O Staff de Holden Roberto na conquista do poder em Luanda

Por Fernando Luís da Câmara Cascudo (* )

É muito fácil explicar uma vitória, porém é muito difícil, principalmente para os políticos e militares, explicar uma derrota.

Não é este o motivo do meu livro. O fato de ter narrado, em linguagem simples, como um depoimento, os acontecimentos que vivi e os de que tomei conhecimento direto, através de testemunhos ou documentos, é o bastante para quem quiser tirar suas deduções e fazer suas próprias análises.

Para ajudá-los, vale a pena dizer quem era quem dentro da FNLA, a partir de agosto de 1975, o que servirá para definir responsabilidades.

Holden Roberto tinha, de fato, seu Quartel-General no Ambriz.

Sendo um homem simples, com intuição político-militar, transformava sua própria casa no centro das decisões. Desde setembro, na casa do Xavier, onde morávamos, existia uma sala praticamente montada com cartas militares, que possibilitavam o exame meticuloso das posições.

O presidente há muito deixara de visitar aquele local. As pessoas mais diretamente ligadas a ele constituiam seu staff que segue:

1 – Holden Roberto, presidente da FNLA, comandante em chefe do ELNA. Cuidava principalmente das decisões mais impotantes, no campo militar e político. No dia-a-dia, chamara a si a responsabilidade da logística. Passava horas inteiras na Fortaleza e nos outros paióis do Ambriz, verificando os estoques das munições ou as armas recebidas. Sempre foi um centralizador com receio de delegar poderes, ou, quando o fazia, ao menor erro retirava imediatamente os poderes de seu subordinado, para ele próprio conservá-los nas mãos. Foi um homem pressionado pelos mais diversos interesses e lutou, de todas as formas, para manter equilíbrio diante de tudo quanto via, sentia e percebia em torno de si.

2 – Comandante Tonta. Era o chefe-geral das Operações, angolano, miItar do ELNA, antigo comandante da Base Militar do Kinkuso. Cursos especiais em vários países africanos. Inteligente, gostava de trabalhar com militares brancos, porém faltava-lhe um pouco mais de pulso nas frentes de combate no controle dos homens. Tinha sob seu comando os mais famosos militares do ELNA, desde os antigos — os maquis. e das guerrilhas aos mais novos. Sob suas ordens lutaram, Sousa, Leopardo, Pedro Afamado, Boca Mezza, Rosa, Patrício, Pedro, Sebastião, Salva, um dos melhores, Mathiê, Avelino, e tantos outros.

3 – Daniel Chipenda. Secretário-geral-adjunto da FNLA. Sua área de actuação foi a frente sul. Guerrilheiro, homem forte na facção do leste, nunca teve atuação racista e foi apontado por muitos erros dos quais não tinha responsabilidades e não cometeu. Com a guerra, esteve em Carmona, controlando depois a frente sul, a partir de Serpa Pinto, Silva Porto. Os ataques contra a sua pessoa, sua honestidade, tentando incompatibilizá-lo com a cúpula da FNLA, foram sempre claramente identificados.

Era a UNITA em particular o Miguel Puna, que, temeroso da penetração do Chipenda ao sul, tentava sua destruição, principalmente junto aos sul-africanos e ao governo da Zâmbia. Homem religioso, diabético, tendo que permanecer sempre sob controle médico, Chipenda tem grande penetração popular, é bom orador e sabe muito bem conduzir as massas populares.

Seus comandantes e delegados políticos, muitos deles já estiveram na Rússia e em Cuba, na época em que pertenciam ao MPLA, movimento que abandonou em Janeiro de 1975. Atualmente está como secretário-geral da FNLA, substituto nato do presidente, com grande ascendência sobre os quadros políticos mais jovens do movimento.

4 – Johnny Pinochio Eduardo. Filho do legendário, Papa Pinochio, fundador da UPA, Johnny foi o primeiro-ministro no Governo de Transição , pela FNLA em Luanda e outra vez primeiro-ministro no curto governo da República Democrática de Angola, com sede no Huambo. Mais político do que militar, teve atuação destacada logo que Holden Roberto partiu para a guerra em território angolano. Jovem, de temperamento explosivo, era o homem dos contactos políticos em Kinshasa, inclusivé com a imprensa. Holden sempre o considerou como filho, ignorando qualquer movimento, até mesmo dos próprios quadros, que, tivesse Johnny como alvo.

5 – N’gola Kabango. Foi o homem mais forte da FNLA até perder Luanda, em Julho de 1975. Tinha em suas mãos o Ministério do Interior, controlando as finanças e a segurança do movimento dentro de toda Angola. Personagem controvertido, agiu com firmeza em muitos momentos e, após a queda de Luanda, fez de Carmona sua capital, nomeando governadores para Dstritos conservando militares que sempre lhe foram fiéis, como o Comandante Barreiros, ex-chefe do Estado-Maior em Luanda, que mantendo uma equipe, onde alguns nomes chegaram a ser vetados pela UNITA, quando da formação do governo de coalizão. Pessoalmente simpático, forte, agressivo, nasceu em Luanda, é engenheiro formado na Europa, continuando a ser, até hoje, o político mais debatido dentro da FNLA. Inocente ou culpado, acreditamos que este problema pertence ao próprio movimento e, como tal, fica de nossa parte, apenas o registro.

6 – Hendrick Vaal Neto. Excelente político, embora ainda muito jovem. Todos são unânimes quando afirmam que, sem ele, a FNLA jamais teria instalado sua primeira delegação em Luanda. Inteligente jornalista, cursos de comunicação e mentalização política, recebeu a difícil missão de instalar seu movimento em Luanda, quando por ocasião do Governo de Transição. Foi depois um tanto controlado pelo Ministro Kabango. Confiou em jovens, na esperança de transformá-los em técnicos, porém falhou nesta missão.

Foi o único político que Holden Roberto conservou sempre a seu lado, desde os primeiros dias no Ambriz. Representou a FNLA nas mais difíceis conferências internacionais, na Europa, na América, junto à OUA, nas cimeiras, sempre derrotando, com a sua inteligência, seus adversários.

Com a fundação da República Democrática de Angola, foi escolhido ministro dos Negócios Estrangeiros, dentro da coalizão FNLA/UNITA. Grande ativista e mobilizador de massas, sabe, como nenhum outro, conduzir o povo e extrair o melhor das multidões. É homem de equipe, aceitando o trabalho ao lado de elementos capazes, sem ser nunca racista e sempre lutando pela conciliação.

Esteve recentemente em Lisboa, Madri, Bruxelas, Francforte, concedendo entrevistas e conseguindo grande penetração nos retornados que se encontram em Portugal.

7 – Entre outros quadros, dos mais antigos aos mais jovens, da FNLA, teríamos muito o que selecionar, porém não podemos esquecer, ainda mais pelas ligações de amizade pessoal e de trabalho que tivemos com eles, durante nossa permanência em Angola: Miguel Sebastião, ainda muito jovem, porém com reais e excelentes qualidades no setor da informação, tendo vivido as horas de maior luta ao lado do Presidente Holden Roberto, como secretário particular; Fernando Miranda, inexplicavelmente nunca exerceu funções de maior destaque, além de ter sido conselheiro do presidente, durante muitos meses. E, no entanto, um elemento inteligente, humilde, conhecedor profundo dos problemas angolanos, defensor de uma Angola africana, porém sem racismos, quadro válido em qualquer país do mundo;

Jaime Araújo, outra personalidade controvertida, porém inteligente, mordaz, político acima de tudo, assimilado, antigo membro do MPLA, tendo sido preso pela PIDE. Foi chefe de serviços no antigo Governo Colonial de Angola, atingindo o mais alto posto que o salazarismo permitia aos não brancos naquela época. Conhece muito bem seus adversários e sabe muito de tudo quanto aconteceu na FNLA, dentro e fora, nos ultimos tempos.

Nossa lista prossegue com nomes como, o Comandante Barroso: jovem, arrojado, foi o grande nome no primeiro assalto a Caxito, tendo sido deslocado, posteriormente, para a frente de Carmona, onde sua actuação sofreu críticas, as quais não podemos explicar, por falta de maiores detalhes sobre os acontecimentos e das influências que devem ter sido jogadas sobre ele;

Moyo, ex-seminarista, o grande teólogo e tradutor do movimento, muito sagaz e inteligente, conversador, estudioso e fiel. Bastante viajado representou a FNLA em várias embaixadas importantes; Barreto,teve várias missões importantes, principalmente na Europa, no sentido de elucidar as verdadeiras razões políticas da existência e da posição do movimento;

Rodolfo Teixeira, jornalista, hoje pertence aos quadros do stalf direto de Daniel Chipenda, tendo trabalhado conosco no CEPRO, onde se revelou um excelente quadro no setor profissional da informação e da propaganda política;

Comandante Armindo, também do staff de Daniel Chipenda, de quem é irmão, jovem, muito viajado e , também com uma visão político-militar muito boa;

Maria Victória, a melhor locutora do radio de Angola, inteligente, agradável, bem educada, tendo sido secretária particular de Hendrick Vaal Neto, em Luanda e, após a guerra, secretária particular de Daniel Chipenda; Margarida Araújo, casada com Júnior, filho mais velho do Jaime Araújo, militante e bom quadro da FNLA.

Ela foi a diretora do jornal político Liberdade e Terra, sempre sempre atendendo às missões difíceis que lhe foram confiadas, mesmo sem os meios para torná-las viáveis. Fugiu para o Sul, onde fui encontrá-la no Chitado, num campo de refugiados, de onde deslocou-se depois para fora de Angola;

Buta, fotógrafo, humilde, leal, fazendo milagres, dentro das curtas possibilidades de que dispunha;

Apolinário, quadro excelente, educação européia, começou como guerrilheiro, participando em combates até aos 13 anos de idade, até conseguir título superior em escola e faculdade da Europa.

Outra figura contraditória é a do ex-ministro da Saúde, Samuel Abrigada, também de formação africana e européia, tendo visitado o Brasil. Desejava implantar as experiências brasileiras em Angola, no campo da previdência social, saúde, assistência às populações do interior. Foi um dos elementos mais atacados pelo MPLA, como símbolo da corrupção da FNLA, mas a verdade dos fatos não corresponde a estas acusações. O tempo mostrará a verdadeira dimensão do Abrigada, de quem não se poderia exigir que fosse, ao mesmo tempo, político e militar, pois sempre foi afastado das segundas atividades.

Ministro Graça Tavares. Não temos elementos preciosos, além de informes para formar um perfil deste político, contra o qual pesam graves acusações. Encontra-se atualmente na Europa, tendo sido secretário da Indústria e Turismo, no Governo de Transição e depois, durante a guerra, o responsável pelas negociações económico-financeiras do movimento, principalmente com o apoio de Carmona.

Um registro humano, Dr. Roberto Holden, médico, irmão do presidente, simples, humano, capaz, afastado de tudo, isento de culpas e de acusações. Poderíamos nos estender muito sobre os quadros da FNLA, mas esperamos que as omissões não representem falta de amizade ou de valor pessoal para eles, e sim falta de espaço no livro.

Apenas uma lembrança: comandante Arthur e Comandante David, guarda costas diretos do presidente e seu motorista particular, figuras humanas, com seus defeitos e virtudes, porém irmãos, antes de tudo.

8 – O staff branco dos que lutaram ao lado da FNLA. Coronel Santos e Castro, nome código Himmler, assessor militar e homem diretamente ligado às decisões de alto nível da FNLA. Es-governador de distrito e militar do Exército português. Era mais o político do que o militar. Competente, simples às vezes e vaidoso noutras, nunca permitiu que seus interesses e suas ligações com ex-militares portugueses, em Madrid e em Johannesburg, fossem deixados de lado. Tinha acesso direto às reuniões mais secretas e condições de tomar as decisões diretas com o presidente.

Em sua casa, onde residia ao lado de outros oficiais brancos, recebia pombos-correios de vários países e utilizava seu prestígio de militar, para exercer as pressões que julgava mais corretas e adequadas para cada momento.

Major Alves Cardoso. Também como o Santos e Castro, angolano de nascimento, e ex-oficial do Exército português. Foi sempre o combatente, do primeiro ao último instante, tendo pouca ingerência em negócios políticos e decisões de nível de alta cúpula. Alves Cardoso, mesmo durante seu tempo de militar do Exército português, quer em Angola, Moçambique ou Guiné, sempre sentiu a necessidade da integração do negro na conjuntura política e militar das províncias do Ultramar.

O grande responsável pela fundação da força dos Flechas, temíveis em combate, porque, além do treinamento militar rígido que recebiam, eram pretos a quem eram dadas responsabilidades e mentalização, tornando-os combatentes possuidores de urna mística africana, uma vaidade pessoal à tropa a qual pertenciam, a ponto de constituir, em certo tempo, o núcleo do futuro Exército angolano, no caso de uma Independência sem o 25 de Abril.

Alves Cardoso trouxe este espírito e esta experiência com os flechas para a FNLA, que combateu tantas vezes, passando a lutar ao lado dos seus grandes adversários do passado. Duro, forte com os homens, uma lucidez militar e um faro das alternativas de guerra fora do comum, inegavelmente, o último grande e verdadeiro centurião português da Africa. Lutou sempre por ideal, sem ligações com grupos estrangeiros ou econômicos, sem vaidades pessoais e obsessão pelo poder.

Tem até hoje onde quer que esteja, dezenas de homens, angolanos, portugueses, moçambicanos, ex-comandos, que o seguirão até a morte. Seu grande sonho era a formação das tropas especiais, de uma força operacional rápida dentro do ELNA, porém, as circunstâncias nunca deixaram que ele completasse o período necessário à formação da sua unidade.

Também lhe faltaram meios, pois enquanto outros setores do ELNA dispunham de carros de reconhecimento, armas pesadas e apoios, sua unidade, que sempre esteve nas mais difíceis frentes, contava apenas com duas Pahairds, uma de 90mm e outra de 60mm, uma VTT para transporte, sendo que, em algumas vezes, a carência de meios do ELNA fez com que lhe fossem tomados os parcos veículos de apoio que possuía. Ainda teremos várias ocasiões de falar sobre sua figura contraditória e injustamente atacada pelos políticos da 4.ª Força, no decorrer deste livro.

O chamado Grupo Santos e Castro era, na verdade, Grupo Cardoso, embora todos estivessem juntos. Ao lado do Coronel Santos e Castro, sempre dois auxiliares imedidatos, seu guarda costasJoão Arnoso e seu secretário e Vallet particular, João Cardoso. Na mesma casa, o Capitão Valério Barata, ex comandante dos carros de reconhecimento portugueses em Luanda, anti-comunista, políticamente ligado ao general Spínola, o Manuel Popó, simples, corajoso, contador de anedotas, militar cem por cento na hora de combate, amigo dos amigos, que deixou de lado toda uma carreira para espontaneamente, formar ao lado dos que lutaram contra o imperialismo russo.

Ainda na mesma casa, o major André Bessa, vindo de longe, integrado totalmente na luta, com grandes conhecimentos de guerrilha urbana e guerrilha rural, dirigindo um pequeno grupo de especialistas em explosivos que constituíam a força de sapadores e minas dos comandos do ELNA.

O Presidente tinha por ele admiração e respeito, e foi um militar que suportou todos os mais duros combates, deixando uma passagem de destemor com todas as atitudes que tomou, enquanto esteve na guerra. Perto de casa nas instalações, o restante do grupo, com oficiais e soldados possuidores da mesma mistica dos antigos Flechas, lutando por uma Angola para os angolanos, no modelo africano e sem importações.

Xavier, homem de informação, ex-instrutor dos Flechas no Caxito, conhecedor profundo das regiões angolanas, das cidades e matas, identificou-se com a luta da FNLA, desde Luanda.

Sob suas ordens, uma equipa de homens trabalhou dia a dia, organizando a súmula diária das informações classificadas, para o presidente tomar conhcimento das mesmas e decidir.

Até a formação e ação dos comandos de Alves Cardoso e mais precisamente, até a organização do staff militar de Holden, era o homem que acompanhava o presidente no dia-a-dia em toda a frente;

Cunha,incansável na parte burocrática, ajudando na logística, na organização dos arquivos;

Fonseca, dia e noite nos seus aparelhos de rádio, conseguindo o impossível, detectar toda a rede militar das FAPLAS, ouvir diariamente os comunicados do inimigo, em diferentes frentes, escondido dentro da modéstia do seu temperamento;

Silva, encarregado pelo Hendrick de formar quadros de segurança e da futura informação dentro do Ambriz, às voltas com mil-e-um problemas, foram homens que deram seu tributo total para uma luta onde a própria vida era jogada a cada passo.

Basta sentir o número de vezes em que o nome de Xavier é por mim citado neste livro, para verificar a sua participação direta em todos os instantes da luta da FNLA.

Onofre Lopes Santos, advogado, jurista, possuidor de uma das mais prósperas bancas de advocacia em Luanda, é contratado, profissionalmente para assessorar a FNLA na elaboração da lei fundamental, assim como o MPLA tinha os seus juristas e a UNITA também.

Isto foi o bastante para sua condenação. Perdeu tudo o que tinha em Luanda, todos os bens.

Onofre que organizou como eu, um diário, onde todos os acontecimentos têm sua data correta e as anotações não deixam nossas memórias falharem, saiu de Luanda, recebendo missões na Europa e depois foi para o Ambriz, onde viveu dois meses.

Era um conselheiro jurídico do Presidente e posteriormente foi nomeado ministro da Justiça, no governo de coalizão da República Democrática de Angola, o único branco naquele governo. Simples, puro, honesto, assistiu pela primeira vez a uma batalha em nossa companhia, nos dias dramáticos da luta pela posse de Luanda.

Ainda hoje está ligado ao movimento, pois sendo angolano de nascimento, não se conforma com o estado de coisas que reina em seu país, e continua disposto a lutar. O destino haveria de nos unir, outra vez no Sul, na parte final deste livro.

Um registro lógico aos comandantes angolanos, que mesmo sem pertencerem às tropas especiais de Alves Cardoso tinham comandos e responsabilidades dentro do ELNA, comandando companhias, batalhões ou grupos.

Cito aqui aqueles que estiveram mais ligados a mim: o Portela, o Rabelo, o Vilela, que ainda está dentro de Angola, nas matas do Norte, combatendo pela liberdade e matando cubanos, e todos os combatentes anônimos de uma grande causa, entre eles Aníbal Ruço, cujo temperamento difícil não impede que se faça justiça a seu trabalho e à sua coragem durante a luta, desde Luanda até a retirada final.

Os pilotos constituíam uma força amiga e realizaram o impossível em seus aviões. Tínhamos três tripulações completas de Fokker-27, a do comandante Felício, a do Comandante Fonseca, a do Comandante Nóbrega, com seus respectivos co-pilotos, Fialho, Soares e Gaioso, além dos mecânicos. Outros aviões menores, bimotores e monomotores, eram tripulados pelo Rabelo, incansável, Albano e Ribeiro, estes dois últimos na frente sul, mais ligados ao Chipenda, Franklin, e finalmente os dois primeiros pilotos do primeiro avião comprado pela FNLA, Luiz Carlos e Camilo.

Destaque à coragem do ex-capitão da Força Aérea Almeida e Costa que sequestrou o segundo Friendhip, com tripulação a bordo, e de pistola a mão, levou-o até o Ambriz. Tornou-se, depois, piloto de um helicóptero, Aluette III, juntamente com o mecânico Brás, realizando as mais arriscadas missões de recolhimento de feridos, vôos de reconhecimento em terra e ao longo da costa. Lutando contra a indiferença de uns, a inveja de outros, a maledicência e a intriga, o ódio racista, que havia de alguns, os pilotos cumpriram, de cabeça erguida, suas tarefas até o momento em que a FNLA abandonou as últimas posições no Norte, passando a lutar na clandestinidade.

Muitos, hoje, estão em países diferentes, e sempre um reencontro constitui momentos de alegria, quando se relembram muitas coisas que foram feitas ou deixaram de ser realidade. O importante quando se perde urna guerra, é a autocrítica fria de todos os fatos, deixando-se de lado fatores bobos, e se obtém um resultado positivo perante nossas próprias consciências de que a atuação foi justa e honesta, em favor de uma causa que nos parecia, naquele momento, a melhor para o futuro de um povo.

Ainda sobre o staff do Presidente Holden Roberto, indispensável registrar a presença, a partir de setembro, de um novo conselheiro militar, o Coronel Mamina, um dos criadores das Forças Especiais do Zaire, enviado como assessor técnico e observador especial, velho amigo do presidente, cuja atuação na guerra foi importante, tendo-se em vista que esteve sempre ao seu lado em suas decisões mais importantes, a partir da segunda quinzena de setembro.

É preciso ressaltar o desprendimento daqueles que lutaram contra uma superioridade de meios e de homens, para preencher importantes lacunas no terreno logístico da guerra.

Os pilotos Felício, Fialho e Rabelo realizaram dezenas e dezenas de missões, as mais arriscadas de reconhecimento e fotografia aérea, operando até mesmo em aviões Fokker-27.

Utilizando-se câmaras especiais adaptadas a velocidade e altitude dos aviões, toda a área em poder do MPLA era constantemente fotografada, inclusivé Luanda, onde, por várias vezes um dos Fokker-27 realizou fotografias até mesmo sobre o próprio aeroporto da capital.

Felício e Fialho escaparam milagrosamente da morte, quando, já por ocasião da retirada das tropas da FNLA do Ambriz, com as forças do MPLA na Fazenda do Lifune, foram alvejados por quatro mísseis terra-ar, que não atingiram o avião por mera eventualidade, pois, no exato momento do lançamento, Felício levantara a aeronave para um desvio rápido à direita, temendo a chegada de Mig-21.

Todos estes homens estão hoje em outros países, e sentem o peso das responsabilidades que tiveram sobre os ombros.

Muito aprenderia o mundo viver e em particular, a própria FNLA, que continua a fazer guerrilhas no norte, aceitando um exame de consciência global, a chamada autocrítica coletiva, a análise fria de todos os acontecimentos, o que imediatamente deixaria claro erros e posições assumidas que vieram contribuir para a catástrofe final.

(*) Fernando Luis da Câmara Cascudo (1931-2013)

O jornalista e escritor, primogénito de um dos maiores intelectuais do Brasil no século XX, faleceu na manhã de Segunda Feira aos 82 anos, no Recife. Fernando Luís era viúvo e deixa o filho único Eduardo Luís da Câmara Cascudo de 50 anos de idade, casado com Elisa e seu neto Luisinho. Internado cerca de dois meses com um quadro agudo de pneumonia, infecção urinária, anemia profunda e problemas na vesícula, Fernando será velado hoje no cemitério Morada da Paz, em Paulista, Grande Recife.

Fernando Luis (1931-2013), era Bacharel em Direito, profissão que nunca exerceu de fato, dedicou 57 anos de sua vida ao jornalismo, e em Natal fundou a sua primeira agência de publicidade, – a Vesper Propaganda – ainda na décade de 1960. Afastado da rotina das redações há pouco mais de 3 anos, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), o potiguar saiu muito novo do RN, para trabalhar no Rio de Janeiro, onde começou sua carreira na Bloch Editores. Radicado no Recife desde os anos 70, foi o primeiro director da sucursal da revista Manchete para o Norte e Nordeste.

No campo da literatura publicou o livro “Angola, Guerra dos Traídos” em 1979, título inspirado na época em que morou em África, onde passou “muito tempo”, segundo a irmã Anna Maria Cascudo, trabalhando como publicitário em Moçambique.”

Fonte: Tribuna do Norte. 24-09-2013

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    MBEMBA NGANGU: O HERÓI DO BEMBE QUE SALVOU UÍGE

    Por Filho do Kivuzi (Vamba)

    “Mbemba Ngangu” foi um soba e herói local que mobilizou o seu povo e as aldeias vizinhas para a resistência contra a ocupação colonial portuguesa. A sua luta teve grande apoio das populações ribeirinhas do rio Lucunga, uma zona estratégica do antigo território.

    Mbemba Ngangu é um nome em Kikongo, um cognome dado pelo próprio povo em reconhecimento à sua liderança. Etimologicamente, significa: Mbemba (“Águia”) e Ngangu (“Visionário” ou “Astuto”). A águia representa a visão ampla do campo de batalha e a rapidez no ataque, enquanto Ngangu reflete a sua inteligência tática e capacidade de antever os movimentos do inimigo.

    Natural da região de Mbamba — território que hoje corresponde ao município do Bembe —, Mbemba Ngangu terá vivido entre os séculos XVI e XVII, período em que o Reino do Kongo enfrentava as primeiras incursões portuguesas no interior. A província de Mbamba era a mais militarizada do Reino do Kongo, responsável pela defesa sul.

    Para perpetuar a sua memória, o herói foi homenageado na cidade do Uíge com um busto e com o topónimo de um bairro: o Bairro Mbemba Ngangu. Morreu em combate, defendendo as terras do seu povo, tornando-se um símbolo eterno da resistência Kongo.

    5 de MARçO de 1965

    Por Sousa Jamba

    Há datas que não entram apenas na história: entram na carne moral de um povo. O 15 de Março de 1961 é uma dessas datas severas, dessas datas que deixam de pertencer ao calendário para passarem a pertencer à consciência. Foi nesse dia, no Norte de Angola, que a contestação ao colonialismo português deixou de ser murmúrio clandestino, conspiração fragmentária ou esperança sem armas, para se converter em guerra. A UPA, operando a partir de bases no Congo-Léopoldville, desencadeou a insurreição que transformou o nacionalismo angolano numa rebelião rural de massas. Milhares de homens atravessaram a fronteira; a autoridade colonial foi atingida com violência; e o império português descobriu, de súbito, que Angola já não cabia na ficção burocrática das «províncias ultramarinas». A partir desse momento, a questão angolana impôs-se, com urgência própria, como problema africano e internacional.

    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

    One thought on “O Staff de Holden Roberto na conquista do poder em Luanda

    1. Obrigado Sr. Câmara Luis por escrever tan bem a ossa história

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