Honremos o passado e a nossa história: ANDRÉ MARTINS KASSINDA (KILOUBA)

Por Benção Cavila

 

 

 

 

 

Nascimento: HUAMBO (ANGOLA), 10 outubro 1936. Morte: KINKUZU (RDC): JULHO 1966.

Como qualquer um de nós, estou com uma dose de satisfação por participar numa cerimónia de homenagem à uma figura histórica da luta pela independência do nosso país.

Homenagear um PATRIOTA como André kassinda é enriquecer as escritas sobre Angola que carece de muitos autores nacionais bem motivados, mexendo nos arquivos e documentos para o bem da nossa própria história. Agradeço por isto o Dr. Sebastião Martins por esse sacrifício e coragem para no fim das suas pesquisas apresentar ao público esse manto de retalho que eu tenho a máxima certeza que representa apenas aquilo que é a ponta do iceberg daquilo que foi o percurso Nacionalista André Martins Kassinda que vale a pena conhecer. Uma pesquisa que na minha opinião foi dificultada pelo seu inicio tardio pois que muitos daqueles que conheceram pessoalmente o Nacionalista, tinham ricas testemunhas porque conviveram com ele mas deixaram o mundo dos vivos.

Também lamento o facto de isto acontecer depois do filho dele António Martins deixar-nos recentemente. Se eu dissesse perante todos que falei com ELE pessoalmente, a minha idade estaria aqui a me trair. Os meus tios e mais velhos que o viram mobilizando trabalhadores bazombos da Regideso contra a LGTA e a UNTA, tem essa memória e vejo eu o vulto desses jovens políticos discutindo e mobilizando nos quintais onde vivíamos como refugiados vindos de Angola, Papá Kássinda passou por lá, Lele Francisco, Maurice Luvualu e um número sem fim de Upas, Pdas, Mplas, lgtas, ugtas, untas, cgtas, etc… André Kassinda? Trata-se de um nome que até aos anos 70 e 72 ainda murmurava se sobre o seu destino. Para muitos da minha idade, estava ou teria desaparecido na guerra do Katanga , preso na Argélia com Tschombé ou exilado em Brazzaville com Mpla.

Ninguém dizia ao certo onde andava o Senhor. Mas me permitam com esse atrevimento falar deste nome em três sotaques diferentes: Kassindá (para os francófonos), Kassinda (Lusófonos) e Kássinda (para os que falavam apenas Kikongo), em Leopoldville ou Kinshasa. No primeiro caso, (Kassindá) refiro me a memória da caracterização de um angolano cheio de epítetos “supostamente treinado militarmente na Polonia ou Rússia”, um “comunista perigoso” que deu um golpe (de estado?) contra Holden, destituiu o chefe do GRAE, outros diziam porque foi ele que formou uma efémera Junta Militar de Angola no Exilio (JMAE) com Alexandre Tati junto com Marcos Cassanga, fundador de um número sem fim de partidos políticos; UNA, CPA, CUNA etc…, enfim Kassinda foi notícia de destaque de jornais de Kinshasa cujos arquivos, alguns mais velhos guardaram religiosamente e permitiram que fossem lidos mesmo nos anos 72, 73, 75. No segundo caso, (Kassinda,) ocorre me as memórias de um famoso líder de uma central sindical, abandonou a sigla LGTA de que tinha sido dirigente principal para fundar uma UGTA rival da LGTA (pro-UPA) e da UNTA (pro-MPLA) de Pascoal Luvualu, para isto sugeri ao Dr. Martins para que entrevistasse o Embaixador Ndombele Mbala Bernardo que é considerado como o Imbondeiro Vivo da história do sindicalismo angolano, e contemporâneo de André Kassinda.

Aqui me ocorre recordar as memórias testemunhas de Manuel Kunzika (Meu Tio Sogro) que contava sobre os desentendimentos de Kassinda e Holden referentes ao dinheiro que o primeiro terá trazido de Dakar, doação de uma organização sindical e que o segundo na qualidade de líder o exigia uma percentagem maior para a organização politica: dizem que isto terá valido ao Kassinda uma prisão em Ndolo no seu regresso de Senegal. No terceiro sotaque, (Kássinda) A Minha idade não me trai mesmo porque são memórias da minha infância como atrevido aqui presente. Papá Kássinda! era assim que o nome era pronunciado por meninos da minha geração, filhos e sobrinhos do senhor Polokatu, dirigente do PDA de Kunzika, trabalhador da Regideso (semelhante ao nosso EPAL daqui) e membro da famosa e efémera UGTA do Papá Kássinda. As fotos de Polokatu e Kássinda estavam ainda nas paredes dentro da casa de Polokatu e os filhos dele ainda nos mostravam e falavam dele religiosamente como um Tio mesmo. Passámos todos a falar de Papá Kássinda.

O Kombi branco desta instituição com as inscrições UGTA na porta era guardado no seu quintal, hoje desconheço quem terá sido o motorista. Os meninos da minha idade, já com nove e dez anos de vida, pousavam ou brincavam no interior daquele Kombi.

O VW Kombi, sucata e já sem pneus e por cima das pedras no musseque de Makala onde vivíamos estava ali naquele estado porque o dirigente da sindical já tinha abandonado a capital congolesa em fuga soube mais tarde. Kássinda, acredito que era um poliglota; hoje na minha idade não consigo compreender como comunicava com aquele grupo de operários da Regideso afilhados na sua UGTA que mal se exprimiam em Francês ou Português, apenas Kikongo naquele meio bem tribalizado?

Ainda sob esse sotaque de Kássinda, está ligado o episódio da detenção de uma Tia Materna minha, irmã uterina da mamã na fronteira: Nós voltamos a Angola antes da independência e logo depois do 25 de Abril 1974 em que o Fascismo foi derrubado em Portugal. A minha mamã pequena voltou em 1976 já depois da reconquista de todo o território nacional pelas Fapla. Na fronteira depois de uma revista das malas do marido que trazia, encontraram documentos que a pobre camponesa e analfabeta trazia. O marido era um daqueles seguidores de Polokatu e membros do tal sindicato de Kássinda. A nossa mamã foi detida como suspeita na fronteira até que depois de investigada foi libertada na base de que era uma simples analfabeta portadora e não conhecia o perigo que os jornais e revistas representavam para o sistema de partido único que vivíamos e em plena fase da resistência popular generalizada. O marido ficou no Congo a espera de vender a casa e seguir a mulher para Angola. Quando ouviu falar da detenção da mulher, petrificou-se e nunca mais voltou a pisar os pés em Angola até falecer nos anos 90.

O que também a idade não me vai trair é o facto de ter sido uma das pessoas que conversava muito com meu tio sogro aqui em luanda sobre a sua Trajectória na luta de libertação nacional. Manuel Kunzika é autor do Livro “ a Formação da nação Angolana através da luta de libertação nacional”. Nas nossas conversas quando eu escrevia um livro “ Bukama”. Ele contou nos muito sobre as perseguições politicas mas o meu objectivo era escrever um romance e desisti das querelas politicas deles: ele, Ndombele, Lanvu e Kassinda assim como outros nomes, eram alvos destinados a serem abatidos por parte do Sr. José Manuel Peterson, o Chefe da Segurança da UPA que dizimou muitos angolanos no Congo que tinham divergências com Holden. Kunzika conhecia o nome código de Kiluba para Kássinda, esse era o seu pseudónimo. Kunzika era amigo pessoal do Professor americano John Marcum que foi um dos maiores especialistas do mundo na história sobre Angola e Moçambique.

Com o início da guerra colonial em Angola em 1961, Marcum andou atrás de linhas inimigas com guerrilheiros nacionalistas para entregar medicamentos a população e aos guerrilheiros. Hoje, Ele é amplamente creditado como a “Bíblia” da revolução angolana. O seu primeiro volume, The Angolan Revolution: The Anatomy of an Explosion (1950-1962), foi publicada em 1969 e tornou se a principal referência para qualquer um que queria entender o nacionalismo angolano. Por isso, quem ler algures algum artigo sobre o nacionalismo angolano onde se fala de um certo Kilouba ou Kiluba nos anos 60 a 66, fique a saber que se referem a André Martins Kassinda.

Foi sob esse pseudónimo que Papa Kássinda viajou pela Africa inteira juntamente com um certo Kalada (Marcos Kassanga) a procura de suporte para a sua causa. Para concluir, gostaria de partilhar com todos que há pouco menos de 5 anos fomos a Cabinda enterrar um oficial nosso e lá me encontrei com uma pessoa amiga que conheci como um fervente kimbanguista. Esse senhor passou comigo a infância e anos de exilio naquele musseque de Makala em Leopoldville, conheceu o recém-falecido António Martins em Cabinda e sabia quem era. Ele perguntou me se eu sabia que o nosso Ministro era filho do Papá Kássinda. Eu lhe disse para que parasse de brincar, que o ministro não tinha nome de Kássinda e nem era bakongo e eu nunca tinha ouvido o nome dele Martins, a minha memória sempre gravou sim o nome de Papá Andele Kássinda. Ele me disse para perguntar ao Ministro, eu disse que eu não era um maluco entrar no gabinete de um Ministro do Interior e dizer que sei quem é o Pai dele. Mas dentro de mim não acreditava. Kássinda para nós era um nome africano e visto como mais um nome bakongo durante o exilio, diferente de nomes como Jorge Pedro, Conceição, Abílio, Rosário Neto que para aqueles pobres camponeses refugiados no Congo, eram nomes aportuguesados de São Paulo, de Luanda. Martins Kássinda e Andele Kássinda, não podiam ser a mesma pessoa.

A minha certeza começou a se desenhar quando comecei a olhar nas imagens de André Kassinda por uma televisão francesa na youtube e olhava para a foto do nosso ministro disse que aquele Sr. tinha razão, era uma cópia. O meu tio sogro, um velho de 90 anos mas que apresentou até ao dia que faleceu, uma lucidez extraordinária: foi entrevistado na TV Zimbo por Guilherme Galliano e falou do seu percurso político como sendo o primeiro angolano a discursar na ONU reivindicando a independência de Angola.

Kunzika faleceu de doença e o enterramos no cemitério do Sant Ana mas durante a elaboração do seu elogio fúnebre, as pessoas contribuíam com nomes de políticos que conviveram com ele; o nome de Papá Kássinda apareceu já com o nome de André Martins kassinda conforme John Marcum tem escrito no seu livro que referi acima. Durante a cerimónia do enterro, muitos dos seus contemporâneos de Kunzika e também de kassinda apareceram; vi o Embaixador Ndombele Mbala Bernardo, membro fundador da UNTA e Simão Dialló Minguiedi, o companheiro de Kassinda na Prisão de Kinkuzu. Foi ali que aprendi duas coisas: que André Martins kassinda foi na realidade Pai de Sebastião Martins que estava presente e que fazia pesquisas sobre Papá Kássinda e animou me o desejo de contribuir para ajudar pois que me tinha apaixonado com as histórias do meu tio sogro sobre seu percurso politico e histórico.

Foi para mim um alívio de como se fosse eu a travar a espada de Peterson em matar o nome de Kassinda na história de Angola: Matou o homem mas não matou o ideal, a visão: Angola é hoje uma nação soberana, Estamos independentes, Papá Kássinda. O outro facto que aprendi e confirmado pela Luísa Quarta, viúva do nacionalista angolano Manuel Quarta Mpunza, também contemporânea e presente no enterro, era que de facto Kássinda não era do Uíge nem do Zaire mas era mesmo do centro ou sul de Angola. Mas depois de eu devorar mesmo as escritas de John Marcum, aprendi onde Papá Kássinda terá nascido (Huambo) onde estudou (Seminário Huambo) e que seus pais eram originários de Kibala, Kwanza Sul. Finalmente, a confirmar a versão das suspeitas do Papá Kunzika, nos escritos de Siona Bole Casimiro que escreveu Dos Maquis e Arredores me apercebi do destino dado ao Papá Kássinda por José Manuel Peterson : afinal não morreu em Brazzaville, nem no Katanga, nem estava na Argélia, não conseguiu se evadir da prisão juntamente com Lanvu Emanuel Norman ou Simão Dialló Mingiedi.

Foi sim morto junto com seu companheiro Mendonça Bolombo e outros, por ordens de Peterson e o seu corpo atirado no Rio Inkissi, na Província do baixo Congo, Território da RDC, o mesmo rio onde se alega ter sido atirado o corpo da Deolinda Rodrigues e outros.

Hasta siempre Papá Kássinda. Honramos o passado e a nossa história. Bênção

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