Feleceu SEBASTIÃO MATUMONA

Segundo Mariano Almeida: “Morreu Sebastião Matumona do Ngoma Jazz. A cultura está de luto. África está de luto. Angola perde uma das figuras mais importantes e destacadas da guitarra com mais de oitenta anos. O exímio guitarrista, é dos poucos anciãos angolanos que até a data da sua morte, continuou a tocar nos animados cultos e kembos da Igreja Tokoísta. Adeus Grande Matumona”.

Matumona, defensor da música tradicional angolana

Já no ano passado, Matumona tinha afirmado ser necessário que o sector artístico valorize mais os estilos musicais tradicionais, como o semba, kilapanga e cabecinha.  A propósito do crescimento da música nacional, o guitarrista reprovou a atitude de alguns agentes do sector artístico por menosprezarem certos estilos folclóricos, em benefício de géneros como o kuduro.Para ele, os estilos tradicionais concorrem para a solidificação da identidade cultural do país e ajudam a resgatar os valores morais e cívicos da população, e neste sentido, ressaltou, o grupo Ngoma Jazz continua no activo e em condições de contribuir para o desenvolvimento da música angolana.

Eis extratos da sua biografia escritos por Jomo Fortunato.

Nos finais dos anos 1960, o cenário musical luandense foi abalado pela erupção, inesperada, dos agrupamentos Cabinda Ritmos, Super Coba, Super Landa Bangó, Super Renovação de Cabinda e o emblemático Ngoma Jazz, formações musicais que acusavam, do ponto vista estilístico, uma sonoridade e influências muito próximas dos ritmos do Congo Democrático.

A organização interna do conjunto Ngoma Jazz, a nível das vozes, execução instrumental e tratamento linguístico dos temas, demarcava-se do que era comum nos agrupamentos luandenses, mais prestigiados da vanguarda musical da época. “O espanto foi geral e rendemo-nos à evidência da qualidade da música do Ngoma Jazz, de facto só se falava deles…”, recordou, convicto, Gregório Mulato do agrupamento Águias Reais, actual percussionista e cantor do grupo “Kituxe e seus acompanhantes”.

Habituados à musicalidade dos Kiezos, Águias Reais, Jovens do Prenda e África Show, a recepção, do público, secundarizou os grupos consagrados de Luanda, que, até então, absorviam as vendas dos singles e, consequentemente, dominavam as paradas de sucesso e os índices de audiência.

Não se divorciando do que se fazia em Luanda, o Ngoma Jazz facilmente se integrou no cenário musical luandense, chegando a gravar com o Zé Viola, Lourdes Van-Dúnen, Urbano de Castro, Maria Andreaça, Pedrito e Nito Nunes.

A formação do Ngoma Jazz

Fundado em 1964, por Garcia Kipioca (voz e chocalho), Zé Manuel (voz principal) e Petengué (tumbas), o Ngoma Jazz passou da fase acústica, até ao período definitivo de electrificação instrumental, experimentando três momentos fundamentais, e várias designações, ao longo da sua efémera carreira: Ritmo Jazz (1964), Quinteto Angolano (1965) e, definitivamente, Ngoma Jazz (1966).

A fase do Ritmo Jazz, que marca o início da formação do grupo, caracterizou-se por tertúlias de bairro, e encontros ocasionais com as principais figuras que viriam a tornar-se os verdadeiros fundadores do Ngoma Jazz.

O segundo momento, o do Quinteto Angolano, marca a fase da tentativa de solidificação dos caminhos a seguir com ajuda do Dominique, o comerciante que previu, no grupo, alargadas hipóteses de sucesso comercial, posição contrariada principalmente por Matumona Sebastião, um músico que sempre defendeu a total e resoluta independência do grupo.

O terceiro e último momento, considerado o que viria a constituir a verdadeira e definitiva formação do Ngoma Jazz, integrava os músicos: Matumona Sebastião (vocal e guitarra solo), José Manuel (vocal), Caetano Lemos (caixa acústica), Augusto Pedro (guitarra ritmo), actualmente a viver nos Estados Unidos, Ferreira Domingos (viola baixo), Mangololo (percussão), e Garcia Kipioca (vocal e chocalho), os três últimos já falecidos.

O percurso

Matumona Sebastião nasceu no dia 28 de Maio de 1937 na aldeia de Cussupete, Damba, Província do Uíje, e chega a Luanda, em 1946, com apenas nove anos de idade. Cinco anos depois, fixa residência em Benguela, onde os pais se deslocaram por razões profissionais.

Matumona compra a sua primeira guitarra aos 17 anos, numa altura em que trabalhava no Grémio de Pesca em Benguela – seu primeiro emprego. O contacto com os cabo-verdianos hospedados no Grémio foi útil para o desenvolvimento e aprendizagem dos segredos da guitarra.

Adepto das suas convicções, Matumona Sebastião é fiel ao dogma e à liturgia da Igreja Tocoísta, e teve algumas retracções quando foi convidado a mergulhar no universo da música profana, primeiro no “Asa Negra”, com Joffre Neto (vocalista), Matumona Sebastião (viola solo) e Ressureição (percussão).

Matumona explica as principais razões do sucesso do Ngoma Jazz: “Havia disciplina e organização financeira. Éramos oriundos de vários grupos linguísticos de Angola, o Mangololo, por exemplo, era de Malanje, o Caetano Lemos, de Luanda, o Zé Manuel, do Sovo, o Garcia Kipioca e eu, do Uíge. A minha vivência no Sul de Angola facilitou o canto em umbundu. O que quero dizer é que o cruzamento linguístico atingia várias sensibilidades culturais, embora assentes, fundamentalmente, nos ritmos do Norte”.

A periodização da história da Música Popular Angolana passa, necessariamente, pelo período Ngoma Jazz (1971-74), que inclui as contribuições do Super Coba de Cabinda, com a célebre canção Celestina, e pelo Cabinda Ritmos – uma fase da história da Música Popular Angolana, caracterizada pela incorporação e contributo dos ritmos provenientes das províncias situadas mais ao Norte de Angola, no “corpus” da música angolana, uma experiência que vem dos recuados anos 1940, com o grupo São Salvador, do guitarrista Manuel Oliveira.

Discografia

O primeiro single do Ngoma Jazz, gravado em 1967, nos Estúdios da Gajageira, com supervisão do técnico Joffre Rocha, incluía os temas “Sá Madia” e “ Ua Diami”, da autoria de José Manuel. Revelando uma sólida produção criativa, o grupo lança logo a seguir mais quatro singles que incluíam os temas “Ngongo Jami” (de Mangololo e Caetano Lemos) e “Ngolo Banza Kamba Diami” (de Mangololo), “Madi Ndumba Mbote” (de José Manuel) e “Yá Mbanza Riqueta (de José Manuel), “Nzolua” (de Augusto Pedro), “Lola” (de Augusto Pedro), “Belita Kiri Kiri”, o grande sucesso do Ngoma Jazz, um tema de criação colectiva, “Kubata diá Mwangana” (de Mangololo e Caetano Lemos) e Merengue Madrugada (de Matumona Sebastião).

A homenagem

Na senda da distinção dos cantores e conjuntos, mais importantes, ligados à história da Música Popular Angolana, o agrupamento Ngoma Jazz mereceu uma prestigiante homenagem, no âmbito da vigésima segunda edição do programa “Caldo do Poeira”, da Rádio Nacional de Angola, no dia 29 de Janeiro de 2004, num acto realizado no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda.

Passados cerca de trinta e oito anos, desde a primeira formação do Ngoma Jazz, foi possível reunir, num mesmo palco, os músicos Caetano Lemos (caixa acústica), José Manuel (vocal) e Matumona Sebastião (vocal e guitarra solo), num concerto revivalista que recordou os principais sucessos do grupo.

A história do Ngoma Jazz caracteriza-se pela versatilidade contagiante das tumbas do Mangololo, aliada ao fraseado da guitarra de Matumona Sebastião – um músico que afirma ter sofrido influências, inequívocas, dos guitarristas Franco e Doutor Nicó, dois músicos que marcaram a história da música popular do Congo Democrático.

Fontes consultadas: mundamba e Angop

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