Por José Bule
Entre as colinas verdejantes do município de Quitexe (ou, “Danger Quitexe”), na província do Uíge, repousa um dos lugares mais enigmáticos e lendários de Angola: a “Lagoa do Feitiço”. Cercada de silêncio e de histórias antigas, é considerada um dos pontos místicos mais respeitados do norte do país — e uma referência obrigatória em qualquer viagem ao Uíge.
Segundo a tradição oral, há muitos séculos existia ali o bairro Ngungo Indua, com aproximadamente 1.500 habitantes, que foram submersos após uma chuva fina e incessante. O mito conta que um homem enfermo coberto de chagas apareceu na aldeia, pedindo abrigo e água. Ignorado pelos habitantes, foi ouvido apenas por duas crianças, a quem avisou para fugirem, pois uma “nuvem negra” engoliria o lugar. Pouco depois, tudo desapareceu sob as águas — e nasceu a misteriosa lagoa.
Os pais das crianças chegaram e ouviram a mensagem. Embora com relutância, transportaram toda a mobília, porcos, galinhas e cabras para a região montanhosa do Kituto. O viajante recomendou para que não dissessem nada a ninguém, e assim fizeram. “Quando chegaram à montanha viram formar-se uma grande nuvem e a chuva começou. Era uma chuva miúda que caiu apenas em cima da aldeia. Casas, pessoas e animais desapareceram para sempre na lagoa que se formou. As pessoas que viviam na aldeia, mas que no momento em que a chuva caía estavam distantes, regressaram a correr como se tivessem sido chamados de emergência e também morreram afogados”; o “Kipita kya Nzambi”, era pai das crianças, ele nem queria acreditar no que estava a ver.
Desde então, a Lagoa do Feitiço é envolta por um temor reverente. Os mais velhos garantem que tocar nas suas águas é desafiar a morte. Verdade ou superstição, o certo é que ninguém ousa fazê-lo. Todos preferem manter-se afastados, por precaução — porque, como dizem os habitantes, “nunca se sabe”.
Em noites de lua pálida (ou, dentre outros exemplos, pode ser quando ao anoitecer da lua crescente/cheia, logo após nascer ou um pouco antes de se pôr, aparece no céu grande e avermelhada, e quando está mais alta, ela fica menor, assim então, ela esta esbranquiçada), moradores relatam ouvir vozes e choros vindos do fundo da água, como se os espíritos do antigo bairro ainda procurassem abrigo. Há histórias de pescadores e curiosos que desapareceram sem deixar rastros, e de um taxista que tentou lavar o carro nas margens sem pedir permissão espiritual — o veículo, contam, entrou sozinho na lagoa.
A crença é tão forte que as autoridades tradicionais locais realizam rituais de apaziguamento com vinho, maruvo e champanhe, em sinal de respeito pelos espíritos das águas. Para o povo, esses ritos garantem o equilíbrio entre o mundo visível e o invisível.
A mitologia da água tem profundas raízes na cultura bakongo e noutras tradições do interior angolano. No leste do país, entre os Tchokwe da região Lunda, por exemplo, é proibido que crianças e adolescentes se aproximem do rio (lwiji) ou da lagoa (citende) muito cedo ou muito tarde. Diz-se que nessas horas surge Samutambyeka, uma figura mitológica monstruosa, mais alta que os eucaliptos (de 30 metros), que bebe a água e sopra nevoeiros pelas narinas e pela boca. O arco-íris, conhecido como Cezangombe/Tchezangombe (“Espírito perdido”), é também um sinal da presença dessas entidades junto às águas.
Essas forças invisíveis, chamadas “yikixikixi” — ou “espíritos das águas” —, são vistas como guardiãs dos rios, lagoas e nascentes. No caso da Lagoa do Feitiço, acredita-se que elas habitam as profundezas, protegendo o mistério que ali se esconde desde tempos imemoriais.
Hoje, a lagoa é patrimônio cultural e natural do estado/província de Uíge (ou, “província Wizi”), atraindo turistas, curiosos e estudiosos da tradição oral angolana. Mais do que um destino, é um símbolo da ligação entre a natureza e o sagrado, entre o medo e o fascínio.
- Localização: Dambi N’gola – Aldeia Viçosa, Quitexe, Uíge, Angola
- Atrativos: Turismo místico, cultural e natural
- Melhor época para visitar: Estação seca (de maio a setembro).
Os mais velhos dizem que a aldeia ficou submersa pela “chuva miúda” e muito branda, há muitos séculos, antes mesmo da chegada dos portugueses ao Reino do Congo. Foi em 1648 – que o primeiro homem branco chega às terras do Dembo Quitexe. A banda do Quitexe constituiria uma região de cruzamento de migrações e é maioritariamente habitada por povos Bahungos, Dembos e N’Golas (N’Golas ou, referente ao título em idioma ambundu/kimbundu, dos reis do Reino do Ndongo); Ninguém vê vestígios de casas mas elas estão lá e guardam fantasmas que aparecem nas manhãs de cacimbo e nas noites em que chora a hiena.
O agricultor José Dinis, um fazendeiro português, levou a família e os seus capatazes à lagoa. Ali ficaram fazendo um piquenique. Comeram e beberam alegremente até ao momento em que apareceu um velho que vivia numa aldeia vizinha da lagoa. O ancião alertou o fazendeiro para o perigo que corriam…
“O fazendeiro não acreditou. Pegou numa moeda e atirou-a para a lagoa dizendo em voz alta que queria ver um milagre. Não passaram muitos minutos e apareceu, de repente, uma menina morta. Estava dentro de um caixão que flutuava sobre a água. O fazendeiro ficou assustado e fugiu para casa”, quem conta essa história, é Isaac João Capita, o “sekulo” (ou, “o mais velho”) da aldeia Dambi a Ngola. Mas à noite a desgraça bateu-lhe à porta. A filha morreu sem mais nem menos. Foi a partir daí que o fazendeiro atribuiu o nome daquele lugar, de “Lagoa do Feitiço”, à aldeia submersa. “Antigamente nós chamávamos esta lagoa de “Ujia ya Mbuila”. Já engoliu muita gente”, disse o sekulo. Um dia os mais velhos da aldeia, que está na montanha Kituto, reuniram-se para resolver o assunto e foram ao local: “os velhos levaram muita comida e bebida para pedir perdão às sereias por todo o mal que os nossos antepassados fizeram, para que nada mais aconteça”, contou Isaac João Capita.
O sekulo da aldeia Dambi a Ngola, despeja vinho, maruvo e gasosa na lagoa para alegrar o casal de sereias que lá habita. E faz uma prece: “eu vim informar que trouxemos aqui os nossos visitantes. Eles querem conhecer e descobrir a tua história, por isso trouxemos o maruvo, o vinho e a gasosa, para vos alegrar e para que permitam a estes viajantes realizar o seu trabalho sem problema”.
A floresta húmida de nevoeiros, semidecídua e mesoplanáltica (ou, da zona de transição do planalto central para os mais distintos tipos de vegetação influenciadas pela altitude. Ocupa uma vasta área de transição entre as formações de miombo, no centro do continente africano e dos tipos de vegetação mais xerófitas de Colophospermum mopane, ou Baikiaea plurijuga, nas regiões de Quipungo, Capelongo e Cassinga, ambos, na província de Huíla), traduz-se num habitat que ocorre no país ao sul do rio Zaire, em altitudes geralmente inferiores aos 1000 metros, nomeadamente em uma grande mancha que se estende desde as serras de Canda a Mucaba, a ocidente da província do Uíge, até N’dalantando, atingindo nas zonas de Quiculungo-Quibaxe e Danger Quitexe, em larguras de aproximadamente 100 km, mas que se expandem consideravelmente para oeste, pela incorporação de vastas extensões de um mosaico de savana com este tipo de floresta, que, na província do Uíge, ultrapassam o Bembe e no leste da Província do Bengo, atingindo, entre outras, as regiões de Nambuangongo e do Úcua. Este tipo de floresta encontra-se também, na província do Cuanza Sul, nomeadamente em Calulo, Gabela, e na região de Seles, prolongando-se pela orla litoral de escarpa, em pequenos retalhos submontanhosos, agora reduzidos a matas de café.”

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