Bacongos em Lisboa

Por  Ana Stela de Almeida Cunha (*)

Descrição do projecto

Este projecto pretende contribuir para o aprofundamento do debate que se tem vindo a instalar na sociedade portuguesa nestes últimos dois ou três anos acerca da história e memória do império português e suas repercussões no presente, com a intenção de contribuir para os debates e formação de um arquivo contemporâneo do denominado  sul global. Para tal, o projecto Bacongos em Lisboa conta com uma rede multicultural de colaboradores-cúmplices composta por artistas, activistas, escritores e investigadores e parcerias nacionais e internacionais.

A ocupação militar de vastos territórios africanos, desde os finais do século XIX, num complexo quadro europeu de que um dos símbolos foi a Conferência de Berlim (1884/1885), marcou não só as escolhas políticas portuguesas, como as relações de Portugal com África, tendo conduzido à consolidação de uma situação colonial, que retirou aos africanos as suas autonomia e hegemonia seculares.

Ocupando toda a zona do vale do rio Congo  os Bacongos constituiam o famoso “Reino do Congo” até à chegada dos portugueses, no fim do século XV, cuja capital, M´banza  Congo, encontrava-se na atual província angolana do Zaire. Esta relação de mais de cinco séculos entre estes dois povos e suas materializações e memórias é o objeto central deste projeto, que busca compreender na contemporaneidade a forte presença dos bacongos na capital portuguesa.

Falar sobre os Bacongos[1] em Lisboa é tarefa árdua, não pela escassez de material, fontes (escritas e orais) ou vivências, mas é sobretudo difícil porque falar sobre os espaços, os povos e as memórias que formam na contemporaneidade os “Estados” africanos é por si uma tarefa problemática, que envolve definições e categorizações sobre pessoas e identidades. Portanto, falar sobre estas mesmas identidades, na diáspora, parece ser algo ainda mais perturbador.

De quem exatamente, falamos? E quem são os que falam? Para quem?

Se a história escrita não consegue falar de “toda a gente”, então é a história de que? E que história é esta que pretendemos contar?

O Portugal pós 25 de abril, supostamente democrático, abriu as portas para a multiculturalidade: se práticas culturais “africanas” continuaram visíveis, novas influências chegaram, seja através dos portugueses retornados, seja através das diversas comunidades africanas que se fixaram no país, permitindo inovações nos espaços da cultura, das artes, das políticas e da economia.

Este é portanto um projeto que prevê uma cartografia afetiva da presença dos bacongos em Lisboa nas mais distintas áreas e sob inúmeras perspectivas.

A proposta tem o intuito de potencializar afetos e provocar encontros em redes que incitam a criação dessas cartografias, tendo em conta os contactos seculares entre os bacongos e os portugueses. Neste sentido, cabe observar os modos de atravessamentos por onde essas cartografias operam por intensidade nas diversas teias que tecem e destecem com a vida.

Justificativa da proposta

Possuindo uma relação de mais de 5 séculos com Portugal, sendo atualmente este o país de entrada para muitos imigrantes desta zona do Baixo Congo que vão posteriormente migrar para França ou Bélgica, trataremos de cartografar a presença e interações afetivas desta imigração em zonas geográficas como o Martim Moniz (com seus bares e cafés onde muitos bacongos se reúnem, sendo zona emblemática da cidade para este povo). Ali escuta-se o lingala, come-se funge com fumbwa e vende-se clandestinamente roupa de “marca”, tão ao gosto

dos bacongos. É ali que se reúnem para os vinhos, é lá onde cortam os cabelos e fazem as barbas, trançam cabelos, vendem panos. Os produtos de beleza das mamãs congolesas, os óleos e cabelos. É portanto nesta zona do Intendente e do Martim Moniz que muitos passam a tarde, entre bares e conversas, recriando laços familiares, de amizade, que a imigração fez serem rompidos.

Objetivos

Bacongos em Lisboa tem como objetivo uma abertura da memória do império português, resgatando os elementos descartados pela representação visual e histórica, ao mesmo tempo que se iluminam as sobrevivências múltiplas, complexas e duradouras, assim como também os destroços do colonialismo. Apresenta-se como um agregador de vontades e posições – um médium facilitador da visibilidade de quem foi invisibilizado.

Tendo a Organização das Nações Unidas declarado o período 2015-2024 como sendo a Década Internacional dos Afrodescendentes, cujo slogan é Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento, e a praticamente inexistência de eventos públicos em que tal seja explícito e estimulado, Bacongos em Lisboa pretende celebrar as histórias e culturas das comunidades africanas e afrodescendentes e reconhecer as contribuições destas comunidades para a sociedade portuguesa ao longo do tempo. É um trabalho sobre elas e com elas.

Ao aplicar o conhecimento através da arte, em diálogo com os movimentos sociais e com a ajuda de colaboradores locais e internacionais, este projecto emerge como um contra-atlas, proporcionando um visão mais complexa e multiétnica do Portugal contemporâneo, ao mesmo tempo que celebra e empodera as diferentes comunidades que fazem parte do seu tecido social, especificamente a sociedade composta pelos angolanos/congoleses bacongos.

Participam deste projecto artistas, escritores, activistas e académicos nacionais, nomeadamente afrodescendentes, e internacionais que aplicam os seus talentos de forma inovadora para provocar e estimular o pensamento e debate sobre temas que conectam os aspectos locais às dinâmicas mundiais.

O obetivo específico deste projecto é que quem antes foi sempre objecto (de etnografias, da  história, da arte) seja agora sujeito.

Impacto

Portugal é actualmente um dos principais destinos globais do turismo e de novas comunidades de imigrantes. Os movimentos sociais e artísticos liderados por afrodescendescentes apresentam-nos novas histórias e promovem vozes historicamente silenciadas e invisibilizadas São comunidades que constituíram solidariedades emancipadoras com outros movimentos sociais internacionais, incluindo do Brasil

Bacongos em Lisboa considera o presente momento como uma oportunidade para unir forças com esses indivíduos, movimentos e instituições públicas no sentido de produzir um documento artístico de alta qualidade que contribua para a discussão e dê destaque à riqueza de uma História e de um presente verdadeiramente multiétnico, de valores inclusivos, resgatando as memórias obliteradas do imaginário colonial. Além disso, como um gesto
de contravisualidade, pretende impulsionar os actuais debates locais e internacionais sobre a descolonização do saber e da imaginação.

Produção material

O projeto prevê como resultados (em termo materiais) uma exposição fotográfica com instalação audio visual (pequenos excertos sonoros e visuais) sobre a presença dos bacongos em Lisboa, através de um “mapeamento afetivo” que incluirá, ainda,a  produção musical dos bacongos em Lisboa.

Esta presença estará focada em três “contextos” (geográficos/afetivos/de produção cultural):

  • espaço do centro de Lisboa, na zona que compreende o Martim Moniz, Anjos, Intendente e Graça, buscando retratar as relações sociais ali estabelecidas em termos de moradia, espaços sociais de entretenimento, negócios;
  • espaço religioso, centrando-nos em algumas religiões que concentram grande número de adeptos bacongos, a saber: a “Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo” (ou Igreja Tocoísta),   a Terceira Igreja Batista, Igreja Philadélfia, entre outras;
  • Produção musical/cultural, sobretudo através da banda Congo Stars de Vibration, formada há mais de 15 anos por imigrantes bacongos em Lisboa e que representa hoje uma resistência musical/cultural.

O espaço religioso e musical estão, neste projeto, intrinsecamente relacionados, pois a população de imigrantes da África Central em Portugal (e mais especificamente os bacongos) participa, via de regra, de um movimento religioso evangélico, pentecostal, de ordem transnacional cujos principais representantes são a Igreja Evangélica de Filadélfia (igreja luso-africana) e a Igreja Batista, mas outros movimentos religiosos (sobretudo os proféticos/cristãos) com forte relação identitária nacionalista também fazem parte da formação religiosa destes imigrantes sem que sejam, entretanto, pertencimentos excludentes (ver, por exemplo, as igrejas Kimbanguista e Tocoista, entre outras). Cabe salientar ainda o papel da língua nestes processos de identidade entre os bacongos, na diáspora (e especificamente Lisboa). O lingala, língua franca neste contexto, atua como um aglutinador dentro das igrejas (tanto as católicas quanto as pentecostais, mas sobretudo as últimas) as quais têm exercido um papel fundamental junto destes imigrantes em Lisboa, servindo como base para uma sociabilidade que se desenvolverá em terras alheias, com outros pares e nem sempre na homogeneidade étnica. Neste sentido, a música produzida na igreja adquire um sentido ainda mais forte de pertença. Pretendo dialogar aqui, tal como propõe Pierre (2006) com as diversas formas etnográficas possíveis, uma vez que cortes epistemológicos tendem a ressaltar idéias de “excepcionalidade”, menosprezando as delicadas relações locais e translocais.

Em muitos destes locais a rede da “fé” acaba mesmo por funcionar como suporte para diferentes estratégias de pertencimento e de deslocamento naquilo que Mafra (2007) chamou de “paisagem moral” estrangeira e, em boa parte, desconhecida.

Metodologia a ser utilizada para constituição do material

Neste projeto interessa-nos fomenter produções artísticas que sejam fruto de um novo (re)encontro de artistas e investigadores brasileiros, cubanos (locais que conheceram o processo escravista empreendido pela zona ibérica), bacongos e portugueses, tendo como objecto central os diálogos entre musicalidades e crenças.

Através de um trabalho colaborativo com antropólogos, etnomusicólogos, videoartistas, bailarinos e músicos pretendemos trabalhar em modo de residência tendo como objectivo final a realização de um concerto/performance que cruzará práticas e saberes na cena musical e artística contemporânea.

Assim, durante todo o período de pré produçãoo e produção utilizaremos as cartografias como método de interação e  aprofundamento.

A escolha por esta metodologia não foi casual. Desde o final do século XX prosperaram em torno da ideia de cartografia novos meios de produção de conhecimento. Essa nova maneira de encarar os desafios do exercício do saber têm sido um fértil plano de experimentações metodológicas no sentido de incorporar continuamente os processos de subjetivação.

Assim, o investigador, ou o “cartógrafo”, faz parte dos movimentos por ele próprio cartografados, e possui uma posição ética claramente estabelecida neste processo. Realiza o seu trabalho de cartografar relações enquanto e porque se relaciona com elas, o conhecimento se constrói nos encontros, sujeito e objeto da pesquisa, para esta perspectiva, são coemergentes.

A cartografia deve conformar estratégias de produção de saberes que extravasem a busca pelo conhecimento verdadeiro, em direção ao conhecimento que funcione para atualizar as intensidades minoritárias, aquelas que corajosamente produzem um mal-estar, justamente porque nos arrancam do que éramos antes delas (…) atinge o poder de romper com todas as generalizações, tantas vezes repetidas e, por isso, acreditadas.” (REGIS; FONSECA, 2012, p. 281)

A concepção cartográfica, que é base para Cartografias Afetivas, refere-se também ao conceito de rizoma em Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995). As múltiplas conexões e agenciamentos que o rizoma permite configuram-se nos percursos de cada cartografia com a potencialidade da Arte como dimensão poética e pedagógica. A cartografia, nessa perspectiva, está em constante transição:

[…] o mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 22).

Assim, a relação com o espaço se dá de forma afetiva, pois somos influenciados pelo espaço em que vivemos e ao qual nos relacionamos; cada espaço carrega várias subjetividades não compartilhadas. A Cartografia afetiva ocorre no tempo dos acontecimentos e de suas variações intensivas, provocando e propondo ao participante “situar-se entre fronteiras, explorar zonas de contágio não-determinadas, ouvir o balbucio do intervalo, escrever sobre encontros heterogêneos” (GARCIA, 2007, p.75).

A cartografia é neste sentido um desenho em movimento, pois a ideia que temos de mapas é uma ideia eurocêntrica, etnocêntrica.

Adotar a proposta de territorialização no movimento, as territorializações simbólicas, subjetivas, propostas por Haesbaert (2001), tem muito mais a ver com o indivíduo contemporâneo do que essa ideia de raiz ligada ao lugar, ao Estado-nação, que é uma criação, uma imposição.

Parcerias já estabelecidas:

CEI – Centro de Estudos Internacionais / ISCTE – Universidade de Lisboa

CRIA – Centro em rede de Investigação em Antropologia . Universidade Nova de Lisboa

Revista La Rampa

 

(*)Ana Stela de Almeida Cunha

anastelacunha@gmail.com

Doutora em Linguística e Pós-Doutorada em Antropologia Social, é investigadora no CEI (Centro de Estudos Internacionais) – ISCTE/ Universidade de Lisboa, e do CRIA (Centro em Rede em Antropologia) – FCSH, Universidade Nova de Lisboa.

Foi Investigadora convidada no Musée Royal de l´Afrique Centrale (Tervuren, Bélgica) e Professora na Universidad de La Habana (Cuba) entre os anos de 2006 e 2008. É professora adjunta na Universidade Federal do Maranhão (Brasil). Coordena projetos sobre educação adequada, música e identidade, intolerância religiosa e movimentos sociais. Tem larga produção premiada em audio-visual (documentários) Tem longa experiência etnográfica em Cuba, no Brasil, no Congo e em Angola.

Proponente e coordenadora de inúmeros projetos culturais e educacionais: “Falando em Quilombo” (Petrobras Cultural, 2005),”O Boi Contou (Petrobras Cultural, 2007), “A Estética do Terreiro” (BNB de Cultura 2011), “Caboclos Nkisis” (OI Futuro (2014), ganhadora do Prêmio “Pontos de Memória no Exterior 2013” (IPHAN- Instituto do Patrimõnio Artístico e Cultural do Brasil).

Coordenadora da área de Antropologia no projeto “Libolo” (Angola) (USP/UNB, Universidade de Macau).
 Presidente da Associação Kazumba, Lisboa, sócia fundadora do Instittuto da Mulher Negra de Portugal (INMune)

Bibliografia

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BARROS, Regina; PASSOS, Eduardo. A cartografia como método de pesquisa e intervenção. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (orgs). Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2010.

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M’BOKOLO, Elikia. África Negra: história e civilizações. Tomo II (Do século XIX aos nossos dias). Salvador: EDUFBA; São Paulo: Casa das Áfricas, 2011.
MUNANGA, Kabengele. A República Democrática do Congo. Casa das Áfricas.

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SERRANO, Carlos – Angola ascimento de uma nação – Um estudo sobre a construção da Identidade acional, (prefácio de Alfredo Margarido), Luanda, Ed. Kilombelombe, 2008.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de Aurélio Guerra, Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. v. 1.

GARCIA, Wladimir. A lógica do contágio. Rev. Educação – Deleuze pensa a Educação, São Paulo, v. 6, p. 74-83, 2007.

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ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Ed. da UFRGS, 2006.

Caderno fotográfico com investigação em andamento

[1] A nomenclatura “Bacongo”, ainda que possa soar pós-colonialista será aqui utilizada, pois as pessoas com as quais trabalho e convivo assim se autodesignaram. Como alguns disseram: “Para um mundele (estrangeiro/branco) ser chamado/identificado por sua etnia não faz muito sentido, pois os europeus (estrangeiros, em geral) reconhecem apenas a localização geográfica de origem e, em última instância, categorizam todos pelo continente (africanos)”. Esta fala significa que o olhar externo (europeu) categoriza segundo a nação e não pela etnia. Diferentemente de alguns autores (Thornton, 2003, 2013, 2015; Amselle, 2006) que apontam a possibilidade de utilizar simplesmente o termo “kongo” (uma vez que o sufixo –Ba é marca indicativa de coletividade, povo) preferi usar, como indiquei acima, o termo Bacongo (ou sua forma singular, mucongo), já que é/foi assim que as pessoas se apresentaram. Outra indicação importante diz respeito à grafia do nome. Preferi adotar a grafia “aportuguesada” e fazer a concordância de gênero e de número, ainda que, conforme referi, o prefixo Ba refira-se à noção de pluralidade nesta língua (quicongo), o que tornaria redundante a marca de plural em português, mas considero que seja sobretudo uma opção política.

 

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