Seke Sarmento: “No tempo em que joguei futebol dava outro gosto”

Por Augusto Fernandes

Sarmento Seke é, sem sombra de dúvidas, uma figura incontornável do nosso futebol. Foi um médio ofensivo técnica e fisicamente bem dotado, que se notabilizou no 1o de Maio de Benguela, com o qual ganhou dois Campeonatos Nacionais, duas Taças de Angola e uma Supertaça. Representou os Palancas Negras de 1983 a 1991, tendo sido capitão da Selecção Nacional durante quatro anos consecutivos.

Nas vestes de treinador, orientou o 1o de Maio, Bravos do Maquis, Académica do Soyo, entre outras equipas, tendo como pupilos jogadores como Manucho Gonçalves, Yamba Asha, Zeca Langa, Landu e outros. Sarmento Seke começou a jogar futebol, em 1968, em Kinshasa, na companhia de Maluka, Zandú, Fusso para citar apenas estes. Foi distinguido como melhor jogador do campeonato escolar em 1970. Os seus dotes futebolísticos não passaram despercebidos aos entendidos na matéria e, por via disso, em 1972, foi convidado a representar o BK (Banco de
Kinshasa) da 2a Divisão, onde permaneceu até 1974. De 1974 a 1976, representou o BCC (Banco Comercial de Kinshasa), também da 2a Divisão.

“De 1976 à 1979 fui convidado a representar o Chez Yaya da 1a Divisão, ainda em Kinshasa, e em 1981 dei o primeiro grande salto no futebol, quando o AS Vita Clube local contratou-me e tive o privilegio de actuar ao lado de jogadores como Maianga, Tubila, Kibongué, entre outros, embora por pouco tempo, porque, afinal de contas, o meu destino era jogar fora do ex- Zaire” disse.

Ainda em 1981, numa altura em estava a ser preparado para vir a ser o grande reforço do Vita Clube surgiu, em Kinshasa, um emissário de Pascoal Luvualo, que era dirigente da União Nacional dos Trabalhadores Angolanos- UNTA, com o objectivo de contratar jogadores angolanos para reforçar o 1o de Maio de Benguela. “Assim, o emissário conseguiu contratar Maluka, Zandú, Fusso, André e eu. No entanto, como eu já era contado como reforço do Vita Clube, os adeptos não me quiseram deixar sair. Por isso, enquanto os outros vieram de avião para Luanda, eu tive de vir de barco, para evitar tumultos dos adeptos do Vita”.

Nessa altura, o 1° de Agosto era o grande papão do Girabola, a caminho do seu terceiro título consecutivo. No 1° de Maio de Benguela, Sarmento encontrou Regadinha, Rui Teixeira, Melanchton, João de Deus Barros. “O meu primeiro jogo foi contra o Construtores do Uíge e comecei no banco. No primeiro tempo perdíamos por 1-0. No segundo, entrei e aju- dei a equipa a virar o resultado, ganhando por 2-1”.

Dai em diante, Sarmento foi evoluindo e nunca mais deixou a titularidade até o fim da carreira. A nível do Girabola, recorda-se, “com muita saudade”, dos jogos que travou contra o 1° de Agosto e Petro de Luanda. “ Os jogos envolvendo estas equipas eram autênticas finais. Normalmente, o 1° de Agosto vencia-nos em Benguela e nós vencíamos em Luanda. O Petro dificilmente nos vencia em nossa casa e nós vínhamos a Luanda fazerlhes vida cara, como so e dizer-se”.

Em 1982, o Petro destronou o 1° de Agosto, ganhando o seu primeiro campeonato nacional. Em 1983, o 1° de Maio de Benguela, com jogadores como Kiala, Fusso, Sarmento, Zandu, Maluka, Fidel, Daniel, André, Zé Águas, ganhou o seu primeiro campeonato nacional, tornando-se na primeira equipa fora de Luanda a realizar tal proeza. A vinda de jogadores da classe dos acima mencionados revolucionou o futebol angolano que passou a contar com três forças principais: 1o de Agosto, Petro e 1° de Maio de Benguela.

“Não há duvidas que o nosso regresso a Angola ajudou a revolucionar o futebol nacional. Pois, aqui já havia grandes jogadores como Napoleão, Garcia, Lourenço, Ndungidi, Chiby, Eduardo Machado, Praia, Jesus, Santinho e muitos mais. O período em que a maior parte dos jogadores do nível técnico dos que acima mencionei estiveram em activide, foi o melhor momento do futebol angolano. Hoje temos alguns bons jogadores, mas iguais a nós não existem. Os actuais jogadores ganham mais do que nós ganhávamos, têm melhores condições , mas com todo orespeito que tenho por eles, não são iguais aos da nossa época” afirmou Sarmento.

No período em que jogou, o país estava em guerra e, por isso, Sarmento considera que “foi um momento muito difícil para o povo angolano.

“Nós, os jogadores de futebol, suavizávamos a situação com grandes espectáculos. Normalmente, os estádios ficavam lotados, porque as pessoas sabiam que iam ver grandes artistas da bola”, disse. “Em todas as equipas do Girabola havia três ou mais craques, o que atraía público aos estádios e momentaneamente esqueciam-se da guerra em que vivia o país”.

Em 1985, Sarmento e o seu Maio viriam a ganhar o segundo campeonato nacional. “Naquela altura, atravessávamos o nosso melhor momento. O Petro havia ganho o segundo título, em 1984, e nós decidimos ganhar em 1985. No entanto, o Desportivo da Chela esteve mais perto de ganhar naquele ano.

A cinco jornadas do fim, liderava a prova isolado. Como se não bastasse nós teríamos de ir jogar com eles, no Lubango, na última jornada. Com determinação, ganhámos o Chela por 1-0 e, pela segunda vez, ganhámos o Girabola. Foi um momento inesquecível para todos nós, do 1o de Maio” recorda-se.

Falando ainda dos dérbis entre a sua equipa e o 1° de Agosto, Sarmento disse que depois da paz, em 1992, ficaram a saber, através de alguns intervenientes do conflito militar, que durante o período em que as duas equipas estivessem a jogar o conflito parava. “Porque os soldados de ambos os lados ficavam de ouvidos colados ao rádio. Por ai, se vê a força que o futebol, ou o desporto, tem para promover a paz.”

Como representante de Angola na Taça das Taças de África, em 1984, o 1o de Maio de Benguela, foi a primeira equipa angolana a jogar uma final na Taça das Taças. Para isso, eliminou o Atlético de Malabo, com quem perdeu, na primeira-mão, por 2-0, e venceu em casa por 6-1.

Depois defrontou o Asanti Kotoko com quem empatou a uma bola fora e ganhou, por 2-1, em Benguela, vindo perder a final diante do Semassi Sekodé do Togo. Depois de dois empates consecutivos a duas bolas, o Maioacabou derrotado aos penaltis por 4-3.

Em 1986,na Liga dos Campeões de África, o 1° de Maio foi eliminado na primeira fase pelo Canon de Yaoundé com derrota nos Camarões por 3-0 e vitória em Benguela por 2- 0. “Por aqui, podemos ver que o 1° de Maio, foi uma grande equipa, não só em Angola como em África, pois, as equipas que defrontamos eram muito fortes. Isto implica dizer que estávamos entre as melhores equipas de África”frisou Sarmento.

Em 1984 Sarmento, esteve a um passo de representar o América, do Brasil: “ Fizemos um jogo amistoso contra o América, em Benguela. Eles ficaram encantados com a minha qualidade e mostraram interesse em mim. Ficou acordado que quando fossemos ao Brasil em estágio finalizaríamos as negociações. No entanto naquela época oGoverno angolano não permitia este tipo de negócios, especialmente com jogadores que representavam a Selecção Nacional. Assim por amor à Pátria, acabei perdendo uma soberana oportunidade de singrar na vida”.

Chamada à Selecção Nacional foi memorável

Em 1983, Sarmento, foi convocado pela primeira vez para a Selecção Nacional de futebol, que representou durante oito anos consecutivos e sempre como titular.

“Foi um momento muito significativo para mim a convocatória para a Selecção Nacional. Acho que foi um prémio bem merecido por tudo aquilo que eu fazia dentro das quatro linhas e foi uma honra muito grande jogar ao lado de grandes vedetas do nosso futebol como Napoleão, Garcia, Vicy, Tandu, Eduardo Machado, Jesus e companhia” diz o nosso entrevistado.

Com os Palancas , Sarmento Seke fez muitos jogos durante os oito anos que os representou, e nisto dois marcaram lhe bastante. Ele conta: “ Um dos jogos que mais me marcou foi diante da Argélia, para o apuramento para o Mundial de 1986.

Depois de termos empatado em Luanda a zero, fomos a Argel jogar para passar a eliminatória e ficarmos a um jogo do Mundial. Mas o árbitro da partida descaradamente impediu-nos de lá chegar. Nunca tinha visto em toda minha vida, como jogador, uma batota tão descarada. Ele simplesmente anulou o nosso terceiro golo, limpo, apontado magistralmente por Makuéria.

Os próprios jogadores da Argélia fica- ram admirados com a oferta”. Outro momento que marcou o entrevistado foi o jogo diante do Gabão, em Libreville. “Angola perdia o jogo por 2-0. Numa noite mágica encostamos o gaboneses às cordas, dei a marcar o nosso primeiro golo e depois marquei o do empate, que na realidade teve sabor à vitória. Na segunda mão, na Cidadela, vencemos o adversário por  4-0. Foram de facto momentos muito especiais a minha passagem pelos Palancas Negras”.

Ao serviço da Selecção Nacional, o antigo internacional angolano conheceu muitos países e fez inúmeras amizades. “ Na verdade, o que os jogadores do meu tempo ganharam do futebol foram amizades, porque em termos de dinheiro não ganhamos absolutamente nada.

Nós jogávamos por amor à camisola e à Pátria. Na Selecção Nacional ganhávamos 75 dólares e mais tarde 100. Sarmento diz que “foi um duro golpe para nós que, com muito sacrifico, edificamos aquele clube. Tudo por uma questão de ingenuidade dos que lideravam o clube. Pois, sabiam que não tinham condições para disputar o Girabola. Isto só acontece quando não se tem amor ao clube”.

PERFIL

NOME COMPLETO
Sarmento Seke
Filiação: Ntony Emanuel e Kayengue Elisa
Data de Nascimento: 8 de Agosto de 1958
Naturalidade: Maquela do Zombo (Úige)
Estado Civil: Casado
Filhos:10
Número habitual: Camisola:10
Cor preferida:Azul
Religião: Católico
Passatempo: Ver filmes
Musica: Congolesa e quizomba
País de que mais gosta: Angola
Sonho: Ter o necessário para viver sossegado até o fim da vida

Via JA

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