4 DE FEVEREIRO: «O Comandante Paiva Domingos da Silva veio do Uíge»

Por  HORTÊNCIO SEBASTIÃO

Trindade Pascoal Salvador celebrizou-se nas acções protagonizadas por um punhado de patriotas que, na madrugada de 4 de Fevereiro, atacou as cadeias coloniais em Luanda. O coordenador-adjunto do Comité dos heróis de 4 de Fevereiro lembrou a bravura dos nacionalistas e realçou a figura de Paiva Domingos da Silva.

Ainda se lembra dos preparativos do 4 de fevereiro de 1961?

Quando aconteceram os preparativos do 4 de Fevereiro, eu vivia no bairro Rangel, numa casa de madeira com o meu irmão Fabião, já falecido, que militava numa célula clandestina. Eu militava noutra célula, onde conheci o João Pedro de Andrade, Agostinho José Neto, de Ndalatando, e outros. Na altura, o falecido comandante Paiva Domingos da Silva vivia no Uíge, onde trabalhava como marceneiro. Assim que o meu irmão chega diz que estávamos engajados numa revolução. Estávamos a preparar algo para ver se virávamos os acontecimentos em Angola, mas faltava-nos um homem corajoso, com punho para dirigir esta acção. Pensámos então que o Paiva era o homem indicado e decidimos escrever uma carta para que ele viesse. Eu, na altura, estudava num colégio e o meu irmão era marceneiro no Uíge. Pego na caneta, escrevo a carta para que ele viesse com urgência para Luanda, porque havia aqui uma situação grave, ou porque a avó se encontrava muito doente e precisava da presença dele. Ele, logo que recebeu a carta, não fez mais nada, veio a correr, pensando que era a avó. Ele chegou e infor-
mámos-lhe sobre a situação do 4 de Fevereiro. Eu levei o meu irmão a casa do falecido Imperial Santana e ali se juntaram outros militantes. Juntos acordámos que ele teria que ser o comandante.

O que ocorreu depois?

Na altura, o adjunto era o falecido Raul Leão. Assim ficou decidido, mas vimos que aqui em Luanda não estávamos seguros, tínhamos que ir para a Pedreira, perto de Cacuaco. Eu fiquei aqui. Fizeram os preparativos, mas estávamos em contacto com o comandante Paiva. Enviámos homens daqui, inclusive um dos irmãos do Paiva. O falecido irmão não queria ir, mas obrigaram-no. Para nosso espanto, uma avioneta sobrevoou o local onde eles estavam na Pedreira. O  irmão do Paiva não chegou a voltar para a Pedreira, tendo ficado em Luanda e, então, ele disse que quem nos deve ter denunciado foi o seu irmão. Por isso, eleordenou a quem o encontrasse que lhe cortassem a cabeça.

E quem era esse irmão?

Era o falecido Diogo Domingos da Silva. Parece que o homem estava a esquivar-se dos outros e a situação depois passou. Depois de a avioneta sobrevoar, eles acharam melhor não ficarmos ali e que devíamos voltar para Luanda, porque ali estávamos descobertos e os tipos, dali a mais uns dias, viriam nos atacar. É assim que eles saem da Pedreira, regressam de novo para Luanda e fazem a acção no actual marco histórico. Por essa altura, o falecido Bengui aparece e diz que veio para preparar-nos para irmos ao ataque. Muita gente afluiu à minha casa, no Rangel, onde alguns foram preparados, mas a maioria foi em casa doImperial Santana. O falecido Bengui dormia comigo no Rangel.

O que aconteceu antes do ataque às cadeias ?

Antes disso, estávamos a organizar os grupos que iriam fazer os ataques. O falecido Paiva estava indigitado para atacar a Companhia Indígena, o Imperial a Casa de Reclusão, e o Pascoal Fialho a antiga 4.a Esquadra, hoje Unidade Operativa da Polícia. O Luís Manuel foi para a cadeia de S.  Paulo, onde tombaram António Francisco e o Luís Manuel, e o Sotto Maior tinha ido para os Correios.

E os demais companheiros?

Os demais ficaram em casa para orar, com Bíblias abertas e velas acesas. Ninguém podia fechar a Bíblia e, ao mesmo tempo, faziam orações.

E depois dos ataques o que aconteceu?

Depois dos ataques, nós, que ficámos aqui na casa de madeira — eu, o Lobato, que está agora doente, e o falecido Faísca — reagimos. Quando ouvimos os tiros, tento sair fora, pois tínhamos um vizinho mestiço que estava a par de tudo e eu tinha que lhe dar informações. Saí e disse que esses tiros eram para nós, que estavam a atacar-nos. Quando tento entrar em casa, só senti uma bala a rasar-me a orelha e logo baixo e entro para a sala. O falecido Bengui, que estava no colégio, e eu decidimos enviar uma carta ao primeiro-ministro de Portugal, Oliveira Salazar, a pedir a nossa independência exacta e total. De repente, vejo-o com uma pomba na mão. Fizemos a carta, ele embrulhou-a bem, colocou na perna da pomba e disse: “Vou libertar essa pomba, vai voar e levar essa carta a Salazar”. Desde aí, nunca mais nos encontrámos. Mas, naquelas rusgas que houve, lembro-me, depois de sair daqui do Rangel, de ir parar a uma zona para os lados do antigo Roque Santeiro, onde assisti às prisões de centenas de angolanos.

 Esse episódio ocorreu  já depois do 4 de Fevereiro?

Sim. E, nas rusgas, os homens tinham de ter uma fita de pano preto no braço. Se te apanhassem sem essa faixa de pano no braço, era uma desgraça.

O que representava essa faixa?

Representava o luto pelos colonos mortos nos ataques de 4 de Fevereiro. Aqui, em Luanda, houve mulheres corajosas que perguntavam: “Você vai aonde sem o sinal preto?” Elas iam logo a correr em busca de um pano preto para colocar no braço de quem não o possuía. Ali, onde está o prédio do livro, no S. Paulo, era o local onde os prisioneiros eram concertados, mas sentados em filas no chão.

Qual era o objectivo?

Os militares colonos faziam rusgas para deter quem tinha participado no 4 de Fevereiro. A dada altura, eles trouxeram num carro o Agostinho Bengui, que também estava preso, e ai de ti se não olhasses para o carro, logo desconfiavam que o indivíduo tinha feito parte do 4 de Fevereiro. O Agostinho Bengui, mal me viu, virou a cara e eu assim passei, felizmente que já tinha a ideia de fugir para o Congo. Combino com um outro sobrinho, irmão do Paiva, e ele concordou comigo. Disse: “Tio, vamos sair daqui”. Havia um senhor do Ambrizete que estava a recrutar e lá temos que ir. Eu concordei. Como na altura eu já era funcionário dos serviços de economia, disse que ia trabalhar e na hora da partida, às 17h00, estaria disponível para viajar. De regresso do trabalho, cheguei e vi a casa isolada finalmente. Eles [colonos] tinham vindo ao Rangel para ver se me encontravam. A minha vizinha, que fazia a comida, preparou a mesa e deixoa refeição preparada. Eles chegam, arrombam as portas e encontram a comida. Quando cheguei, vi que o meu sobrinho estava ausente. Ele era sapateiro e até às 17h00 não aparecia. Com o quintal isolado, decidi sair. Quando tento sair, deparo-me com um senhor a chamar-me: “Anda cá, seu preto”. Olhei para ele e ele perguntou-me onde eu estava. Disse-lhe que vinha visitar o meu sobrinho, mas que não o encontrei e que estava a voltar para casa.

Ele acreditou?

Havia um fulano com um chapéu e eles perguntaram-me se eu o conhecia. Como ele estava de olhos vendados, eu disse-lhes que não o podia reconhecer. Perguntaram-me pelos documentos e eu entreguei-os. Levei uma valente bofetada, até vi estrelas. O outro, que esta- va atrás de mim, atesta-me outro estalo. Um deles disse. “Você tem de dizer onde está o teu sobrinho Paiva”. Respondi que não sabia. Mas o Paiva vivia mesmo comigo. Lá começou a escurecer. Perguntaram onde eu vivia e disse-lhes que era no bairro Operário. Voltaram a perguntar: “Há quanto tempo?”  Eu disse há seis meses. Disseram “seu mentiroso”. Volta a rebentar-me outra bofetada. “Se nós fomos a tua casa, en- contrámos a comida na mesa quente, como é que estás a dizer que vives no bairro Operário? Vamos, mostra a tua casa, no bairro Operário!”. Para mal dos meus pecados, era a casa do irmão do meu sobrinho Paiva.

Aquela que denunciou a acção da Pedreira?

Sim, esse mesmo. Se não morri naquele dia foi sorte. Ele disse que eu é que vivia com o comandante Paiva, de quem estavam à procura. A minha salvação foi aquele mestiço, que era o chefe do posto, o chefe Dias, que disse aos colonos que não dessem importância ao que o homem estava a dizer. Os tipos da PIDE decidiram ir-se embora. Depois disso segui para o posto administrativo, que era no bairro S. Paulo, precisamente no prédio do Livro. O chefe da missão ordenou que subisse no carro dele, mas o chefe Dias rejeitou e pediu que subisse na sua viatura, mas acompanhado de um militar. Durante o percurso, o chefe Dias disse-me para não contrariar as perguntas que fossem feitas. Ao que eu disse sim continuasse a dizer que sim e não ao que disse não, porque o seu sobrinho era medroso.

O que aconteceu depois?

Eles me perguntaram qual o paradeiro dos meus irmãos, eu disse-lhes que desconhecia, uma vez que vivia em Luanda e eles no mato. Um deles disse: “Já viste, este gajo é bandido e terrorista”. Daí foram à cadeia do S. Paulo buscar os meus irmãos que estavam presos e eu nem sabia. A minha irmã, a mãe do falecido Paiva, a esposa dele, um outro irmão, o Fabião que vivia comigo, porque foi quem nos deu luzes para atingirmos o 4 de Fevereiro. Fiquei de pé e, de repente, estou a ver homens a vir. O que vou dizer é verdade. Não reconheci o meu irmão de pai e mãe, com a cara inchada de tanta porrada. Eles perguntaram-me quem era e eu disse-lhes que não conhecia. E a mulher? Eu disse que era a minha irmã. E a outra senhora? Respondi que era a minha sobrinha, mulher do Paiva e o outro homem era o meu irmão Fabião. E esse homem, não conhece?, voltaram a interrogar-me? E ele disse: “Mano, sou eu, o Salvador.”

Foi uma surpresa para ti?

Sim. Então, eles disseram: “Já sabe onde estão os seus irmãos” e eu respondi que não sabia que estavam presos. Depois disso, os colonos pegaram de novo nos meus irmãos, meteram-nos no carro e levaram-nos para a cadeia. Eu ali fiquei, no posto administrativo. O chefe Dias, que também vinha, disse-lhes que se matassem este homem, que era eu, iria informar as autoridades. Disse mesmo. “Ai de vós, que matem este homem!”. “Você tem sorte”, disse ele, dirigindo-se a mim. Já eram quase duas da madrugada quando me pedem para ir mostrar a casa onde eu morava, no bairro Operário. “Antes de 500 metros, tem de nos indicar onde fica a casa para pararmos o carro e irmos a pé”, disse um deles. Seguimos até junto ao agora restaurante Vouzelense, onde deixámos o carro, e lá fomos. Mostrei a casa. Como o quintal era construído de arcos de barril, um dos militares empurrou a porta e um rapaz que vivia comigo, perguntou quem era, àquela hora. Respondi que era eu e, quando ele abre, só vê brancos. Ele pega no cartão da escola e entrega e eles vêem que não era o Paiva. Eu, como era solteiro, guardava o dinheiro no fundo da mala. Revistaram-na e, quando encontraram o dinheiro, disseram que eu andava a guardar o dinheiro do MPLA. Eu disse que era para sobreviver. Mesmo assim, levaram o dinheiro e o relógio de parede. Levaram para junto da fortaleza, onde havia a delegação do José Lopes, o responsável da PIDE em Angola. Às 4h00 da manhã levam-me para a cadeia de S. Paulo, para uma enfermaria, onde vi cabeças e pernas partidas. Uns não conseguiam levantar-se da cama e até faziam necessidades onde estavam deitados e eu limpava-os. Ali vi que o sofrimento e a cadeia eram um caso sério.

Como surge o marco histórico?

Aí foi a preparação, antes da Pedreira. Havia uma casita de madeira, no marco histórico, onde nos reuníamos. Mas o falecido Pina fez a sua confusão, por ser agente acérrimo da PIDE, e daí partimos para os ataques.

As primeiras armas foram mesmo catanas, como se diz?

Quem diz que fomos com armas é mentiroso. Só tínhamos armas brancas, como catanas e bengalas. No dia 4 de Fevereiro, chegámos a recuperar armas. Até me lembro que o falecido Imperial, Paiva, Pascoal Fialho e António Bento trouxeram armas para enterrarmos em minha casa no Rangel. Arranjámos uma chapa de zinco para enterrar as armas recuperadas e o Fialho disse que não as podíamos enterrar ali. Se o fizéssemos, os colonos descobriam e o seu tio Trindade seria morto, o que concordei. Levámos as armas e enterrámos num local desértico.

Via Novo Jornal

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    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

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