Síntese biográfico do ancião Ndombele Luvumbu Bitopo Kitopo

SINTESE BIOGRÁFICA DO ANCIÃO NDOMBELE LUVUMBU BITOPO KITOKO
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N°. 01 – ANO 70 (e-mail: cetoco2020@gmail.com)
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Por  Paracleto Mumbela
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(31 – Jan – 2020)

1. INTRODUÇÃO

Com a presente síntese biográfica (vida e obra), o CET – Centro de Estudos Tocoísta e a Edição Mumbeliano Maziko, dão início a publicação de extractos biográficos dos “Anciãos e Pais do Tocoísmo” neste mês de Fevereiro em que o Calendário Religioso Tocoísta assinala o momento mais alto das celebrações do centésimo segundo (102º) aniversário natalício de Simão Gonçalves Toco (1918-1984) e do septuagésimo aniversário (70º) da Relembrança da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo ocorrida em Leopoldville (Kinshasa) a 25.07.1949, pois, achamos que deviamos falar primeiro do seu progenitor antes de abordarmos o tema sobre o nascimento de Simão G. Toco (Mayamona).

A mesma resulta de um estudo analítico, exausti-vo e sistemático sobre a «História de vida dos Anciãos da Igreja» que fazem parte da “Geração Patrística do Tocoísmo”, isto é, do grupo de Anciãos do Tocoísmo que marcaram o período do Cânone Tocoísta (até 1984), cujo perfil, percurso, ditos, feitos, testemunho e legado, constituem indiscutivelmente num valioso património imaterial do Tocoísmo.

Esta síntese biográfica que posteriormente será publicada em brochura e que conta com os subsídio da Conexão Tocoísta, circunscreve-se no âmbito dos estudos sobre o Tocoísmo que está sendo desenvolvido neste decénio, e que visa dar respostas as actuais exigências, anseios e desafios requeridos aos Tocoístas e à Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, face ao diálogo e o intercâmbio que deve existir entre o Tocoísmo, a academia e a sociedade, por forma homenagear-se os anónimos filhos de África e não só, que de forma abnegada e incondicional engajaram-se no processo que os conduziu à Relembrança e implantação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Tocoísmo no mundo.

Desta forma, daremos a conhecer ao Universo Tocoísta e academico, aquele que foi o pai de Simão Gonçalves Toco, sua história de vida que está directamente ligada a história e locais sagrados do Tocoísmo (Lunzamba, Landangu, Sadi, Mpambu Sadi, Mbanza Mpambu, rios Manuana e Malema, Zulumôngo, Kiluangu kye Makumbani, Mbanza Mpumbu Mbenza, Kinkungulu, Ntaya, Kibokolo, Bangu, Sanda Kingombe, as árvores estrondosas de Zulumongo, Nsona Mbata, Léopoldville, etc), da linhagem e genealogia dos Nampemba Mpâta, Benga Kye Mwana Yakala, Namaziza e Namiala, Nama-dungu, para além de outros aspectos importantes.

Neste número, falaremos de Ndombele Luvu-mbu Bitopo Kitoko, pai de Simão Gonçalves Toco, Sacerdote, visionario, Soba de Zulumongo em Sadi, artesão, ferreiro, hábil guerreiro, exímio caçador, comerciante, agricultor, fundador de Mbanza Ntemu, funcionário e capataz na empresa Belga Otraco. Descrevemos resumidamente o percurso da sua vida, seus feitos, previsões e legado, sendo um dos maiores percursores Patriarca e visionário do Tocoísmo.

A sua elaboração teve como base, a preocupação de Simão Tôco que dedicou-se arduamente a investigar o passado dos seus progenitores, estudando não somente a «vida e obra» de seus pais que faleceram quando ele tinha apenas 7 anos de idade, mas também da sua genealogia, dos locais sagrados do Tocoísmo, do percurso trilhado pelos povos da qual descende e da origem da salvação de mais de três dezenas de Patriarcas Tocoístas que Jeova Deus o indicara para juntos erguerem esta obra que se chama INSJCM e Tocoísmo.

2. METODOLOGIA

Para a sua elaboração, realizou-se um trabalho aturado junto das principais fontes bio-biblio-gráficas dos Anciãos da Região que militaram no Tocoísmo e no Coro de Kibokolo, dos estudos e levantamentos de Simão Gonçalves Toco sobre suas origens, percurso de vida de seus ancestrais, dos locais sagrados do Tocoísmo, das Comuni-dades Tocoístas da região do Zombo e Damba, que foi enriquecido com a consulta feita aos registos da Igreja e dos Anciãos, depoimentos prestados às autoridades civis e militares, discur-sos, epístolas e cartas, relatórios, actas, artigos, dissertações, da literatura sobre ocupação colonial do Kongo e Zombo e da BMS-Kibokolo.

3. ASPECTOS BIOGRÁFICOS DE NDOMBELE LUVUMBU

a. Local e nascimento de Ndombele Luvumbu

A literatura existente no Tocoísmo e sobre a região do Zombo, bem como o levantamento geográfico e demográfico feito pelos Missio-nários Ingleses da Missão Baptista de Kibokolo (George Grenfell e Beale), as incursões militares realizadas na região em 1890 pelo Residente, Capitão Faria Leal que percurreu com sua comitiva cerca de 350 km e pelo Comandante militar de Makela, Major Victor Lacerda (15-21.02.1914) que destruiu as aldeias da Regedoria de Sadi (Oliveiro 2009), referem que na Regedoria de Sâdi-Zulumôngo está situada a aldeia de Mbanza Mpâmbu, local de nascimento de Ndombele Luvumbu.
A respeito, escreveu Simao Toco:

“Continuando a história de Nampemba, depois de multiplicar-se no Nkusu. Os outros deixaram Nkusu e foram construir suas casas no Bangu – Kingombe em Kibokolo. Também essa Tribo continuou a multiplicar-se e depois a metade dessa tribo deixou Kibokolo e foi para Maquela no povo que se chamava Mbanza Mpambu – Sadi que tinha dois povos que são: Mbanza Mpambu onde nasceu o meu pai e Mbanza Zulumongo onde nascemos nós os 04 se não me engano. Podem perguntar a minha irmã Ideia e Lídia. Elas poderão dar o melhor esclarecimento do. Povo onde nós os 04 nascemos, porque muitos acusadores e informadores falam que o Simão Toco nasceu no Congo ex-Belga e dizem aquilo que eles não Sabem”. Simão Toco, (29.08.1973).

Mbanza Mpambu

A Edição Mumbeliano Maziko (2017:2) refere que “Mpâmbu” se traduz como sendo “entron-camento”, “desvio” ou “cruzamento de cami-nhos”. Para Jean Cuvelier (1972:20-31) e Gabrielle Bortolomani (2016:34), Mpâmbu é a denominação atribuída á Tribo Mpâmbu a Ngênga – Ku kiamba wa ngudi, que se pode traduzir como sendo “a soberania do trono” e tem afinidades com as tribos de Mpâmbu a Mbênza, Mpâmbu a Lubôndo e Naluangu (Ntû Nkôsi).

De acordo com as fontes consultadas, Mbanza Mpâmbu foi fundada aos 12 de Julho de 1820, pelo Soba Mbala Ze Beba, sob orientação do soberano Nsâku Ne Vunda (Dom Manuel), no âmbito da dispersão das populações de Mbanza Kôngo, possuíndo uma área aproximada de 10.213km2. Segundo o censo realizado em 1900 pelo Missionário, Reverendo e farmacêutico Bilo (Beale), sob liderança de Dr. Chefe, a aldeia de Mbanza Mpâmbu contava com cerca de 107 residências, um palácio real com “Mwanansi ” em anexo, um Centro de tratamento tradicional, um templo religioso (mawene), e com uma população estimada em 1.109 habitantes. A mesma está localizada na parte mais abaixa do rio Manwana, no entroncamento entre aldeia de Kiluangu kye Makumbani e Mpâmbu Sâdi.
Mbanza Mpâmbu foi considerado como o Cen-tro Religioso e sacerdotal, local onde residia o chefe religioso e guardião de “mawene” ou “nsadilu ze sâba”, (coisas sagradas do templo), o Ndolumingu Ñsâmu Kyakala. Cuvelier acrescenta, nestes moldes a importância do lugar, no âmbito espiritual:

Oyau mpe batambwidi dio ye fuka. Yeno lusamuna ona ntumbika e kiwene. Basamuna ona katumba e kiwene”. Tradução literal. Eles também receberam-na com ritos. Digam quem é aquele [sacerdote] que entregarei as coisas sagradas do templo. Digam quem será este sacerdote (operador do sagrado).
Jean Cuvelier (1972:20)

Geograficamente falando, Mbanza Mpâmbu, situa-se à oeste de Zulumôngo, dividido pelo rio Manwana um pouco mais a baixo, à leste pela aldeia de Kiluangu kye Makumbani e pelo rio Nkingulu, à norte pela actual Missão Tocoísta de Ntaya – Ntaya Novo), e à nordeste pela Rege-doria de Sâdi, à distância. Pedro Ziezo (2017), Simão Lukoki (2016) e Edição Mumbeliano Maziko (2017:5).

O actual soba de Zulumongo, Francisco Mvulu (Fwala o wutukidi muna Mbanza Kimakandi o Ntumba Mvemba), diz que o território de Mbanza Mpambu foi uma oferta que o soberano Ntu Nkosi Naluangu cedera aos peregrinos de Zulumongo provenientes de Bangu (2017).

Quanto ao equívoco que gira em torno da divisão das duas aldeias (Mbanza Mpâmbu e Mbanza Zulumongo), nos seus escritos Simão Toco deixou muito bem claro o seguinte:

“Esses dois povos, a de Mbanza Mpâmbu e de Mbanza Zulumongo separavam-se do rio Manuana. Mas quando se juntaram no Povo N´temu, esse povo separava-se dos dois rios, o Manuana e o Malêma. Mas como as águas de Malêma não prestavam para nada, os dois povos bebiam a água do rio Manuana. Podem perguntar ao meu tio Mpembele Massokelo ou Daniel Ñsíngi, ele há-de dizer a verdade, que o Simão não está a mentir”. Simão Toco, (29.08.1973).
Mbanza Zulumongo surge a partir de Mbanza Mpambu e está ligado com o Patriarca Ndolu-mingu Mpembele Nsamu Kyakala.

b. Dados biográficos de Ndombele Luvumbu

O Patriarca Ndombele Luvumbu, é o terceiro filho de quatro irmãos. Nasceu em Mbanza Mpâmbu, na confluência da antiga Regedoria de Sâdi, na parte baixa do planalto do Zombo, Município de Makela ma Zômbo, Província do Uíge, aos 30 de Setembro de 1857, sendo filho legítimo de Nsyona Luvumbu e de Zintangwa Kalambi (Kalembi) Nsâku (vide Paracleto 2019). É neto do soberano Nsaku Ne Vunda (Dom Manuel), Sacerdote do então Reino do Kôngo [Mbanza Kôngo], e que residia em Mbanza Zômbo, na aldeia de Ñtânda-Lwîdi .

Ndombele Luvumbu, é um muzombo, cuja árvo-re genealógica remonta dos Nampemba (Mpâta) que trilham um longo percurso que os levou de Mbanza Kongo à Kisoba Nanga na localidade de Nkusu Mpete, depois de passarem pelas baixas de Madimba, Vunda, e partirem para Kingombe e Bangu/Kibokolo, alcançando o baixo Zombo na Regedoria de Kiluangu:

Os ancestrais de Ndombele Luvumbu eram ferreiros, magníficos caçadores, guerreiros, agricultores e sobas. A sua família pertence a uma ilustre linhagem de notáveis, que no seu tempo haviam se distinguido na sociedade Bangu e posteriormente de Sadi e Kiluangu. Como já vimos, há uma forte ligação os Nampemba e os Naluangu (Ntu Nkosi).

“Vo iManuel, kya valanti kakilonganga. Vo iJoão esalu kye sadi-dingi tata wanguta kye luvumfula sengo. I salu yabavavila yoyo. Ajudante de carpinteiro e ajudante de ferreiro. Katulendi veza salu kyamoko, ekolo tuzingilang’ova nza yayi. Vana nza mpa mpe, sala tusala”. Traducao: quanto a Domingos Manuel, é aprendiz de Carpintaria e o Joao (Sivi) esta aprendendo o oficio que meu Pai executava. Foi este servico que lhes arranjei. Adudante de carpinteiro e Domingos Manuelnao devemos desprezar servicos manuais, enquanto estivermos aqui no mundo. No mundo novo tambem havemos de trabalhar. Simao Goncalves Toco, 2015.

Clanicamente falando, Ndombele Luvumbu pertence ao clã de Nampêmba-Mpâta na parte materna e Nabenga kye Mwana Yakala, na parte paterna, todos provenientes de Bangu.

c. Nome e sobrenomes (apelidos)

Os seus dois nomes (Ndombele e Luvumbu) são de origem kongo e foram-lhe atribuídos pelo seu pai Nsyona Luvumbu em Mbanza Mpambu. No entanto, os apelidos Bitopo ou Lobitopo e Toko ou Kitoko, surgem com a distinção que lhe foi sendo feita ao longo da vida.

Origem do sobrenome Bitopo ou Lobitopo

Na palestra realizada pela Igreja no templo do Palanca aos 24.01.2001 sobre “quem é Simão Gonçalves Toco”, os Anciãos António Mateus Mfinda, Alfredo Titi, Vumambu João David e Vasco Pedro Nzila, foram muito bem claros quando afirmaram que o apelido Bitopo ou Lobitopo deriva das suas habilidades e proezas de “Bitopismo – a arte de aparecer e desaparecer repentinamente diante situações adversas”, isto é:

“O nome de Bitopo teve a seguinte origem: Ele tinha um poder de curar. Ele dominava as ciências que nos escapam hoje. Se ele entrar num sítio, saí no outro. É um dom de Deus que teve este Ancião, por isto, recebeu este menino (Mayamona)”. Ancião Alfredo Titi.

“Devo dizer que o Ancião Bitopo, a bala não lhe atingia. Ele durante as guerras, quando estivesse em situação de apuros, se transfor-mava e não o atingiam. O próprio Deus criou várias formas para proteger Simão Gonçalves Toco enquanto criança”. Ancião Vumambu João David.

De referir que a arte de “topomoka – desapa-recer num dado sítio e reaparecer noutro lugar”, já era uma prática da região. O próprio grande soba de Nanfutila Nawêmbo, Mbulu My Kintôpi Mowabe, que consagrou no leito da morte o seu filho Ndopetelo Mowabe e instituindo-lhe como senhor das terras de Landângu à Kônzo dya Vululu, já era portador desta arte de guerra e de caça.

Origem do cognome Kitoko (Toko)

Quanto ao cognome de Kitoko, é perfeitamente perceptível que o Patriarca Ndombele Luvumbu o adquiriu em Zulumongo depois do seu regresso de Leopoldville em 1900, de onde permaneceu muito tempo, não somente exercendo as funções de capataz e de sacerdote, mas também de onde adquiriu uma série de experiencias, e deste modo, coube-lhe a missão de preparar o caminho “daquele que havia de vir”, ou seja, daquele que respondeu o chamado do Senhor nos seguintes termos: “Eis-me aqui, envia me Eis-me aqui, envia-me a mim”. Isaías 6:8.

O termo Kitoko em Zulumongo e arredores (jovial, prazeroso, de aparência agradável), deri-va essencialmente do seu perfil de finório, charmoso, homem de banga e de muita fama, culto, íntegro e de fibra (perfeito/ideal no agir), atributo que o torna distinto na região e que está na origem do processo transformação que introduz naquela sociedade. A partir do charme ocidentalista e de jovial que exibia em Zulumongo, tornou-se numa figura que assombrou a juventude do seu tempo. Confira ainda Batsikama (2016).

Em apenas 14 anos de sobado, Ndombele Luvumbu transforma a insignificante localidade de Zulumongo, num centro cosmopolita da região do baixo Zombo, que atraiu muita gente das aldeias visinhas, as autoridades portuguesas e eclesiásticas (Católica e Baptista), tendo sido destruído pelo exército português em 20 de Fevereiro de 1914 e por instigação e “com o auxílio de importantes sobas fieis Nosso e Buzo e outros”, por se ter revelado como um “povo rebelde e insubmisso” as autoridades coloniais e missionaria. Vide no n. 4 deste artigo relacionado com a batalha de 1914.

De facto, o velho Kitoko com este perfil e atributo, imprimiu uma dinâmica social baseada no progresso das sociedades ocidentais, mas sem perder de vista a essência que caracterizava o imaginário do seu povo, ancorada nas trágicas experiencias de Lunzamba e do baptismo de Nsaku Ne Vunda em 02.05.1491 em Mbanza Kongo.

Resumindo, diremos que os dois atributos de Ndombele Luvumbu adquiridos Mbanza Mpam-bu (Bitopo) e em Zulumongo (Kitoko), estão intrinsecamente ligados ao percurso e missão profética de Simão Gonçalves Toco, sendo por isso o Patriarca dos Tocoístas.

d. Sua infância em Mbanza Mpambu

Ndombele Luvumbu, ao longo da sua infância, era chamado carinhosamente por Luvumbu, nome que lhe foi atribuido pelo seu pai, sendo uma criança fora do comum, com habilidades e poderes fora do normal. Aos 14 anos de idade, Luvumbu já fazia parte das reuniões dos Anciãos e opinava sobre os destinos de Mbanza Mpâmbu e de Zulumongo, ao lado de seu pai e do Soba, visto que ele previa os acontecimentos futuros e acautelava o Soba, seu tio Ndonlumingu Mpembele Nsamu Kyakala, irmão da sua mãe Zintangwa Kalambi (Kalembi) Nsâku.

Alias, não nos devemos esquecer de que Mbanza Mpâmbu era o Centro Religioso e sacerdotal, local onde residia o chefe religioso e guardião de “mawene” ou “nsadilu ze sâba”.

Foram através destas experiências, que Luvumbu passou a fazer parte do grupo dos «operadores do sagrado no mawene» de Mbanza Mpambu, onde assimila a arte de cura e o sacerdotismo, que exerce na idade adulta. Neste período também se vai especializar nas demais artes, uma vez que se encontrava inserido num meio social, político e económico muito dinâmico, que fazia parte não só das rotas comerciais da região, mas também da confluência sócio-cultural dos povos da região de Sadi e de Kiluangu do outro lado da região, ou seja, era um “mpâmbu – entroncamento ou cruzamento de caminhos” de duas regiões.
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e. Ida e permanência no Congo Belga
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Aos 19 anos de idade (1876), Ndombele Luvu-mbu, na companhia de outros membros da sua família, incluindo o seu primo António Ngombo, ingressaram na caravana dos comerciantes da rota dos tradicionais carregadores Mazômbo, à partir do mercado de Mbanza Mpumbu até Nsôna-Mbâta (RDC), comercializando ai vários utensílios domésticos fabricados na altura por eles próprios, já que eram bons ferreiros e artesãos (enxadas, catanas, facas, panelas, grelhas, borracha extraida das arvores, etc).

Durante alguns meses, e a procura das melhores condições de vida em várias localidades da região do Congo Belga (Matadi, Mbanza Ngungu, Kimpese, Leopldville) e na companhia dos demais, eis que foram admitidos na emprega Belga OTRACO, onde começam a trabalhar na plantação e transformação de cana-de-açúcar, exercendo as funções de capataz.

Dado o tempo de permanência no Congo Belga, onde Leopoldville apresenta-se-lhe como a grande cidade de europeus, teve ainda a oportunidade de aprender a ler e escrever o Kikongo em Nsona Mbata, a falar o lingala e o francês rudimentar, para além de ter assimilado igualmente valores socio-culturais ocidentais, e adquirido varias habilidades profissionais, condição que o tornou ainda mais distinto a quando do seu regresso à Zulumongo.

E enquanto visionario, eis que o Senhor o guiou e o capacitou no caminho que 50 anos depois Mayamona haveria de trilhar.

f. Batalha de Zulumongo em Outubro de 1891

De acordo com informações registadas por Pedro Mumbela (em 1990) a partir de depoimen-tos recolhidos ao Ancião Ñsîngi Ze Matwa (Mpembele Ze Masokelo), tal como os registos de Miguel Mambauka (1981) e Ndombele Luvumbu (1911), relatam que em 1891 (?) hou-ve uma grande batalha em Zulumongo, que envolveu toda região de Kiluangu e Sadi contra o exército Português e que teve a duração de doze dias (22 de Outubro a 02 de Novembro de 1981).

Segundo estas fontes, a batalha aconteceu na serra entre Mpâmbu-Sâdi e Zulumôngo, no local chamado “Tâdy dya Ngêmbo” (pedra de morcego), na aldeia de Kimbumbulu Tâdy . Dum lado estiveram as tropas portugueses comandados pelo Capitão António Luís (?) com centenas de soldados do seu exército, e do outro lado cerca de 1750 arqueiros (soldados) mobilizados nas aldeias de Mpâmbu-Sâdi, Mbanza Mpâmbu, Mbanza Mpûmbu, Mawete, Kinkungulu, Kinsûndi, Yenga, Sâdi (capital político), Mbêmba, Kiwêmbo, Landângu e Nzôlo Ntulumba. Houve também a participação de 250 argueiros de Kiluangu, bem como os valorosos soldados de Kônzo dya Vululu.

O exército Português tinha como objectivo alcançar a aldeia de Zulumôngo e destrui-la. O primeiro bloqueio foi feito pelas tropas de Makumbâni, que impediram a subida das tropas portuguesas ate Zulumôngo, e que recuaram logo que os soldados de Makumbâni abriram fogo com as suas flechas artesanais. Este pri-meiro confronto ocorreu na madrugada do dia 22 de Outubro de 1891. Passando três dias, os Portugueses regressaram, trazendo consigo a artilharia pesada.

E a 25 de Outubro de 1891, teve lugar a bata-lha propriamente dita, que se estendeu durante uma semana, mas dada a desproporção de meios bélicos, o exercito Português causou severas baixas as forcas locais, cujas consequencias tiveram graves implicações na vida destes povos, pois, esta batalha está na origem da morte de centenas de soldados da coli-gação das forças das Regedorias de Kiluangu e Sadi, do comandante Naluangu Ngangu na Lunga da Regedoria de Kiluangu, do guerreiro e Soba Makumbani da aldeia de Kiluangu kye Makumbani, de Mbulu Mya Nkanza Nkanza, irmão do Ndombele Luvumbu e de Nsûndi Ngô Nsâku, tendo ficado gravemente ferido o guerreiro Kyala Kinvuengeta , pai de Sebastião Kyongolo. Os portugueses destruíram (queima) algumas aldeias da Regedoria de Sâdi, Kiluan-gu e Zulumôngo e demais aldeias.

São razões que estiveram na base desta sangrenta batalha as seguintes:

i. Expedição de Faria Leal ao Cuilo: Após a Conferência de Berlim, Portugal teve a obri-gação de não só marcar militarmente as suas fronteiras com o Congo Belga, mas também exercer o domínio efectivo sobre os povos que habitavam nestes espaços territoriais. E no caso das populações da região do Sadi/Kiluangu, dada a afinidade com os Povos da região do Mpangu (Congo Belga) e as fortes trocas comerciais, e porque a pre-sença portuguesa era quase inexistente naquelas paragens, estes sofriam o perma-nente assedio das forcas do Rei Leopold II da Bélgica, o que está na base da expedição de Faria Leal, conforme nos reporta Oliveira (s/d) no seu artigo “Os Kongo, os Últimos Reis e o Residente Faria Leal (III Parte)”:

“No dia 11 de Agosto de 1890, partia de São Salvador do Kongo, uma expedição comandada pelo capitão Faria Leal, rumo a Maquela do Zombo, afim de seguir dali para a confluência dos rios Cuilo e Cuango, com a finalidade de estabelecer um posto militar”. In: Faria Leal, Heliodoro de Corte Real, in Revista Portugueza Colonial e Maritima, Vol 10, nº59, pág. 203.

Com esta acção, Portugal passa a reprimir mili-tarmente toda desobediência dos soberanos da região e foi o caso de Zulumongo e das duas Regedorias em Outubro de 1891.

ii. A rápida evolução que se registara em Zulu-môngo, onde até 1891 já contava com resi-dências de adobe e chapas de zinco, um ate-liê de alfaiataria, uma oficina de fundição de ferro e uma escola de alfabetização, situação provocou o ciúme de alguns Sobas das regiões circunvizinhas, no caso de Nzôlo-Ntulûmba , Kiluangu, Mbanza Mpumbu, Kiwêmbo, Ñkônzo dya Vululu, que passaram a depender da tecnológica e utensílios produzidos e comercializados em Zulumôngo, uma localidade constituído por «povos hospedados por eles», tornando alguns deles, colaboracionistas com os Português;

iii. O terceiro motivo que está na base da bata-lha de Zulumôngo, tem haver com a questão de matrimónio, visto que estes (Zuluenses e mais tarde os Sadistas), na maior parte espo-savam mulheres de outras regiões. São os casos de Ndombele Luvumbu que vai espo-sar Ndundu Ñsîmba na Regedoria de Kiwembo, aldeia de Landângu, e o seu irmão Kiwakana Luvumbu que vai esposar a Dona Ntâlu em Mbanza Mpûmbu, assim como tantos outros, tornando Zulumongo cada vez mais forte, dada a confluência de muitos povos.

De referir que antes da chegada de Faria Leal na região do baixo Zombo e mais terde dos Missionários Thomas Lewis e Gren Lewis, Zulumôngo nunca tinha sido descoberto pelos brancos, havendo toda precaução destes, como se pode conferir na mensagem transmitida de geração à geração. O ancião António Mateus Mfinda, (2001) deixou-nos o seguinte esclarecimento: “Na vontade do próprio Deus, o nosso Dirigente nasceu em Zulumongo (…). Este local nunca foi descoberto pelos brancos que a procuravam (…). Quando nascemos, encontramos da parte dos nossos avôs a recomendação de que Zulumôngo nunca devia ser mostrado por quem quer que fosse. A final de contas, os Europeus procuravam o menino que nasceu, mas não conseguiram encontra-lo”. António Mateus Mfinda (2001).

j. Regresso à terra natal e reformas introduzidas em Zulumongo

Em 1900, quando contava com 43 anos de idade, devido à visão espiritual que teve com o Profeta Nakumi (Naum), aquele que está na origem do diluvio de Lunzamba, regressa à sua terra natal, desta feita, não em Mbanza Mpâmbu, mas agora em Mbanza Zulumongo.

Mas o que estará na base desta mudança de local de residência? Tudo deveu-se a consequencias da batalha de 1891 que provocou muitas alterações na vida social dos povos da regiao, que passaram a ser submetidos as autoridades coloniais portuguesas e religiosas (Missao Baptista de Kibokolo).

Em Zulumongo, nos 14 anos que se seguiram (1900-1914), Ndombele Luvumbu procurou inovar e consolidar o processo de desenvolvimento já alcancado pela região, cujo vestígios ainda são bem visíveis até hoje, com a introdução de um modo de vida e de produção ocidental e a edificação de moradias de adobe, e uso de vários utensilios industrializados, facto que atraiu os habitantes de outras aldeias à Zulumongo.

Aliado a isto, temos a destacar o principio de organização que norteava Zulumongo, uma aldeia detida por elementos oriundos de Bangu em Kingombe/Kibokolo, mas que albergava gentes de varias origens, denotando-se já um certo hibridismo socio-cultural, face a rigidez dos valores detidos por outras aldeias menos heterogeneas em termos socio-culturais.

k. Casamento com Ndudu Nsimba

Ndombele Luvumbu, contraiu o seu casamento com a Ndundu Nsimba na visinha e turística aldeia de Landangu situada nas encostas do monte Kintumisiko e das margens do mítico Lunzamba, resultando desta relação o nascimento de sete filhos:

1º Dyelunvwidi Ndombele e 2ª Ñsîmba Ndom-bele (Zulumongo, 12.03.1910 );
3ª Idela Luketo Mlandu Luvumbu (Zulumongo em 17.11.1915). A que seguiu os gémeos, daí o nome de Mlandu;
4ª Ilidia Kitoko Ndongani Luvumbu (Kinku-ngulu em 17.11.1915). Nasce em Kinku-ngulu, visto que em 20 de Fevereiro de 1914, 2ª Companhia Indígena de Infantaria de Angola do Major Victor Lacerda, destruíra todas aldeias da Regedoria de Sadi, incluindo Zulumongo. O velho Bitopo teve que se refugiar nesta aldeia;
5º Luvualu David Nkânza Luvumbu (Zulu-mongo, em 1917);
6º Simão Gonçalves Tôko Luvumbu e a 7ª Ñsîmba Eva Luvumbu (Zulumongo, 24.02.1918 ).
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l. Sua asceção ao sobado de Zulumongo
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Ndombele Luvumbu, ascende ao cargo de soba da aldeia de Mbanza Zulumongo, em substituição de Ndolomingo Pembele Nsamu Kyakala e projectou a aldeia de Mbanza Ntemu. Nesta altura, retoma a sua actividade de ferreiro, começando assim a fabricar as armas artesanais (Kanhangulu), catanas, enxada, regadores, martelos e todos a especie de utensílios domésticos.

O seu sobado conheceu dois periodos distintos: uma etapa que vai de 1900 à 1914, altura em que se regista a segunda destruição de Zulumongo, mas que esteve marcado pela grande prosperidade, e a segunda etapa de 1916 à 1925, que foi uma fase menos acelerada, face ao processo de colonização e missionação que condicionaram a sua dinamica. E nesta etapa em que se regista o nascimento de Mayamona.

j. Sua participação na batalha de 1914 e consequente destruição de Zulumongo

Face a relutancia das aldeias da Regedoria de Sadi, Kiluangu e seus vizinhos em pagarem o imposto de cubata, e sob influência da revolta de Buta no Kongo e Mbyanda Ngunga na região da Damba, Zombo e arredores, o Regente Portugues de Makela decide submetê-lo à força, desencadeando uma «limpeza na região». Eís o que relata o Relatório da 2ª Companhia Indígena d’Infantaria de Angola (Oliveira, Os Zombo na Tradição, na Colónia e na Independência, 2009):

“Relatório da força saída a 15 de Fevereiro 1914, às regiões de Quimanandinga, Tunda, Palabala e Maceque (…) Às oito horas e um quarto, do dia 15 puz-me em marcha com uma força de doze soldados municiados a cem cartu-chos, em direcção à região do soba Quimanan-dinga encontrando depois de uma hora de mar-cha da minha saída dois gentios armados de espingarda a quem logo me dirigi e lhes fiz várias perguntas sobre o seu destino e fim, respondendo-me um deles o seguinte: Disse que era irmão do Quimanandinga e que vinha a Maquela pedir ao snor Administrador soldados por causa do Buta que tentava vir sobre a sua região e a do Tunda e como a minha missão fosse justamente essa, filu voltar e acompanhar-me fazendo-lhe então durante o trajeto até ao meu primeiro posto de destino algumas perguntas, entre elas qual o local onde se encontrava a gente do Buta e como haviam adquirido a notícia da sua vinda ali, ao que ele respondeu: A gente de que dispõe Buta é muita e acha-se concentrado no Suco povo do Soba Culanzunzo comandando a guerra Quela-casseca soba do povo Furesedundo a mandado do Buta e que Quimanandinga soube do que se tratava devido a uma rapariga que fugira do local de concentração para a sua região e lhe contara o sucedido”.

Em outro relatório citado pelo mesmo autor e sobre o assunto, pode-se ler:

“No dia 19 de fevereiro (de 1914), o comandan-te militar de Maquela, major do quadro occi-dental, Victor Lacerda, com o auxilio de importantes sobas fieis Nosso e Buzo e outros, com dois graduados europeus e 32 praças indígenas e dois auxiliares europeus, no effectivo total de 350 espingardas, poz-se em marcha para castigar os povos de Sadi, Teco-Fulege, Gumba, Bongola, Palabala, e Lembele, não encontrando resistencia em parte alguma, destruindo todavia, os povos de Manianga Banza Sadi, Quissundi, Zulumongo, Tengo e Banza Pambo, de Sad; Idi, Taniquina, Quinanga e Toco-Fulege, Lucunga, Quimbango, Dimbo e Banza Dimbo do Gumba. Esta força regressou a Maquela em 21 de Fevereiro, não havendo quaisquer outras manifestações de rebeldia ou suspeita de rebeldia em toda a região de Maquella”.

Estes factos podem ser confirmados pelas recentes informações recolhidas nos relatórios e registos de alguns Anciaos, que dão conta de que Ndombele Luvumbu

– o LoBitopo, terá participado na grande batalha contra a ocupação colonial do Zombo:

“Em 1914, já nas vestes de soba de Mbanza Zulumôngo, aos 20 de Fevereiro de 1914, travou a batalha com as forças de Álvaro Tulento Buta , na tentativa destes invadirem a região de Sâdi-Zulumôngo por não aderirem a lei sobre o pagamento dos impostos das cubatas (imposto de palhota), num confronto de 8 dias, como já estava numa idade avançada, e por falta de alguém capaz de o substituir, Bitopo refugia-se com a sua família na aldeia de Makulungulu, foi ai onde nasceu a sua filha Ilidia Kitoko Ndongani em 1915”.

Estes factos também resultam da carta de Tho-mas Comber e Holman Bentley, citado pelo D. Grenfell (1910-1933), que reportam de que em 1897 (?), Thomas Lewis e sua esposa Gren Lewis chegam à região de Sâdi-Zulumôngo, a fim de sondarem a localidade para a construção de uma subestação da Sociedade Missionária Baptista “Baptist Missionary Society” vulgo (BMS). Segundo o Grenfell (1998:141), primeiro foram a Makela ma Zômbo ter com o Residente Português devido os tramites legais. Mais tarde, partiram para Sâdi-Zulumôngo, conforme ilustra o mapa elaborado pelo Thomas Lewis.

Mas devido a presença destes «brancos nesta região recôndita», a população de Sâdi-Zulumôngo entrou em pânico, uma perturbação que tinha os seus fundamentos. Tudo foi interpretado de que Ndolomingo Mpembele Nsâmu Kyakala, soba de Zulumôngo, é quem viria “trair o território aos brancos”. Para o Nsûndi Ngô Nsâku, Ngundu Mpuku Nsâku e Zentangwa Kalembi (Calumbe) Nsâku, filhos de Nsânku Ne Vûnda (Dom Manuel), estavam diante de um momento muito preocupante e que não deviam vacilar, visto que as tristes recordações sobre o que tivera acontecido em Mbanza Kôngo com o baptismo ao cristianismo de seu ancestral Nsâku Ne Vûnda em 02 de Abril de 1491, pois, indicava de que Mis-sionários viriam novamente à busca dos seus poderes e objectos sagrados (mawene), tal como sucedera com Nzinga Kuwu.

Importa realçar que Thomas Lewis e sua esposa não cumpriam apenas missões religiosas, mas também eram mandatários dos interesses das potências ocidentais, e não lhes passava na mente que esta região recôndita de Sâdi-Zulumôngo teria tanta população e residências daquela dimensão, e tremendo futuras represálias, segundo os dados estatísticas do recenseamento levado a cabo pelo Rv. Bilo (Beale), tal como Domingos Kibeta fez menção na sua carta datada aos 25 de Dezembro de 1961, estes fizeram chegar estas informações ao Residente Português de Makela, que decide instituir à estes povos, a cobrança do “imposto de cubata ou de palhota”, facto recusado por estes. Foi o suficiente para se instalar a revolta geral na Regedoria de Sadi e Kiluangu.

A envasão massiva dos povos da região de Sâdi-Zulumôngo como se tem lido nos vários documentos produzidos pelos Escreventes Tocoistas dos idos anos 50 a 80, referem que a mudanca forcada para Lula lo Kongo, ocorreu em 1930 (Sebastião Kyongolo, 2015), transferindo-se as populações na estrada principal que liga a sede de Makela ma Zômbo ate a fronteira de Kimbâta, tendo sido queimadas as aldeias, incluindo a Regedoria de Sâdi-Zulumongo, que possuia 120 aldeias.

iv. Doença, agonia e morte

Doenca e morte

Em 1925, a região foi assolada por várias epidemias que havia ultrapassado a inteligência dos curadores tradicionais locais e muitas aldeias foram abandonas, incluindo Mbanza Ntemu construída depois de 1914 na outra margem do rio Malema.

Em Zulumôngo, faleceram mais de 150 pessoas, incluindo o soba Ndombele Luvumbu que morreu na sexta-feira do dia 17 de Julho de 1925, tendo falecido primeiramente a sua esposa Ndundu Nsimba na segunda-feira do dia 13 de Julho de 1925, facto reportado tambem por Simao Toco e Kibeta:
“Os meus pais morreram de varíola na mesma semana. Talvez em 1924 ou 1925. A minha mãe morreu numa Segunda-Feira e o meu pai na Sexta-Feira. Quando o meu pai esteve prestes a morrer, o meu tio Mfinda levou-me ao colo e ouvi as palavras ditas pelo meu pai ao meu tio, de que: ‘Mata grande é esconderijo dos grandes macacos. Tira a criança junto de mim, porventura não sabes que a morte é muito envergonhada?’”. Simão Toco, epistola em kikongo, anos 70.
Em carta datada de 25 de Dezembro de 1961 que seu primo Domingos Kibeta lhe endereçara, esclarece o seguinte:

“A cerca da morte do tio, teu pai e a minha tia, tua mãe, perguntaste se eu estive presente ou não. É muita pena que o primo era peque-no. Por isso, vou perguntar-te uma coisa: aínda te lembras do tio Luvumbu Lobitopo? E também ainda te lembras da tia Ndundu Nsimba? E da mama Ntalu? Eu já disse que estive presente. Naquela doença de bexiga, muitos morreram naquela altura. Mas o tio Luvumbu Lwa vidika escapou. E o teu pai e tua mãe morre-ram em 1925”.

Ditos de Ndombele Luvumbu na agonia da morte

Das suas provisões, Ndombele Luvumbu ficou conhecido entre os Tocoístas com as celebres palavras:
i. “Mata grande é esconderijo de macacos…”;
ii. “Mfinda, cuide esta criança, protege-a (porque) há-de ser um grande Rei”.
E em várias ocasiões, Simão Toco relata o sucedido:

“No dia em que morreu o meu pai que me nasceu, Ndombele Bitopo Kitoko ou Toko…, disse, quer dizer, falta-vam 5 minutos para morrer – embora não ter morrido Cristão e disse: “Kapitão Ku Mfinda, tire esta criança onde estou, não sabeis que a morte é enver-gonhada?”. É pena que o tio Mfinda já não se encontra em vida, descansa no Senhor. Espero que todos que morreram no serviço do Senhor ressuscitem no dia final. Se não tivesse morrido, teria confirmado, dizendo: “é verdade essas palavras deixadas pelo seu pai”. Não demorou muito tempo, voltou a falar novamente: “Mfinda, retire este meu filho que se chama «é demais o que vi no Clã»”.

As pessoas não entenderam estas palavras. Esse é o seu significava: o Clã que meu pai dissera, é toda a região do Zombo. Disse mais: “Mfinda, não es-cutas? Eduque esta criança, protege-o e envia-o em sua casa. Embora ainda ser uma criancinha, há-de ser um grande chefe (rei)”. Não demorou muito tempo, morreu e começaram a chorar. Eu na minha inocência, era muita criança, peguei numa banana madura e fui comê-la, porque não sabia o significado da morte. Os naturais de Sadi pensaram que a chefia (reinado) que meu pai dissera, é que seria Soba. Eu aguardei por isto, afinal é outro tipo de chefia. Mas será que o pai não tinha filhos adultos para o substituir? Tinham-os”. Simão Toco, epistola em kikongo, de 09.08.1955.

E na epístola dos anos 70 escreve: “disse-lhe mais: ‘cuidem bem esta criança, porque há-de ser um grande Rei’. S. Lucas 1:32-33. O meu tio percebeu que eu haveria de ser um rei da tribo, isto é, um Soba ou chefe do clã carnal. Afinal o meu pai queria dizer que seria Rei da Tribo de Deus, ou pescador de homens para guia-los no caminho da salvação que há em Jesus Cristo. Ezequiel 34:16-24; Apocalipse 3:2”.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que se pode concluir desta incursão biográfica do patriarca dos Tocoistas, Ndombele Luvumbu Bitopo Kitoko?
Dela podemos tirar as seguintes ilações:

a. Com a publicação deste extracto biografico, quebra-se o seu anonimato, o que estimulará com a realização novos estudos em torno desta grande figura do Tocoismo e do Planalto do Zombo, neto do sacerdote Nsaku Ne Vunda (Dom Manuel);

b. Denota-se que há uma nitida concordancia entre a função patriarcal e sacerdotal de Ndombele Luvumbu, e a missão profetica de Simao Goncalves Toco, sendo que ele foi orientado por Deus, a fim de criar todas as condicoes que favorecessem a missao divina de Mayamona;

c. Os feitos e legado deste anciao são de extrema relevancia para o Tocoismo, visto que devido as suas qualidades e perfil, esta na origem do termo TOKO, da qual deriva o termo Tocoista, que erroneamente se atribui a Mayamona que apenas herda o apelido do pai. Zacarias 6:12-13 ;

d. Ambos, pai e filho revelaram possuir virtudes semelhantes em muitos aspectos, principalmente de natureza espiritual e de prever os acontecimentos futuros;
e. A sua ida e longa permanencia em Leopoldville, esta na origem do sugimento da Comunidade Zombo, atraves da qual Toco os recruta e cria o Coro de Kibokolo em 1943, em cumprimento do oraculo divino recebido no Bembe em 1942;

f. Zulumongo é a grande mata, onde se encontram escondidos muitos macacos.

5. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Obras consultadas

1. BATSIKAMA, Patrício, Makela ma Zômbo. Das origens ate a criação da circunscrição em 1911, Mediapress Editora, Luanda, 2014;
2. BATSIKAMA, Patrício, Simão Toko. O Nacionalista da Paz em Angola, Mediapress ADMAC Gráfica, Luanda, 2016;
3. CUVELIER, JEAN, (1972), Nkutama a mvilazaMakanda, 4º édition, Tumba, Matadi;
4. CUVELIER, JEAN, (1971), Nsieto a Kongo, Histoire de l´ ancien Royaumedu Kongo, Diocèse de Matadi.
5. MBUNGA, Honore, Contribuição para a historia da Damba, Mayamba Editora, Luanda, 2019;
6. VEZZU, Frei Rino e NTANDA, Padre Fran-cisco, O Centenário. Resenha histórica da Evangelização em Mbanza Kongo, Editorial Nzila, Luanda, 2007;
7. TOCO, Simão Gonçalves, Extracto Biográfico do Dirigente, GCNET, Luanda, 2014;
8. TOCO, Simão Gonçalves, Nsikidisa za Dibundu, GCNET, Luanda, 2015.
9. MUMBELA, Paracleto, A vida e a identidade espiritual de Simão Gonçalves Toco, Luanda, Edição Mumbeliano M´aziko, (2015);
10. MUMBELA, Paracleto, (2019), AS ORIGENS DE SÂDI-ZULUMÔNGO: Da construção até a destruição em 1930, Luanda,Edição Mumbeliano M´aziko;
Documentos consultados
1. Pedro Mumbela, Registos sobre “A implantação da Igreja de Nosso senhor Jesus Cristo no Mundo”:
2. Pedro Mumbela, (1989), Lusansu lua lungisu lua mvu makumaya (40 anos) lua Dibundu dia MfumuetoYisuKlisto ova nza ye lua nkulumuka Mwanda Avelela vana Léopoldville (Kinshasa), Ntaya Maquela do Zômbo;
3. Pedro Mumbela, A vida do nosso pai Pembele Massokelo, Ntaya;
4. ÁLVARO, António. (2014), LUNZAMBA – Uma lagoa sagrada que esta no fulcro da história do Tocoismo, CET, Luanda;
5. José Carlos de Oliveira, Os Zombo na Tradi-ção, na Colónia e na Independência, 2009;
6. José Carlos de Oliveira, Os Kongo, os Últimos Reis e o Residente Faria Leal (III Parte);
7. Epístolas de Simão Tôko, datadas de 09.08.1955 e 12.09.1955, 29.08.1973 e dos idos anos 70;
8. Carta do Ancião Domingos Ramos Kibeta, para Profeta Simão Gonçalves Tôko, datada aos 25 de Dezembro de 1961;
9. Registo dos Anciaos Miguel Mambauka (1981) e Ndombele Luvumbu (1911);
10. Extracto da Palestra de 21.01.2001;
11. Gabrielle Bortolomani (2016:34);
Depoimentos e entrevistas
• Pedro Nzila;
• Vuamambu Joao David;
• Antonio Mateus Mfinda;
• Alfredo Titi;
• Vasco Pedro Nzila;
• Avalina Mbyavanga (Soba de Kiwembo-Kibokolo, 2016);
• Francisco Mvulu (Soba de Zulumongo, 2017);
• Toco Rosado
• Pedro Ziezo (2017),
• Simão Lukoki (2016)
• Filipe Ndombele;
• Sebastião Kyongolo
• Elizabeth Veki (2019).

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