Festival de sonoridades em palco na homenagem a Teddy Nsingui

Por Jomo Fortunato

Sete dos mais prestigiados guitarristas angolanos, juntaram-se ao  instrumentista, Teddy Nsingui, num dos mais emblemáticos e singulares concertos de cordas, realizado, sexta-feira última, no âmbito do ciclo de homenagens da III Trienal de Luanda, projecto cultural da Fundação Sindika Dokolo.

No decorrer do concerto, Teddy Nsingui, visivelmente emocionado, agradeceu aos presentes e à Trienal de Luanda pela homenagem, nos termos que seguem: “O meu muito obrigado a todos que se dignaram marcar presença nesta homenagem que a III Trienal de Luanda realizou. Não tenho duvidas que o dia 26 de Maio ficará  registado para sempre na minha memória”.

No dealbar da proclamação da independência de Angola, muitos patriotas e descendentes de angolanos, emigrados no vizinho Congo Democrático, retornaram à pátria, dando corpo ao “Período de retorno”, de 1976 a 1980, importante momento da história da Música Popular Angolana, assim designado pelo facto de terem sido apelidados de “retornados”, aqui a designação está despojada de qualquer conotação pejorativa, os angolanos oriundos do então Zaire.

Destacaram-se neste período os cantores e compositores Matadidi Mário Bwana Kitoko, o duo, Pepé Pepito e Nonó Manuela, Tabonta e Diana Simão Nsimba, entre outras figuras de relevo que mergulharam na canção política, de aplauso à independência de Angola. Tabonta, por exemplo, é o autor de “Wele Neto”, Neto desapareceu, a mais bela composição, em língua nacional kikongo, uma homenagem de forte pendor lírico, ao Presidente Agostinho Neto. Nesta canção, um clássico deste período, o cantor lamenta, de forma profundamente poética, o vazio deixado pelo trágico desaparecimento, inesperado, do primeiro Presidente de Angola.

Em 1966, Teddy Nsingui conheceu o guitarrista, Dally Kimoko, um dos pioneiros da Música Popular Congolesa, que o ensinou os primeiros acordes de guitarra, contacto que diz ter sido “oportuno” mas de uma “experiência frustrante”. Teddy Nsingui, virtuoso guitarrista dos mais solicitados no escasso mercado de instrumentistas angolanos, vem de uma família sem nenhuma ligação com a música. A tia, irmã do pai, de nome Kamatatilu, destruía, de forma resoluta e intencional, as guitarras que o futuro músico levava, carinhosamente, para casa.

Embora se tenha revelado um guitarrista de fino tacto musical, foi no canto que Teddy Nsingui teve os primeiros contactos com a música. Fanático apreciador de Tabuley Rochereau, Teddy Nsingui começou a cantar no coral da sua escola primária, com apenas nove anos de idade.

Em 1969, ajudou a formar os “Les Bebés”, seu primeiro grupo, formação que chegou a gravar, em 1972,  dois singles pela editora “Rono”, do produtor belga Robert Noel. Perseguindo a intenção irreversível de ser músico, aliado ao objectivo de refinar a sua musicalidade, Teddy aprendeu harmonia com Eric, um músico que, segundo as suas palavras: “foi quem me introduziu nos segredos da música, e abriu o meu mundo restrito, a nível do entendimento da plástica e da sonoridade musical”.

Reconhecimento

No entanto, foi com o baixista Garcia Luzolo, vulgarmente conhecido por Mog, integrante da banda Sosoliso de Matadidi, que Teddy Nsingui passou a ser reconhecido como músico, numa altura em que foi convidado para um “Nzonzing”, gíria musical sinónimo de “biscato”, para uma gravação com o saxofonista e arranjador, Mbole Tambwe, ex-Sosoliso, e Michel Boybanda, vocal e ex-TPok jazz, intérprete do clássico “Café”. Neste “Nzonzing” Teddy Nsingui chegou a gravar com o cantor Franck Sole. “Eu era um imaturo entre os gigantes”, recordou Teddy Nsingui.

De 1972 a 1974, Teddy Nsingui integrou, com Mbole Tambwe, o grupo “Sakayonça”, dando forma e solidez a uma carreira que passou pelos “Kintueni”, grupo voltado à tradição musical da região do Mayombe. É assim que, em 1976, surgiu o baixista Mog, com um recado do Matadidi Mário Bwana Kitoko, para seleccionar músicos, visando a formação do conjunto  “Inter-Palanca” , em Angola.

Angola

Teddy Nsingui conheceu  Angola, a terra natal dos seus pais, onde chegou no dia 19 de Setembro de 1976. Em Luanda concretizou a criação, com Matadidi Mário Bwana Kitoko, do projecto “Inter-Palanca”, cuja estreia ocorreu no Estádio da Cidadela Desportiva, no dia 12 de  Novembro de 1976, durante as comemorações do primeiro aniversário da independência de Angola.

Em finais de 1979, por razões estritamente pessoais, Teddy Nsingui abandonou o conjunto, Inter-Palanca e não participou nas gravações das canções: “Um minuto de silêncio”, “Agostinho Neto”, de Matadidi,  e “Welle Neto”, de Tabonta. No entanto, Teddy retornou ao “Inter-Palanca”, em 1980, porque, segundo Matadidi, “era um músico que me dava segurança”.
Conjuntos

Depois do “Inter-Palanca”, Teddy Nsingui ajudou a fundar, em 1981, o “Instrumental Primeiro de Maio”, conjunto musical ligado à UNTA, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos, que se chamou posteriormente “Semba África”.Fizeram parte do Instrumental Primeiro de Maio: Massano Júnior, tambores e voz, Franco, flauta, Botto Trindade, guitarra solo, Dinho, bateria, Betinho Feijó, guitarra ritmo, e Carlos Venâncio, guitarra ritmo, formação que se desfez, na sequência do redimensionamento salarial da UNTA, sindicato a que estava vinculado o Instrumental Primeiro de Maio. Embora tenha tido participações em vários projectos musicais, Teddy Nsingui é o actual guitarrista solo da Banda Movimento, formação musical ligada à Rádio Nacional de Angola, fundada no dia 2 de Março de 1999, sob influência do Movimento Nacional Espontâneo. A Banda Movimento lançou  dois CD,   “Espontaneidades”, em 2001, e  “Kufungisa”, em Dezembro de 2003.

Filho de Simão Nsingui e de Teresa Nzima, Teddy Simão Nsingui, conhecido nos meios musicais por “Teddy”, nasceu no dia 26 de Abril de 1954, na vila de Sonabata, Baixo Congo, República Democrática do Congo, consequência da emigração dos seus pais que abandonam Angola, por força do conflito armado em Angola. Para além dos guitarristas consagrados da Música Popular Congolesa, e da sonoridade dos mais conhecidos guitarristas angolanos, Teddy diz ter sido influenciado por B.B. King, Carlos Santana, e George Benson.

Concerto

No concerto de homenagem, Teddy Nsingui  foi acompanhado por Botto Trindade, viola solo, Mias Galheta, viola baixo, João Mário, viola ritmo, Brando Cunha, viola solo, Zé Mueleputo, viola solo, Timex, viola ritmo, Pirica Duia, violão, Jorge Mulumba, hungo, e Gato Bedseyele, percussão. Depois de uma introdução com o tema “Nguitabulé”, recolha do grupo “Kituxi” acompanhado pelo hungo de Jorge Mulumba, os guitarristas interpretaram, em versão instrumental, os temas, “Lamento do Duia”, “Nica”, “Kuakuaye Kalumba”, “Mariana”, “Barumbú”, “Rumba ngola”, “Enquanto espero”, “Passeio em Fá”, “Semba henda” e “Filhas de África”.

Niterói

Para além da homenagem da III Trienal de Luanda, Teddy Nsingui foi homenageado pela Prefeitura de Niterói, uma iniciativa do Vereador Bira Marques, pelo seu contributo ao desenvolvimento da Música Popular Angolana. O instrumentista foi convidado a participar nos “Encontros com África”,que decorreram de 13 a 16 de Abril de 2016 no Teatro Municipal de Niterói, Brasil, convidado pela III Trienal de Luanda. Na ocasião, o consagrado baixista, Artur Maia, Secretário da Cultura de Niterói, realçou as qualidades musicais de Teddy Nsingui, tendo afirmado que “a homenagem é um reconhecimento da cidade de Niterói, e da Câmara Municipal de Vereadores”. Por sua vez, o instrumentista, recebeu um diploma e agradeceu o gesto com as seguintes palavras: “Tive que atravessar o oceano para ser homenageado. Agradeço, antes de mais, e fundamentalmente, a Fundação Sindika Dokolo, e obviamente, a Prefeitura de Niterói, muito obrigado”.

“Perfeita combinação entre a rapidez e colocação melódica”

O guitarrista Belmiro Carlos, amigo de Teddy Nsingui, fez o seguinte depoimento laudatório, sobre as qualidades artísticas e estética do guitarrista: “Conheci e vi, em exibição, pela primeira vez o Teddy Nsingui, na Cidadela Desportiva de Luanda, em 1976, ocasião da actuação do Matadidi Mário Bwana Kitoko, no seu concerto de estreia em Luanda, na primeira parte do espectáculo do legendário Agrupamento Kissanguela, do qual fiz parte.

Nessa altura, celebração do primeiro aniversário da independência de Angola,fiquei particularmente maravilhado com o desempenho da guitarra solo do Tedy Nsingui. Foi espantoso! Nunca na minha vida tinha visto, ao vivo, um jovem guitarrista africano tão virtuoso.

Entretanto, já tinha tido contacto com muitos guitarristas africanos na Guiné Bissau, Conackry, Cabo Verde, e Gana, num festival africano em São Tomé e Príncipe. Repito, fiquei sinceramente espantado com a perfeita combinação entre a rapidez e colocação melódica e harmónica das notas e os tons da guitarra do Teddy. No entanto, a minha admiração por esse talentoso guitarrista acentuou-se muito mais quando constatei a facilidade e a rapidez com que se enquadrou na música angolana, particularmente a produzida em Luanda.

É muito difícil um músico compreender, e executar com um nível de perfeição tão alto, as subdivisões métricas de uma música que não lhe era familiar.

A verdade é que Teddy Nsingui venceu, com espantosa facilidade, essa barreira. Quem anda neste universo de execução musical, sabe porque enfatizo isso. O homem é fenomenal, não tenho dúvidas!”

Via JA

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