O kisolongo é uma variante do Kikongo, há evidências baseadas em alguns estudos que passo a citar na minha abordagem abaixo.
Começo por dizer que “kikongo puro não existe”, todas as formas e variedades oriundam no que os especialistas chamam por proto-kikongo, há estudos abaixo referenciados que esclarecem isso.
Há momentos em que a emoção identitária é legítima. O problema começa quando ela tenta substituir a evidência científica. E aqui precisamos ser responsáveis.
A questão é simples: o Kisolongo é uma língua independente ou uma variante do Kikongo? A resposta é simples, variante. E isso não é opinião.
A linguística bantu moderna não reconhece “Kisolongo” como língua autónoma separada do complexo Kikongo. O que a investigação descreve é um “continuum dialectal”, isto é, um conjunto de variantes regionais estruturalmente aparentadas.
O Kikongo não é uma língua única e homogénea. Ele é um grupo linguístico com dezenas de variedades históricas.
Entre essas variedades aparecem formas como Kisolongo, Kisikongo, Kiyombe, Kizombo, entre outras.
E “Kisolongo” corresponde justamente a uma dessas formas dialectais historicamente documentadas.
Documento de referência que gostaria que muitos lessem é do conceituado investigador e linguista Sebastian Dom, Reflexive Morphology in the Kikongo Language Cluster (2024), tem tradução em português.
O estudo de Sebastian Dom demonstra que o chamado “Kikongo language cluster” é composto por mais de 40 variedades geneticamente relacionadas. Essas variedades partilham morfologia nominal bantu, sistema de classes nominais, estrutura verbal e fonologia histórica comum.
Quando uma variedade partilha:
– sistema de classes nominais idêntico
– morfologia verbal correspondente
– léxico de base cognato
– evolução fonética previsível dentro do grupo
ela não é considerada língua isolada. É considerada variedade interna.
O que diferencia uma língua de um dialecto, segundo a linguística histórica, não é orgulho regional. É estrutura, genealogia e comparação sistemática.
E o Kisolongo encaixa-se estruturalmente no grupo Kikongo. (Sebastian Dom, 2024), em Reflexão morfológica da lingua Kikongo.
Não estamos a falar de opinião. Estamos a falar de classificação genética de línguas.
A própria tradição missionária já documentava o “dialecto Kisolongo” no início do século XX. Não como língua separada, mas como variante regional do “Congo”.
Há uma obra clássica de José Lourenço Tavares intitulada Gramática da Língua do Congo (Dialecto Kisolongo), publicada em 1915. Repara no título: “Língua do Congo”, dialecto Kisolongo. Só este parágrafo resolve a inquietação, salvo um argumento melhor (fundamentado).
Se fosse língua independente, a designação teria sido outra. Mesmo na época em que os missionários tinham liberdade para nomear línguas, o kisolongo não foi classificado como sistema separado. Falar de missionário é só um exemplo histórico.
Deixo aqui mais uma referência em José Lourenço Tavares, Gramática da Língua do Congo (Dialecto Kisolongo) (1915),
Em classificações académicas recentes sobre as línguas nacionais angolanas, incluindo dissertações defendidas na Universidade de Évora, o Kikongo aparece como grupo linguístico estruturado e reconhecido. Para não ser generalista, ai está de uma das dissertações, que tenho em pdf para quem precisar.
O que não aparece?
“Kisolongo” como língua autónoma. E porquê?
Porque ele é classificado como variante interna do grupo Kikongo.
Se fosse língua independente, teria:
– código ISO próprio
– reconhecimento em bases como “Ethnologue ou Glottolog”
– descrição estrutural autónoma- classificação fora do cluster Kikongo
Nada disso acontece. Ele surge sempre inserido no grupo Kikongo. Esse entendimento extrai-se da citada dissertação. Toda língua viva tem variação, meus caros. Mas variação não é ruptura genética.
Dizer que o Kisolongo é uma língua completamente distinta implica provar que:
– não deriva do proto-Kikongo
– não partilha o sistema bantu de classes do grupo
- não apresenta correspondência lexical sistemática
Até hoje, nenhum estudo sério demonstrou isso. Quem o tiver, pode publicá-lo e vamos aprender. Mais uma vez, volto a citar o Sebastian Dom, 2024. Nas redes sociais há uma tendência perigosa: transformar identidade em argumento científico.
Mas ciência não funciona por aclamação.
Funciona por comparação linguística sistemática, reconstrução histórica e classificação genética. Não sou linguísta nem historiador, mas investigador, portanto, sei comparar fontes e produzir um entendido unificado.
Portanto, se amanhã alguém provar, com método comparativo rigoroso, que o Kisolongo tem origem fora do cluster Kikongo, a ciência aceita. Mas até agora, as evidências apontam no sentido contrário.
O Kisolongo é uma variedade interna do grupo Kikongo. Negar isso exige prova estrutural, não discurso emocional. Quem escreve para o público deve ter responsabilidade histórica.
Nós não podemos deixar uma narrativa distorcida por falta de rigor. Identidade merece respeito. Mas história e linguística exigem método, como qualquer outra área científica.
Algumas fotos de sites contendo artigos, dissertações e dicionários de estudos especificados do proto-kikongo.
Fonte: PATER – Liberdade e Cultura/facebook

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