pela seme/ p. 224 / lhança que têm com as nossas amêndoas, chamam amendoins.

As missões as fazemos alternativamente, porque um só Padre não pode com tanto trabalho, e sempre é preciso ficar um Padre na Corte para guardar a Igreja, acudir a muitas necessidades, que aqui acodem, e assistir ao Rei, que não permitiria nunca, que o deixássemos; porque julga que nos seus Padres tem toda a sua felicidade, e segurança no seu Reino.

Nas missões, nos acompanham os escravos da Igreja, que sempre o Padre leva vinte ou mais, ou pouco menos, conforme a necessidade, entre grandes e pequenos; e estes são os que lá guisam a comida, buscam água, e lenha como na Corte, e todos com o Padre vão alegres, porque na missão comem melhor, porque há mais esmolas. Têm grande zelo do seu Padre, de noite, e de dia o guardam, e Deus é servido infundir-lhe um tal respeito ao Missionário, que este se entrega livremente nas suas mãos por matos, serras e sertões, sem algum temor, e é impossível fazer-lhe algum mal, só furtar-lhe alguma coisa, para o que eles têm sua inclinação; mas são furtinhos, que o Padre disfarça muitas vezes. Algumas vezes o enfadam com gritarias entre eles, outras o divertem / p. 225 / com as suas danças honestas, que outras lhe não permitimos, mas sempre se humilham à correcção, e nós os tratamos com amor como filhos, e não severos como a servos.

Quando nos recolhemos da missão, os convidamos a todos pelo seu trabalho, e nós descansamos do nosso, e nos recolhemos em nossa casa, donde nunca saímos se não para os serviços de Deus na Igreja, que nos fica dentro dos muros; visitar algum enfermo, enterrar os mortos e algumas vezes ver o Rei; enquanto estamos ambos, temos algum alívio; mas quando um está só, é triste retiro.

O Padre Dr. e companheiro tem feito também algumas missões, aonde tem feito muitos serviços a Deus; da primeira vez, foi para as partes de Pango, e Ensolo, e outras partes; da segunda, para Micondo, e princípio de Bamba, por onde baptizou muitos mil, e agora se prepara para sair outra vez para a missão, enquanto eu fico na Corte para acudir a outras necessidades. Com este Padre companheiro, e bom sacerdote, eu vivo com muita satisfação; entre nós há uma sincera e íntima amizade; entre nós, não tem havido jamais alguma diferença; ele é já homem ancião, e de bons costumes; quando ele está na Corte, eu tenho mais descanso, porque ele / p. 226 / é o que governa a casa, compra o que é mais preciso de comer, quando o há, e com quê, e ele é para mim como Síndico; ele, pela sua humildade, nada faz sem me dar parte; e eu pelo acerto, nada faço sem o seu conselho.

As missões que eu tenho feito, e refiro nesta terceira relação são três: a 1.ª para a Hiva e suas terras; a 2.ª para as partes do Loége, Comma; a 3.ª para as partes do Pumbo; e são as principais Encanda, Bambaantanda e Quibango e cada uma destas é como uma Província. Não posso fazer [o] cômputo dos baptizados, e outros serviços de Deus, se não dizer  que são muitos mil, assim nas missões como na Corte, além de mil trabalhos e mortificações. De tudo sejam infinitos louvores ao Senhor, e a Maria SS.ma  Sua Mãe, ; e aqui mesmo, por não ser ingrato, confesso que a esta amável Senhora, cheia de mares de graça devo todas quantas tenho recebido de Seu Santíssimo Filho meu Deus e Senhor, pelo que em mim há uma indispensável obrigação de a louvar, cantando todas as noites a sua Coroa com os meus pretinhos na sua mesma língua, e modo, e isto não só na Corte, como já disse, mas também na Missão, na qual é inviolável costume de o fazer , / p. 227 / não obstante os outros trabalhos, por isso, escolho a prima noite por mais desembaraçada, acendendo à porta da minha hospedagem um candeeiro diante da imagem de Nossa Senhora, que sempre levo comigo; a cujo santo exercício, além dos nossos, se ajuntam muitos pretos, e canto com todos, e no fim não deixo de lhe pregar das sumas excelências desta mesma Senhora, ensinar a sua devoção, junto com as outras obrigações, para esta ser perfeita; e para se fazer este exercício na Corte, já tenho colocado na casa da sala, ou portaria, uma formosa pintura, e imagem da mesma Senhora, ardendo diante dela à noite um candeeiro.

Esta é a relação terceira que posso dar da minha missão, só fundado na glória de Deus, como disse no princípio, e para animar a meus Irmãos, para que hajam alguns que, com um espírito cheio de Deus, e melhores do que eu, queiram vir trabalhar pela sua glória, e dar a vida por quem a deu por nós, a quem só seja o louvor, que daqui me pode proceder, que eu sempre confessarei, que sou servo inútil, e servo mau de meu Senhor, duas, e mil vezes sempre, e agora o confesso na verdade.

Caríssimo Ir. Provincial, a Santa bênção.

Remeto a presente relação, que o Ir. / p. 228 / Provincial me mandou fazer por santa obediência, e por não faltar a esta, e não por outro motivo a fiz; e por causa das moléstias que padeço, a não fiz mais depressa; ela seja para honra e glória de Deus.

Eu vou vivendo com uma moléstia terrível de cursos, lançando muito sangue por baixo, além de moléstia do estômago, e outras, que tudo ofereço a Deus, e peço as santas orações de meus Irmãos os Religiosos, e não sei o que o Senhor determinará de mim. Este corpo de morte está-se quase desfazendo no que foi, e há-de ser; permita o Senhor a alma seja salva; o mesmo Senhor guarde o Ir. Provincial e lhe dê forças para o cumprimento de tanto cargo. Eu, como filho, ainda que indigno, dessa Santa Província, e de N.P. S. Francisco tenho renunciado, e renuncio tudo nas mãos do Ir. Provincial, o que faço nas mãos do Ex.mo Senhor Bispo de Luanda, e quero morrer como frade menor sem apego a coisa alguma deste mundo; o pouco, que há do uso, Sua Ex.ª Rev.ma determinará.

Reino do Congo, 29 de Novembro de 1787

Do Ir. Provincial indigno súbdito,

Fr. Rafael de Castello de Vide.

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