O NASCIMENTO DO KIKONGO YA LETA (KITUBA): DA BAIXA VALE DO CONGO À ÁFRICA CENTRAL
Por KALUNGA BISIMBI (INVESTIGADORA INDEPENDENTE)
Muitos pensam que o Kikongo ya Leta (ou Kituba) é uma língua muito antiga, falada por uma única etnia. Mas, na verdade, é uma língua que serviu para a comunicação entre diferentes pessoas. Ela surgiu no final do século XIX, quando Leopoldo II criou o Estado Independente do Congo.
Esta língua desenvolveu-se principalmente entre 1880 e 1900. Podia ser encontrada na zona entre Boma, Matadi, Leopoldville (atual Kinshasa) e nos estaleiros da linha ferroviária que ligava Matadi a Leopoldville. Na época, estes eram os locais mais importantes para a administração e o comércio do novo Estado.
Antes disso, as pessoas desta região falavam diferentes variantes do kikongo. Era o caso dos Bakongo, como os Basolongo, os Yombe, os Woyo, os Bwende, os Sundi, os Ntandu, os Manianga e outros grupos do Congo Central.
Mas quando trabalhadores, soldados, carregadores e agentes chegaram de outros cantos do Congo, muitas línguas diferentes misturaram-se. Para que todos pudessem compreender-se, uma forma mais simples de kikongo começou a surgir gradualmente.
Estudos e textos antigos relatam que esta nova língua também foi influenciada por jovens e órfãos. Eles vinham das regiões do rio onde o lingala já era falado. Esses jovens foram enviados para Boma, que era a capital do Estado Independente do Congo, para serem formados e ajudarem a administração.
Um documento chamado “O Kikongo do Estado no Congo Belga” explica claramente que foi o contacto entre todos estes grupos que deu origem ao Monokutuba belga. Mais tarde, seria chamado de Kikongo ya Leta ou Kituba.
A construção da linha ferroviária Matadi-Leopoldville, entre 1890 e 1898, também ajudou muito a espalhar esta língua. Os operários, soldados e outros trabalhadores vinham de toda parte e precisavam de conseguir falar entre si. Foi assim que o Kikongo ya Leta se tornou uma língua prática para a comunicação.
Durante o período colonial, esta língua foi utilizada oficialmente em todo o lado: na administração, na escola, pelas missões cristãs e no exército. Foi inicialmente chamada de “Kikongo do Estado” e, mais tarde, de “Kikongo ya Leta”.
O Kituba atravessou as fronteiras do Congo Belga graças ao comércio, às missões religiosas e às migrações populacionais. Espalhou-se pelo Congo Francês (hoje a República do Congo), especialmente nas regiões de Brazzaville, Pool, Niari, Bouenza e Kouilou.
Posteriormente, esta língua também alcançou regiões em Angola, especialmente entre as pessoas que viviam perto das fronteiras e os trabalhadores que transitavam entre os três países.
Hoje, o Kituba é uma língua nacional reconhecida na República Democrática do Congo e na República do Congo. É também uma das línguas mais importantes para o comércio e a comunicação na África Central.
Não se deve confundir o Kikongo ya Leta com as diferentes versões mais antigas do kikongo, faladas há séculos no antigo Reino do Congo. O Kituba é uma língua mais moderna, criada para que todos pudessem comunicar quando vários povos se encontraram na época colonial.
Graças aos trabalhos de linguistas como Maurice de Wolf, Jan Vansina, Léon Dereau, Mumbanza Mavuzi e Nathanaël Lembe Masiala, e também a documentos antigos das colónias e das missões, compreendemos melhor hoje a história desta língua.
