OS “JAGAS” NA HISTÓRIA DO CONGO E ANGOLA: Os Imbangala

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Os Imbangala

Por PAULO JORGE DE SOUSA PINTO

Um prelúdio Ao contrário dos «Jaga» do Congo no século xvi, ainda hoje envoltos na penumbra e motivo de discussão e controvérsia, o mis tério dos «Jaga» do século xvii está, pelo menos nos seus aspectos essenciais, desvendado. Trata-se, na verdade, dos Imbangala que, ao contrário dos grupos marginais ao Congo responsáveis pela ins tabilidade vivida no século xvi, possuíam traços de identidade bem vincados. Em comum, apenas o facto de serem estranhos às popu lações ambundas e bacongas, e daí a designação genérica de «Jagas». O carácter específico destes grupos Imbangala («grupos», pois a palavra «povo» é incorrecta, como se verá adiante), influenciou de forma profunda a História desta região. Os Imbangala desempe nharam, sobretudo, um papel desestabilizador das instituições, da vida socioeconómica e do quotidiano das populações locais, cruzando-se com a presença portuguesa e as suas tentativas de expansão, concretizadas com maior ou menor sucesso durante o século xvii.

Algumas linhas da História da presença portuguesa no século xvii são úteis para uma melhor compreensão da complexa questão do impacte da presença Imbangala e da sua função no equilíbrio polí tico do espaço da África Central. Tendo-se estabelecido em Luanda a partir de 1575, os Portugueses cedo enfrentaram dificuldades: logo em 1584 estavam em conflito aberto com o Ngola e consideravam- -se cercados «de todas as partes». A derrota de Luís Serrão em Dezembro de 1590, perante a aliança de vários potentados, agra vou consideravelmente a situação e marcou a fragilidade das posi ções portuguesas, que se prolongou até cerca da segunda década do século xvii. O interesse inicial dos Portugueses era a procura de metais; a decepção perante a sua inexistência ou, pelo menos, inacessibilidade, muitas vezes atribuída ao Ngola ou ao rei do Con go, aliada à difícil conjuntura militar, foram as razões mais prová veis para a viragem ocorrida em 1607129, que consistiu numa nova amenizar as relações locais. A defesa de Luanda passou a ser pri mordial, e a guerra, controlada pelos poderes da cidade e pelo pró prio rei. A procura de metais foi orientada para outros horizon tes, nomeadamente os territórios a sul do Kwanza e, particularmente, Benguela. A procura de escravos seria, doravante, a grande preo cupação económica dos governadores. A viragem da política ultra marina portuguesa, com o ocaso do complexo do Indico e o defi nitivo fortalecimento do vector atlântico, pressionava o vértice Angola, no seu enquadramento global como fornecedor de mão-de-obra do Brasil. É neste contexto que se integrava a «con quista» portuguesa. Este conceito tinha, no Portugal de então, um sentido muito preciso: o domínio sob a forma de submissão das chefias locais, exigência de um tributo (geralmente «peças da índia», isto é, escravos) que constituía, sobretudo, um sinal de suserania e não um espoliar de recursos. O tributo exigido aos chefes não era mais do que o prolongamento das párias da Reconquista peninsu lar, e não diferia substancialmente das formas de domínio portu guês no Índico. A mentalidade quinhentista permanecia uma men talidade de raiz medieval. O ideal do comportamento de um homem de armas era, ainda, o da distribuição de benesses e da generosi dade; basta, no caso de Angola, apontar o caso da boa imagem que tinha junto dos soldados Bento Banha Cardoso, que enriqueceu e desbaratou toda a sua riqueza, em contraste com Manuel Cerveira Pereira, odiado pelos subordinados.

A integração do comércio de escravos nos sistemas socioeccnó- micos locais constitui um dos grandes temas da História da África Negra e o seu impacte é ainda objecto de estudo permanente. John Thornton, em trabalhos recentes, chega a resultados interessantes: em primeiro lugar, conclui que a ideia tradicional que defendia que a população do Congo no século xvi diminuirá de forma inexorá vel como consequência de uma sangria esclavagista é falsa; depois, que o impacte das forças externas ao Congo esteve longe de ser imediato e absoluto. Como afirma este autor, «as forças externas, tal como o comércio de escravos ou a vitória militar portuguesa, só operavam mediante as condições da estrutura do modo de produ ção do Congo assente na escravatura». Assim, o interesse portu-lo durante muito tempo, pelas condições económicas, sociais e polí ticas locais. Este é um factor essencial para compreender o papel dos Imbangala na aliança com os Portugueses. E que, para além do abas tecimento das feiras do interior, através dos «pombeiros», alguns governadores, nomeadamente Bento Banha Cardoso, utilizaram uma política de saque e razia no Congo e Ndongo, cujo principal ins trumento era precisamente os quilombos Imbangala. As regiões a norte do Zaire, nomeadamente o Macoco, eram também locais pre ferenciais de abastecimento de escravos. Para Vansina, os «Anzicos» formavam mesmo uma «classe especial de escravos no Brasil», refe rida ocasionalmente nas fontes. O governador Fernão de Sousa assi nalou, no entanto, a sua fraqueza. Todavia, o complexo jogo de poderes não se esgotava no factor escravatura. As rivalidades entre diversas facções políticas portuguesas (nítidas, por exemplo, no caso da expedição de Manuel Cerveira Pereira a Benguela), a entrada em jogo dos Holandeses e alteração do equilíbrio estratégico, a entrada em cena de Nzinga ou a própria rebelião de grupos Imbangala tor navam o panorama num complexo mosaico de poderes, forças, pre tensões e conflitos, que só estabilizou na segunda metade do século, com o primeiro delinear de um novo equilíbrio geopolítico.

A história de um percurso

A História dos Imbangala começou, em termos historiográficos modernos, com o cruzamento das fontes europeias com as fontes orais, a partir do seu distanciamento em relação aos «Jaga» de 1568, tradicionalmente envoltos numa aura misteriosa e sombria. Uma vez mais, ficou a dever-se ao debate Vansina-Birmingham o arranque do estudo aprofundado destes «Jaga». Partindo do estudo compa rado das fontes portuguesas e das tradições orais recolhidas no século passado (nomeadamente Henrique Dias de Carvalho e Rodrigues Neves), cruzadas com Cavazzi, estes autores envolveram-se, nos anos 1960-1966, num estudo crítico sobre a partida, o percurso e a che gada à costa ocidental das populações Lunda-Imbangala. As fontes orais falam de um guerreiro lunda, chamado Kinguri que, exilado, terá partido para oeste, fugindo à sua irmã Lueji. Devido à sua crueldade, foi morto pelos seus seguidores, que aca baram por conseguir, nomeadamente um chamado Kasanje, atin gir a costa ocidental e contactar com os Portugueses. Em traços muito gerais, é esta a história veiculada pelas tradições orais. O mote do debate entre os dois historiadores era hábil: se se conseguisse determinar a data exacta da chegada dos Imbangala à costa oci dental e do primeiro contacto com os Portugueses, poder-se-ia reconstituir todo o percurso até à partida da região da Lunda. Esta bitola temporal seria, assim, preciosa para a História da África Central, nomeadamente para a cronologia dos impérios Lunda-Luba. Contudo, deparava-se-lhes uma dificuldade: as tradições recolhidas pelos diversos autores são contraditórias, não se ajustando em mui tos pormenores. Birmingham tentou provar a chegada dos Imban gala a Angola ainda no século xvi, mais precisamente em 1575, tal vez já em 1548; a tradição recolhida por Carvalho indica, de facto, o encontro entre Kasanje e um governador chamado «Manuel». Para Birmingham, o problema estava resolvido: tratava-se de Manuel Cerveira Pereira. Ambos os autores concordavam, no entanto, que a migração Imbangala e a «invasão Jaga» foram contemporâneas, resultando daí a confusão entre os dois movimentos.

Em 1972, surgia um novo contributo, pela mão de Joseph Miller, que levou a uma alteração drástica do debate, sem réplica até aos dias de hoje. Com o trabalho deste autor toda a discussão ante rior se tornou obsoleta. Miller, após um trabalho de campo em Angola, propôs uma nova interpretação dos dados139. Em primeiro lugar, assinala o facto de as fontes orais necessitarem de descodifi cação: o «Kinguri» relatado nas mesmas não era um guerreiro, antes um título político de origem Lunda; logo, a suposta migração de um grupo definido foi, ao invés, uma lenta e complexa transfe rência do título Kinguri para oeste, através dos Songo e dos Quiocos. Os «reis» são, na realidade, dinastias, tal como o «Manuel» designa as autoridades portuguesas e não uma pessoa singular. Os parentescos omnipresentes nos relatos não revelam laços biológicos, mas sim políticos. Consequentemente, toda a cronologia proposta por Vansina e Birmingham é falsa, e qualquer África Central, o expansionismo Lunda e as dinâmicas locais. Por outro lado, Miller apercebe-se de que só um cruzamento das diver sas tradições (dos Lunda, Imbangala, Quiocos, Ovimbundos) poderá permitir uma visão global e uma compreensão integral: é que as pequenas narrativas Imbangala (malunda), assim como as genealo gias (musendo), para além de atemporais e desconexas, tendem a reter a memória apenas de factos seleccionados. Todas as tradi ções orais são, assim, incompletas, e só o seu estudo comparado permite colmatar as respectivas lacunas.

Não é necessário tratar aqui da progressão do Kinguri para oeste e das suas implicações e efeitos locais, que mais não seria, aliás, do que repetir e seguir Miller. Importa, no entanto, salientar um momento: o da adopção do Kilombo (uma sociedade guerreira e iniciática ovimbundo) pelos Lunda, que se «tornaram» assim Imban gala. O movimento do Kinguri junto ao alto Kwanza foi travado pelos estados do Songo e Kulembe, levando à sua fixação entre o Luando e o Jombo e à incorporação de títulos Songo (traduzidos metaforicamente nas tradições por casamentos). Foi nesta altura que se agudizaram as tensões entre as diversas instituições. A morte de Kinguri às mãos dos seus seguidores revela, na realidade, a aboli ção ritual do título Kinguri pelos Makota (ou seja, títulos secundá rios) Lunda, como ponto terminal de um complexo processo de luta política. A adopção do Kilombo constituiu, segundo o mesmo autor, uma resposta à pressão dos estados a oeste e coincidiu com um período de grande turbulência política. Parece ter sido o caso particular da resistência do Libolo aos Lunda a causa imediata da assimilação do Kilombo pelos Makota para permitir o combate à autoridade do Kinguri!. A ligação entre os Imbangala e os Ovim bundos havia já sido notada por Childs, que colocara a origem des tes na Lunda e reparara na analogia entre os costumes das famí lias reais ovimbundas e os dos Imbangala.

Temos, assim, grupos de guerreiros liderados por Makota, após a abolição do Kinguri. Ao adoptarem a estrutura do Kilombo, toma ram a forma de sociedades de ideologia guerreira, sem linhagens. De facto, era esta a sua característica principal: a adopção pelo tentativa em moldes semelhantes (isto é, através da simples leitura das fontes orais), inútil e inconsequente. A reconstituição do percurso, continua Miller, Kilombo dos jovens das comunidades vencidas. Por outro lado, a rejeição, no seio do mesmo, dos filhos dos guerreiros Imbangala permitiam a estes grupos uma extrema mobilidade e força. As his tórias acerca dos massacres de recém-nascidos, nomeadamente a de Temba Ndunba (que relata, na realidade, a adopção do Kilombo), digna do mais refinado cinema gore, significam, mais do que casos de infanticídio, a sua rejeição no Kilombo e a abolição das linha gens. Quanto ao canibalismo, espécie de ex-libris Imbangala nas fontes portuguesas, Miller conclui que, para além de limitado, era ritual, e significava a transformação dos humanos em «manifesta ções do estatuto não-humano dos participantes».

Os Imbangala entraram, a certa altura, no espaço da presença portuguesa na África Austral. Estes grupos constituíam máquinas de guerra temíveis; eram corpos estranhos às sociedades baconga e ambunda, itinerantes, vivendo da guerra, da pilhagem, da captura e venda de escravos; finalmente, como corpos mobilizados, de forte poder centralizado, eram elementos dissolventes das estruturas sociais e linhagísticas locais. Como diz Miller, «os bandos Imbangala sem linhagens representavam a maior ameaça potencial à identidade linhagística que os Ambundos haviam alguma vez enfrentado». A chegada dos bandos imbangala ao espaço de presença portu guesa pode ser datada dos inícios do século xvn, seguindo as infor mações do inglês Andrew Battell, que viveu pouco menos de dois anos no seio de um quilombo: vindos de sul, atacaram Ben- guela-a-Velha, passaram o Kuvo, contactaram com o chefe Kafushe Kambari (de Quissama) e aproximaram-se do Kwanza. Contudo, há autores que, apoiando-se nas fontes portuguesas, colocam a hipó tese de os Imbangala terem atingido Angola numa data anterior. O primeiro caso diz respeito a Birmingham, que considera a pre sença de um Kasanje nos arredores de Luanda uma prova da che gada dos Imbangala a Luanda na década de 1570. Este Kasanje era, na realidade, bem distinto do Kasanje Imbangala, que fundou um reino homónimo na década de 1620. Tratava-se, afinal, de um pequeno potentado junto a Luanda, dominado por Paulo Dias de Novais, rebelado mais tarde durante o governo de João Correia de Sousa, que o derrotou e fez executar publicamente o respectivo chefe. Este reino voltaria a causar problemas aos Portugueses no final da década, com o desterro do Mani Cassanje, e aquando da ocupação holandesa. Outras fontes lhe fazem referência, nomea damente Dapper e Battell.

Outro caso, igualmente um alegado indicador da chegada dos Imbangala ainda no século xvi, é também apresentado por Bir mingham e diz respeito a Kafushe Kambari, chefe do poderoso e hostil estado de Quissama; aquele autor inclui-o entre os líderes de quilombo Imbangala, baseado na tradição recolhida por Neves”. Porém, Kafushe, que liderou a resistência aos Portugueses na Quis sama era, na realidade, ambundo, como reconhecem Miller e Heintze.

A derrota de Luís Serrào, em 1590, face a uma aliança de poten tados locais, tem constituído outra hipótese de datar os Imbangala às portas de Angola ainda no século xvi. O relatório de Abreu e Brito, de 1591, fala, de facto, da união do «rei de Matamba com socorro del-rei do Congo, e o mesmo rei de Angola e dos Guin das, e dos Yaguas, reis comarcões ao reino de Angola». Mas a associação destes «yaguas» aos Imbangala é muito duvidosa, quer pelo facto de esta palavra designar genericamente qualquer «estra nho», quer, principalmente, por outras fontes da época apenas fala rem da união do Ngola com Matamba e Caculo, que não eram certamente «Jaga».

Por fim, temos o caso mais controverso, o do P.e António Men des, que fala (em 1563) do «rei de Banguela» e do «rei de Qui- tango, e muchos otros sehores grandes» que faziam guerra ao Ngola identificam este «rei de Banguela» com os Imbangala161. Heintze, no entanto, e num estudo mais profundo sobre a questão, nega- -o e relaciona este «rei» com títulos de Quissama ou Libolo dis tintos dos Imbangala. É o que parece, de facto, mais provável. A fonte refere igualmente o «rei de Quitango», que nunca suscitou interrogações, mas que pode constituir um dado auxiliar para o esclarecimento desta questão. Existe uma outra referência a este «rei», que indica que a sua importância não era insignificante: em 1564 o P.e Francisco Gouveia conta que, no decorrer de um diá logo com um habitante local, lhe afirmara ser o mais pequeno do Reino de Deus maior que «todos os senhores e reis do Mundo, maior tal ser que Angola, nem Manicongo, nem Quitanga, e outros reis que lhe nomeei negros que elle tem por grandes […]». Este «Quitango» seria, assim, provavelmente, um potentado vizinho de Angola, como o seria também o «rei de Banguela».

As semelhanças entre este nome e o «reino de Benguela», a sul do Kwanza, são demasiado evidentes, lançando a confusão a quem pretende aprofundar o problema através das fontes europeias. Knivet, por exemplo, fala do «great king of Bengala». Outras fontes tratam de Benguela como se se tratasse de um reino unitário. Baltasar Rebelo de Aragão diz em 1618 que aqui «há muitos senho res mas nenhum é rei» e que «até hoje não sabemos onde tenha seu rei». O mapa de Visa Brandão, (sem data, mas certamente setecentista, já que apresenta um esboço do plano do governador Sousa Coutinho) localiza um «Reino de Banguala» a sul do Kwanza, numa confusão evidente, ou variação, de «Benguela». Por outro lado, é de salientar o facto de existirem várias fontes que referem as guerras do Ngola ou do rei do Congo com reinos vizinhos. Knivet, em 1591, fala dos 600 homens do rei do Congo «that do war against the king of Vangala, and the king of Angola». A «Informação do reino de Angola» diz que «esta terra toda [a sul do Kwanza | é senhoreada de muitos fidalgos, que das terras que possuem são senhores absolutos mas tributários ao rei de Angola; eles uns aos outros ordinariamente têm guerra, em especial os vizinhos sobre as demarcações […]»169. Não é provável que qualquer destes dados, incluindo o «rei de Banguela» (de 1563, data precoce da presença e conhecimento locais por parte dos Portugueses) se refira aos Imbangala. O «Relatório» de André Velho da Fonseca fala de «terra de inimigos (entre os quais a maior parte come carne humana de ordinário)»” mas esta apreciação generalista parece tratar-se, já vimos, de uma mera ima gem estereotipada sobre territórios desconhecidos.

O principal obstáculo à aceitação de qualquer destes dados como reveladores da presença Imbangala é, sobretudo, a inexistência de diferenças marcantes em relação às populações locais, que são evi dentes numa fase posterior. Os Imbangala eram neste sentido, ver dadeiramente «Jaga», em nítido choque com a vida local. Embora não caiba aqui a discussão da reconstituição do percurso destes feita por Miller171, assinale-se o facto de o Memorial de Jerónimo Cas tanho ser a primeira referência portuguesa aos Imbangala, aliás em perfeita sintonia com os dados e cronologia de Battell: fala do «rei de Benguala» e dos «negros Jagas que se vienen allegando junto a ellos, y por asi ser piden socorro a Vuestra Magestad por el grande temor que dellos tienen, que vienen abrasando la tierra toda y los comen en tal manera que los comparan e son peores que verda- dera langosta [..,]»172. Aqui sim, é evidente o choque e a percep ção destes estranhos temíveis e do terror local, que se perpetuaria por todo o século xvu. Temos, assim, os Imbangala a perturbar o «Reino de Benguela» na viragem do século e, segundo Battell. a prosseguir para norte e aproximando-se do baixo Kwanza.

Os Imbangala e os Portugueses

A simples abordagem da infiltração dos quilombos Imbangala em Angola e Congo e os seus efeitos nas sociedades locais e na actua ção dos Portugueses pouco acrescenta ao estudo aprofundado de volvidas: a chegada dos Imbangala e a aliança com os Portugueses, a sua acção perturbadora e o efeito mental, quer junto das popu lações locais, quer junto dos Portugueses; as diferenças entre os Imbangala a norte e a sul do Kwanza; o caso particular de Nzinga; a estabilização dos quilombos, o reino do Cassanje e alguns sinais tardios dos séculos xviii e xix.

Já aqui foi assinalado o interesse dos Portugueses pelos escravos, que constituiu o principal motor da aliança com os Imbangala. O principal interesse destes parece ter sido o fornecimento de bens europeus, nomeadamente vinho, de que eram grandes consumidores. O papel mágico-religioso do álcool é, aliás, um fenómeno ainda mal estudado e, sobretudo, mal compreendido, mas impor tante na época. Em 1693, um senhor de Quissama atrasou por alguns dias a entrada de Portugueses nas suas terras, «por estar tomado do vinho». Quanto aos Imbangala, o papel do álcool, nomeada mente o «vinho de palma», deveria ser igualmente relevante. O que mais chocava a mentalidade local era o facto de procederem ao der rube sistemático das palmeiras, operando verdadeiras devastações.

Voltando ao problema da aliança com os Portugueses, embora não haja fontes primárias que o confirmem, é provável que tenha sido Bento Banha Cardoso o primeiro governador de Angola a uti lizar os Imbangala como meio eficaz de obter escravos. A introdu ção daqueles com a conivência portuguesa lê-se, de facto, nas entre linhas de uma célebre carta de Luís Mendes de Vasconcelos, de 1617, que diz que «é muito contra o serviço de Deus e de Vossa Majestade terem-se introduzido neste reino [de Angola] Jagas» (outra fonte, embora se refira «aos anos de 1618», diz explicita mente que «a esta gente se foi aos poucos dando entrada pelo pre sídio de Ango»). Mendes de Vasconcelos trata do aproveitamento abusivo dos «Jaga» por parte dos Portugueses, nomeadamente os governadores que o haviam precedido, que os utilizaram como «cães de caça» para a captura de escravos. A verdade é que o próprio Vas concelos viria a agir do mesmo modo Os efeitos das razias dos Imbangala. com a colaboração portu guesa eram, de facto, bastante nocivos, tornando frequentes as quei xas do rei do Congo. Logo em 1618, no entanto. Filipe III aper cebeu-se da gravidade da situação, pois indicou ter dado ordens precisas ao governador para não usar «Jagas» como auxiliares, pelo seu efeito devastador. O governo de João Correia de Sousa, com a repressão da revolta do Mani Cassanje, já referida, assinalou o auge do «terror Jaga». E que aquele potentado, rebelado contra os Por tugueses, era apoiado pelo Mani Bamba; o governador interveio e. com os seus aliados «Jaga» (que eram aqui vanguardas e corpos prin cipais de combate, e não meros auxiliares, como alguns autores ten dem a acreditar), efectuou razias em Namboangongo, chegando a massacrar, em determinada batalha, o «duque» de Bamba e parte da nobreza do Congo. E visível o horror presente em alguns rela tos, perante o cenário de ver nobreza cristã «sepultada em os ven tres dos bárbaros iagas». O choque provocado pelas incursões dos exércitos Imbangala abalava tanto os locais como os Portugueses, principalmente os missionários; a antropofagia exacerbada, referida em inúmeras fontes, nomeadamente as cartas do rei do Congo, é um sinal evidente do seu impacte psicológico. Os quilombos fun cionavam como importantes instrumentos de terror por parte dos Portugueses, garantia da submissão de potentados locais. Dizia o Bispo do Congo que as gentes da terra «temem os Jagas de maneira que de ouvir falar neles se desordenam e fogem». O efeito dis solvente na sociedade era, aliás, evidente: há queixas frequentes da fuga de escravos e de «vassalos» do Congo, ou mesmo dos Portu gueses, para se juntarem aos quilombos. Fr. Manuel Baptista cal culava em 1619 que estavam «feitos Jagas mais de quatro mil cris tãos baptizados». Porém, a aliança entre os Portugueses e os Imbangala corres pondeu apenas a uma etapa: para aqueles, a captura de escravos, a era a garantia da manutenção de uma posição de força. Para os Imbangala, a questão era um pouco mais complicada. De facto, a sua ligação aos Portugueses levou ao agudizar das tensões internas. O apoio português serviu, sobretudo, para a emancipação de títu los nào-Lunda (principalmente songos e quiocos) subordinados aos Makota, nomeadamente o Kulashingo, que ressuscitou o Kinguri com o apoio português, sob o nome de Kasanje. Isto, como demonstra Miller, explica a docilidade inicial dos quilombos face às preten sões portuguesas. Mais duvidosa é, porém, a explicação que apre senta para a atribuição do título de Jaga Cassanje ao Kulashingo, por parte dos Portugueses. Em primeiro lugar, porque, ao contrário do que afirma este autor, Jaga não foi um título inventado pelos Portugueses; como já foi dito, designava localmente o «estranho» e, se os Imbangala eram «Jagas», o seu líder era naturalmente O Jaga, e foi assim que perdurou nos hábitos. Em segundo lugar, os seus seguidores não foram chamados de «cassanjes», ao contrário do que diz Miller, pelo menos de imediato. Pelo contrário, foram ainda durante muito tempo, designados por «Jagas», só se generalizando a forma «cassanjes» (paralela, no entanto, a «bângalas») no século xix.

A tese de Miller explica, de facto, as diferenças entre os Imban gala a norte e a sul do Kwanza. Neste último caso, a hostilidade era permanente, com causas só aparentemente superficiais. Como diz este autor, «enquanto que a hostilidade das linhagens ambun- das lançara a maior parte dos Imbangala do norte nos braços dos Portugueses, a congenialidade do Kilombo no seio dos Ovimbundos permitiu aos Imbangala do sul manter-se ferozmente indepen dentes da interferência europeia». As tentativas de colonização de Benguela por Manuel Cerveira Pereira foram um fracasso, em parte devido ao facto de ser odiado pelos seus homens, que preferiam juntar-se aos «Jaga» a permanecer sob o seu comando. O gover nador Fernão de Sousa chegou a considerar o abandono da forta leza. A grande turbulência e fragilidade do domínio português na região perdurou durante bastante tempo. Em 1645, numa altura em que o palco político a norte do Kwanza, embora instável, estava contingente português, proveniente do Brasil, perto do Kuvo foi clamorosamente esmagada pelos Imbangala, e os seus elementos, «feitos manjares de Iagas». A resistência à penetração portuguesa a sul do Kwanza não era, no entanto, apanágio dos Imbangala; pelo contrário, era liderada por Kafushe Kambari de Quissama, já assi nalado. As referências à sua permanente rebelião são inúmeras durante o século xvii. Só viria a pedir o baptismo em 1690, o que foi levado a cabo em 1693.

A década de 1620 assinalou a dispersão dos quilombos e o iní cio da questão da rainha Nzinga. Do lado português, o governo de Fernão de Sousa foi particularmente importante. Quanto à disper são Imbangala, diz Miller que se ficou a dever à disputa inconcili ável entre os diversos títulos dos Kilombo, agudizada por vários anos de ligação aos Portugueses. Os anos seguintes foram marcados por várias alianças, conflitos e atritos entre estes e os diversos bandos «Jaga». A informação mais importante a reter é, contudo, o movi mento de Kasanje para leste e a fundação do reino com o mesmo nome. Ao contrário do que diz Miller, que aponta a data de 1618lvs, é certo que a deslocação de Kasanje e a saída do Ndongo ocorreu em 1623, na continuidade de um tratado de paz entre o governa dor português e o Ngola, em que este colocou como condição a expulsão do «Jaga» Kasanje do Ndongo. O «Jaga» que se afastou em 1618 foi, muito provavelmente, Kasa.

Quanto a Nzinga, não cabe aqui a abordagem do tema da mulher e do mito, largamente discutido pela historiografia tradicional, mote até para obras literárias. A adesão desta personagem ao Kilombo resultou da adopção do título de Tembanza, tradicionalmente res peitado pelos Imbangala, e teve como significado a procura de apoios para as suas pretensões políticas, externamente às linhagens às tentativas de «casamento» (ou seja, a aceitação do título no seio do Kilombo) com Kasa e, mais tarde, com Kasanje. A sua posi ção no seio dos Imbangala foi, contudo, sempre frágil. O aliado mais importante dos Portugueses nas campanhas contra Nzinga e contra os Holandeses foi o «Jaga» Kabuku ka Ndonga, que viria a receber o hábito de Santiago como sinal de reconhecimento. Cativo de Nzinga, era, tal como a sua mulher, muito respeitado pelos Imbangala, «por serem aqueles primeiros Jagas antigos que haviam descido do sertão». Não deixaria, no entanto, de trair mais tarde os Portugueses e de se juntar a Nzinga, acabando por ser capturado e exilado para o Brasil.

A ocupação holandesa de Luanda, de 1641 a 1648, constituiu uma era de dificuldades acrescidas para os Portugueses, encurrala dos em Massangano e a braços com a oposição de Nzinga, do rei do Congo e dos Holandeses, para além das rebeliões constantes, mau-grado as incursões punitivas de Diogo Gomes Morales. Foi um período marcado por grande instabilidade, em que o estado de guerra endémica surgia como a principal causa das dificuldades de comércio, nomeadamente o resgate de escravos. Com a «restau ração» de Salvador Correia de Sá, nos meados do século, veio, porém, a estabilização do equilíbrio geopolítico da região. Correia de Sá fala, em 1650, da situação estável e relativamente próspera, em termos militares, para os Portugueses, desde o Loango ao Libolo. A rivalidade entre Matamba e Cassanje, instigada aliás pelos Portugueses, marcaria as décadas seguintes, delimitando as fronteiras da penetração portuguesa para o interior. Nzinga acabaria por fazer as pazes em breve, entregando, inclusivamente, o «Jaga» Kalandula, que se havia refugiado junto de si, e abandonou o Kilombo com a reconversão ao Catolicismo. Quanto a Cassanje, tornou-se a grande ao Catolicismo, tendo chegado mesmo a escrever ao Papa, mas os efeitos da missionação e cristianização foram quase nulos.

Os Kilombo diluíram-se no mapa durante o século xvn, fundi- ram-se nas linhagens locais e acabaram por desaparecer, no decor rer de um processo específico que Miller explica cabalmente2′”. Já Birmingham tinha anteriormente sugerido a ambundização dos Imban gala. O reino do Cassanje, no entanto, permaneceu uma potên cia importante. Logo no século xvii o Jaga proibia a passagem de comerciantes pelo seu território, o que se manteve no decorrer do século seguinte. A feitoria portuguesa aí instalada mantinha-se com dificuldades, devido à constante rebelião e distúrbios locais. A vassalagem ao rei de Portugal, assinada a 19 de Dezembro de 1787, não evitou todavia a insubordinação local. Só nos meados do século xix, mais concretamente após a expedição punitiva de 1850, é que a submissão do Cassanje se efectivou. Mas o temor português perdurou: em 1879, a expedição de Capelo e Ivens foi impedida de avançar para leste, decisão que aqueles não ousaram contrariar. Alguns sinais dos antigos ritos «Jaga» eram ainda recor dados com igual temor respeitoso, nomeadamente os de eleição do novo Jaga, que incluíam rituais antropófagos e sacrifício de vítimas, embora a submissão a Portugal implicasse o abandono destes usos. Se se comparar estes com os ritos de eleição do rei do Congo, compreende-se um pouco melhor o choque de mentalidade entre os Imbangala e as populações do Congo e Ndongo, à data do pleno apogeu dos Kilombo.

Com a colaboração de academia.edu

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