Maquela do Zombo: uma vila fronteiriça adormecida

Por Salomão Ndombasi “Nobre Zombo”

Makela, 22/12/20 (Wizi-Kongo) – Reza a história, o projecto que deu corpo à construção da Cidade de Nova Lisboa actual Huambo, foi pura e simplesmente transportado da maqueta inicial concebido para Maquela do Zombo pelo General Norton de Matos. Houve contudo, uma decisão idêntica tomada pelo mesmo Governante.

Essa outra decisão consistiu na criação de uma cidade, situada no extremo norte de Angola, a dois passos da fronteira com então Congo belga. A existência da secular vila fronteiriça de Maquela do Zombo, remonta desde o ano de 1887 fazendo parte integrante do distrito do Congo português com a sede inicial do governo, em Cabinda. Foi antes, uma povoação muito movimentada e de importância vital para o Reino do Congo, um entreposto comercial e abastecedor que ligava as principais rotas do interior ao litoral, do norte ao sul e vice-versa.

O General Norton de Matos, enquanto Governador-geral de Angola e posterior Alto-Comissário quis, aproveitando-se da importância histórica, comercial e a localização geoestratégica da vila, fazer dela uma Cidade cosmopolita, moderna e antes de tudo, a Capital do Congo português de tal modo que, ela fosse capaz de rivalizar com as capitais do Congo belga (RDC) e do Congo francês nomeadamente, Leopoldville (actual Kinshasa) e Brazzaville que se situam paralelamente nas duas margens do grande Rio Congo, enquanto, a projetada cidade do Zombo esta por sua vez, se situaria no extremo Sudeste do grande Rio e do seu afluente, Nzadi Inkisi também chamado, Maleó ou Nzadi Kivulo que nasce na serra do Mucaba para demonstrar as duas capitais rivais, a grandeza da colonização portuguesa em Angola.

Assim e no intuito de materializar a sua grandiosa visão como primeiropasso decisivo; pelo decreto nº 3365 de 15 de Setembro de 1917 imediatamente, procedia-se a transferência da sede do governo do Distrito do Congo, de Cabinda para Maquela do Zombo.

Para isso e sob sua direcção, em Maquela do Zombo começaram a ser rasgadas ruas e avenidas e foi construído bem ao fundo de uma cumprida reta de estrada vinda de Leopoldville, um luxuoso e enorme palácio de cuja presença, remonta do passado até aos nossos dias para servir da sede do governo do distrito do Congo português, hoje servindo-se dos aposentos dos actuais Administradores municipais sem aquela pomposidade da outrora.

Enquanto do outro lado, Brazzaville e Kinshasa, continuavam a crescer de forma espetacular e sem igual. Kinshasa por exemplo, hoje habitada por mais de dez milhões de pessoas, é um dos centros populacionais por excelência do continente Africano enquanto por nossa desgraça, o projecto de Norton de Matos, foi pura e simplesmente abandonado, as obras paralisaram e Maquela do Zombo coitada, caiu irremediavelmente no esquecimento assim que, o General deixou o cargo do Governador-geral da colónia e a Capital do Distrito do Congo essa, transferida da Vila do Zombo para Carmona (Uíge) deixando por trás, um mar de desolação pois, das ruas e avenidas poeirentas que nunca conheceram pavimentação até aos dias que correm, nada mais se nos apresentam como sinais vitais pois, das grandes ruas e avenidas projetadas, hoje nasceram de forma anárquica e desordeira, bairros pobres e insalubres sem perspetivas deurbanização e possibilidade de mobilidade por falta de ruas senão, becos.

As cacimbas abertas nas partes baixas, servem de fontes abastecedoras de água para consumo humano e o rio Luidi que circunda e dá boas vindas aos visitantes, é onde se assiste a grande promiscuidade: lavagens de carros, motorizadas, roupas e louças, mergulhos, banhos de pessoas e busca de água para fins domésticos.

O que seria Maquela do Zombo se o sonho do General Norton de Matos tivesse sido materializado – Certamente, seria a Nova Lisboa de Angola anterior às actuais Cidades do Huambo e Carmona, a rivalizar-se com Kinshasa e Brazzaville noutro extremo da fronteira como era o seu sono.

Será que continuaremos chorando pelo leite derramado – Talvez não pois, o quinquénio 2010-2015 trouxe uma luz ao fundo do túnel com intenções e programas eleitoralistas que visavam, a inauguração da sub- estação local e da linha que transporta a energia de Capanda; do início da construção do sistema de captação das águas do Luidi (projeto abandonado à meio); da anunciada retoma da exploração das minas de cobre do Mavoio (também já não se fala); da construção da plataforma logística internacional na fronteira do Quimbala (idem); da extensão da
estrada pavimentada até à entrada da Vila e do seu alargamento fora dela até à fronteira com a RDC, deixando a sua sorte e por asfaltar as ruas e avenidas abertas pelo General que, uma vez a asfaltagem executada, mudaria o aspeto arquitetónico da urbe.

Esses e outros pressupostos sobretudo, da lição bem entendida contida no velho ditado Kikongo segundo o qual “nkindu a zandu, konso muntu ye fula diandi” que na língua do Camões, tem o seguinte sentido literal: “as contendas que ocorrem em asta pública, ocasionam a fuga precipitadadas pessoas cada uma em direcção a sua proveniência”, foram aproveitados como força, oportunidades e desafios para o interesse que muitos Naturais e amigos do Zombo, manifestaram em investir na localidade, impulsionados também pela visão da Igreja Tocoìsta em transformar a localidade de Ntaya em polo de atração turístico-religiosa.

Neste período, muitos Investidores se sucederam na compra dos melhores espaços de terra na sede do município, na comuna do Quibocolo e na fronteira de Quimbala para implementarem projetos em vários sectores da vida onde, um lote de vinte metros ao quadrado, chegou a ser negociado acima de vinte mil dólares americanos.

Foi a primeira vez que Maquela vestiu o seu melhor fato: Hotéis até três estrelas, lojas de todo tamanho e feitio, Farmácias, Colégios até Universidade foram erguidos, tendo sido de facto um verdadeiro canteiro de obras de âmbito privado pois, as do estado mesmo as ações do PIIM nessas bandas, ainda existem em gavetas.

Infelizmente, as expectativas dos Dignos Investidores, goraram a julgar pela inação e incumprimento dos programas e metas nunca alcançados pelos poderes instalados do topo à base, não havendo retorno dos milhões investidos, não pode haver por essa via, a diminuição dos índices do desemprego e da pobreza crónica no seio da população local e por fim, da harmonização das assimetrias existentes entre o litoral e o interior de Angola.

Outrossim, nesse andar da carruagem, a vila fronteiriça de Maquela do Zombo, tardará levantar o voo que impulsionará o seu desenvolvimento integral sonhado um dia pelo General Norton de Matos.

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