15 de Março: Herói ANTÓNIO MUANDAZI

Por Leusia Leo

À medida que a revolução africana avançava em um novo campo de batalha, aqui está um relatório sobre como um homem deparou-se em frente da luta. “Now Angola: Estudo de um rebelde” em um artigo de 12 páginas @ The Times. 15 de Marco e 16 de Fevereiro de 1964 by LLOYD GARRISON (repórter).

15 de março de 1961, começou como quase qualquer outro dia no norte de Angola. Os africanos da região amanheceram como sempre, com a primeira luz do sol, acenderam os fogarreiros para preparar os seus matabichos, e aqueceram-se contra o frio da neblina matinal. Muitos que trabalhavam nas plantações de café portuguesas próximas começaram a afiar as suas catanas. Outros limpavam as suas velhas espingardas que os portugueses lhes permitiam para matar pássaros e caça. Mas poucos africanos apareceram para o trabalho naquele dia e poucos foram a caça. Em vez disso, milhares de pessoas planearam reunir-se à margem das cidades portuguesas nos vales. Aí então, como planeado, atacaram.

(Se vosmecê tem alergia à leitura e não tem curiosidade intelectual, não é da minha conta).

Os chefes de postos, administradores de plantações, funcionários e comerciantes foram mortos a tiros ou a golpes fortes mortais. Alguns sobreviventes disseram que não havia limites para a ferocidade dos angolanos: ao anoitecer, centenas de portugueses haviam sido mortos, oa seus corpos mutilados na costumeira demonstração de desprezo do inimigo pelos africanos. Muitos eram mulheres e crianças.

Assim começou a revolta de Angola pela independência. Nas primeiras semanas, os insurgentes invadiram grandes porções do norte, queimando e saqueando. Depois, com a chegada de reforços portugueses desde Lisboa, os revolucionários foram lentamente empurrados para as florestas tropicais das montanhas; por algum tempo, parecia que a insurreição tinha sido acalmada, #SoQueNão, ou foi mas só por um tempo.

[Depois desse 15 de Março], a revolta continuou, embora o caráter dela tenha mudado. Do Congo, numa base ao longo da fronteira ao norte, os angolanos desenvolveram uma incrível organização “arbustiva” com uma elaborada cadeia de comando, comunicações, e logística. Muito longe de serem aqueles grupos esfarrapados de 1961. O novo Exército de Libertação Nacional (ELNA da UPA) realizava uma guerra de guerrilha calculada com metralhadoras e bazucas, morteiros e minas terrestres. E o exército agora tem um núcleo de 7.500 soldados bem treinados e disciplinados: mais centenas deles estavão a ser ser treinados e equipados todos os dias. Quem eram esses “novos” rebeldes, rovolucionarios? E o que eles tinham reservado para um país de 4.500.000 africanos e 200.000 brancos?

Como acontece com qualquer exército, não existe um soldado “típico” e nem uma única razão pela qual os militares servem. Os recrutas rebeldes vêm de muitas origens. Muito poucos tiveram educação media ou superior. Muitos são mal alfabetizados. A maioria tinha sido agricultores ou fazia trabalhos diaristas; a maioria eram etnicamente kikongos, o grupo dominante do norte. A história de um deles, António Muandazi,. reflete muito sobre QUEM eram, e Lloyd Garrison do The Times, relatou bem sobre Antonio Muandazi.

Na sede do Governo Revolucionário Angolano em Exílio (GRAE.) no Congo-Leopoldville, o cartão de arquivo de Antonio Muandazi é breve: Nascido em Canda, uma sanzala remota nas montanhas do norte de Angola, (Kuanza Norte). Idade: 32 anos. Educação formal: nenhuma. Religião: católica nominal. Aos 12 anos Antonio Muandazi foi enviado ao Congo pelos seus pais para viver com seu irmão já casado. Trabalhou primeiro como domestico (house-boy), depois como garçom em Thysville e Matadi. Fala Kikongo, apanha algun francês e um pouco de Português. Em 1948 foi preso em Thysville por acusações não especificadas no cartão, julgado em um tribunal belga e absolvido.

16 de Fevereiro de 1964, HOJE, Antonio Muandazi parece pouco diferente de outros soldados angolanos, embora tem 1,5 metro, ele é mais baixo que a maioria. Todos usam o mesmo uniforme caqui e não há insígnias para distinguir oficiais, sargentos e recrutas. No exército angolano, ninguém considera incomum que Antonio Muandazi, que já foi garçom, tenha comandado mais de mil homens. (Ele não tem hierarquia formal, mas em outros exércitos tal unidade teria um grau de um tenente-coronel. “Tive sorte”, disse Antonio, relembrando uma vida que não teve nada de bom; uma vida que até poucos anos atrás parecia de uma inesgotável falta de sentido.

Antonio Muandazi opera numa das várias sedes de campo, cuidadosamente camufladas na região montanhosa do Canda, situada cerca de 110 Kilômetros ao sul do Congo. Ai foi o quintal de sua infância. Quando menino, Antonio percorria essas florestas tropicais, subia as ravinas profudamente inclinadas, caçava na savana ondulante e aberta nos planaltos de hoje. Antonio podia se lembrar de todos caminhos e trilhas de animais. “Faixas de elefante são as melhores para marchar; porque depois os elefantes repassam e apagam as nossas pegadas.”

Antonio cresceu sem nunca realmente ter visto um português, excepto quando o chefe de posto local fazia as suas rondas pelo distrito. O menino Antonio não gostava muito desse chefe de posto. O pai de Antonio sempre dava um dinheirinho e se curvava quando falava com o chefe do posto. Todos os adultos fiziam igual. O mais velho Muandazi, pai de Antonio, era carpinteiro e fabricava móveis para portugueses que viviam nas cidades do districto. A dona Muandazi, mãe de Antonio, como a maioria das mulheres kikongo cuidava da lavra familiar de mandioca e milho. O menino Antonio, o seu jovem irmão e três irmãs acaretavam água, cortavam lenha e ajudavam na lavra; era esperado isso deles. No seu tempo livre, Antonio caçava perdizes com fisgas e pequenas armadilhas. Não havia escola perto de Canda e nem niguem da Canda sabia ler ou escrever.

Foi aos 12 anos quando Antonio foi enviado para ir viver com o seu irmão mais velho no Congo, porque disseram-lhe que os belgas pagavam aos africanos melhores salários que os portugueses. Isso era verdade, mas anos depois os pais de Antonio confessaram –lhe que a verdadeira razão na qual Antonio foi enviado para o Congo era porque eles não queriam que Antonio fosse pressionado ao trabalho forçado e gangs de trabalho que uma rotina comum para mulheres e crianças por aquelas zonas, naqueles dias.

Posto no Congo, como não havia emprego para um menino de 12 anos na fábrica de cimento Bélgar onde o seu irmão trabalhava, então Antonio mudou–se para a cidade vizinha de Thysville. Lá ele conseguiu um emprego de “house-boy” em casa de um médico belga, lavando louça, esfregando o chão, arrumando as camas.

Em casa do médico belgam havia um outro “house-boy” ou Boy No 1 que também era angolano. Boy No 1, frequentou um pouco de escola no Congo e por isso sabia ler e escrever em francês. À noite, Boy No 1 tentava ensinar Antonio.

Mas em 1946, quando o médico voltou à Bélgica, conseguiu que Antonio trabalhasse como garçom no Hotel Cosmopolite. No hotel, entre as suas tarefas era fazer o café da manhã antes do amanhecer para um residente que era o chefe de polícia belga. Numa amanhã, Antonio atrasou-se e o chefe policia belga começou a bater-lhe com o bastão. “Eu finalmente bati-lhe de volta, e logo em seguida a unica coisa que eu sei é que eu estava na cadeia.”

Depois de três dias, Antonio foi levado perante a um juiz belga. O chefe da polícia nunca apareceu para depor; O juiz finalmente ouviu a história de Antonio e disse que ele não infringiu nenhuma lei e deveria voltar ao trabalho. Antonio diz que perguntou ao juiz: “Por que o senhor não pune o chefe da polícia?” E o juiz respondeu: “Eu sugiro-lhe que esqueça tudo e aprenda a se comportar.” Este incidente impressionou Antonio de duas maneiras. Por um, essa foi a sua primeira percepção de que o homem branco poderia fazer o que bem entendesse e sem ser punido. Por outro e ao mesmo tempo, Antonio sentiu-se feliz que esse incidente tivera lhe aconteceu no Congo. “Em Angola”, ele disse, “nunca teria tido um julgamento.”

Assim que Antonio saiu do tribunal, apanhou uma boleia em um caminhão que o levou até a cidade portuária de Matadi, na foz do rio Congo. Por um tempo Antonio trabalhou lavando roupa para os marinheiros dos navios. “Eu vi todos esses navios estrangeiros indo e vindo e eu disse a mim mesmo: o europeu pode vir aqui para o Congo; porque eu não posso ir para a Europa? Perguntava-lhes se eu poderia ser um trabalhador no mar – lavar, cozinhar, qualquer coisa. Eles sempre diziam: “Não, tu és um noir [preto]” ou “Nós não contratamos macacos.”

Com essas respostas, Antonio então voltou ao atendendimento de mesa, mas desta vez no Matadi’s Hotel Metropole. Estes foram anos melancólicos para Antonio. O trabalho pagava bem o suficiente, mas não havia esperança de progresso. Ele mal conseguia ler e escrever e agora, aos 20 e poucos anos, já era tarde demais para ir à escola.

Pouco antes da independência do Congo em 1960, Antonio deixou o emprego no Matadi’s Hotel Metropole e totalmente por impulso alistou-se na Congolese Force Publique. Disseram-lhe que um soldado poderia chegar a ser sargento e isso significava mais e maior pagamento e responsabilidades. Antonio ri-se disso agora. Não houve treinamento básico. Ele simplesmente recebeu uma semana de exercícios, mostraram-le como manusear uma espingarda e logo em seguida foi posto como guarda. Antonio não ficou surpreso ao constactar que alguns dos oficiais belgas eram “arrogantes” e muitos menos que quando revoltaram-se logo após a independência. “Todo sargento queria ser oficial. Foi uma loucura.” Mas três meses depois, descobriu-se que Antonio era angolano e foi logo desmobilizado.

Em algum momento depois, Antonio conheceu Eduardo Pinoch, que então era ministro do Interior do GRAE. Pinoch tinha indo a Matadi para recrutar angolanos para a UPA, o movimento de independência liderado por Holden Roberto na altua primeiro-ministro do GRAE. Antonio gostaria de participar no nosso movimento? Melhor ainda, será que Antonio estaria disposto a ir para Leopoldville para doutrinação, depois voltar para o seu distrito da Canda em Angola como uma agente da UPA? Eduardo Pinoch salientou que não haveria pagamento e que uma vez em Angola, ele estaria por conta própria; mas se fosse pego pelos portugueses, a morte era quase uma certeza.

Antonio aceitou sem hesitação. Ele nunca tinha antes pensado na independência angolana. Mas agora ele estava entre os angolanos que acreditavam no poder autónomo de diregir o seu próprio destino e estavam seriamente a fazer-lo. Em Leopoldville Antonio aprendeu sobre o “nacionalismo”, sobre a disciplina partidária, sobre a necessidade da integridade de todos os angolanos, qualquer que fosse a sua tribo ou região. E aprendeu pela primeira vez sobre a rede de células partidárias do movimento dentro de Angola. Depois de dois meses em Leopoidville, Antonio atravessou a fronteira e seguiu para Canda. Lá ele encontrou apenas três tarefas – pagamento aos membros da UPA. Imediatamente, Antonio organizou reuniões secretas de membros às noites, na floresta. Centenas se juntaram. Os eus superiores em Leopoldville ficaram satisfeitos e logo Antonio foi designado para organizar reuniões em outros districtos.

Em 1960, o humor dos africanos de Angola era de uma amargura profundamente reprimida. Os mais velhos haviam sido pressionados ao trabalho forçado; os homens mais jovens que haviam adquirido habilidades como carpinteiros ou mecânicos sabiam que os portugueses que realizavam os mesmos trabalhos eram pagos duas vezes, às vezes três vezes, mais que um africano. Em muitas áreas, as mulheres e crianças continuavam a ser recrutadas para fazer manutenção de estradas.

Na superfície tudo estava tranquilo. Os africanos continuaram a se curvar e sorrir para os chefes de postos; os portugueses continuaram agarrados à crença de que “conheciam” os seus africanos e os seus africanos não queriam ser “independentes” mas sim queriam ser “portugueses.” Essa ilusão era tão forte que nem a polícia secreta (PIDE) tinha qualquer indício de que os angolanos estavam a preparar-se para atacar. As autoridades portuguesas asseguraram-se a si mesmas e aos poucos jornalistas estrangeiros autorizados a entrar no território que estava tudo bem, e que a “assimilação gradual” era a única alternativa de Lisboa aos “ventos da mudança.” (E só para garantir que nenhum outro pensamento se infiltrasse, qualquer africano pego a ouvir a Radio Leopoldville era mandado para a cadeia.)

Em 8 de março, a palavra foi passada para aos militantes da UPA que a hora tinha chegado. Em sete dias todos os angolanos no norte deveriam se levantar contra os portuguesas nas cidades, nas plantações e nos postos do exército. Na noite do dia 14, Antonio reuniu a comunidade de Canda e explicou-lhes o seu plano. O seu primeiro alvo seria Tamfu, um posto administrativo português recém-construído perto de Canda. Havia 20 portugueses lá: nove homens, cinco mulheres e seis crianças. Três dos homens eram oficiais portugueses. No dia seguinte, 15 de Marco, os homens africanos esconderam-se na floresta perto de Tamfu até ao meio-dia, a hora quando os portugueses começavam a sesta. Armados com as suas espingarda, machetes, catanas e facas, eles atacaram. Os três oficiais conseguiram escapar num jipe. Todos os outros foram mortos depois de uma amarga luta corpo-a-corpo em que cinco angolanos foram mortos e 19 ficaram feridos.

Os sentimentos de Antonio sobre esse dia 15 de Março estavam confusos. Antonio insistia que não queria ter participado em matassem mulheres e crianças também. Mas os seus homens disseram -lhe que estavam “cegos” e nao podiam se conter. “Nada foi poupado. Eles incendiaram tudo, até o dinheiro que encontraram nas casas. Ninguém poderia detê-los. Nem ele nem seus companheiros insurgentes renunciaram ao que aconteceu naquele dia 15 de Março. Mas agora depois, em Fevereiro de 1964, quase três anos depois, eles aceitaram a opinião do GRAE que matar civis foi “errado.”

Muitos, excepto Antonio, acharam que depois desse primeiro golpe no 15 de Março, os portugueses fugiriam e a independência seguiria rapidamente. Mas não foi assim. Muitos portugueses fugiram de Angola em pânico sim, mas a maioria permaneceu. Se o 15 de Março foi um pesadelo, logo gerou outro pesadelo. Esquadrões de vigilantes portugueses armaram-se e vagaram pelo mato a busca de vingança. Dezenas desanzalas africanas foram queimadas e milhares de africanos civis foram mortos em retaliação aleatóriamente. Em muitas sanzalas, os colonos decapitaram os corpos de africanos e colocaram as cabeças em fileiras de lanças como demonstração da autoridade portuguesa.

Quando os reforços do exército português finalmente chegou, os colonos vingativos foram controlados e a batalha tornou-se principalmente de soldado contra soldado, embora os “soldados” rebeldes não tivessem uniformes, tinham poucas armas, nenhum comando geral e pouca disciplina formal ou militar. Na Serra da Canda, Antonio destacou-se como um líder natural cuja bravura obrigou outros homens a seguir-lhe. Em novembro de 1961, Antonio e 22 outros veteranos da UPA foram escolhidos para ir à Tunísia para treinamento especial com o Exército de Libertação da Argélia. Antonio disse, “com os argelinos prendemos como é um exército de verdade” O treinamento consumia 18 horas por dia, sete dias por semana, durante sete meses seguidos. Em palestras, os angolanos aprenderam as teorias clássicas de guerra de guerrilha; em combate real com unidades argelinas contra a França, aprenderam a aplicar a teoria à realidade.

Após o seu retorno, 18 dos 22 foram patenteados a oficiais. Antonio foi um deles. A sua tarefa: estabelecer um programa de reciclagem de todo o exército rebelde.
Os congoleses doaram o local . Era uma área abandonada de bivaque perto de Kinkuzu, uma região montanhosa à 112.654 kilometros da fronteira angolana. Os dezoito angolanos começaram do zero; Em 60 dias eles montaram barracas com telhados de palha, escreveram um programa básico de treinamento e estavam prontos para o primeiro grupo de 600 homens retirados de Angola. Em fevereiro de 1964, a base Kinkuzu transformou com 2.200 homens a cada oito semanas. Além de treino de armas e intermináveis horas de prática em combates noturnos, os recrutas eram lecionados sobre tudo, desde como cavar latrinas até qual seria o papel dos sindicatos livres em Angola após a independência.

Os uniformes vinham dos tunisianos e dos congoleses. A Argélia enviou várias centenas de toneladas de armas modernas que sobraram da guerra com a França. Na altura, Holden Roberto tinha recentemente anunciodo que aceitaria armas da China comunista, mas ninguém que conhecia Holden Roberto e os líderes do GRAE achavam que essas armas chinesas significava que GRAE iria mover-se para a esquerda. De fato, uma das coisas mais impressionantes sobre os independentistas angolanos era o quão pouco pareciam preocupados com a política da guerra fria num continente onde outros africanos estavao se tornando cada vez mais envolvidos nela.

Localmente o Exército de Libertação Nacional (ELNA) tornava-se rapidamente numa força política dentro de Angola. Quase 5.000 homens que passaram pela Base Kinkuzu juntaram-se à Liga Geral dos Trabalhadores Angolanos (LTGA.) o movimento sindical dos rebeldes. Muitos deles eram também membros da UPA. As reuniões no interior eram informais mas os soldados levavam a sério as suas afiliações. Numa das reuniões, Antonio conversava com alguns colegas membros da LTGA sobre o apoio do sindicato de trabalhadore no exterior – AFL-CIO, as máquinas de escrever e máquinas mimeográficas; de Israel e da Alemanha Ocidental, das bolsas de estudo para formação de angolanos; da Tunísia e da ICFTU (Confederação Internacional dos Sindicatos Livres) em Genebra, do dinheiro e assistência técnica. “Isso mostra que não estamos sozinhos”, disse Antonio. “Temos mais amigos que o Salazar. Esses acreditam em nós. Não podemos decepcioná-los.”

Entre 1962 e 1963 o próprio Antonio liderou nove grandes ataques e conseguiu escapar de cinco emboscadas portuguesas. Ele admite ter tido algum medo. “É um sentimento constante, não importa há quanto tempo está-se na luta” – mas Antonio sabia tambem que o fim da luta não estava nem perto e que não haveria uma vitória militar clara, pelo menos não enquanto os portugueses tivessem aviões e armas automáticas com poder de fogo superior. Segundo Antonio, a vitória dependerá do desgaste dos portugueses até que eles estejam dispostos a negociar, como os franceses finalmente fizeram com os argelinos. Mas os argelinos levaram sete anos.

E depois o quê então? Uma coisa que os rebeldes concordam é que Angola não devia se tornar num outro Congo. Carlos Almeida, um militante disse: “Os congoleses apenas bateram os pés algumas vezes e conquistaram a independência, as agora o que é que eles conseguiram? Funcionários públicos recebem grandes subornos e dirigem grandes carros. Um sargento acrescentou: “ Essa guerra ensinou-nos a respeitar três coisas – trabalho duro, disciplina, e sacrifício; os nossos líderes sabem que se não viverem de acordo com essas três coisas, não durarão muito.” Antonio diz que “o que aconteceu no Congo foi uma loucura.” Sabias que os belgas costumavam fabricar fósforos no Congo, mas depis que os belgas foram assustados para fora do Congo, os congoleses começaram a importar fósforos da Suécia e ao dobro do preço. Isso é louco.” [Analisado por Antonio, um meno analfabeto da Canda que acreditou no sonho de ver Angola independente].

O exemplo congolês influenciou mudanças significativa nos rebeldes dos movimentos de Angola. Uma delas é a sensação de que essa rebelião já não era contra tudo “português” mas sim contra um “sistema” e que ainda havia um lugar para os homens brancos numa Angola libertada. Logo, uma nova ordem do GRAE: o exército rebelde deveria abster-se de atacar civis a menos que estivessem armados e que deveria começar a fazer prisioneiros, tratá-los bem e enviá-los sob escolta para Leopoldville. “Esta é uma boa política”, disse Antonio. “O que fizemos em [15] Março de 1961 acabou.”

A própria progressão de Antonio Muandazi, desde criado domestico (house-boy), para terrorista, para soldado sugeriu uma resposta à pergunta pessoal sobre o que ele fará quando a guerra for vencida. Por volta dos últimos tempos os seus pensamentos vinham- se voltandos para a crença de que depois de Angola estar livre, a revolução se espalharia para o sudoeste da África e eventualmente para a própria África do Sul. Haverá novos “combatentes da liberdade” e usaram Angola como exemplo e terão o seu próprio Campo Kinkusus.”Quem sabe?”, ele disse. “Se eles quesirem alguém como eu com experiência prática, eu posso me juntar a eles … Eu não gosto de fazer guerra. Mas tambem o que mais posso fazer melhor?”

Quanto este artigo estava pronto para ser publicado, chegou o seguinte cabo:

COMUNICADO ACABADO DE SER RECEBIDO QUE ANTONIO MUANDAZI ESTA IDENTIFICADO COMO DESAPARECIDO EM AÇÃO NA SERRA DE CANDA – GARRISON.

Fonte:  LLOYD GARRISON ; The Times 1964 @ New York Times Arquivo 1964.

Comentário
Fichier hébergé par Archive-Host.com

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.