O ELNA e a Batalha de KIFANGONDO

Por General TONTA AFONSO CASTRO

 

 

 

 

 

Na minha modesta visão, como autor deste tema, a descrição da batalha enquadro-a nas vertentes política, âmbito e objectivo, estratégia, composição das forças, ambiente e batalha própriamente dita.

 • ASPECTO POLITICO 

A FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) é um dos primeiros partidos políticos, na altura movimento de libertação nacional, a surgir no contexto da luta contra o colonialismo português. Teve uma implantação regional, com maior incidência no Norte e Leste do pais, onde se notava a existência de estruturas sociopolíticas para o apoio a luta.

Os Acordos de Alvor, rubricados conjuntamente entre os tres movimentos no momento existentes e a potência colonizadora, criaram um novo cenário que propiciou uma pseudo-convivência. No entanto, assistiu-se a uma desenfreada ocupação de espaços e tomada de posições em todo o território nacional, principalmente nas zonas de influência de cada movimento e também em Luanda, como capital da então Provincia, ponto de convergência dos orgãos de direção dos movimentos e o ponto de atração de todo o movimento político. De acordo com o seu plano, a FNLA começou com o movimento de regresso da entao Republica do Zaire, onde tinlia instalado o seu Centro Politico-Administrativo e Militar, para o interior de Angola em 1974, com uma delegação chefiada pelo Senhor Hendrick Vaal Neto. Depois de um tempo, ele foi substituido por Ngola Kabangu, cunhado do Senhor Holden. Este fez-se acompanhar de Johnny Pinock, Milton Landao, Paulo Tuba, Miranda, Dr. Abrigada e de vários militantes que se encontravam no interior.

A partir do mesmo ano, faz-se sentir a presença do ELNA com forças avaliadas em quatro batalhões, reforçados com unidades de comandos treinadas na Base zairense de Kota-Koli (1500 homens). A basificação dessas forças começou em MBanza-Kongo com 150 homens e alguns instrutores para treinar recrutas na base de Nkiende perto de Santo António do Zaire, actual Soyo, uma companhia reforçada. O restante seguiu para Luanda (800 a 1000 homens). No entanto, 150 homens ficaram em Carmona (Uige). As restantes cidades receberam recrutas e uma parte da tropa que desertou do Exercito colonial e que ajudou a FNLA a ocupar uma parte do Norte e Leste. A frente da componente militar ficou o Senhor Comandante Pedro Barreiro.

A FNLA participou em todas as estruturas criadas para a estabilização da situação (Governo de Transição, Forças Mistas e Governadores de Distrito) e deslocou para Luanda o grosso do seu aparelho político, abrindo uma sede na Avenida Brasil, que se denominou Casa do Povo. Abriu delegações nos bairros da capital e nos diversos Distritos. Não obstante os esforços empreendidos, a situação, de uma forma geral, apresentava-se sempre insustentável devido a confrontos armados que eclodiam em quase todo o território, motivados por divergências políticas e ideológicas entre os movimentos, bem como por falta de entendimento entre os respectivos líderes políticos.

E assim que depois de vários combates em todas as posições da FNLA em Luanda, que resultaram numa verdadeira carnifícina em virtude de uma maior organização e supremacia das tropas do MPLA, as forças da FNLA foram escorraçadas e expulsas de Luanda em 1975, tendo a FLNA regressado as suas zonas de influência. Mas os orgâos da direcão política permaneceram em Kinshasa, onde se encontrava o seu Presidente Holden Roberto.

II • AMBITO E OBJECTIVO 

A batalha de Kifangondo enquadrou-se nos esforços empreendidos pela FNLA que, depois de expulsa da capital, decidiu organizar forças e marchar para a ela voltar. A chegada estava prevista para antes do 11 de Novembro, dia em que o MPLA previa proclamar a independência. O objectivo era impedir a realização isolada do acto e também intimidar a população luandense para desencoraja-la a participar no evento. Isso passaria por acções de flagelamento a cidade com artilharia pesada a partir do Morro da Gal, seguido de um assalto a capital com apoio de mercenários e tropas zairenses.

III • A ESTRATEGIA 

A derrota do ELNA ou da FNLA foi o resultado da falta de estratégia concreta por parte da direcão política. Não houve coesão, nem de ideias nem de acções. Os exêrcitos (ou, digamos, as diferentes forças) ELNA, zairenses, mercen’arios e os sul-africanos entendiam que cada um devia actuar a sua maneira, o que desvirtuava o principio de comando único. Desbaratadas as suas tropas em Luanda, a FNLA viu o seu exercito enfraquecido em homens e materiais, sendo obrigada a recorrer ao auxílio de outros exêrcitos e a sustentar mercenários. Dos exêrcitos, destacam-se as tropas zairenses dispensadas pelo Presidente Mobutu Sese Seko, compostas por 3 (tres) batalhões de infantaria, 1 (um) pelotão de morteiros de 120mn, 1 (um) pelotão de carros blindados Panhard, 2 (duas) peças de D30 120mm e uma companhia de comandos, enquanto no tocante aos mercenarios registou-se a adesão de Portugueses comandados pelo coronel Santos e Castro. Estratègicamente o ELNA tinha organizado o seu dispositivo de força em pequenas unidades, nas cidades e vilas a partir da fronteira com o Zaire (actual R.D.C) nas áreas de MBanza Kongo, Soyo, Nzeto e Ambriz, nas localidades dos Libongos e na Barra do Dande e na cidade de Caxito, por um lado. Por outro, na faixa Uíge, Negage, Vista Alegre, Camabatela, Quitexe e Caxito. Durante a ocupação dessas localidades, as nossas forças não encontraram resistência pelo facto de se assistir a fliga para as matas de todas as populações, bem como de militares residuais afectos ao MPLA e não so.

IV • A MARCHA PARA LUANDA 

A marcha para o assalto a Luanda partiu do Morro de Cal, as 5h00 da manha do dia 9 de Novembro de 1975, marcando o dia 10 de Novembro de 1975 como dia “D”, data para entrada em acção ofensiva (ataque).

As informações sobre o inimigo, as FAPLA, eram dispersas e controversas. Não se conhecia nada sobre o seu dispositivo, a sua linha dianteira, o armamento e demais equipamentos (tropas blindadas, artilharia, etc.).

O mais grave ainda e que ninguém detinha a minima informação sobre o terreno e não havia nenhum mapa. Algumas informações tinham sido fornecidas por um tal de Senhor Xavier, ex-agente da PIDE, que dizia ser fácil entrar em Luanda e que o terreno nâo apresentava contornos nem obstáculos intransponíveis.

Presume-se ter havido inclusive um trabalho de acção psicológica muito forte, pois veiculava-se por todos os cantos, mesmo até no seio dos mercenários, em jeito de desinformação, que o povo de Luanda estava agastado com o MPLA, que esperava ansioso pela chegada da FNLA e que Luanda estaria em fogo opondo aderentes da FNLA aos do MPLA.

Para sustentar a desinformação, as FAPLA foram simulando rebentamentos de engenhos. E alguns portugueses, conhecedores de Luanda e da sua populção, apregoavam aos quatro ventos que a entrada em Luanda era uma questao de horas. Esta desinformação prevaleceu até ao dia 09 de Novembro de 1975.

Reconhece-se nâo ter existido nenhuma unidade especializada de reconhecimento de parte do ELNA, o que permitiu uma penetraçao sem precedentes do inimigo nas fileiras das forças da FNLA (desde a preparação da operação até a própria batalha)

V • A COMPOSçãO DAS FORçAS 

A expulsão da FNLA de Luanda, sem contar com as perdas sofridas, provocou o abandono (fuga) do ELNA por parte de muitos militares. O ELNA ainda não se tinha reabilitado.

Tendo em conta este facto, as informações postas a circular de que as FAPLA se encontravam enfraquecidas e desorganizadas pela acçâo dos adeptos da FNLA em Luanda e a ausência de informação sobre a presença de tropas cubanas, a FNLA preparou para a operaçâo as seguintes forcas:

– 4 (quatro) Batalhoes de Infantária, com uma companhia de apoio de tropas do ELNA, 1 (um) Batalhão de infantária de reserva, uma companhia de comandos, 2 (dois) pelotões de morteiro 120mm e 2 (duas) peças de D-30 zairenses sob comando do coronel Molimbi, uma companhia de mercenários Portugueses comandada pelo coronel Santos e Castro e 1 (um) pelotão de canhões de 90mm da artilharia sul-africana. Para comandar as tropas, nessa operação, foi indicado o senhor Afonso Castro, mais conhecido por “Tonta”, tendo como adjunto o senhor engenheiro Matos Muanga, actualnente a residir nos EUA. A preparafção das forças, que consistiu na definição do dispositivo, escalonamento das forças, atribuição da missão e comprovaçâo do armamento, realizou-se na vila de Caxito (Fazenda Tentativa). As duas peças D-30 de fábrico norte-coreano e operadas por especialistas zairenses chegam a Fazenda Tentativa no dia 7 de Novembro de 1975. No entanto, durante a preparação de tiro constatou-se que os zairenses nâo tinham o dominio do D-30, facto que indicava perigo, na visâo dos presentes, todos curiosos em conhecer melhor a arma.

VI • A BATALHA

Num ambiente de ansiedade e de receios, na noite do dia 09 para o dia 10 de Novembro, as tropas do primeiro escalão começaram o movimento para o Morro da Cal. Começou a implantação da artilharia no terreno, precisamente no local onde está hoje uma lixeira e umas bombas de gasolina, com uma vista panoramica boa da cidade de Luanda. A 01h00 do dia 10 de Novembro foi reportada a prontidâo.

Vivia-se uma insuficiência nas comunicações e a tropa foi obrigada a acompanhar os movimentos e as acções a olho. As 05H00 de manhã do dia 10 de Novembro registou-se a concentração junto de uma peça D-30 que tinha como missão flistigar a cidade de Luanda. Tendo como chefe de peça um tenente zairense, começou a contagem regressiva para o tiro e quando chegou a última cifra – “zero” – para ordem de disparo, os presentes foram surpreendidos por uma forte explosâo que levantou uma nuvem enorme de poeira e fumo, tendo como resultado v’arios mortos dentre eles, o próprio chefe da peça e vários feridos. Assim foi destruida a principal e mais sofisticada arma com que a operação contava.

A artilharia sul-africana, com 4 canhões de 90 mm, abriu fogo as 05H30. Acçao que durou pouco tempo em virtude da sua posição ter sido atingida por uma chuva de obuses, após uma avioneta que voava no sentido Luanda/Caxito ter passado por cima da sua posição, causando ferimentos graves aos artilheiros e destruindo os canhoes. Por isso, o campo de batalha foi abandonado pelos sul-africanos.

Com a explosão do D-30 e a destruição dos 4 (quatro) canhões de 90mm sul-africanos para o apoio a operação, as tropas contavam apenas com 2 (dois) pelotões de morteiro 120mm. No entanto, durante o curto período de preparação artilheira, conseguimos introduzir tropa apeada para a ocupações de posições vantajosas. Assim, uma companhia de comandos zairenses conseguiu efectuar uma penetração profrunda ao longo do rio Panguila, onde ficou bloqueada na lama perto das 07h00 horas do dia 10 de Novembro.

Então, tiros de morteiro de 120mm e salvas de artilharia BM21 partiram como chuva do morro de Kifangondo e bateram em diferentes ângulos contra as posiçoes da FNLA: no bordo dianteiro para parar o avanço da infantaria, nas posições intermediárias do primeiro escalão para aniquilar as tropas e na retaguarda para destruir as peças de morteiro de 120mm e as tropas de apoio. A intensidade de fogo dos BM-21 criou um pánico geral no seio de todas as forças: mercenários, angolanos e zairenses, tendo até os blindados zairenses atropelado a sua tropa, na precipitaçâo e urgência em abandonar o terreno. Embora os angolanos tivessem tido um pouco mais de serenidade, verdade seja dita, ninguêm conseguia resistir a cadência de flagelamento dos BM-21. Por isto, a maioria foi contagiada pelo pânico e assim ela foi levada a abandonar desordenadamente o campo de batalha.

Registou-se um episodio em que 4 (quatro) Portugueses, com anuência do Presidente Holden Roberto, levando uma bandeira da FNLA, meteram-se num blindado AML-60 e seguiram em direcção a Luanda. Os 4 (quatro) morreram carbonizados depois de 1 (um) míssil anti-tanque ter atingido o blindado em que seguiam, logo depois da ponte do Panguila.

A intensidade do fogo dos BM-21 forçou recuo das tropas, os morteiros de 120mm foram abandonados no terreno e mais tarde, claro, as FAPLA e cubanos apoderaram-se dos mesmos.

Quando eram aproximadamente 14h00 diminuiu a intensidade do fogo da artilharia, continuou a retirada das tropas em direcão ao Ambriz a pé, com excepção dos comandos zairenses bloqueados no pantano do Panguila, do qual só conseguiram livrar-se por volta das 18h00 horas. Então, so se ouviam apenas tiros espor’adicos.

A FNLA sofreu nesta batalha o pior reves de toda a sua existência e as perdas em vidas seriam ainda maiores se as FAPLA e cubanos tivessem projectado e organizado uma perseguição depois da batalha.

Kifangondo foi uma batalha desgastante que arruinou a FNLA e propiciou o avanço das FAPLA e cubanos a fronteira com o entao Zaire, sem encontrar resistência. Enquanto a FNLA saiu desta batalha debilitada, o MPLA demonstrou o seu poderio, a sua organizagao e o discernimento de escolha de um parceiro a altura. Era o fim da FNLA, que militarmente nunca mais conseguiu recompor-se.

CONCLUSOES 

Com base nas ocorrências do teatro de operações, podemos destacar que vários factores contribuiram para a derrota da FNLA, nomeadamente: a falta de uma estratégia política e militar, tendente a manter estabilidade e equilíbrio, em todos os campos, com o MPLA; a má postura dos dirigentes da FNLA; a ousadia eexcessiva confiança concedidas aos estrangeiros. O comportamento dos mercenarios de Calan é elucidativo, desafiando até as chefias militares do ELNA devido as prorrogativas conferidas. Chegaram ao ponto de se intitularem chefes supremos, tentando subordinar as chefias angolanas.

Na batalha de Kifangondo tiveram grande influência:

1° – A disparidade da correlação de forças, a favor do MPLA;

2° — O desenvolvimento no terreno, que foi mal estudado;

3° – A debil preparação das tropas para essa operação e a forte influência dos estrangeiros na tomada de decisoes.

4° — O facto de o mercenario não ser óptima escolha para uma parceria.

Para a vitoria do MPLA, entretanto, contribuiram os seguintes factores:

— A escolha dos cubanos e soviéticos;

– A intransigencia e determinação de vencer dos dirigentes do MPLA e a sua forte capacidade mobilizadora e a solidariedade Povo/MPLA que se constatou estar presente mesmo na batalha de Kifangondo, contràriamente ao que ocorria no seio da FNLA.

Quanto a batalha em si, para além da desvantagem da FNLA devido a correlação de forças, da parte das FAPLA constatou-se boa organização, disposição correcta das forças no terreno, eficiente trabalho de reconhecimento e subordinação das forças a um só  comando. Assim, no momento oportuno, o BM 21 jogou a cartada decisiva para a retirada final das tropas do ELNA.

Para terminar, agradeço a oportunidade concedida e a gentileza por me terem escolhido para narrar alguns factos acerca de um dos maiores acontecimentos da nossa historia, antes da ascensâo de Angola a independência, confirmando que uma batalha determina as batalhas subsequentes.

Quero aqui realçar, por fim, que por razões de ter perdido os mens diarios aquando da ocupação do Uige pela UNITA, em 1992, me vi diminuido em informações. Por isso, apresentei este trabalho em escala reduzida.

Fonte: Lucas Tonta

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