IMAGINE QUE SÓ LUANDA É MAIS VELHA DA RDC
O angolano não “descobriu” a imigração no ano 2000. A mobilidade é secular.
Dizer que “o angolano só começou a imigrar agora” é apagar 500 anos de história. É reduzir Angola ao preconceito e discriminação de um analfabeto que fala como boneco aos gestos fraco. Angola tem história e convém mantê-la viva, e instituciona-la renderia muito dinheiro do que os diamantes da Lunda.
– Luanda: 1576 → 450 anos.
– Mbanza-Kongo: capital do Reino do Kongo desde o século XIV → mais de 700 anos.
- Malanje: 1868 → 158 anos. –
- Kinshasa: 1881 → apenas 145 anos desde a fundação. E só em 1926 se tornou capital do Congo Belga, substituindo Boma.
Portanto, Malanje é 13 anos mais velha que Kinshasa. Malanje foi fundada em 1868 e Kinshasa, capital da RDC, em 1881. E os angolanos migraram para Kinshasa, criaram comunidades, bares, grupos músicas e teatrais, estúdios fotógraficos, fundamentaram o mercado informal muito antes de muitos congoleses do interior chegarem lá.
O Baixo Congo e Luanda sempre tiveram ligação comercial e familiar com a margem norte do rio Zaire. Famílias de São Salvador do Congo, Ambriz e Luanda circulavam naquela região séculos antes de 1881.
A migração angolana no mundo é antiga. Não começou nos anos 2000:
1. Séculos XV-XVI: Embaixadas do Reino do Kongo no Vaticano e em Lisboa. D. Afonso I do Kongo enviou os filhos para estudar em Portugal. O primeiro embaixador negro na Europa foi Dom António Manuel Nsaku Ne Vunda, do Mbanza Kongo, que morreu em Roma em 1608.
2. Século XVII: A Rainha Nzinga Mbandi enviou embaixadores a Luanda, ao Brasil e à Holanda.
3. Séculos XIX-XX: Muitos ambakistas, malanjinos e luandenses foram para São Tomé, Lisboa, Brasil e até para o Congo Belga trabalhar no caminho-de-ferro Matadi-Kinshasa.
4. Anos 1960-1970: Houve migração massiva para o Congo/Kinshasa durante a guerra colonial. Bairros como Yolo, Matete, Lemba, Djili, Kitambo, Makala, Kinsenso, Kasa-Vubu, Barumbu tinham comunidades angolanas fortes.
Ou seja: o angolano não “descobriu” a imigração no ano 2000. A mobilidade é secular.
O problema cultural atual que se levanta é real: a baixa coesão da diáspora angolana hoje. É mais dispersa e tem menos associações fortes. Em várias cidades do mundo, o angolano de hoje deixa pouca marca cultural coletiva. A kizomba e o semba correram o mundo, mas a bandeira “Angola” aparece pouco. Outras diásporas africanas fazem diferente.
– Senegaleses: têm os mourides, as dahiras, restaurantes e comércio visível. São mais unidos e organizados.
– Nigerianos: têm Nollywood, igrejas fortes.
– Congoleses da RDC: têm a rumba, a SAPE, a “ambiance” e restaurantes reconhecidos.
O desencontro do nosso protagonismo tem como culpado a guerra. É a unica hipóteses para explicar isso:
1. Guerra longa, 1961-2002: quebrou a transmissão cultural. Muita gente saiu como refugiado, não como migrante organizado.
2. Trauma colonial + guerra civil: a identidade ficou fragmentada. “Ser do norte, do sul, do leste” falou mais alto que “ser angolano” lá fora.
3. Assimilação: em Portugal, Brasil e Congo, muitos angolanos integraram-se, conformaram-se e deixaram de marcar a origem. Diferente do congolês, que leva a rumba e a SAPE para todo lado.
4. Falta de política de diáspora: Ora que Cabo Verde e Senegal têm o Estado a apoiar associações. Angola recomeçou tarde. Mas sem grande sucesso.
Sobre “quem imigra mais”:
Comparar Angola com a RDC sem contexto é injusto. Em números supostos, hoje há mais congoleses fora.
Mas, Angola teve ondas enormes: de 1961 a 1975 para o Congo, Zâmbia e Namíbia; de 1975 a 2002 para Portugal, Holanda, Espanha, Itália, Brasil e África do Sul.
A diferença hoje: o congolês marca território cultural onde chega. O angolano muitas vezes “desaparece” nas estatísticas do país de acolhimento.
Conclusão:
Dizer que “o angolano só começou a imigrar agora” é apagar 500 anos de história. O problema não é falta de história – é falta de narrativa e de estrutura cultural coletiva na diáspora.
Mbanza-Kongo é Património Mundial. Luanda tem 450 anos. Angolanos já pisavam Roma no século XVII. A questão é: por que hoje um bairro congolês em Paris é mais visível que um bairro angolano? Esse é o debate cultural que devemos levantar. E é válido. O que é que nos indentifica como Angolanos, só o papel de indentificacão?
Fonte: Angola-Namíbia/facebook
