“A FNLA é um monstro adormecido” – Entrevista

Por Nok Nogueira

Os anos passam e a FNLA continua a enfrentar os mesmos problemas internos sem sinais evidentes de que a reconciliação venha a ser um facto. Esta semana quatro dirigentes do partido vieram a público denunciar uma série de alegadas irregularidades. Antes, já Fernando
Pedro Gomes havia feito a mesma denúncia e contestado o acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou Lucas Ngonda à frente do partido. Na conversa que manteve esta semana com o Novo Jornal, Fernando Pedro Gomes acusa os juízes conselheiros do Constitucional de pressões políticas para beneficiar uma das alas, a de Lucas Ngonda.

Novo Jornal (NJ): Há hoje quem defina a FNLA mais como uma manta de retalhos, que, mais ano menos ano, é um partido que se vai candidatando à sua própria extinção. O Fernando Pedro Gomes é um dos actores que está envolvido num movimento que se bate para ravitalizar essa força política. Pessoalmente, acredita que consiga inverter o quadro na FNLA?

Fernando Pedro Gomes ( FPG): Acredito que sim, porque acredito nos militantes, acredito que esta é a vontade dos militantes convictos. Estes são unânimes que a unidade é possível. Nós temos estado a trabalhar nisso apesar dos travões e barreiras que nos são erguidos por pessoas que pensamos que estão eivadas de má-fé, ou seja, não querem a unidade. Querem a todo o custo maltratar o partido, continuar a assistir à desgraça dos antigos combatentes, sobretudo, já que é uma desgraça nacional.

NJ: Quem são essas pessoas?

FGP: Os problemas são vários. Primeiro é que os antigos combatentes, sobretudo os ex-ELNA não estão na caixa das Forças Armadas Angolanas, portanto não são tidos nem achados. Este é o primeiro ponto. Segundo, os processos dos antigos combatentes no geral, que são encaminhados para o Ministério da Defesa, também não têm tido um tratamento digno…
NJ: Mas referia-se a pessoas que estão a “maltratar” o partido. Quem são essas pessoas?

FGP: Penso que a sociedade os conhece. São aqueles que dirigem, são cabeças de proa do partido, que nada fazem para a sua unidade. Os episódios recentes são evidentes de quem quer a unidade e quem não quer a unidade do partido. Não podemos admitir que alguém que esteja a dirigir o partido ou qualquer outra organização lute a dividir para melhor reinar. Vai tendo crises de expulsões, de suspensões, enfim…

NJ: E de auto-afastamentos, como aconteceu agora há poucos dias com quatro dirigentes?

FPG: Não se trata de auto-afastamentos. Tratou-se de um afastamento compulsivo por parte do presidente Lucas Ngonda, porque as ditas reuniões do bureau político e do comité central recentemente realizadas visaram tão-somente formalizar a expulsão dos irmãos Laiz Eduardo,Tristão Ernesto e de mais elementos que têm processos disciplinares no partido. Esta situação não aconteceu na devida altura porque os primeiros secretários-provinciais eleitos, segundo o presidente Lucas Ngonda, corresponderam a uma renovação de mandatos, mas sem cumprir as tais formalidades de renovação. Vou dar-lhe um exemplo, o primeiro-secretário da Lunda-Norte foi eleito, mas o do Moxico foi nomeado. Em que é que ficamos? Violando os estatutos de forma clara. Depois desta reunião dos primeiros secretários que aconselharam o presidente é que o processo foi abandonado e viraram-se para mim e para o Ndonda Zinga. Sem pré-condições, sem processos disciplinares, sem sermos ouvidos, uma decisão que parte do nada para sermos excluídos do bureau político do partido e com recomendações do sobrinho de Lucas Ngonda, Nicodemos – que parece que é coronel das Forças Armadas –, que é o secretário para o controlo e disciplina para instaurar processos para a nossa expulsão em próxima reunião do comité central…

NJ: Um militar no activo a exercer a militância partidária nos órgãos sociais?

FPG: Não sabemos bem. O partido está assim. Infelizmente, não sabemos em que condições é que ele está lá. Temos muitos oficiais, até do SINSE (Serviço de Informação e Segurança do Estado) que estão lá. Agora não sabemos se estão no activo ou não. Temos lá essas pessoas que apoiam o irmão Lucas Ngonda.

NJ: Quem está fora do ambiente do partido e pretenda perceber os meandros destas constantes clivagens deverá fazê-lo partindo de que elementos essenciais?

FPG: A partir de um acompanhamento sistemático do funcionamento do próprio partido. Estamos a ver constantes conferências de imprensa, ou seja, denúncias comportamentais da pessoa do presidente Lucas Ngonda e de outros que não conseguem ter uma visão do partido, e outros que têm outros compromissos e que acham que estrategicamente algumas promessas são suficientes para salvar a FNLA. Não, a FNLA tem que fazer por onde… o voto conquista-se nas urnas e não através de promessas de sermos directores dali e de acolá, que vamos continuar a ser deputados, não é só nessas condições. A FNLA, como movimento nacionalista angolano, dispensa qualquer tipo de favores. É um património nacional, é um património dos angolanos…

NJ: Está a querer dizer o quê com esta questão de troca de favores que levanta agora?

FPG: Parece que andamos no mundo de favores. De beija-mão, ou coisas parecidas… é esta FNLA que conhecemos agora, que não é a nossa FNLA. A FNLA que conhecemos não é essa. Não vive da mendicidade. Hoje em dia a FNLA é pedinte. Temos que pedir ao órgão de soberania para tentar pôr fim a este tipo de comportamento. Temos que pedir ao chefe de Estado para atender o caso dos antigos combatentes, quando é um dever de um governo legítimo que dirige o país. Não podemos dizer que uns têm direito e outros não. Quem governa, governa para todos. Não governar para uns e desgovernar para os outros. Tudo nos leva a pensar forçosamente que existe um plano para destruir propositadamente a FNLA. Penso que devíamos esquecer todas as querelas do passado. Ninguém foi santo durante a luta de libertação nacional. Eu não vi, porque sou participante e conheço a história. Sei que todos cometeram erros. Agora, isso não pode perdurar no tempo, século dezoito, dezanove, 40 anos, sempre a continuarmos a falar a mesma linguagem. Temos que mudar para pormos o país nos carris.

NJ: A FNLA está parada no tempo, foi forçada a parar no tempo, em que situação é que ela está?

FPG: A FNLA está moribunda. É a única resposta que lhe posso dar. Ninguém na sociedade angolana, pelo menos nos tempos de hoje e aqueles que conhecem a história da luta pela libertação nacional, consegue compreender a situação actual da FNLA. A FNLA está moribunda. Então de onde vem essa moribundice? Qual é a visão que os dirigentes têm desta situação? E têm efectivamente uma visão? Qual é a missão que eles têm? Estas perguntas só podem ser respondidas por quem estiver à frente do partido neste momento…

NJ: Quem está de fora não tem capacidade de leitura sobre a situação actual da FNLA?

FPG: Tem capacidade de leitura sim, senhor… hoje em dia já ouvimos influentes membros do MPLA e de outros partidos, para não falar só do MPLA, que lamentam e também não compreendem esse tipo de dirigentes que nós temos. E dizem que o MPLA não pode desaparecer, que a FNLA não é só vossa como militantes, eles é que o dizem, que o nosso movimento é a história do país, que é herança cultural de todos nós, assim como o MPLA, é herança cultural dos angolanos. Se calhar, os outros têm outra visão que não é estae nós não compreendemos que visão é que eles têm. Mas estamos a entender aos poucos qual é a visão. Quando quem devia unir não une, quando quem devia usar uma linguagem fraterna, de irmandade, de reconciliação interna continua a ranger os dentes contra as pessoas de boa-fé para encontrar uma situação airosa para o partido, quando assim acontece ficamos completamente desnorteados.

NJ: O senhor foi, nesses últimos meses, um dos militantes para quem se apontou mais o dedo acusador… A que se devem estes ataques directos à sua pessoa?

FPG: Temem a minha pessoa porque, se calhar, sou a pessoa que mais está apostada na unidade do partido. Eles como andam contra a unidade, não é esta a ideia que têm, ou não querem o entendimento de nenhuma das alas, acho que sim… Todos eles dirigem o seu combate internamente ao invés de nós lutarmos contra os adversários políticos para o voto, etc., etc. Parece que eles não estão para aí voltados…
NJ: Não é uma acusação muito forte para quem levanta a bandeira da unidade?

FPG: Eu aprendi que a prática é o critério da verdade. Isto foi a teoria marxista-leninista que todos nós aprendemos. A prática fala por si… o que é que a prática nos diz? Agora o que nós queremos é de facto é que esses mais velhos entendam que sem unidade o partido está a sofrer desaires. Não é isso que nós pretendemos. Se calhar, não estamos preparados para o poder propriamente dito, mas no mínimo aumentar o número de deputados à Assembleia Nacional… pelo menos termos lá 30, 40 deputados.

NJ: A FNLA ainda vai a tempo de conseguir esta proeza? Ainda é possível?

FPG: É possível porque a FNLA é um “monstro” adormecido. Muitos dos nossos avós, os nossos pais foram da UPA-FNLA porque foi o primeiro movimento que existiu aqui. Con-trariamente às falsas histórias que são contadas por aí, foi o movimento libertador que carregou sobre os seus ombros o fardo de libertar Angola e tudo isso todos nós sabemos. Se calhar as barreiras que muitos colocam são devidas a esse facto. Mas a verdade é uma: todos não po-demos governar ao mesmo tempo.

NJ: E é pretensão do senhor estar à frente da FNLA para conseguir essas conquistas?

FPG: O meu problema é o da unidade. Temos que lutar pela unidade do partido. Temos que falar numa linguagem que desemboque na reconciliação, na coesão do partido, enfim, na irmandade do partido. É claro, obedecendo aos instrumentos que nós próprios aprovámos: os estatutos, a Constituição da República, a Lei dos Partidos Políticos, portanto, é disso que estamos a falar. No mínimo, tem que haver transparência naquilo que estamos a fazer. Agora quando as pessoas querem ser outra coisa que não aquilo que os outros querem que seja então estamos a ferir susceptibilidades. O caro jornalista não imagina quantos antigos combatentes da FNLA morrem por dia. Nem imagina que fardo é este que a FNLA tem e que não consegue sequer resolver o problema dessas pessoas. São as pessoas individualmente consideradas que vão contribuindo para irmos enterrar os nossos ex-colegas. Isto é terrível e é um trabalhão para convencer as pessoas que Angola é esta, e que o problema não era só chegar ao poder, era libertar Angola. E Angola é esta que está libertada. Mas o pior disso tudo é que as pessoas estão a ser maltratadas pelo próprio partido. O partido não luta por eles, não luta pela unidade, não luta para que um dia o militante da FNLA possa sorrir e enfim dizer que está satisfeito. É isso que os nossos dirigentes não fazem. Mas nós temos dito o seguinte: a unidade dos militantes deve ser feita já. Os militantes têm que se reencontrar já para definir o futuro do partido, porque não podemos continuar com esse tipo de direcções e com esse tipo de dirigentes que não honram os compromissos, os interesses superiores do partido.

NJ: Lucas Ngonda e Ngola Kabango já não servem os interesses do partido?

FPG: Não. Não diria que eles não servem. Está errado. Não há organização sem mais velhos. Se houver uma nova geração para assumir a direcção do partido tem que honrar esses mais-velhos. São os históricos. A meu ver, esta tem sido sempre a minha ideia, é que eles dependem dos militantes sobre o posicionamento no partido. Ngola Kabango é útil, é histórico. Se calhar na geração dos históricos não deve haver três ou quatro com a sua dimensão. Mesmo no MPLA não há pessoa com a dimensão de Ngola Kabango, não há na UNITA, só que eles tinham que fazer por isso, demonstrar isso, que é um das figuras históricas que está em vida. Infelizmente, querem ficar a fazer culto da personalidade, talvez esses adjectivos todos os envaideçam. Não, é preciso irmos com humildade…Do ponto de vista clássico não somos da geração deles. Não vamos continuar intolerantes como eles, querendo apenas uma linha dura, permanecer por ali… até o presidente Lucas Ngonda, que veio falsificar as pessoas com reformas, afinal ele não é um reformista. Está a ver a questão geracional como é que funciona! Agora, por exemplo, foi o Tristão Ernesto e Laiz Eduardo que vieram denunciar graves irregularidades no partido. A única pessoa que não vê irregularidades no partido é o Tribunal Constitucional. Isto é admirável!

NJ: Era a questão que iria levantar agora… Uma das acusações que foram levantadas bem recentemente foi, e cito, que a sorte de Lucas Ngonda é estar protegido pelo Tribunal
Constitucional… Se não fosse o Tribunal Constitucional qual seria o órgão que haveria de proteger o partido?

FPG: A pergunta seria qual é o papel do Tribunal Constitucional nessa matéria. Nós sabemos, falamos com as pessoas, com os juízes conselheiros e dizem que recebem muitas pressões políticas… e da boca deles, que há muitas pressões… Nós dizemos, mas meu amigo, apliquem o Direito… porque senão o país não vai avançar. Tenho dito que enquanto o poder judicial não tomar a peito as suas responsabilidades a democracia não vai marchar. Vamos voltar à tirania com o selo branco do próprio Tribunal Constitucional, do poder judicial. Isso não funciona assim!

NJ: Está a dizer que o problema da FNLA não é só um problema de discussão política clássica mas que é também resultado de supostas artimanhas feitas à pala do poder judicial?

FPG: O processo da FNLA ainda não fechou. Ainda está lá. Eu fiz o recurso do acórdão que eles produziram. Agora, onde é que eles se basearam, quando a acta eleitoral está lá, quefala de 709 delegados contra 1501 que deviam estar presente no congresso? Além desses 709 delegados ao congresso ainda há a salientar 142 falsos delegados, tudo isso demonstrado em papel e remetido ao Tribunal Constitucional, mas eles foram encontrar um outro número mágico a dizer que houve lá 870 e que legitima, sim, a eleição de Lucas Ngonda. Houve crianças que foram votar. Todas essas coisas foram denunciadas. Remetemos, por província, nominalmente, os falsos delegados que estavam no congresso. Que tipo de prova é que precisam mais para emitir aquele tipo de acórdão? Por isso é que eu recorri do acórdão porque de facto estava eivado de vícios. Por outro lado, seria uma boa oportunidade para o próprio tribunal resolver os problemas do partido.

NJ: Lucas Ngonda, numa entrevista ao Jornal de Angola disse que não tem inimigos nem adversários, que é um militante como qualquer outro e que está a promover o interesse comum…

FPG: Isto é demagogia. Aliás, nós estamos habituados a disfarces desse género. O que é que justifica entã a expulsão de Fernando Pedro Gomes, Ndonda Zinga, Laiz Eduardo, processo disciplinar, Tristão Ernesto, processo disciplinar; as exonerações dos primeiros-secretários, sem pré-condições, sem obediência aos estatutos e a consequente destituição do bureau político. Não foram só exonerados, atenção. São cerca de oito primeiros-secretários, de oito províncias. Isso não é demagogia? Os chineses também já estão a praticar a democracia, portanto, a mentira já não chega à China.

NJ: Para terminar, Lucas Ngonda não é esta pessoa que diz ser nesta entrevista ao Jornal de Angola?

FPG: Não. E não é ideal para o partido. Não serve para a FNLA. Não serve para dirigir uma organização como a FNLA. Ele já não serve, nem tem capacidade para isso. Ele que encontre
outros motivos para justificar mas o irmão Lucas Ngonda não tem capacidade. E não é líder. É um chefe e os chefes não cabem na FNLA de agora. Couberam na FNLA passada, agora não.

"No MPLA nâo existem homens com dimensão históricas como Ngola Kabangu" - na Imagem, Ngola Kabangu, Holden Roberto e Daniel Julio Chipenda, de direita à esquerda, no tempo da luta pela libertação de Angola.

“No MPLA nâo existem homens com dimensão históricas como Ngola Kabangu” – na Imagem, Ngola Kabangu, Holden Roberto e Daniel Julio Chipenda, de direita à esquerda, no tempo da luta pela libertação de Angola.

Via NJ

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    Mina de Tetelo- Mavoio projecta a exploração de cobre.

    “NOSSA PRIORIDADE É COMBATER A FOME, A PROBREZA E ELECTRIFICAR TODAS AS SEDES MUNICIPAIS DO UÍGE.”

    Por António Capitão

    A prioridade da governação no Uíge passa pelo combate à fome e à pobreza, incluindo a electrificação das demais sedes municipais, além do Uíge, Negage e Maquela do Zombo, considerou o governador da província, em entrevista aos órgãos locais de comunicação social, que decorreu num dos estúdios da Rádio Uíge, do grupo Rádio Nacional de Angola (RNA). José Carvalho da Rocha revelou que os três municípios mencionados já beneficiam de energia eléctrica do sistema interligado nacional.

    Desde Outubro de 2020 que passou a dirigir os destinos da província, já andou pelos antigos 16 municípios, hoje 23. Como encara a situação das estradas que interligam as várias localidades?

    No Uíge, temos uma malha rodoviária que interliga os nossos municípios. Algumas estradas estão em bom estado, outras precisam da sua manutenção e recuperação e outras, ainda, precisam ser construídas. Precisamos de construir a estrada Songo-Lucunga-Bembe, voltar a construir o troço Alfândega-Alto Cauale, assim como Macocola-Milunga-Massau, Maquela do Zombo-Sacandica, Quimbele-Alto Zaza, Sanza Pombo-Buengas (agora Nova Esperança) e fazer, de forma alternada, Vista Alegre-Quipedro ou Ambuíla-Quipedro. Um trabalho que já deve incluir os sete novos municípios.

    Estes, são, de forma imediata, os grandes desafios que temos para continuarmos a melhorar a nossa malha rodoviária. Podemos fazer estas estradas, mas não tem de ser, necessariamente, vias asfaltadas. Podem ser aquelas com uma sub-base bem-feita, porque precisamos de forma imediata. Há exemplos deste tipo de rodovias que são desenvolvidas na África do Sul e na Namíbia que funcionam e nos podem permitir dar respostas às nossas necessidades de mobilidade.

    Pode apontar datas, senhor governador?

    O que nós queremos, de facto, longe de se prever datas, é que as populações do Sanza Pombo, Nova Esperança e todas as outras vias adjacentes tenham de volta os seus “sapatos”, como pediu o Rei Muana Uta ao Presidente da República, João Lourenço. Temos estado a trabalhar neste sentido e é importante verificar que temos um grande constrangimento, neste momento, por estarmos numa região que chove bastante e todo trabalho que já foi feito, deve ser revisto porque foram danificados pelas chuvas durante o tempo em que a empreitada esteve paralisada.

    Na última viagem que fomos ao antigo Buengas, saímos de lá por volta das 15 horas e, por conta da carga de chuva entre aquela região até ao Sanza Pombo, chegamos à cidade do Uíge apenas às nove horas do dia seguinte. É para se ver a dimensão do problema que temos para a construção desta estrada. Mas, o que vos posso garantir é que este “sapato” vai ser devolvido à população. Custe o que custar!

    Quanto ao município do Bembe, estamos a trabalhar com o Ministério das Obras Públicas e com o Governo Provincial do Zaire para que seja feita uma ligação entre Songo-Lucunga-Mbanza Kongo e Lucunga-Bembe. Os passos para este projecto estão avançados e esperamos que nos próximos tempos possamos ter várias novidades para as duas províncias. Vai ser uma estrada de terra-batida com solos melhorados e nos moldes dos países já mencionados.

     

    Para quando a transformação do Uíge numa das regiões tecnológicas do país?

    Ainda não conseguimos transformar a província do Uíge numa região fortemente tecnológica. Pois, com franqueza, o nosso sonho ainda não foi materializado. Estamos a caminhar e estamos felizes por termos encontrado muitas bases, quanto a isso. Primeiro, encontramos recursos humanos, dentre eles, muitos jovens formados na área da Engenharia Informática e, nós, procuramos criar um pequeno centro tecnológico que equipámos, pegámos nestes jovens engenheiros e demos a formação adicional de que eles precisavam.

    Demos a formação para que eles pudessem dominar tecnologia ligada à CISCO, uma das maiores empresas ligadas ao fornecimento de equipamentos e em Angola existe uma academia que atende o nosso país e São Tomé. O que fizemos foi pegar em 11 jovens que instruímos na área de utilizadores, na óptica profissional para que pudessem transportar estes conhecimentos para a província os conhecimentos em CCNA 1 e 2 que qualquer técnico ou engenheiro na área de IT (sigla em Inglês para Tecnologia de Informação) precisa, por ser a base e com certificação internacional.

     

    Onde é que tais cursos podem ser ministrados e pode dizer-nos se os mesmos têm certificação internacional?

    Transferimos para o nosso Centro de Formação Tecnológica do Uíge (CFTU) e, claro que estes cursos têm certificação internacional. Consta, igualmente uma área de eléctronica de reparação, pois fomos comovidos pelas nossas constantes visitas ao mercado municipal do Uíge, onde fiquei encantado ao encontrar vários jovens a mexerem em quase tudo, o que me faz perceber que precisam apenas de orientação.

    É isto que pretendemos fazer com o centro, além de outros projectos, como levar esta experiência ao Negage e Maquela do Zombo para podermos dar a oportunidade aos nossos jovens de participarem nas férias e workshops de tecnologias e criarem projectos para o desenvolvimento da província e acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mundo. Hoje, já se fala da Inteligência Artificial (IA) e temos de acompanhar todos estes desenvolvimentos.

    Da avaliação que faz, é possível notar se os jovens do Uíge têm sabido tirar bom proveito do CFTU?

    Pelo que sentimos, sim! Basta ir-se ao centro, quando se abre um período de formação, é possível constatar uma grande adesão de jovens da nossa província e de outras. Já tivemos também a oportunidade de formar jovens da vizinha província do Cuanza-Norte e o que queremos é que o centro atenda a toda essa região Norte.

    Temos sempre que pensar em algo maior, tendo em conta que o CFTU foi idealizado para este propósito. Marcamos os passos iniciais e, hoje, pelas exigências e interesses das pessoas, sentimos que ficamos ultrapassados e devemos pensar em uma infra-estrutura com maior capacidade.

     

    O Uíge já organizou três Feiras de Invenção Tecnológica e os expositores apresentaram vários projectos ambiciosos. Como o Governo do Uíge pretende aproveitar esses talentos, sobretudo os ligados à IA?

    O nosso objectivo é formar e permitir com que os jovens adquiram o máximo de conhecimento para que eles, depois, possam ser, também, grandes empreendedores. Este é o nosso grande objectivo. Existem muitos projectos com os quais temos estado a trabalhar. Por exemplo, há um bastante interessante que é o de descasque de ginguba em que desafiei os jovens inventores a resolverem o problema do ruído que o equipamento emite.

    Se eles, de facto, conseguirem resolver este problema, temos uma máquina que pode ser promovida para solucionar esta tarefa. Também os desafiei a olharem para fontes alternativas de energias, o que eles se comprometeram em solucionar. Caso consigam superar estas duas questões, vamos ter um equipamento que vai poder ser utilizado com muita frequência em qualquer zona do nosso país. Mas, o protótipo que eles têm já funciona e eu tenho um em casa que uso muito aos finais-de-semana para descascar a ginguba que produzo no meu campo.

    Como encara a questão das ravinas que, em muitas localidades, retira sono às populações?

    As ravinas são um grave problema que temos na nossa região, por conta das quantidades de cargas pluviométricas que caem aqui e pela qualidade dos solos em muitas zonas do Uíge. Há quem já se esqueça dos problemas que tivemos com as ravinas nos morros do Kimalalu e Matabicho, na via do Quimbele. Foi um grande esforço para se repor a circulação naquela estrada, uma vez que tivemos de conter 13 ravinas que tínhamos naquele troço.

    Estamos, agora, a engajar-nos para solucionarmos o problema das ravinas no troço Damba-Maquela do Zombo, onde estamos decididos que, com ou sem elas, a nossa população não perca a mobilidade. Na província do Uíge estão catalogadas mais de 50 ravinas de grandes dimensões e muitas outras em formação. É um trabalho que está a ser resolvido pelo Ministério das Obras Públicas, no âmbito do Plano Emergencial de Combate às Ravinas no país.

    Ainda assim, com os meios à nossa disposição, sempre que podemos, vamos tapando aquelas que estão em progressão e, dentro do programa emergencial do Ministério, têm sido tratadas muitas. Nesta altura, o grande desafio é na via do município de Milunga, onde as residências, construídas no âmbito do projecto dos 200 fogos habitacionais, estão em risco de desabarem, o que está a merecer a atenção especial do Ministério das Obras Públicas.

    Para quando o fim das dificuldades na circulação entre Uíge-Bengo-Luanda?

    As pessoas que passam por esta via têm constatado algum trabalho a ser feito pelo Governo do Uíge, tendo em conta que orientamos o nosso director provincial para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas no sentido de se evitar a presença de buracos na nossa parte da estrada. Fazendo um trabalho paliativo de tapa-buracos com os poucos recursos que possuímos, seja barro, areia, mistura de areia e cimento ou brita e asfalto.

    Esta orientação é no sentido de que desde a ponte sobre o rio Dange até à cidade do Uíge possamos andar com mais segurança. Pretendemos fazer o mesmo esforço até à cidade do Negage. É um desafio que temos de tapar os buracos, tendo em conta que se tratam de estradas nacionais e sua total intervenção é da responsabilidade do Ministério. Mas, como somos nós a estar no terreno, sentimo-nos na obrigação de contribuir para que as nossas populações tenham uma mobilidade normal e segura.

    Em relação ao tratamento que se deve dar à esta estrada devido ao capim, existem zonas que temos estado a melhorar. São 136 quilómetros, desde a cidade do Uíge até ao rio Dange em que devemos empreender muito esforço para melhorar a visibilidade. Devemos, neste esforço, destacar o contributo do comando da Região Militar Norte (RMN) das Forças Armadas Angolanas (FAA) nas acções de capina e desmatação das bermas desta estrada. A sua situação é preocupante porque nós, particularmente, usamos esta estrada com muita frequência e procuramos fazer com que, dentro do nosso território, existam as mínimas condições de transitabilidade.

    A julgar pelo que defende e pratica, é um incentivador da actividade agrícola. O desafio é transversal a todos os cidadãos ou apenas para alguns?

    Todos precisamos de começar. Na verdade, o nosso chão dá tudo. Qualquer dúvida, é sempre aconselhável que se visitem as nossas feiras de produção agrícola que realizamos com frequência onde os nossos papás e mamãs expõem a sua produção. Vivemos numa região linda e abençoada com muitos solos aráveis, uma vasta hidrografia composta por rios de diversas dimensões e lagoas, e um clima favorável.

    O que temos estado a fazer é incentivar as pessoas para podermos produzir alimentos com dois objectivos: termos os alimentos para a nossa alimentação e o excedente para comercializar e permitir que as famílias tenham renda, porque entendemos que desta forma elas vão poder melhor as suas condições de vida.

    Nós, particularmente, desafiamo-nos a produzir e lançámos este desafio às administrações municipais e, para a materializarmos, lançamos, dentro do Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP), no seu primeiro item, um subprograma que designamos de Programa Local de Apoio à Agricultura Familiar (PLAAF), uma iniciativa nossa do Uíge, onde preparamos terras para entregar às famílias para que elas possam produzir.

    Não está na hora do trabalho manual dar lugar à mecanização?

    Temos consciência que, nas actuais condições, já não é possível produzir, em grande escala, com enxadas, catanas e outros meios rudimentares e, por isso, com o apoio das administrações municipais, é feita uma contribuição pecuniária que já nos permitiu, desde 2024, comprar, todos os meses, um tractor, uma grade e uma alfaia. Nesta altura, já adquirimos 11 tractores e suas grades e alfaias.

    Este programa, está a permitir aumentar a quantidade de terras lavradas de forma mecanizada para oferecer às nossas famílias para produzirem. Fruto deste trabalho e das exposições apresentadas com produtos obtidos deste projecto, despertou a direção central do governo que orientou a criação do Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF), como instituição não bancária dedicada ao financiamento às actividades agrícolas para trabalhar connosco.

    Desta abertura do governo central, já foi possível financiar, aqui na província do Uíge, 32 cooperativas agrícolas com equipamentos de mecanização agrícola, permitindo, paulatinamente, aumentar a mecanização da actividade na província. É um trabalho que exige paciência, resiliência e força para atingirmos as nossas metas. Devo afirmar que estamos a fazer um bom trajecto com uma curva exponencial e temos estado a caminhar bem.

    Há exemplos do que podemos chamar de sucessos com o Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF)?

    Hoje, temos muitos municípios que são exemplos de sucesso devido à implementação do PLAAF, como o Uíge, Negage, Songo, Mucaba e Puri. No geral, todos os municípios se estão a integrar e isto é o que pretendemos, pois entendemos que se alinharmos o PLAAF à investigação científica, chamando o mundo académico a este trabalho, com realce para a Universidade Kimpa Vita, temos condições para sermos um verdadeiro celeiro para o nosso país.

    Àquelas administrações municipais onde o PLAAF ainda está longe de materializar os objectivos, devem perceber que este movimento é um comboio e todos devem estar alinhados. Queremos, agora, implementar o subprograma nos sete novos municípios para ver como eles se vão encaixar. Dentro do nosso subprograma de apoio à agricultura familiar, também entendemos, além da distribuição de meios de trabalhos, desenvolver um banco de sementes que está a ser implementado no município do Negage para suportar a nossa actividade e quem nos solicitar com sementes melhoradas.

     

    Os agricultores continuam a reclamar pela falta de apoios da banca. Qual tem sido a intervenção do Governo da província?

    Temos estado a trabalhar intensamente com a banca e com o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura (FADA). O que nós queremos, primeiramente, é que todos os interessados possam contactar o nosso gabinete provincial de desenvolvimento económico integrado para tratarmos da documentação necessária para que as pessoas tenham acesso aos créditos.

    Foi com apoio deste gabinete que permitiu que o FADA financiasse mais 32 cooperativas agrícolas na província e pretendemos que muito mais sejam financiadas. Estamos abertos a apoiar os camponeses. Basta que nos contactem. Precisamos prestar atenção e apoiar os produtores e, alinhar a isso também, as tecnologias para produzirmos bastante para abastecermos o país e contribuir no aumento das exportações.

    Como anda a aposta na electrificação da província?

    Temos estado a trabalhar bastante. É sabido que, desde que cheguei ao Uíge, andei, de forma ininterrupta, durante três meses por toda a província. Depois de toda constatação feita, cheguei à conclusão que se queremos caminhar para o desenvolvimento e mudar, efectivamente, esta nossa região, precisamos trazer aqui este catalisador que é a energia eléctrica.

    Nos tempos de hoje, nós precisamos deste catalisador. No entanto, tivemos que estabelecer um programa, ir à busca de apoio do Titular do Poder Executivo, o camarada Presidente João Lourenço, e dos Ministérios da Energia e Águas e das Finanças, assim como de outros órgãos. Nesta altura, tínhamos de organizar os termos de referências, usando várias mentes da província e de outras regiões, que conseguimos concluir depois de seis meses.

    Com este instrumento e os apoios obtidos, foi possível darmos e ultrapassarmos os diferentes passos, desde a mobilização do financiamento, vistos do Tribunal de Contas e negociações com a banca e, hoje, já podemos dizer que “já se vê uma luz no fundo do túnel” e, a qualquer momento, vai se dar início a todo este movimento na região em que a primeira fase se dá com o arranque dos trabalhos, nos municípios da Vista Alegre, Quitexe, Ambuíla, Bembe, Songo, Mucaba, Bungo, Nsosso e Puri.

    Onde começar inicialmente?

    Faremos, inicialmente, 11 municípios e suas aldeias com maior densidade populacional. Também estamos, paralelamente, a trabalhar para a segunda fase que vai encerrar os outros municípios que não me referi anteriormente. Andamos a fazer o trabalho de caso que também não tínhamos a noção que seria moroso, visto que temos de cumprir com a lei e mobilizar financiamentos desta dimensão.

    Mesmo com todos os constrangimentos possíveis e adversidades, queremos que as populações beneficiem deste catalisador de desenvolvimento. Queremos, com isso, alavancar a indústria transformadora onde a maracujá do Puri e Mucaba sirvam para produzir polpas, compotas e sumos. Que da mandioca saia a farinha. Para esta transformação para o desenvolvimento, é preciso a energia.

    Já vislumbramos uma província bem servida de energia eléctrica e desenvolvida. A vida passará a ser feita, verdadeiramente, nos municípios. Imaginem que ainda vivemos num período em que o administrador municipal tem que ligar o gerador de corrente eléctrica às 17 horas e depois o desligar depois das 23. Temos de vencer esta dificuldade e queremos que as aulas nocturnas aconteçam e que outras actividade possam ser desenvolvidas no período nocturno. Vai, de facto, acontecer uma mudança na vida dos nossos munícipes.

    Nesta primeira fase, para a electrificação dos 11 municípios, já foram mobilizados 190 milhões de dólares norte-americanos e para a outra fase se estima mobilizar outros 100 milhões de dólares, totalizando 290 milhões de dólares norte-americanos. Isto demonstra a vontade do Executivo, face a situações internas e externas adversas, em levar a província ao desenvolvimento.

    Que projectos estão em curso para o sector das águas?

    No domínio das águas, estamos a trabalhar, também, com o Ministério da Energia e Águas para a conclusão dos projectos de construção dos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água dos municípios de Maquela do Zombo e Damba. Tudo estamos a fazer para que a cidade do Uíge receba 15 mil novas ligações domiciliárias em zonas onde ainda não existem.

    Temos noção do problema, não apenas nestas três regiões, mais em todo o território e estamos a trabalhar para melhorar esta situação. Se as pessoas tiverem água corrente, se vai poder evitar muitas doenças, como, agora, o surto de cólera que assola o país. Devemos todos entender que água é vida.

    Como está a questão da segurança pública, sobretudo na principal cidade da província?

    Além de alguns relatos de criminalidade, eu acredito que andamos bem, pois também ando em todos os períodos na nossa cidade e tenho esta sensação. Os órgãos de defesa e segurança têm estado a fazer um esforço para que tenhamos, cada vez mais, segurança de noite e o que nós devemos fazer é apoiar estes órgãos nas suas actividades diárias para que as populações continuem a viver sem grandes constrangimentos.

    Assistimos uma melhoria nos níveis de criminalidade. Basta olharmos pela densidade populacional da província e as actividades nocturnas que se realizam. Tudo isso se reflecte na segurança que temos porque os órgãos de defesa e segurança têm estado a trabalhar intensamente.

    Ainda se continua a verificar a venda desordenada e em locais impróprios na cidade do Uíge. O Governo desistiu desta luta?

    É necessário insistirmos na educação das nossas populações para que percebam que a atitude delas não é correcta. Por isso, temos estado a desenvolver um programa conjunto com a Administração Municipal do Uíge no sentido de sensibilizar os cidadãos vendedores de ruas e nas ruas para que sejam retiradas destes locais não autorizados onde se encontram a realizar as suas actividades comerciais.

    As vendas devem ser feitas em condições higiénicas e em locais próprios. É isso que temos pedido aos nossos cidadãos e vamos continuar a trabalhar incessantemente para continuarmos a ter uma cidade cada vez mais acolhedora.

     

    Quanto à vandalização de bens públicos. Qual é a estratégia do Governo Provincial para se acabar com estas práticas?

    São todas estas situações que têm nos obrigado a reforçar as acções de educação cívica dos nossos concidadãos para que não enveredem por estas práticas e, ao mesmo tempo, temos estado a combater estas acções para que as pessoas compreendam que os bens públicos devem ser cuidados para servirem para todos nós enquanto habitantes desta região.

    Não vamos permitir que as pessoas continuem a vandalizar esses bens públicos. O Governo tem gasto muito dinheiro para a colocação destes bens essenciais à disposição da população, daí que temos que olhar que tudo aquilo que fizemos hoje, deve beneficiar esta geração e as outras vindouras. Portanto, temos a obrigação de cuidar deles e é uma obrigação de todos, enquanto cidadãos, na medida em que não devemos nos manter impávidos enquanto alguém esteja a vandalizar um bem público.

    É necessário que todos desenvolvam a cultura da denúncia. É isto que todos devemos fazer, até porque desta forma estaremos a ajudar os órgãos de defesa e segurança na proteção destes bens que, no fundo, todos nós utilizamos.

    Como anda o projecto do Governo para a distribuição de lotes de terrenos para a auto-construção dirigida?

    Andamos a ensaiar um programa com o qual queremos que os jovens, particularmente aqueles que queiram fazer as suas primeiras habitações, se interessem pelo mesmo. Este programa começou a ser desenvolvido no bairro Catapa, na zona adjacente ao projecto habitacional da juventude, e, agora, começamos junto à Centralidade do Kilumosso onde já distribuímos vários lotes há cerca de seis meses.

    Lamentavelmente, no início notamos que havia uma enorme pressão por parte dos jovens que tinham requerido os mesmos lotes de terreno, mas, até agora, pouco ou nada foi feito nestes espaços cedidos. Com base nesta constatação, estamos a estudar o fenómeno para entendermos o que realmente se passa para as pessoas não construírem as suas casas e vamos nos dar respostas a estas questões que nos auto colocamos.

    No entanto, é nossa intenção continuar a promover a aparição de novos bairros com o projecto de auto-construção dirigida com zonas urbanizadas e equipamentos sociais que tornem a vida mais bela e fácil. Estamos muito focados na região do Kilumosso onde já pode verificar alguma iniciativa privada de pessoas singulares e colectivas que estão a construir habitações.

    Esta experiência iniciada no município do Uíge, vamos replicar para o município de Negage ou, melhor para os 23 municípios que agora a província comporta. Estamos focados no município sede onde pretendemos tirar todas as ilações do programa para que mais facilmente possamos implementar em outras regiões da nossa província.

    Nesta altura, 400 jovens já receberam lotes de terreno para a auto-construção dirigida no Catapa e no Kilumosso. O período para eles darem início a construção das suas moradias é de seis meses. Passado este período, somos obrigados a nos inteirar sobre quais são os constrangimentos, que podem ser diversos, e esta avaliação vai nos permitir tomar uma atitude, muito brevemente, sobre que medidas a adoptar.

    O que tem a dizer sobre os constantes relatos de sinistros com famílias que vivem em zonas consideradas de risco?

    Lamentavelmente é a nossa realidade e que precisamos ultrapassar com urgência. O governo da província, sempre que tem condições, movimenta populações para os reassentar em zonas mais segura. Já fizemos aqui na zona da rotunda da Bangola e do Quitexe onde retiramos 40 famílias. Também reassentamos os antigos moradores do prédio AC e em outros pontos que achamos serem críticos.

    São sinais para poderem ver que estamos atentos a estas situações e sempre que tivermos condições que nos permitam construir novos reassentamentos, vamos continuar a movimentar famílias para lhes dar maior segurança.

    O Uíge possui vários recursos minerais e já se assiste uma crescente exploração ilegal dos mesmos. Que medidas estão a ser tomadas para travar o garimpo?

    Depois do potencial agrícola e turístico, o mineiro começa a despontar e o grande exemplo é o projecto Tetelo-Mavoio, a primeira mina subterrânea do país, a cerca de 600 metros de profundidade, no município de Maquela do Zombo que vai permitir que nos próximos tempos se explore e produza cobre, garanta mais empregos para a juventude local e contribua para a economia nacional.

    Existem outras empresas que estão a fazer prospecção de outros mineiros na nossa região. Mas devemos, de forma contundente, repudiar o crescimento preocupante da exploração ilegal de recursos minerais na província. Estamos agora com a “febre” do ouro no município do Songo e outras regiões, uma actividade que devemos combater energicamente.

    É necessário que o garimpo ilegal seja combatido devido às consequências ambientais e outras que esta prática traz para o nosso território. Estamos a trabalhar, conjuntamente, com o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, para se organizar e coordenar toda a exploração mineira na nossa região.

    Que avaliação faz do sector da Saúde e Educação na província?

    A área social, sobretudo Saúde e Educação, está no topo das nossas prioridades e principais preocupações, porque precisamos de levar a saúde à toda nossa população. O que temos feito é melhorar e capacitar os nossos recursos humanos, no âmbito do programa nacional do Ministério da Saúde de formação dos profissionais do sector em especialidades na área da Medicina, Enfermagem e outras de especialização. Estamos, também, a trabalhar na construção de mais infra-estruturas sanitárias para continuarmos a oferecer melhores serviços à nossa população. Ainda não atingimos algumas metas, por existirem, ainda, deficiências no atendimento aos utentes, na distribuição grátis de medicamentos, mas o mais importante é que estamos a fazer o caminho e continuamos atentos e a projectar uma melhoria dos nossos serviços à população.

    Existem, também, grandes desafios com o sector da educação, onde precisamos de diminuir o rácio aluno/professor nas salas de aulas, com a construção de mais infra-estruturas escolares, sobretudo no âmbito do PIIM que permitiu introduzir, até ao momento, 43 novas escolas na nossa rede escolar. Existe um programa do financiamento do Governo espanhol para a construção de 15 escolas de 24 salas de aulas, cada, das quais cinco já foram concluídas nos municípios do Uíge (2), Songo (1), Quimbele (1) e Maquela do Zombo (1).

    Estamos, agora, a trabalhar para a construção das outras 10 que deverão albergar institutos médios técnicos que são as principais solicitações dos alunos da província para os cursos de construção civil, electricidade, mecânica, electrónica e informática e soldadura industrial para que os nossos filhos, quando saírem destas escolas, não tenham que pressionar o Estado pela falta de emprego, mas que criem o auto-emprego e sejam empregadores.

    E o que se pode dizer do Ensino Superior?

    Neste segmento de ensino, o que devemos fazer é, primeiramente, fortalecer a base com cursos superiores variados, particularmente para os da área tecnológica. Sabemos que está a surgir o potencial mineiro, por isso precisamos de formar muitos técnicos e o diálogo mantido com a Universidade Kimpa Vita é que, além dos cursos já ministrados, que se oriente, também, para as tecnologia e engenharias.

    Precisamos, localmente, de ter um curso superior de construção civil, mecânica, electricidade e outras para absorverem as saídas nas escolas do ensino médio. Há, ainda, a necessidade de resolvermos o problema do défice de médico na província e a nossa Universidade é desafiada a promover o curso de medicina para formarmos quadros dos municípios e estes retornarem às suas áreas de proveniência para melhorar a assistência médica e medicamentos.

    É um diálogo permanente com a Universidade Kimpa Vita para sejam incluídos nos seus planos curriculares cursos ligados às áreas das tecnologia e engenharia, assim como a implementação dos graus de mestrados e doutoramentos. O mesmo apelo é extensivo para instituições de ensino superior privadas.

    Como tem sido a relação com as igrejas?

    Deve-se compreender que não só do pão vive o homem… Portanto, nós precisaremos das igrejas para nos ajudar a criar esta nova sociedade que pretendemos. Elas vão continuar a ser os nossos grandes parceiros sociais por tudo quanto representam na sociedade e por tudo quanto os servos de Deus têm estado a fazer no crescimento da nossa região, nos campos da educação, saúde, na moralização da população e nos trabalhos sociais para os quais podemos contar com elas em qualquer momento.

    Senhor governador, como avalia o trabalho feito pelos órgãos de comunicação social?

    Obrigado! Não é uma questão fácil, por isso nos devem compreender. Desde que cá chegamos, nossa avaliação tem sido positiva, pois começamos, logo, a fazer visitas de constatações às instalações da Rádio Uíge, Jornal de Angola, Agência Angola Press (Angop) e Televisão Pública de Angola (TPA), onde constatamos inúmeras dificuldades.

    Estas dificuldades vão desde a falta de materiais de trabalho, transportes, más condições das instalações onde trabalham. De forma conjunta, com as direcções destes órgãos, fizemos alguns esforços, os quais permitiram a reinstalação da TPA num edifício mais moderno e temos estado a olhar para os outros órgãos onde existe dificuldades, em termos de equipamentos tecnológicos e dentro das nossas possibilidades e limitações, temos apoiado.

    No geral, são estas as dificuldades que estamos a procurar solucionar. Pedimos, apenas que os órgãos de comunicação social continuem a fazer o seu trabalho com dedicação e que nos ajudem a fazer crescer a região, com acções que concorram para a melhoria das condições de vida da nossa população. Assumimos um compromisso com a classe jornalística, sobretudo em matéria de melhoria das suas condições sociais, onde nos predispomos a disponibilizar lotes de terrenos para a auto-construção dirigida. Estamos a criar condições para a sua materialização.

    Via JA

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