NA MULUANGU: O GUARDIÃO DAS INSÍGNIAS SAGRADAS DO REINO DO KONGO

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Sabia que um homem teria consagrado toda a sua vida a proteger as insígnias sagradas do Reino do Kongo após as grandes crises do século XVII? Descubra a história fascinante de Na Muluangu, símbolo de memória, resistência e continuidade do povo Kongo.

A história de Na Muluangu ocupa um lugar particular na memória oral do povo Kongo. Segundo as tradições transmitidas de geração em geração, ele teria vivido entre os séculos XVII e XVIII e teria sido um dos principais guardiões das insígnias sagradas do Reino do Kongo após as grandes crises que abalaram o antigo reino.

Nascido em Mbanza Kongo numa família estreitamente ligada ao poder espiritual e real, Na Muluangu era filho de Na Nkokolo Nkenkele, considerado nas tradições como um vidente, profeta e depositário dos segredos sagrados da corte real. O seu pai fazia parte do círculo restrito dos grandes iniciados encarregados de proteger os símbolos do poder e os conhecimentos ancestrais do Reino do Kongo.

Nessa época, o reino atravessava um período de profundas turbulências. As guerras internas, as rivalidades de sucessão e as pressões estrangeiras fragilizavam progressivamente as instituições reais. Diante dessas reviravoltas, os antigos iniciados teriam recebido a missão de preservar as insígnias sagradas para que não desaparecessem com o colapso das estruturas do reino.

Segundo a tradição, Na Nkokolo Nkenkele deixou Mbanza Kongo com a sua esposa Nsafu, os seus filhos — Na Muluangu, Ngumbu, Kinkuasa e Kavinda — bem como um pequeno grupo de pessoas próximas. Eles empreenderam uma longa jornada em direção ao sul, através de florestas, montanhas e rios, transportando consigo os objetos sagrados do reino cuidadosamente protegidos pelos ritos ancestrais.

A viagem teria durado cerca de dez anos. Os relatos contam que os viajantes avançavam frequentemente de noite para escapar dos perigos. Algumas tradições evocam até o aparecimento de luzes misteriosas que acompanhavam a sua marcha, interpretadas como a presença protetora dos antepassados.

Após uma paragem na região de Bangu, perto de Kimpese, os pais de Na Muluangu faleceram. Antes de morrer, Na Nkokolo transmitiu ao seu filho mais velho a responsabilidade suprema de preservar as insígnias reais, confiando-lhe esta missão:

“Enquanto as insígnias do Reino viverem, o espírito do Kongo nunca morrerá.”

Investido dessa responsabilidade, Na Muluangu prosseguiu a sua viagem com os seus irmãos e a sua irmã. Depois de atravessarem vários territórios, nomeadamente os arredores da montanha Wuya e do rio Lukunga, alcançaram finalmente as terras situadas em frente ao grande rio Congo, na atual província do Kongo Central.

Por volta de 1722, Na Muluangu escolheu estabelecer-se definitivamente no setor de Wombo, no seio do agrupamento de Nienge. Ele tomou posse simbolicamente de um lugar chamado Nsanda, termo sagrado que designa a grande árvore protetora na tradição kongo. Foi assim que nasceu a aldeia de Tadi Kamanukwa Mbélé, que mais tarde se tornou Mbanza Nsanda.

As tradições descrevem Na Muluangu como um homem de grande autoridade: um guerreiro respeitado, estrategista experiente, líder espiritual iniciado e guardião dos saberes ancestrais. A sua reputação ultrapassava amplamente os limites da sua aldeia, e muitas comunidades vinham solicitar os seus conselhos durante conflitos ou cerimónias importantes.

Na memória coletiva, Na Muluangu representa muito mais do que um simples chefe local. Ele encarna a continuidade histórica entre o antigo Reino do Kongo e as gerações que sobreviveram ao seu declínio. O seu nome permanece associado à preservação da identidade, da cultura e da espiritualidade kongo.

Ainda hoje, segundo os relatos populares, o seu túmulo encontrar-se-ia em Mbanza Nsanda. Os mais velhos afirmam que este continua a ser um lugar carregado de mistério, onde repousariam as insígnias sagradas herdadas dos seus antepassados. Numerosos testemunhos evocam um profundo respeito em torno deste local histórico, considerado um símbolo de memória e de resistência espiritual.

Através dos séculos, a figura de Na Muluangu continua a inspirar os descendentes do Reino do Kongo. A sua história recorda a importância de preservar o nosso património, as nossas tradições e a nossa memória coletiva para as gerações futuras.

Fonte: Arquivos de Mbanza Kongo

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