Antigo militante da ABAKO, Manuel Pascoal Van-Dúnen, foi espião do MPLA em Kinshasa.

Por Kim Álves

 

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A história de um valoroso combatente que «nada apanhou» da independência.

Ele é um dos sobreviventes da luta de libertação nacional. Foi para o Congo Leopoldville, que também já foi Zaíre, hoje RDC, muito jovem para trabalhar, levado por um cidadão português. Lá conheceu a revolução e a determinação dos países africanos se tornarem independentes do colonialismo. Foi obrigado a militar na Alliance des Bakongo, a ABAKO, participando assim na revolução congolesa. Recebeu e apoiou os revolucionários angolanos que se refugiaram no Congo e ajudou a montar a primeira representação do MPLA no Congo. Teve uma participação decisiva no trabalho de infiltração que facilitou o desbaratamento das forças aliadas da FNLA, exército zairense e mercenários em Kifangondo, na véspera da independência. Hoje, anda simplesmente por aí, esquecido e doente, sobrevivendo com o pouco que aparecer, quando aparece…

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Muitos foram os angolanos que deram o melhor das suas vidas na luta contra o colonialismo português. A colaboração desses  homens e mulheres foi prestada de várias formas: na diplomacia, na luta armada, na infiltração ou na clandestinidade, entre outras.

Muitos deles morreram sem concretizarem o sonho almejado e pelo qual consentiram inúmeros sacrifícios: a  independência nacional. Há os que chegaram ao «11 de Novembro» e com a «dipanda» acabaram por ver os seus esforços compensados, sendo alguns deles os que detêm do bom e do melhor que a terra vai dando.

Mas há também os que deram o melhor de si, consentiram igualmente sacrifícios, mas nada de especial   obtiveram do Estado e da Nação para cuja criação eles deram o «litro». Como quem  diz: a sua vida não melhorou em nada.

Em alguns casos, até piorou. Desses, muitos já morreram na mais pura indigência. Os que ainda vivem, ou melhor, vão sobrevivendo em meio a muitas carências existenciais, incluindo no domínio da saúde, foram ou estão literalmente esquecidos. Deles ninguém fala, pelo que as novas gerações não sabem o que  fizeram nem  qual a importância da sua acção na história do país.

Este é o caso do antigo combatente Manuel Pascoal Van-Dúnem, 78 anos, que é, como o diz com orgulho e pode ser comprovado nos cartões de militância que ainda  possui, emitidos em fins da década de 50 e princípio da de 60, «um dos primeiros militantes do MPLA e o primeiro em Kinshasa, capital  da actual República Democrática do Congo (RDC)».

A chegada no Congo

O  mais velho Manuel Pascoal Van-Dúnem foi para o Congo Belga em 1955, com o seu patrão português, apenas identificado por Sr. Gabriel, para trabalhar como chefe do laboratório da sua empresa fotográfica,  a  «Foto Gaby», na cidade de  Kinshasa. Ele aprendera a arte da fotografia com Sr. Gabriel em Luanda, depois de ter passado por várias peripécias para ter uma profissão, ainda muito novo.

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Naquela altura, o seu pai falecera e a família atravessava sérias dificuldades que o obrigou  a deixar de estudar, logo na 2.ª classe, para tentar aprender uma profissão.

Talvez porque, em  Luanda, naquela época, a fotografia não desse grande rendimento, o Sr. Gabriel  decidira ir para o Congo. Depois de instalar a empresa, voltou a Angola buscar o «miúdo» Manuel.

É assim que, não tendo nada a perder, em companhia do seu patrão, o nosso homem aporta a cidade    de Leopoldville  (Kinshasa).

Em 1958, quando começam a soprar os ventos da independência do Congo Leopoldville, o seu patrão, à  semelhança de outros europeus, fugiu para Portugal, deixando a sua «Foto Gaby» à mercê dos «revolucionários» congoleses, que a destruiriam pura e simplesmente. Manuel Pascoal  Van-Dúnem ficaria sem  emprego, sendo obrigado, com outros angolanos que viviam no Congo, a militar na «Alliance des Bakongo», a célebre ABAKO, movimento congolês que reivindicava a independência daquele território africano.

A  missão dos angolanos era recolher fundos para a ABAKO. Em Janeiro de 1959 Manuel Pascoal foi nomeado como chefe de um grupo que tinha a missão de distribuir panfletos e atacar alguns órgãos de comunicação dos colonos belgas em Leopoldville, operação abortada pelas tropas de Bruxelas, que, entretanto, já haviam tomado medidas de prevenção. Poucos meses depois, quando assistia a um comício, conseguiu safar-se de um ataque brutal das tropas belgas contra a multidão.

Em 1960, o Congo chega à independência e, em  reconhecimento dos seus préstimos, ele seria proposto para o cargo de chefe do Laboratório de Informação Congolês, sob a condição de se naturalizar congolês. A proposta seria recusada: o angolano esclareceu que deu a sua ajuda como  africano  e não com a  pretensão de se tornar um dirigente desse país. Aliás, como diz, a sua participação pela libertação do Congo lhe serviria de experiência na libertação do seu próprio país, Angola. A independência do Congo seria também um impulso para os patriotas angolanos na luta pela sua independência. Depois disso, Manuel Pascoal Van-Dúnem  empregou-se na  boate «Oui Fifi», com o cargo de gerente. 

MPLA em Kinshasa

Entre 1960 e 61, começaram a chegar à  Kinshasa  os primeiros grupos de angolanos pertencentes tes ao MPLA. Nessa altura, havia miséria e fome entre os refugiados angolanos.

Manuel Pascoal Van-Dúnem integrou-se de imediato no MPLA. E, com o prestígio que granjeara nos meios congoleses e com o emprego que lhe propoccionava  um salário razoável, ele passou a ajudar os camaradas idos de Angola, ao mesmo tempo que os apoiava no trabalho político clandestino, sem deixar de trabalhar na boate. Albergou na sua residência e alimentou muitos deles, como garante.

abako.jpgc.jpgDiz ainda que foi ele quem comprou  os primeiros móveis e outros equipamentos para a primeira representação do MPLA em Kinshasa, tendo tido um importante papel na sua funcionalidade.

Foi assim que receberia diversos camaradas: João Ferro e Aço, Chico Machado, Viriato da Cruz, Mário    Pinto de Andrade, Matias Miguéis, José Miguel, Graça Tavares, José Domingos da Silva, Daniel  Chipenda, Sebastião Garrido «Che Guevara», Daniel da Costa, Pedro de Castro Van-Dúnem «Loy», Comandante Nzaji, Samuel Miguel Bernardo, Domingos Pimentel, Ribeiro, Duque Bamba, Brito Sozinho, Alexandre Rodrigues «Kito», Mário Leonel Correia, António Condessa de Carvalho «Toca», Deolinda Rodrigues, Rita Pitra, Engrácia Paim e Irene Cohen.

Depois desta leva, outras se seguiram, incluindo a que integrava o agora Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que, como diz Manuel Pascoal Van-Dúnem, era ainda muito novo, com cerca de  20 anos de idade, pelos  seus conhecimentos do terreno, desempenhou as funções de guia, mobilizador e orientador das massas, tendo recrutado inúmeros  camaradas para as fileiras do MPLA, que «alimentaram» a luta armada de libertação  nacional pela parte desse movimento.

Retirada para Brazzaville

Em 1964, por influência da UPA/FNLA, o governo congolês considerou  o MPLA  de «persona non grata»  e expulsou-o de Kinshasa. O  Movimento de Libertação de Angola fixa então a sua sede em Brazzaville, no então Congo Popular.

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Mas, Manuel Pascoal Van-Dúnem continua como representante clandestino do  movimento em   Kinshasa, onde residiam dezenas de militantes do “M”. De lá enviava para Brazzaville todas as    informações necessárias, sobretudo as que diziam respeito à movimentação da rival UPA.

Com a independência à vista, em 1975, Manuel Pascoal Van-Dúnem teve que reforçar as actividades clandestinas em Kinshasa, por causa de algumas movimentações das tropas  zairenses em direcção a Angola. Trabalhava então em colaboração com a Embaixada do Congo Brazzaville, na qual estava disfarçado o comandante Daniel da Costa «Makukuz».

Foi assim que descobriu as manobras que estavam a ser efectuadas entre a FNLA, o exército zairense e os mercenários para tomarem de assalto Luanda na véspera da independência. Tendo comunicado com antecedência a Brazzaville, foi possível às FAPLA realizarem o ataque de surpresa às posições da FNLA e seus aliados, desbaratando as suas forças na célebre  Batalha de Kifangondo. Enquanto os tiros ainda ecoavam e os obuses ribombavam, na noite de 11 de Novembro, Agostinho  Neto proclamaria, «perante a África e  o Mundo», a  independência de Angola.

Regresso ao país

Perante o clamoroso falhanço, as reacções da FNLA e do governo zairense em Kinshasa não se fizeram esperar e começou uma caça às bruxas. Avisado por amigos, Manuel Pascoal Van-Dúnem refugiou-se com a família na Embaixada do Congo Brazzaville, antes de seguir para a capital congolesa, onde seria recebido na Delegação do MPLA e depois mandado para Luanda.

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Algum  tempo depois, encontrou-se com o seu velho amigo e companheiro de  luta, o Comandante  Nzaji, que o pôs a trabalhar no Laboratório de Fotografia e Cinema do então Ministério da Segurança de Estado (MINSE), junto com o capitão Johanes Ganghy.

Trabalhou naquela instituição, com a categoria de oficial do nível «A», durante 25 anos, até que  passou à reforma. Em1978, foi rectificado como militante do MPLA-PT. Foi a sua segunda retificação, já que a primeira acontecera em 1962, no ex-Congo Leopoldville. Em1990, foi condecorado com a Medalha de Herói  Nacional como «Combatente da Luta Clandestina». Em 2002  foi-lhe outorgado o diploma de mérito pela Comunidade de Inteligência pelos 25 anos de serviço prestados ao MINSE.

Actulmente, é  antigo  combate  e funcionário reformado do MINSE, recebendo as respectivas pensões, que não cobrem as suas necessidades. O mais velho diz-se injustiçado e não compreende que depois de todo o sacrifício consentido pela libertação da Pátria esteja hoje a viver na miséria, sem ao menos uma casa própria.

«Sou dos poucos que nunca beneficiei de nada. Condecoraram-me com uma medalha mas não me deram mais nada. Há antigos combatentes que receberam carros, casas e até dinheiro, mas eu sempre trabalhei  abnegadamente e nunca beneficiei de qualquer coisa», deplorou.

 

Via Semanário Angolense

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