ZOLA VUVU LUTUMAMU NSAMBU (ZVLN): Marionete ou usufruto do colonialismo para prestígio próprio?

Tal como os tokoístas em 1962, 0 ZVLN teve a sua origem nas missões cristãs instaladadas no ex -território do Reino do Kongo.

Por Bruno Pastre Máximo

Só nós próprios podemos fazer da nossa terra o que ela já foi: nobre, poderosa, temida dos brancos e dos pretos, rica, muito rica! – Z.V.L.N.(346 )

No capítulo dois procuramos mostrar o papel do rei do Kongo dentro do império português, seu uso para legitimar o colonialismo e o seu papel de palhaço de exibição em eventos e exibições públicas com políticos, mostrando a submissão do monarca ao poderio, e civilização portuguesa. Por este aspecto, o rei parecia uma verdadeiro marionete do julgo português na região, passivo e inofensivo, no entanto, procuraremos nesta parte apresentar a complexidade que existia na questão do Ntotila, tentando demonstrar quem, para além de um fantoche, ele utilizava-se do cargo para conservar algo essencial do monarca. Iniciamos nossa reflexão sobre o Ntotila na perspectiva kongo resgatando uma citação do capítulo dois. Ao comentar sobre Johnny Lengo, Costa afirma:

O actual rei tem uma figura imponente, a que dão realce os adornos da realeza – um mano encarnado, debruado de arminho, uma coroa de prata, que nas cerimônias exteriores é substituida por um chapéu armado, de almirante, e um cetro – conta 48 anos de idade (…). Vivia com oito concubinas, tendo o zêlo apostólico do actual superior da missão catílica, reverendo Júlio Matias, conseguindo que êle se baptizasse, abandonasse as mulheres, e em 10 de Janeiro último [1931], casasse, solenemente, na igreja de S. Salvador, com Ana Tussamba, rainha que lhe foi imposta pelas conveniências da sua côrte e política. Pobre rei preto! (…) a tolêrancia em matéria religiosa, entre os indígenas, é tal que pode ser apontada como exemplo a muitos civilizados. (…) é um hábil político (…) êle consegue pôr-se de fora das questões, dando-se bem com todos, sempre prestável e atencioso, sempre serviçal e pronto. (…) Ele abandonou, por uma realeza pouco cómoda, a sua profissão de caçador de elefantess. Ele sujeitou-se aos rigores do protocolo e da etiqueta, que lhe coartaram muito da sua liberdade.(347) 

A partir desta citação pudemos analisar no capítulo dois os logros feitos pelos portugueses através da colonização do Congo, sendo o rei exemplo da ação civilizadora lusitana. Por outro lado, nesta mesma citação revela que a figura do Ntotila, mesmo sendo imposto aos kongo pelos portugueses, conservava muito das características do cargo em seu cotidiano. A regalia, importante para mostrar o seu poder e prestígio, as relações de parentesco com casamentos estabelecidas – e mesmo depois mantidas ocultadas dos portugueses -, o seu papel de mediador de conflito, tão estimado entre os kongo foi mantido e incentivado pelos portugueses.

Ora, porque não pensar que da visão kongo, ao manter estes atributos constituintes do cargo de monarca, não teriam os portugueses reconhecido a importância do Ntotila e o reverenciado? Ao invés de uma relação de submissão do Ntotila aos portugueses, não seriam estas provas de que os portugueses queriam na verdade se apropriar do cargo, aceitando o poder e prestígio do Ntotila?

Pensamos que as ações dos portugueses junto ao Ntotila levaram aos contemporâneos da época a pensar que o problema não era o lugar do Ntotila, já que até os portugueses reconheciam o poder e a importância dele – isto não estava em questão – mas sim que o ocupante deveria ser uma pessoa que defendesse os interesses do povo kongo. Queremos aqui entender que a relação dos portugueses com o Ntotila, ao invés de enfraquecer o seu poder e prestígio, tiveram o efeito oposto, ao legitimarem perante o povo kongo que ele era de fato poderoso a ponto de os portugueses negociarem e concederem favores a ele. E não eram poucos privilégios que o Ntotila possuía dentro do sistema colonial. Ele recebia uma pensão mensal, podia manter seus costumes protocolares da corte348, podia conceder títulos de nobreza, inclusive a portugueses349, tinha local especial nos eventos promovidos pelos portugueses na cidade de Mbanza Kongo, tinha local cativo na Igreja Católica350, era alvo de fotografias e reportagens dos jornalistas, foi filmado para o cinema351, realizava viagens ao exterior, indo a Portugal e até teve um encontro com o Papa em Roma! Recebia as mais altas autoridades do governo português, incluindo presidentes da república, algo que nem mesmo os portugueses tinham acesso.

Como veremos a seguir, esta relação promíscua com os portugueses não foi vista com bons olhos pelos que se opunham a presença portuguesa na região. No entanto, o poder do cargo de Ntotila não era colocado em questão, a luta política deveria ser pela retomada do lugar ao povo, e não um rompimento com ele. E alguns documentos até sinalizam que o mais “decorativo” dos reis do Congo, o monarca Johnny Lengo, pode ter conspirado contra Portugal secretamente. Temos poucas fontes sobre o caso, mas esperamos que no futuro apareçam mais informações.

Aparentemente no ano de 1943, foi fundada em Kinshasa (então Leopoldville), uma associação de ajuda mútua com a denominação em kikongo de “(…) ZOLA VUVU LUTUMAMU NSAMBU (UNIÃO ESPERANÇA CIVILIDADE E GRAÇA), mais conhecida por Z.V.L.N.”352 Esta organização tinha como objetivo oferecer auxílio aos seus membros através de pagamento de pequenas mensalidades. Os serviços de inteligência portugueses já começaram a notar um outro perfil da associação, “(…) visa em angariar meios e organizar filiados para um movimento subversivo e de emancipação do Congo Português. Era de tendências xenófobas.”353 Um dos membros da associação, era o kongo Manuel Fernandes Cardoso, que segundo o documento português, preparava uma ação de “(…) depuração de vários indivíduos de S. SALVADOR DO CONGO, onde estava incluído o nome de seu pai, do Rei do Congo, D. Pedro VII, e etc.”. Em 1945 a ZVLN é fundada em Mbanza Kongo, porém por desavenças internas ela rapidamente se dissolveu. Cardoso e outros membros foram presos e desterrados. Na pesquisa, o que nos surpreendeu é uma possível ligação do monarca D. Pedro VII com o grupo: “O Rei D. Pedro VII também era sócio desta Associação, tendo a maioria dos documentos apreendidos; sido encontrados na sua residência.” Outro documento também nos explicita a relação do Rei com a Associação:

Em 1947, houve um movimento em São Salvador do Congo, denominado “ZVLN” (…). Este movimento destinava-se a desenvolver toda a região do Congo Português, isto aparentemente, porque o seu fim principal era a construção da independência do Reino do Congo, escorraçando assim todos os brancos desta vasta região. O próprio Rei do Congo, nessa altura, estava implicado neste movimento, visto que lhe foi aprendido bastante material, especialmente papeis, na sua residência, e este movimento singrava sem que o Rei desse conhecimento às autoridades, como seria seu dever.(354)

Apesar da falta de mais fontes, fica claro por estes relatórios policiais, que o Ntotila pode nem sempre ter sido a marionete que o regime colonial pensava que era. John Marcum, escrevendo sobre a vida de Barros Necaca, comenta do seu papel junto a Johnny Lengo na luta pela revitalização do Kongo dia Ntotila. Barros Necaca, um importante intelectual bakongo, ligado a missão protestante e com diploma de técnico médico, foi recrutado pelo Ntotila para ser seu secretário. De pleno acordo com ele, Necaca mudou-se para Leopoldville onde iniciou uma campanha pela melhoria das condições do Kongo dia Ntotila junto a comunidade kongo angolana refugiada na cidade. Esta iniciativa, orquestrada com o Ntotila, daria origem as reuniões e assembleias que criariam o núcleo do futuro partido UPA.

O Ntotila tinha consciência de seus privilégios enquanto governante, e seguramente tinha como objetivo aumentar o seu prestígio entre o povo, que possivelmente não o aceitava pela relação promíscua com os portugueses. Talvez tenha sido este o motivo para ele conspirar contra Portugal, e assim almejar um poder administrativo efetivo. O Ntotila Gama, também dentro de suas limitações, buscava de alguma forma se impor aos portugueses como o mediador dos conflitos, e era reconhecido por tal atribuição por alguns kongo da região. Em relatório anual do concelho de São Salvador do Congo do ano de 1955, são descritos seus intentos neste sentido:

A situação actual é calma e muitos indígenas voltaram a reconhecer o D. António III como rei. Ele tem recebido representantes de varias regiões do Congo e, quanto a nós, o que há a fazer é não o deixar sobressair demasiado. Claro que para agradar os indígenas, o D. António defende-os o mais que pode. Assim, aceitou alegremente o boato que lhe foi soprado do contrato ter acabado e pergunta admirado porque querem obrigar os indígenas a trabalhar de conta alheia se eles preferem a conta própria. Recebeu os presentes dos povos do Bembe que se lhe foram queixar pelo mesmo motivo e fez-me uma nota a expor o assunto. Claro que já dei as competentes instruções ao Administrado para lhe baixar o ímpeto e para o considerar como um simples soba igual aos outros.(356)  

Mesmo os Ntotila considerados “fantoches” dos portugueses possuíam, aparentemente, desejo de contestar o colonialismo e fazer valer o seu poder para benefício da população. Vale ressaltar, que estes tentaram, supostamente, contrariar o colonialismo dentro dele, compactuando com diversas atrocidades como trabalhos compulsórios, prisões e torturas de opositores.

346- Relatório da inspeção à intendencia do Distrito do Congo. 27 de março de 1950. Entrada no AHD: MUGM-GNP-RNP-0235-01631.
347 – COSTA, José Manuel da. S. Salvador do Congo, as suas missões e o seu rei. Boletim da Agência Geral das Colónias. Ano VII, nº 77, 1931. pp. 119-120.
354 – Relatório Secreto destinado ao Comandante da Polícia de Segurança Pública de Angola. Assunto: “Conselheiros do Rei do Congo”. Feito em 12/12/1955 por Jaime José dos Santos Oliveira, em São Salvador do Congo. PT-AHD-MU-GM-GNP-RNP-0235-01631 – Rei do Congo – 1956. p. 3
356 – Relatório do Distrito do Congo (?) 1957(?). Ordem pública e tranquilidade social. PT-AHD-MU-GMGNP-135-Pt.35.

Fonte: mbanzakongo.com

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