A propósito de um voto de pesar

Por João Garcia

O meu Pai não foi à guerra, a guerra é que veio ter com ele. Não fugiu, mas manteve os valores de respeito pela dignidade humana que sempre o nortearam. Deram-lhe uma arma “mauser” novinha, mas cheia de suásticas (era do tempo da Alemanha nazi), e cem balas e, assim, passou a andar de arma ao ombro e cinto de balas.

Orgulhava-se de apenas ter dado dois tiros:

“Fiz um juramento perante mim próprio, de que só a utilizaria em caso extremo de autodefesa. Durante o tempo que esteve comigo apenas deu dois tiros, um contra um bloco de cimento que se desfez aos bocados e me deixou o ombro amachucado com o coice que mandou após o disparo. O outro tiro foi disparado no dia em que a UPA voltou a atacar o Quitexe, mas não matou ninguém pois o alvo era, afinal, um toco de árvore que a bala perfurou”.

Nesse tempo, quase não havia exército, a guerra estava entregue aos civis e dizem que era pior que a outra, a dos militares. Matava-se com total impunidade. Dizia-me: “Se queres conhecer um homem dá-lhe uma arma e autorização para matar. Vi honrados cidadãos transformados em assassinos, dementes pelo ódio e sede de vingança”.

Pouco falou sobre isso porque há coisas que um homem, quando é homem, tem pudor de contar seja a quem for. Mas deixou-nos alguns relatos:

“Corre o mês de Abril de 61 no Quitexe. O tractor, que eu havia emprestado para os trabalhos de abertura da pista para as avionetas, continua ao serviço da Administração. Mas, entretanto, alguém me vem informar que o pretendem utilizar na abertura de valas para enterrarem os pretos que vão sendo mortos na repressão cega, desenfreada e absurda da revolta. Faço-me ouvir:

– Quem os mata que lhes abra a cova! Com o meu tractor, não!

Retiro a máquina e guardo a chave. Ninguém se atreveu a questionar-me.

Os corpos dos negros são atirados da ponte ao rio Luquixe. Às vezes ainda moribundos, agarram-se aos ramos das árvores que bordejam o rio e assim se vão esvaindo até que a morte e a corrente os transportem rio abaixo”.

Dizia-se católico não praticante, conservando do catolicismo os valores dos princípios morais do cristianismo dos quais o primeiro era “não matarás”. Quantos se diziam tementes a Deus, faziam a genuflexão e proclamavam por minha culpa, minha própria culpa e sentiam-se bem, de consciência tranquila pois não tinham morto homens, mulheres e crianças, mas apenas “pretos turras”.

“Neste ambiente, sem calor humano, os sentimentos são confusos. Não há mulheres, nem o sorriso ou o choro de uma criança. À noite matilhas de cães famintos, abandonados pelos seus donos cercam o Quitexe, uivando sem parar, pressagiando a desgraça e a morte. Os nervos sempre à flor da pele, o vinho, a cerveja e os instintos mais primários de cada um vão tomando conta do dia a dia do Quitexe. A vida humana, para alguns, tem apenas o valor do custo de uma bala, 7$50. Triste imagem de gente “civilizada”. Estes são, afinal, os valores morais emergentes da filosofia da guerra”.

De facto, o meu Pai não podia ter um voto de pesar pelo seu falecimento: andou na guerra e não foi criminoso, andou na guerra e não foi sanguinário, andou na guerra e não matou ninguém, andou na guerra e teve coragem. Coragem para dizer não! Não à barbárie, não à vingança, não à violência!

Um homem que tem esta coragem não tem lugar nesta história feita por alguns (a maioria) de deputados pequeninos nos valores, atrofiados nas mentes ainda, ou novamente, pela mentalidade persecutória de os nossos e os outros, heróis e bandidos, colonialistas bons e indígenas que se matavam uns aos outros. Branqueia-se o estado colonial e a sua guerra que gerava monstros que, agora, se glorificam.

Lamento, mas já não me desiludo. Os valores que bebi desde pequenino não são estes. Ainda guardo poemas da adolescência com títulos como “Não, eu não quero matar!” porque via aproximar-se o meu tempo de guerra colonial, eu que tinha fugido dela, ainda criança, há treze anos atrás. Não é este o Portugal de Abril pelo que o meu pai e tantos outros lutaram. Não é este o Portugal da dignidade, do respeito pela vida humana, dos princípios que devem nortear o progresso da humanidade e que, imaginava, não tivessem retrocesso.

Não me desiludo, mas também não me resigno, por isso o escrevi!

 

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