COMUNA DO BÉU ESTÁ DESPROVIDA DE RECURSOS PARA COLOCAR FIM ÀS DIFICULDADES

Por António Capitão

As marcas da presença colonial ainda são patentes em alguns pontos na vila da comuna do Béu, embora o centro da localidade apresente um estado racional de conservação. É o caso do edifício onde funcionou o antigo posto administrativo.

No outro lado da estrada arenosa, que divide a vila, podem ser avistados os escombros da antiga padaria, do refeitório, cozinha e do armazém logístico da tropa colonial. O comboio de casernas, que servia para aquartelar os militares, foi transformado numa escola de três salas de aula para atender o colégio local. A guarita, marco onde se podia divisar o brasão, também se mantém de pé. Para os mais atentos, ressalta à vista uma curiosidade. No espaço onde se acomodavam infra-estruturas militares está cravada, bem em frente à rua, uma escultura de betão betuminoso e varões de ferros, em clara representação de um barril do “Vinho do Porto”. Obviamente, pressupõe dizer que os militares, funcionários e outros assimilados da época eram “bons apreciadores” do vinho produzido através das castas daquela região de Portugal.

Na lateral esquerda, em direcção ao Norte da vila do Béu, está intacto e devidamente conservado o templo da Igreja Católica. Construída em 1956, pelo catequista David Mambona, no seu interior muitos quadros do município de Maquela do Zombo tiveram o primeiro contacto com o alfabeto português. Defronte a igreja, pode ser avistado o campo pelado de futebol onde o craque Vicy despontou para a arena nacional e internacional do desporto-rei.

Na parte Sul da vila, algumas moradias e estabelecimentos comerciais da era colonial resistem ao tempo. Hoje, porém, pertencem a nativos angolanos que, com maior ou menor dificuldade, dão a essas estruturas o devido uso.

Entretanto, a maior parte das infra-estruturas antigas ruíu ou foi “atingida” por estar fissurada. Por outro lado, a localidade testemunhou o surgimento de novas habitações, espaços comerciais, mercado, escolas, unidades sanitárias, entre outros, com o selo da administração municipal, comunal e agentes privados.

Em paralelo, perpendiculares ou na posição oblíqua, as casas erguidas na era colonial e no período pós-Independência Nacional conformam uma aglutinação quase perfeita. O Jornal de Angola registou poucas moradias de pau-à-pique na vila do Béu, mas, na verdade, do que mais se queixam os habitantes é da falta de ambulância no centro de saúde, para evacuar os doentes, quando o estado de saúde destes assim o exige.

Outro aspecto que dificulta o curso normal do quotidiano na vila é a via de acesso, numa extensão de 75 quilómetros. Totalmente degradada, as viaturas ligeiras já não conseguem aceder à região. Regra geral, os camiões todo-o-terreno chegam somente à localidade nas primeiras horas de terça-feira, provenientes do mercado sazonal de Sacandica.

Evacuar um doente em estado grave, num percurso de 75 quilómetros, numa viagem que pode consumir mais de oito horas, chega a ser um acto desumano, pois muitas vezes o paciente viaja juntamente com os comerciantes e por cima das mercadorias. Contas feitas, a administradora comunal, Adelina Ntumba, admite tratar-se de condições nada favoráveis, na medida em que está presente o risco de o paciente morrer ao longo do percurso.

“A nossa comuna enfrenta muitas dificuldades, entre as mais preocupantes devemos destacar a via de acesso e a falta de ambulância, para evacuar doentes em estado crítico ou por complicações que a capacidade técnica local não tem a devida competência”, disse.

Mortes por falta de ambulância

Devido à falta de ambulância para o centro comunal de saúde, alguns pacientes acabaram por perder a vida no percurso de 75 quilómetros até o Hospital Municipal de Maquela do Zombo, na sede municipal. Os infortúnios têm como principais causas a tardia evacuação e o mau estado da estrada.

O regedor da sede comunal do Béu, Nlando João, lembra que o ano passado foram registadas mortes de quatro parturientes, devido a hemorragias-pós-parto, numa altura em que não havia ambulância na circunscrição e nem viaturas particulares.

“Felizmente, este ano ainda não tivemos relatos sobre morte de doentes no centro comunal de saúde ou durante o processo de evacuação. Mas, infelizmente, o ano passado tivemos confirmada a morte de quatros mulheres”, lamentou.

Sem água há seis meses

O sistema de captação, bombagem e distribuição de água potável à sede comunal do Béu está inoperante há seis meses. No rio Mbeu onde a mesma é captada, os amigos do alheio vandalizaram as máquinas.

Com a remoção do equipamento de bombagem da água, os fontanários e a lavandaria comunitária deixaram de servir a população e estão a ser engolidas pelo capim. Por conseguinte, toda rede de distribuição está em risco de ser danificada porque o ramal está descoberto devido a erosão na principal rua da vila.

Depois de constatar a situação, o administrador Samalando Muginga garantiu soluções para breve, depois do parecer de uma equipa técnica coordenada pelo administrador municipal adjunto para o sector Técnico e Infra-estruturas que procedeu ao levantamento das necessidades para a aquisição dos equipamentos que vão permitir tornar funcional o sistema de captação, bombagem, tratamento e distribuição de água.

“Verificamos que, além do equipamento para o bombeamento da água do rio até ao tanque de armazenamento que foi saqueado, os restantes componentes do sistema estão intactos, assim como as lavandarias comunitárias devidamente preservadas. Vamos mobilizar recursos para que num curto espaço de tempo a população da sede comunal do Béu volte a ter água potável nos chafarizes e outros equipamentos sociais”, garantiu Samalando Muginga.

Educação e formação profissional

O sector da Educação na comuna do Béu é composto por 15 escolas, das quais apenas cinco de carácter definitivo. Destas, três se localizam na sede comunal e as restantes 10 dispersas em outras localidades.

A administradora municipal do Béu, Adelina Ntumba, avançou que, no presente ano lectivo, foram matriculados no subsistema de ensino geral mais de 6.700 alunos para o ensino primário, primeiro e segundo ciclos do ensino secundário. Devido a falta de escolas em algumas localidades, 650 crianças encontram-se fora do sistema normal de ensino.

Adelina Ntumba referiu que o processo de ensino e aprendizagem é assegurado por apenas 75 professores, número considerado insuficiente, visto que exiguidade permite apenas disponibilizar 42 docentes para o ensino primário, 22 para o colégio e 11 para o liceu local. Números que demonstram a necessidade para o aumento de mais funcionários neste sector.

“É necessário o aumento de mais professores e a construção de um centro de formação técnico-profissional e mais escolas em várias aldeias para se evitar que as crianças percorram longas distâncias para irem estudar em outras regedorias. O número de professores existentes no liceu não contribui para a melhoria da qualidade do ensino na nossa comuna”, disse.

Relativamente à formação técnico-profissional, o administrador municipal de Maquela do Zombo, Samalando Muginga, pediu aos jovens que, enquanto não for erguida uma infra-estrutura para o efeito na comuna devem consentir o sacrifício de constituírem grupos de cinco ou 10 elementos para se deslocarem à sede municipal a fim de frequentarem cursos profissionalizantes no centro municipal do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP).

“Devido a exiguidade de recursos financeiros, ainda não podemos prometer a construção, nos próximos dias, de um centro de formação profissional. Neste quesito, devemos apenas pedir à nossa juventude que consintam o enorme sacrifício de se deslocarem até à sede municipal para se formarem nos cursos ali ministrados”, apelou.

Comércio incipiente

A actividade comercial na comuna do Béu é incipiente. Na sede comunal existem apenas duas pequenas cantinas que vendem, com stocks limitados, diversos produtos manufacturados e bens alimentares industrializados. O único mini-mercado erguido pela empresa Tandu Far tem as portas fechadas e as prateleiras vazias.

A farmácia Tandu Far, onde se podia encontrar fármacos de melhor qualidade e condições de aprovisionamento, também fechou as portas, obrigando os cidadãos a recorrerem a uma pequena farmácia onde a demanda supera a oferta. No mercado comunal, a maior parte das bancadas estão desocupadas. Alguns pequenos comerciantes vendem arroz, óleo e massa alimentar, sabão, açúcar, sal, pilhas, aparelhos de som e outros bens.

As barracas de comes e bebes ocupam maior quota naquele mercado rural. O funji pode ser acompanhado com carne de porco, cabrito, macaco, gazela, paca (mbuiji) e jiboia. A miscelânea de alimentos inclui a mfumbua, mbonde, feijão, kizaka, makaxila, mengueleka, mbika (pevide), wanguila (gergelim), wando (ervilha fresca ou seca) e mbuengue (feijão macunde). O malavo, lunguila ou mesmo a cerveja nacional e o vinho são as bebidas mais consumidas.

Busca incessante por soluções

Das várias situações apresentadas pela administração municipal, autoridades tradicionais e munícipes, desde o mau estado da via de acesso à sede municipal, falta de meios de comunicação (rádio, televisão e operadora de telefonia móvel), escolas, centros e postos de saúde, ambulância, equipamentos administrativos e a reabilitação dos edifícios administrativos e protocolares, o administrador municipal deixou a seguinte mensagem:

“Temos plena noção das dificuldades que a população do Béu vive, como a via de acesso, falta de escolas e unidades sanitárias e outras. Vamos, agora, procurar encontrar soluções para as mesmas, localmente, ou recomendo o suporte do Governo provincial. Vamos enquadrar os problemas desta comuna no Plano Local de Apoio à Agricultura Familiar (PLAAF), Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP)”, disse.

Respeito aos rituais tradicionais

À chegada à sede comunal do Béu, depois uma longa e tortuosa viagem, idos de Sacandica, a comitiva do administrador municipal de Maquela do Zombo, Samalando Muginga, foi recebida com rituais tradicionais pelo colégio de sobas.

Depois da cerimónia de recepção, veio logo uma chamada de atenção do regedor da sede comunal, Nlando João: “não chamem nenhuma mulher, se faz favor”.

Com muitos “bons galanteadores”, na caravana visitante, veio logo a bateria de perguntas: “Porquê? E se não obedecermos, o que nos vai acontecer? Essa “lenga-lenga” não é coisa do passado?”.

Calmamente, a autoridade tradicional explicou que “é uma tradição secular”, instituída pelos seus antepassados com vista a valorização e empoderamento das mulheres. Ao que consta, as mulheres eram muito subjugadas e a submissão era excessiva em todas as dimensões. Por isso, explicou, que quem ousar em tentar cortejar qualquer mulher na localidade incorre num grave crime costumeiro que lhe seria imposta à obrigação de esposar a jovem ou pagar uma multa de até 20 mil kwanzas, caso esta seja uma mulher comprometida.

“Antes, a punição era severa! Sobretudo se engravidaste e quereres fugir, ao longo do percurso o órgão genital desaparecia. Caso resistisse, poderia levar até à morte. Mas, devido à evolução e às críticas, hoje tudo é resolvido com base em multas e, em caso de incumprimento, podes ir embora”, rematou.

Via JA

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