MFUMU PATTY (Archibald Patterson), UM EVANGELISTA ANGLICANO EM ANGOLA

Por Bênção Cavila Abilio

Uma das histórias mais marcantes da Igreja Anglicana é o início da Igreja Anglicana de Angola, que remonta a 1910. Ela foi fundada por um leigo anglicano de Liverpool que saiu para pregar o Evangelho de Jesus Cristo e, ao fazê-lo, inadvertidamente semeou as sementes para o início da Igreja Anglicana em Angola.

Inspirado por missionários , Archibald era um leigo de St. Clement’s Toxteth, Liverpool. Ele partiu para a África em 1910 e começou a pregar o Evangelho, apoiado por alguns membros da Igreja de St. Clement. Chegando ao Norte de Angola em 1925, onde hoje é o Uíge, Archibald fundou a Missão Norte de Angola.

Ele construiu escolas e igrejas, ensinou carpintaria, alfabetização e como plantar café. Ele treinou professores e pastores, às vezes auxiliado por outros missionários de vários países. Milhares de pessoas se converteram por meio de sua pregação e ele batizou milhares.

Archibald retornou à Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial e, em 1946, casou-se com Alice Rankin, que conhecia há muitos anos. Após a guerra, retornaram a Angola e trabalharam juntos até 1961, quando houve uma rebelião contra a autoridade portuguesa.

Em 1961, com o país em meio a uma guerra pela independência, Archibald e Alice foram expulsos.

Eles finalmente deixaram o país em 1975, sabendo que havia 60.000 membros e 300 igrejas estabelecidas, além da Missão Norte de Angola. O sonho de Archibald sempre foi fundar uma igreja indígena independente e, embora mais tarde a igreja tenha se dividido em três direções diferentes, hoje ainda existem três denominações prósperas, derivadas do trabalho de Archibald com a Missão Norte de Angola. Uma delas é a Igreja Anglicana.

Aos 83 anos, após a morte da esposa, Archie retornou a Angola e foi recebido por uma multidão de 10.000 pessoas no aeroporto. Permaneceu por nove meses, mas, nessa época, Angola já estava à beira da guerra civil e, por isso, foi obrigado a deixar o país às pressas.

Hoje, muitos angolanos ainda olham para trás com gratidão para com Archibald, considerando-se seus filhos espirituais.

Missão do Norte de Angola- Kikaya – UIGE

Relativamente ao Mfumu Patty ou Patterson o que se sabe é que fundou com um suíço chamado Niklaus, a Missão do Norte de Angola em Kicaia.

Para ser autónomo em termos financeiros, Patterson mandou plantar vários hectares de café para vender e suportar as necessidades em alimentos para os alunos internados.

Em princípio, Mfumu Patty era anglicano. Eles abriram a segunda estação missionária em Sanza Pombo.

Em 1975, a influência dos discípulos de Patterson foi crescendo e foi de Sanza Pombo que ex diáconos Baptistas como Manuel Sona (Tio Materno do diácono Manuel Paulo) foram influenciados para se separar da IEBA (BMS em 1975) e criar a Igreja Evangélica do Norte de Angola. Só mais tarde, abandonaram a sigla devido a sua conotação regional e passaram a se chamar em 1977 de IERA.

Hoje a maioria desses ex IEBA sentiram se enganados e criaram a IERA que praticamente ocupa o espaço que a IEBA dominava no Kuilu Futa, Kuilu Kambosso e parte de Kimbele nas áreas de Kipuku.

O Reverendo Archibald Patterson, Mfumu Patty foi o primeiro missionário a ser expulso em 1961 pelos colonos portugueses.

Ele foi abordado por uma escolta militar que o íntimou a lhes acompanhar até ao aeroporto do Uíge onde lhe obrigaram a entrar num avião até Luanda, logo que o Velho deixou Uíge, a Missão foi saqueada pelos portugueses e foram assassinados alguns pastores negros no local, o que levou a fuga de muitos crentes dessa missão para a RDC em 1961.

Foi assim que a Igreja Católica sob protecção portuguesa conseguiu construir mais capelas e baptizou muita gente na área.

Mfumu Patty já com mais de 70 anos na altura com a mulher, foram levados a Lisboa e expulsos para Inglaterra em 1961.

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    MBEMBA NGANGU: O HERÓI DO BEMBE QUE SALVOU UÍGE

    Por Filho do Kivuzi (Vamba)

    “Mbemba Ngangu” foi um soba e herói local que mobilizou o seu povo e as aldeias vizinhas para a resistência contra a ocupação colonial portuguesa. A sua luta teve grande apoio das populações ribeirinhas do rio Lucunga, uma zona estratégica do antigo território.

    Mbemba Ngangu é um nome em Kikongo, um cognome dado pelo próprio povo em reconhecimento à sua liderança. Etimologicamente, significa: Mbemba (“Águia”) e Ngangu (“Visionário” ou “Astuto”). A águia representa a visão ampla do campo de batalha e a rapidez no ataque, enquanto Ngangu reflete a sua inteligência tática e capacidade de antever os movimentos do inimigo.

    Natural da região de Mbamba — território que hoje corresponde ao município do Bembe —, Mbemba Ngangu terá vivido entre os séculos XVI e XVII, período em que o Reino do Kongo enfrentava as primeiras incursões portuguesas no interior. A província de Mbamba era a mais militarizada do Reino do Kongo, responsável pela defesa sul.

    Para perpetuar a sua memória, o herói foi homenageado na cidade do Uíge com um busto e com o topónimo de um bairro: o Bairro Mbemba Ngangu. Morreu em combate, defendendo as terras do seu povo, tornando-se um símbolo eterno da resistência Kongo.

    5 de MARçO de 1965

    Por Sousa Jamba

    Há datas que não entram apenas na história: entram na carne moral de um povo. O 15 de Março de 1961 é uma dessas datas severas, dessas datas que deixam de pertencer ao calendário para passarem a pertencer à consciência. Foi nesse dia, no Norte de Angola, que a contestação ao colonialismo português deixou de ser murmúrio clandestino, conspiração fragmentária ou esperança sem armas, para se converter em guerra. A UPA, operando a partir de bases no Congo-Léopoldville, desencadeou a insurreição que transformou o nacionalismo angolano numa rebelião rural de massas. Milhares de homens atravessaram a fronteira; a autoridade colonial foi atingida com violência; e o império português descobriu, de súbito, que Angola já não cabia na ficção burocrática das «províncias ultramarinas». A partir desse momento, a questão angolana impôs-se, com urgência própria, como problema africano e internacional.

    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

    História do Kongo

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