Minhas reflexão sobre “A SEXTA-FEIRA SANGRENTA”

Por Salomão Ndombasi (Nobre Zombo)

Hoje 21 de Janeiro de 2021, véspera do memorável dia 22 de Janeiro, passando 28 anos desde a fatídica data que marca de forma triste as memórias dos Bakongos de Angola.

Aproveito o ensejo em tributo aos Bakongos assassinados, para apresentar algumas reflexões minhas, neste dia que coincidentemente, o Parlamento angolano agendou e debateu de forma calorosa, o tema sobre o combate à impunidade como factor primordial à boa governação.

Não querendo ser Xenófobo ou Tribalista até porque nunca fui, nem atiçar algum fogo ou abrir alguma ferida nunca curada mas simplesmente, numa visão puramente académica, contribuir de forma positiva para o conhecimento da história recente de Angola e da nossa memória colectiva, visando o lançamento das bases que sustentarão, a genuína reconciliação entre os povos que habitam esse território que nos foi legado pelos nossos Ancestrais. Duas datas e duas motivações:

Sexta-feira sangrenta, termo usado pela primeira vez no Brasil e ficou conhecido, como dia da repressão sangrenta a um protesto estudantil que exigia o debate da situação do ensino superior no País em frente do edifício do jornal do Brasil (JB), realizado nos dias 22 e 23 de Junho de 1968 na cidade do Rio de Janeiro durante a ditadura militar culminando com 3 mortos (segundo a versão oficial) ou 28 assassinados (segundo o centro de documentação de história contemporânea da Fundação Getúlio Vargas), dezenas de feridos e mais de mil detenções. Até hoje, não se sabe a real quantidade de mortos resultantes dos confrontos.

Sexta-feira sangrenta, em Angola coincidência ou não, foi usado para simbolizar os massacres perpetrados contra Cidadãos Angolanos do grupo etnolinguístico Kikongo na sexta-feira do dia 22 e 23 de Janeiro de 1993 tendo sido assassinados segundo reconheceu o Governo Angolano, 57 mortos mas, as organizações civis Bakongo apontavam para mais de mil mortos segundo o portal Muana Damba no seu artigo publicado no âmbito dos 20 anos da chacina em 2013 e mais de quatro mil mortos enterrados em valas comuns, segundo a Declaração publicada pelo Movimento para a Paz e Democracia em Angola (MPDA) em 2009 e do Manifesto da sexta-feira sangrenta distribuído nas várias Chancelarias estrangeiras incluindo, o nosso Parlamento cujo debate, nunca foi agendado infelizmente.

Enquanto no Brasil, uma simples exigência estudantil para se debater os meandros da situação do ensino superior desembocou na chacina; em Angola pelo contrário, motivações nunca assumidas pela classe política de cujas causas, remontam das profundas rivalidades políticas, Ideológicas e estratégicas entre o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e a FNLA (Frente Nacional para Libertação de Angola) pois, os argumentos apresentados para justificar os massacres, nunca foram provados:

Existência de Tropas de Mobutu nas fileiras das FALA; infiltração de Mercenários do Zaire no seio da população para assassinar o Ex. Presidente José Eduardo dos Santos e o apoio massivo da população Kikongo à campanha da UNITA, futilmente nunca colheram.

Desmistifico as origens e causas históricas:

-Congo Leopoldville como retaguarda segura para a organização e lançamento da luta da guerrilha no interior de Angola entre os dois movimentos existentes na altura;

-Conquista do espaço Congo Leopoldville como zona de influência da FNLA e consequente expulsão do MPLA do outro lado do rio, no Congo Brazzaville;

-Ataques e mortes simultâneas de altos dirigentes dos dois lados em conflito;

-As divergências ideológicas profundas que colocavam os dois contendores em campos opostos da guerra fria vigente na época;

-As lutas pela superioridade e hegemonia governativa que culminaram com a quebra dos acordos de Nankuru, Mombaça e Alvor.

-A subalternização e diabolização de todos que se identificasse com o Zaire, actual RDCongo sendo alcunhados de Canibais, Regressados, Refugiados, Zairenses, Langas, Mobutistas, Imperialistas com o fito de inferiorizá-los para dificultar a sua integração no seu País de origem usando a velha táctica colonialista de identificar os seguidores do Profeta Simão Gonçalves Tôko recentemente expulsos do Congo e apelidados de Congolenses, com simples uso de pano do Congo, corte de cabelo, cicatrização da vacina tomada na mão esquerda contra a epidemia de varíola, o tom claro da pele pelo uso de produtos e o sotaque na pronunciação sendo contraditória a promiscuidade uma vez que, muitos dos Dirigentes do MPLA expulsos do Congo Brazzaville de todas as tribos de Angola viveram e estudaram nas mesmas escolas congolesas.

Essas injustiças infelizmente imperam até hoje na nossa sociedade onde basta ser portador de um nome Kikongo ou seja, identificar se com os Bakongo para ser marginalizado e muitos descendentes dos Bakongo acabaram sendo naturais de Luanda para fugir da descriminação e alterando os nomes originais atribuídos pelos seus Progenitores, que pena.

Diante deste cenário pouco salutar, enquanto algumas vozes da sociedade civil e da oposição ao regime, planeiam realizar colóquios para analisar, discutir e refletir sobre as vias e meios de inverter a situação; os nossos Dirigentes Bakongo do MPLA, do seu governo e da Assembleia nacional não mungem e não tugem perante as situações que sempre viveram os seus correligionários no seu próprio País.

Precisa-se de congregar todas as boas vontades para se criar um amplo movimento para a revalorização da cultura secular Kongo e identificar os pontos fortes e fracos para se traçarem as estratégias conducentes à dinamização da nossa identidade.

Como se pode permitir que, a língua lingala venha suplantar o Kikongo até nas nossas casas e aldeias; as calças venham substituir os nossos panos; as perucas, as nossas tranças, não se conseguindo diferenciar o Angolano da etnia Kongo, do Congolês da RDC, enfim o repto está lançado e o debate, aberto.

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    Via RNA/Uíge

    One thought on “Minhas reflexão sobre “A SEXTA-FEIRA SANGRENTA”

    1. Enquanto não houver luz sobre Sexta-feira sangrenta, a espada de Dâmocles estará sempre
      na cabeça dos criminosos.
      Se não conseguirem fazer um gesto forte, a Justiça internacional irá um dia ocupar-se do caso.
      Num país normal, deveria ser criada uma comissão parlamentar de inquérito para este fim.

      A fim de dar uma oportunidade ao perdão, continuo a defender o estabelecimento de uma verdadeira comissão « Verdade e Reconciliação » como a que foi criada na África do Sul e no Benim para elucidar todos os massacres registados após a independência do país.
      É um dever recordar para que a barbaridade não volte a acontecer no futuro.
      Pody Mingiedi, Genebra

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