EM TORNO DE UM PROBLEMA DE IDENTIDADE OS „JAGAS“ NA HISTÓRIA DO CONGO E ANGOLA
Por Paulo Jorge de Sousa Pinto
Introdução
O problema dos «Jaga» na História de Angola e Congo é de impor tância central para a compreensão global da mesma nos séculos xvi e xvii, coincidindo com os primórdios da presença e fixação portuguesas naquela região. Trata-se de uma questão deveras complexa, por vezes intrincada nos seus pormenores, mas nem por isso menos interessante. Há, aliás, uma aura de mistério em torno deste tema, sobre a qual só se começou a fazer luz há bem pouco tempo. Quem seriam os terríveis e bárbaros «Jaga» que teriam supostamente inva dido o Congo em 1568 e permanecido durante algumas décadas na região, assolando a terra como uma praga? A história, no seu essen cial, conta-se em breves palavras: uma fonte portuguesa dos finais do século xvi relata a ocorrência, algures na segunda metade do século, de uma invasão do reino do Congo por populações selvagens e antro pófagas, que teriam alegadamente dizimado o reino, só tendo batido e m retirada devido a uma intervenção militar portuguesa. Como interpretar o temor quase supersticioso com que os autores portu gueses se referem a estas gentes, que terão surgido repentinamente no Congo e desaparecido quase um século depois, quando a pre sença portuguesa criava raízes e laços duráveis na região?
Hoje, apesar de muitas questões permanecerem ainda sem res posta, alguns dados são considerados seguros e aceites sem grande discussão pelos historiadores. O mais importante é, talvez, uma dis tinção fundamental: os «Jaga» responsáveis pela chamada «invasão» de 1568 são completamente distintos dos «Jaga» que surgiram em Angola nos princípios do século xvn e que se diluíram na segunda metade do século. Apenas tinham em comum o facto de os Portu gueses os terem designado com o mesmo nome, e daí a confusão resultante, que confundiu completamente os cronistas, viajantes e historiadores até há bem pouco. No primeiro caso, estamos perante um pequeno mistério que é ainda fonte de controvérsia aparentemen te inconciliável. O segundo não oferece dúvidas. Trata-se da presença Imbangala, amplamente comprovada pela historiografia mais recente, quer quanto à sua origem, quer quanto ao contacto com as popu lações do Congo e Angola e com os Portugueses.
Esta questão, se bem que tenha merecido a atenção por parte de diversa historiografia além-fionteiras, parece esquecida pela portu guesa, pelo que é, talvez, chegada a hora de reavivar um pouco o problema. Há algumas questões preliminares e de enquadramento que são interessantes de abordar: as fontes envolvidas (escritas e orais), a própria história do tema, desde o século xvn aos nossos dias, assim como os pressupostos mentais que estão na origem do «mito jaga». E que fazer a «história da história» dos «Jaga» é tratar directamente as formas de penetração portuguesa em Angola e no Congo, é mexer nos aspectos profundos do relacionamento entre a civilização europeia e o continente africano, é tocar em cordas sensíveis da visão de África aos olhos europeus.
A parte principal deste estudo incide sobre algo mais longo e importante: debater, à luz das fontes e da bibliografia mais recente, a dupla questão (a «invasão» e os Imbangala), fazer a história de uma e de outra, traçar percursos, delinear quadros e, também, salien tar problemas, levantar interrogações e hipóteses e tentar enquadrar vários elementos de forma a sugerir algumas respostas. Este tema atravessa mais de um século, nos seus aspectos mais directos. Porém, considerando as suas consequências, a questão alarga-se considera velmente: desde a «invasão» de 1568 até à fixação dos Imbangala, na segunda metade do século xvii, com a estabilização dos qui lombos e a ascensão do reino do Cassanje, que se prolongou por todo o século xviii e parte do século xix, é um enorme quadro espacio-temporal e uma mole informativa e documental de exten são considerável, deixada, logo, na sua maior parte, de lado. Uma palavra final no que toca às regras de transcrição: quanto às palavras nas línguas locais, quanto a personagens, foi mantida a gra fia habitualmente utilizada na historiografia anglo-saxónica. Assim, surge Nzinga (e não «Jinga»), Kinguri, Kasa, Kalandula, etc.; para outros nomes, nomeadamente nomes de reinos, povos, línguas, preferiu-se aportuguesar, até para permitir uma clara distinção daque les: Ambundos (e não «Mbundu»), Quiocos (e não «Cokwe» ou «Tchokwe»), Quissama (e não «Kisama»), etc. Os títulos políticos e reais, de grande importância no capítulo 3, surgem em itálico. Lo go, Cassanje refere-se a um reino, Kasanje a um personagem, tal como Kinguri se refere a uma pessoa, Kinguri a um título político. Um último esclarecimento de princípio diz respeito ao vocábulo «Jaga»: uma vez que a palavra tem diversos significados, é preferível a sua utilização genérica entre aspas, reportando-nos às fontes por tuguesas; o termo «Imbangala» remete directamente para as popula ções originárias da Lunda que atingiram a costa ocidental e contac taram com os Portugueses no século xvii, como se verá mais adiante.
As fontes
A grande massa informativa sobre Angola e Congo, nos sé culos xvi e xvii, é constituída pelas fontes portuguesas, que se divi dem em dois grandes grupos: os relatos e descrições, que se con finam a três obras principais, a Relação de Duarte Lopes e Filippo Pigafetta, a Descrição de Cavazzi de Montecúccolo e a História de Cadornega; e documentação avulsa, entre correspondência, peque nos relatos, pareceres e relatórios. Esta está, em grande parte, publi cada na Monumenta Missionaria Africana1 (repetindo, nalguns casos, os Arquivos de Angola). Luciano Cordeiro, nos finais do século xix, publicou também alguns documentos, assim como o Visconde de Paiva Manso, Gastão de Sousa Dias e Albuquerque Felner. Mais recentemente, Beatrix Heintze publicou a colectânea de Fernão de Sousa existente na Biblioteca da Ajuda. Outras fontes encontram-se dispersas por várias publicações, nomeadamente a Studia, o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa e os boletins do Instituto Histó rico Belga de Roma e da Academia Real Belga das Ciências Colo niais. Especial interesse têm alguns relatos holandeses, publicados por Cuvelier, e os relatos de Battell e Knivet, publicados por E. G. Ravenstein na Hakluyt Society.
A partir da década de 1960, um outro tipo de fontes passou a ser mais frequentemente utilizado nos estudos de História de Africa: as fontes orais. No caso do tema em questão, assumem um esperefutam as fontes portuguesas. A distinção entre os acontecimentos de 1568 e a posterior infiltração Imbangala no Congo e Angola só foi possível pela reinterpretação das tradições orais já recolhidas. Embora não se tenha aqui procedido ao levantamento exaustivo destas, devido à sua dispersão, recolheram-se as mais importantes: a Descrição de Cavazzi de Montecúccolo, os relatos das expedições do século xix, nomeadamente as de Capelo e Ivens, Henrique Dias de Carvalho, Salles Ferreira e Rodrigues Neves; finalmente, temos obras mais recentes, como as do pioneiro Plancquaert, as de Gladwyn Childs e, sobretudo, Joseph Miller, com a sua importante recolha de tradições orais, publicada em Kings and Kinsmen.
Para o historiador, o grande problema que se coloca ao estudo do tema em questão é o de crítica histórica e de cruzamento de informações. As fontes portuguesas, se são fidedignas quando tra tam das questões ligadas à presença portuguesa (administração, ques tões militares, poder político, comércio), são absolutamente parciais quando tratam das sociedades locais. O relacionamento com os poderes africanos, sendo o Ngola e o rei do Congo os mais signi ficativos, a missionação, os hábitos e vida social, a cultura local, são assuntos estranhos que proporcionam a confusão e a incompreen são constantes, exigindo do historiador o maior cuidado na crítica histórica. As tradições orais criam outro tipo de problemas: uma temporalidade diferente da europeia, uma linguagem simbólica e cifrada e formas de expressão próprias, como as pequenas histórias e as genealogias, que necessitam de descodificação, como fez Joseph Miller num trabalho pioneiro. Assim, se a leitura das fontes para a História da África Central é obrigatoriamente cautelosa e crítica, o seu cruzamento é ainda mais difícil, optando-se muitas vezes pela sua simples justaposição; são as cartas e relatos portugueses mais fiá veis que uma história local? A questão não é pacífica, e as conclu sões podem diferir enormemente pelo facto de se ter tomado deter minada opção. No caso específico do tema em estudo, e como o trabalho é muitas vezes o de articular peças de um «puzzle», esco lher uma fonte em detrimento de outra pode levar a conclusões opostas, por vezes a becos sem saída ou a paradoxos.
Para a história da questão «Jaga» A história das «invasões Jaga» não foi imutável. Nascida das fon tes portuguesas, teve um determinado percurso até aos nossos dias.
Mais do que um problema histórico com questões e factos, esta mos perante um mito com vários séculos, só recentemente pro- blematizado de raiz com a reformulação das questões e a reinter- pretação das fontes envolvidas. A «história da história» dos «Jaga» serve assim também para contextualizar o tema, antes da sua aná lise num capítulo posterior.
As fontes portuguesas dos séculos xvi e xvn assinalam, no espaço da presença portuguesa, ou pelo menos do seu conhecimento (que abrangia, grosso modo, desde o reino de Macoco, a norte do Zaire, até Benguela, penetrando de forma desigual no interior), a exis tência de povos salteadores, cruéis e antropófagos, conhecidos sob a designação genérica de «Jagas», que dizimaram a certa altura o reino do Congo e obrigaram o rei a fugir e a pedir auxílio a Por tugal. A fonte mais importante e mais próxima desta presumível invasão é a obra de Lopes-Pigafetta, que relata a sua entrada pela «província» de Bata, a acção destruidora, a fuga do rei Mpangu Nimi-a-Lukeni (Álvaro I) e a expedição redentora de Francisco de Gouveia, que terá assim precedido Paulo Dias de Novais e a fixa ção definitiva dos portugueses na África Austral. A Relação não indica datas, mas apenas os nomes dos reis do Congo.
Até às primeiras décadas do século xvn, as referências aos «Jaga» são escassas, e repetem no essencial Pigafetta. Porém, a partir da segunda década do mesmo século, surgem novos dados sobre a pre sença de «Jagas» nos territórios vizinhos de Angola; ora aliados dos Portugueses, ora rivais e inimigos, são sempre considerados como um elemento estranho e perturbador. Uma parte acabaria por se fixar, ainda na primeira metade do século, dando origem ao reino do Cassanje. O resto diluiu-se na história conturbada do século xvn. As fontes portuguesas referem-se aos «Jaga» como um único povo, que teria vindo do misterioso Império do Moenhemuge, no inte rior do continente2, ou da Serra Leoa3, e assolado o Congo, tal como os Godos na Europa Ocidenta, semeando a destruição e a morte. Só os Portugueses se lhes terão conseguido opôr, o que constituiu, segundo as mesmas fontes, uma dívida insanável que o Congo passou a ter para com Portugal. Esta é, em traços largos, a visão das fontes portuguesas, perpetuada pela historiografia até ao nosso século. No século xvn, estas ideias permaneciam cristaliza das na Europa e prolongaram-se no século xv. Por esta altura, a palavra «Jaga» pouco mais significava que o título do rei do Cassanje. No século xix, porém, o problema ganhou algum alento com a multiplicação das expedições ao interior do continente: Salles Fer reira. Capelo e Ivens, Henrique Dias de Carvalho contactaram o Cassanje e recolheram as suas impressões. No entanto, para estes autores, a ligação dos «Bangalas» ou «Cassanjes» aos antigos «Jagas» era ténue e difusa.
A história dos «Jaga» servia nesta época os propósitos de Portugal como potência colonizadora, nomeadamente na questão dos direitos sobre o Zaire e, mais tarde, na questão do «Mapa Cor-de-Rosa». A pretensa doação do rei do Congo de direitos no seu território a D. Sebastião, de que se falará adiante, constituiu um forte argumento: em 1845 Lopes de Lima afirmava que «aquela costa que corre desde a foz do Zaire até Cabo Negro é nossa indubita velmente – por descoberta – por conquista, – e por doação expressa». Toda a historiografia portuguesa aceitou a doação sem reservas, reve lando assim a sedimentação das ideias veiculadas pelas fontes portu guesas dos séculos xvi e xvii, uma situação que perdurou até há bem pouco tempo, até ao momento em que se iniciou, e pela mão de historiadores anglo-saxónicos, um processo de reinterpretação das mesmas fontes. Até então, vigorou a visão mais ou menos ajustada às ideias tradicionais: a missão civilizadora dos Portugueses, o carác ter traiçoeiro dos líderes locais, os costumes mais ou menos bárba ros, a clara distinção entre os europeus «civilizados» e os indígenas. Quanto aos «Jaga», era corrente a ideia de pertencerem a um tronco comum de povos guerreiros do interior de África, que ale- gadamente assolavam os reinos sedentários da costa, quer ociden tal, quer orientaL. A sua teorização foi perfeitamente articulada em 1912 por R. Avelot. Para este autor, a invasão «Jaga» foi a primeira e a mais importante; os «Jaga» que teriam invadido o Congo no século xvi seriam Masai10 e distintos dos «jagas de Zimbo». Con tudo, já Ravenstein, alguns anos antes, negara a «noção monstruo sa» da simultaneidade das «invasões» de toda a África. Também o Conde de Ficalho teve uma palavra a dizer sobre a questão, colo cando a hipótese da introdução do luco no Congo pelos «Jaga». pre cedida da sua remota introdução na Abissínia e lenta expansão para oeste. Eram as ideias do difúsionismo, então na moda.
As ideias mais ou menos confusas sobre o tema derivavam, sem dúvida, da falta de informação e, sobretudo, do seguidismo em rela ção às fontes portuguesas: a relação entre os factos da «invasão», os «Jaga» do século xvn, os «Bângalas», os «Aiacas», era estabelecida um pouco a bel-prazer do historiador. Um autor do século pas sado associa os «Jaga» a pretensas tribos de pigmeus, referidas a norte do Zaire em mapas setecentistas e comprovadas por Stanley1 s. Luciano Cordeiro confessa o seu espanto (e, implicitamente, a sua confusão e desorientação) perante a semelhança entre «iacas», «maiacas». «akkas» e «makalakas». A contradição e confusão das fontes do século xvn adensavam o mistério. A historiografia tradicional pade ceu de uma limitação metodológica: o documento como prova suprema, indiscutível, definitiva. Tal atitude pode ser apreendida, por exemplo, no discurso de António Brásio: «falam os documen tos [,..]». Pois deixar os documentos «falar» sem cautela degene rou muitas vezes em ruído… que, aliado aos pressupostos da men talidade eurocêntrica, construiu o mito «Jaga» da barbárie antropófaga. Serpa Pimentel nomeia «tribos selvagens, ferozes e antropófagas». Ralph Delgado chama-lhes «gente infernal»; Gastão Sousa Dias diz, ao tratar da «violenta invasão de povos antro pófagos», que «os Jagas violavam as sepulturas»; Felner descreve a história entre o Zaire e o Kwanza como uma sucessão de invasões; Randles, embora se reclame anti-colonialista, não deixa de apelidar os «Jaga» de «tribo canibal» e os Imbangala de «um bando de Jagas canibais nómadas» O fim do «ciclo do Império» não trouxe grandes alterações ao panorama historiográfico português. A desactualização dos proble mas mantém-se, o divórcio com a mais recente bibliografia sobre a questão é um facto, o próprio interesse pelo tema arrefeceu de vez. Eis dois casos: Alves Ferronha não distingue os «Jaga» da pre tensa «invasão» dos Imbangala e segue as velhas ideias; Adriano Parreira também funde «Jaga» e Imbangala, para além de localizar os Tio a sul do Zaire, misturados com os Yaka. Na verdade, não temos conhecimento de qualquer estudo, dedicado exclusivamente a este tema, por autores portugueses. Resta o legado do esforço de heurística e publicação de fontes, deixado pelas gerações historio- gráficas passadas, que guardam ainda um importante manancial infor mativo a explorar, integrar e sintetizar.

Para um debate alargado: algumas sugestões
Há algumas questões, aparentemente marginais à «invasão Jaga», que permitem uma melhor compreensão e contextualização da infor mação e dos problemas em causa. Assim, e em primeiro lugar, há que ter em conta, e nunca é demais salientá-lo, os pressupostos da mentalidade europeia da época, no contacto com uma realidade afri cana substancialmente diferente: a visão eurocêntrica do mundo e da realidade, o contacto com o que Luís Filipe Barreto designou por «o Outro Civilizacional». Basta assinalar os exemplos de assi milação da realidade africana à visão europeia, o «rei» do Congo, os seus «fidalgos» e «vassalos», as «províncias», etc. Quando o objecto não se enquadrava nas categorias mentais do observador, e se pro vinha de território desconhecido, com hábitos e marcas radicalmente diferentes, era rapidamente classificado e mitificado. Grande parte das ideias sobre os «Jaga» veiculadas na documentação portuguesa tem esta origem, como demonstrou Miller, embora com conclu sões muito pessoais. De facto, este autor assinala um dado essencial para a contextualização da questão: a «invasão» do Congo é apenas interior nos locais de presença portuguesa na época. Os «Zimbas» na costa oriental, os «Galla» na Abissínia, os «Mane» ou «Sumba» na Guiné, os «Jaga» no Congo ou os «Jingas» em Angola são os exemplos das «invasões bárbaras», assimiladas, mesmo no sentido escatológico medieval, aos bárbaros do fim da Antiguidade europeia. O próprio Pigafetta encara a «invasão» como um castigo divino pelos pecados do rei do Congo e pela sua tentação pela apostasia. Como demons trou Miller, estas ideias correspondiam à mentalidade europeia e cir culavam correntemente nos meios intelectuais europeus.
No entanto, é fundamental não esquecer o factor desconheci mento: das sociedades, da mentalidade local, das particularidades sócio-políticas, muitas vezes da língua. E que as ideias sobre o lon gínquo e nebuloso Império do Moenhemuge correspondiam a uma distorcida visão do interior do continente: a ideia dos lagos do Nilo à latitude do Congo, as montanhas que separavam as regiões cos teiras do interior, e também, paradoxalmente, a ideia de a costa oriental estar muito mais próxima do que está na realidade, e ser facilmente acessíve. O Prestes João e a Abissínia eram ainda con siderados, em meados do século xvn, como contíguos ao Congo. Esta distorção geográfica facilitava a noção da mobilidade dos ale gados selvagens. Não diz Cavazzi que os «Jaga», antes de terem che gado a Angola, haviam assolado Mombaça e Melinde, sob o comando de Zimbo? Não era corrente a ideia da proximidade entre o Moe nhemuge e o Monomotapa, aliás rivais, com a presença próxima de «Jagas» e de Amazonas? A cartografia da época revela-se aqui um auxiliar precioso: permite-nos avaliar o grau de confusão e con tradição da época sobre o interior do continente africano, a fusão das ideias transmitidas pelas crónicas, pela tradição e pelo contacto real. O seu estudo aprofundado e comparado, ainda por fazer, tal vez permita a compreensão mais aproximada das fontes da época. Outro problema fundamental a ter em consideração diz respeito ao mito do canibalismo. A sua presença nas fontes é uma constante. Mas, se a discussão sobre a real antropofagia de alguns povos assim apelidados é uma questão, em grande parte, em aberto, interessa para já averiguar até que ponto era uma referência do imaginário europeu, mais do que um dado informativo.
Dois povos da região do Congo merecem nas fontes portugue sas a designação constante de antropófagos: os «Jaga» e os Anzicos. Estes correspondem aos Tio e, num sentido mais restrito, ao reino do Macoco, a norte do Zaire; a designação de «Anzicana», muitas vezes presente na cartografia, parece ser mais abrangente, refe- rindo-se à identidade das populações Tio distintas dos Bacongos, a sul do mesmo rio. De qualquer modo, este ou estes povos são cons tantemente associados à antropofagia, logo desde Duarte Pacheco Pereira (1505-1508); Pigafetta descreve os seus «açougues de carne humana». A documentação apresenta, aliás, alguns dados curio sos; um firade diz, em 1583, que o rei de «Moquoquo […] (diçen) que come el pecho de una donzella cada dia, con quien a dormido la noche antes». Trata-se claramente de um estereótipo: seria tam bém uma preferência imputada à rainha Nzinga, de quem se vol tará a falar mais adiante.
A persistência da antropofagia atribuída aos «Anzicos» derivava, sobretudo, e como já foi dito, do desconhecimento, da falta de con tactos permanentes: o reino do Macoco estava fora da zona de infil tração portuguesa, e os contactos eram, sobretudo, comerciais, embora a sua existência fosse bem conhecida dos Portugueses. A evangelização era difícil, o envio de missionários sucessivamente adiada; em 1653, e apesar de todos os sinais favoráveis, os prega dores não ousaram entrar no reino e, ainda no século xvm, há informações de que a missionação era inexistente. A sedimenta ção da visão tradicional sobre os Tio, alicerçada na imagem da cruel dade e da ferocidade, foi assim subsistindo à medida que se adia vam os contactos mais aprofundados. E claro que isto constitui apenas uma face da questão; ignora-se, por exemplo, até que ponto as terríveis noções que circulavam por entre os Portugueses eram ou não ampliadas pelo Congo, cujos interesses eram rivais dos do Macoco.
Quanto aos «Jaga», o canibalismo era-lhes permanentemente asso ciado. No que respeita aos alegados invasores de 1568; parece ser algo perfeitamente incorporado pela mentalidade europeia, pois Pigafetta assinala-o apenas de passagem: «gente cruel e homicida, de grande estatura e semblante horrível, comendo carne humana, com batentes ferozes e valorosos». Os «Jaga» do século xvn, ou seja. os Imbangala, são também associados de forma sistemática à antropo fagia em praticamente todas as fontes; característica, aliás, aceite pela historiografia actual e estudada por Miller, que lhe reduz subs tancialmente a dimensão. Os Imbangala constituem, porém, um caso particular, que será abordado mais adiante, uma vez que se tra tava de sociedades sem linhagens, de forte ideologia iniciática e guerreira.
A reflexão sobre a questão da antropofagia permite, assim, enqua drar em moldes mais nítidos os problemas: quanto mais distante e desconhecido era determinado povo, mais características bárbaras e selvagens lhe eram imputadas pela mentalidade europeia. As populações locais estavam também, provavelmente, inclinadas a criar ou fortalecer estas ideias em relação a povos estranhos ou rivais. Os Imbangala seriam provavelmente antropófagos ao olhar dos Portugueses e dos Bacongos, mesmo que não o fossem de facto. É que a marca da antropofagia fora igualmente atribuída a outros exacta mente quando o seu conhecimento era ainda muito superficial: logo em 1517, Zorzi diz que no Congo «tuti sõ homeni selvagi et cru- delissimi», que até ao Cabo das Correntes tudo «e habitato da homeni feroci et crudelli» e que existia no Zaire «una insula habi- tata da negri che si chiama Abondus [Ambundos], sche sõ homeni ferocissimi [.,.]». Ainda antes da presença efectiva portuguesa em Angola com Paulo Dias de Novais, dois autores diziam, em 1548. que os Ambundos comiam os prisioneiros de guerra. Também as populações do Congo não escapavam ao rótulo; um jesuíta, com panheiro de Novais, diz que a «gente ambunda» e os «maxicongos» consumiam carne humana, tendo inclusivamente comido quatro brancos poucos dias antes da chegada da expedição. Curiosamente, o autor da História do Congo favorece este reino, que conhece e descreve, em detrimento dos circunvizinhos: os seus habitantes eram os únicos que rejeitavam a antropofagia, ao contrário dos de «Angola, Matamba, Sonho, Loango, Anticana» [sic]. A sul, estranhamente, não há novidade. O «reino de Benguela» não apresenta dados sobre antropofagia; o fracasso da infeliz tentativa de Paulo Dias de Novais adiou, por algumas décadas, a fixação portuguesa a sul, só concre tizada com Manuel Cerveira Pereira.
Para a visão europeia do mundo, o que era desconhecido era associado à ferocidade. A antropofagia funcionava, assim, como um rótulo, aplicado ao que é estranho e selvagem. O mapa incluído na obra de Prévost, de meados do século xviii, revela um dado inte ressante: toda a extensão territorial que circunda o Congo, Angola e Benguela é literalmente desconhecida; há «Jagas» desde o Equa dor à latitude do Cabo Negro, a norte, leste e sueste dos três rei nos; mas mais curiosa é a legenda colocada a sul do Cabo Negro, no litoral: «sauvages qu’on dit n’avoir point 1’usage de la parole». Para lá da linha que marcava o limite do mundo conhecido (já um pouco mais alargado, em todo o caso, do que no século xvi), esten- diam-se ainda territórios «selvagens»: dos seus habitantes duvidava-se, até, do uso da fala. Já no início do século xvi a dúvida sobre o carácter humano ou animal de alguns povos africanos havia sido lançada pelo espírito observador de Duarte Pacheco Pereira.
Com a colaboração de Academia.edu
