FUZILAMENTO DE COMANDANTES DO ELNA NA BASE DO KINKUZU. TESTEMUNHO DE COMBATENTES.

A base de Kinkuzu e o fuzilamento de comandantes

Testemunho de combatentes. 

Por Silvino Fortunato/Uíge

Os ataques havidos, durante quase todo o ano de 1961, contra as concentrações de colonos portugueses em territórios do Uíge e Kwanza Norte, tinham empurrado o povo a uma nova realidade. Encontraram morada, nas frondosas florestas do Uíge, ficando para trás e abandonadas aldeias inteiras.

Segundo o nacionalista Miguel Pedro, que tinha participado no ataque contra o posto administrativo de Lukunga do Mbembe, no dia 15 de Março, os esconderijos eram dirigidos por homens que já tinham experiência militar e por aqueles que vinham como mensageiros, tendo facilitado rapidamente a organização das pessoas em pequenos grupos, formando assim as primeiras bases.

“Em 1962, fomos tirados, 60 pessoas, do grupo que era controlado pelo Muangazi, para irmos buscar armas ao Congo Kinshasa, junto do Governo Angolano no Exílio, recentemente constituído”. Já em Kinshasa, ao grupo foram retirados 10 homens incluindo o próprio Miguel Pedro, que neste ano completara 18 anos. Estes tiveram o privilégio de assistir a passagem da União dos Povos de Angola (UPA) para a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Os outros 50 efectivos regressaram para as bases, recentemente criadas nas matas do Uíge e Kwanza Norte com o primeiro material de guerra.

Miguel Pedro disse que ele e mais muitos outros membros foram encaminhados depois para Kinkuzu, para criarem as condições necessárias, que estabeleceu, posteriormente, o temido campo de formação militar da FNLA.

Foi neste mesmo ano de 1962, o da fundação da FNLA, que também começaram a chegar a Kinshasa os primeiros cadetes que tinham sido formados na Tunísia. O presidente Holden Roberto e alguns dos membros da direcção tinham decidido enviar a cada um destes militares a sua respectiva área operativa ou seja aos postos de sua proveniências.

Esta pretensão fora contrariada por alguns oficiais que sugeriam a criação de uma base de instrução para os muitos guerrilheiros inexperientes que se encontravam nas matas de Angola e mesmo aqui no Congo sem fazerem nada, para serem verdadeiros militares, lembrou Miguel Pedro actualmente delegado da FNLA no município de Negage, na província do Uíge.

Na discussão entre os políticos e militares, segundo informou, concluiu-se que se deveria abordar primeiro o governo do Congo para ver se acolhia a decisão do movimento da criação no seu território dessa base de instrução. Depois da aceitação, pediram então a Kazavubu uma área para o assentamento desta base, sendo-lhes então indicada a localidade de Kinkuzu, num terreno agora baldia, onde anteriormente os franceses faziam os seus treinos.

O Eduardo Pinock e outros dirigentes foram a Mbanza Ngungu e daí a área de Matadi, disse. “Desta localidade desceram a mais 70 quilómetros e foram encontrar a sanzala chamada Kinkuzu. Conversaram com os sobas, que eram os chefes das regedorias, conforme a designação local, que mostraram o terreno. Os dirigentes avaliaram e viram que o terreno estava bem localizado pelas terras férteis e aproximação de rios”.

O mesmo grupo de Pinock já não voltou. Ficou a preparar o lugar. Depois, os homens da direcção política, como o Pinock, regressaram a Kinshasa, por ordem do comandante em chefe, o Horden Roberto.

“Quando cheguei era um deserto de capim baixo, o lugar escolhido para o centro. Fomos os primeiros guerrilheiros a acompanhar os chefes que decidiram a escolha do lugar para a preparação militar dos guerrilheiros. O capim era curto ou seja de pouca altura. Não sei porquê, mais tarde esta vegetação tornou-se alta. Antes era um deserto”.

Logo, logo, começaram a capinar o lugar, de seguida a cada um erguia a sua cubata com paus, cordas e capim, seguindo-se a construção das instalações gerais do centro com o mesmo material artesanal, um trabalho que era facilitado pelas pessoas da região de Kinkuzu que também falam kikongo, tal como muitos deles, referiu.

“Fui uma das pessoas a contactar a população do povo (aldeia) de Kinkuzu. Falei da minha origem familiar, que era tsakungu, sobretudo da minha família materna que é de kisamba. Descobri que havia membros da geração do meu pai nevika, que no Congo chamam nevintali. Me receberam bem”.

As primeiras catanas com que começaram a capinar e a organizar o espaço, que mais tarde acolheria milhares de Angolanos, foram dadas pelos habitantes de Kinkuzu. Elas próprias ajudavam também a limpar o lugar. “Ajudavam também com comida, oferecendo kikuanga, que chamavam tinga”, até que se concluiu que as condições estavam criadas para a instalação do campo de formação militar da ELNA, o recentemente criado braço militar da Frente.

Foi em 16 de Agosto de 1962, que entrou em actividades a base de Kinkuzu, numa cerimónia dirigida pelo próprio presidente Holden Roberto. O funcionamento do centro foi antecedido pela criação da estrutura do mando militar, como foi o estado-maior, os chefes das companhias e dos batalhões, sendo depois constituídos os quartéis, que deram lugar sucessivamente as instruções, após que foram estabelecidos os períodos das instruções combativas, táctica, política e outras matérias.

Miguel Pedro disse que o primeiro grupo de recrutas tinha mais de duzentos instruendos. “Duzentos, é pouco. Tinha trezentos e tais”, a maioria era jovem, havendo também alguns mais velhos, muitos deles com passagem na vida militar portuguesa em Angola e fora. “Fomos os primeiros instruendos da base de Kinkuzu”..

José Kalundungu, que mais tarde integrou-se na UNITA, foi o primeiro responsável do centro. Kalundungu foi o nome de um dos rios da região de Kinkuzu, cujas águas tinham o sabor de gindungu, ardendo quando se a provassem. Quis que o chamassem Zé Kalundungu diminuindo também o nome original, que era José, nascido nas terras dos Kwanyamas, em Ondjiva.

O Zé Kalundungu acumulava a função de chefe do centro com a de chefe de estado-maior. Constavam entre os primeiros instrutores o Sengele Roberto, o Miguel Pedro, Paulo André, Pedro Bunda, que foi um dos chefes do centro, que fez parte do primeiro grupo instruído na Tunísia. Todos eles constituíram o primeiro grupo de dirigentes que ocuparam cargos no centro de Kinkuzu. Uns eram directores, outros chefes de instrução e havia ainda os chefes políticos e demais funções que repartiam com a tarefa de instrutores.

Muitos dos que ocupavam as primeiras funções desta organização militar tinham treinado na Índia, na Tunísia, na Nigéria e em academias militares de outros países, que chegavam regularmente para reforçar o grupo de instrutores. “No grupo da Índia estava o comandante Londres, natural do Mbembe. O Londres era oriundo das matas do Mbembe antes de ir aprender técnicas de combate e direcção militar em várias academias no estrangeiro”.

Aludiu ainda que havia também instrutores militares estrangeiros que vieram depois, quando o presidente obteve a ajuda da China, onde vieram esses instrutores chineses. “Veio um batalhão deles, comandado por um coronel, que nos deram as últimas instruções antes de partirmos para Angola”.

Segundo Miguel Pedro, o fardamento de recruta foi entregue no primeiro dia da abertura do centro, pelo próprio presidente Holden, assim como as armas cumpridas que usaram nos primeiros meses de treinamento que eram holandesas. Também usaram armas de tipo mouser e Ge3. O fardamento era de cor azul, igual a farda que a polícia nacional usa hoje, conforme especificações do ex-guerrilheiro.

O centro de Kinkuzu infrentou uma acentuada crise de alimentação entre o período de 1962 e 1963. A comida vinha de Kinshasa, era à base de arroz, feijão, fuba de milho e conservas. Também recebiam cigarros.  Mais tarde, a população angolana,que estava já fixada no Congo, ajudou muito no fornecimento de mantimentos ao centro. A partir de 1965 o povo já tinha criado lavras.  Trabalhava mandioca, ginguba, que enviavam para o centro. Eram os povos da Damba, Mbembe, Mukaba e outras regiões do Uíge, que chegavam ao centro de viaturas para doarem a comida.

Com os acontecimentos de 15 de Março, a partir do Lukunga do Mbembe, Ambuíla todos tinham fugido para as matas, tendo muitos avançado para o Congo, segundo precisou, adiantando que foi esta população que ajudava com o abastecimento ao centro.

A primeira fase da formação durou seis meses de treinos, após que juraram a bandeira. “Tiramos a farda azul e deram-nos a farda militar”. Imediatamente, foram sendo distribuídos para as várias frentes que existiam no interior de Angola. “Eu fui enviado para Cabinda”.

Entretanto, os militares regularmente eram chamados para participarem noutros treinos de coesão combativa em Kinkuzu. Depois de dois anos em Cabinda, Miguel Pedro voltou a Kinkuzu para novo treinamento. Também davam férias para a necessária visita a família que estivesse em Kinshasa ou noutros pontos do baixo Congo.

Tentativa de golpe ou conspiração?

Questionado sobre os acontecimentos registados em Kinzuzu, Miguel Pedro disse que estava na frente Cabinda, quando se instalou “a triste crise que abalou para sempre a estrutura da FNLA”. Foi a sua primeira grande crise, mas que marcou o movimento durante o tempo que restava para a independência, conforme reconheceu o ex-combatente da liberdade, actualmente entregue à política.

Foi entretanto, Pinto Luvambu, que acompanhava a conversa entre o jornal de Angola e o nacionalista Miguel Pedro, quem assumiu que acontecimento tinha envolvido um grupo de oficiais da ELNA, com destaque para os comandantes Tonta e Londres. “A primeira grande crise da FNLA envolveu o grupo do irmão comandante Londres”.

Luvambo é o actual delegado do partido FNLA no Uíge, ingressou na luta armada, pela UPA desde os primeiros dias que se seguiram ao 15 de Março de 1961, quando participou no ataque contra colonos portugueses, no posto administrativo do Songo, sua terra natal. Na altura dos acontecimentos de Kinkuzu fazia parte do batalhão que era chefiado pelo comandante Londres.

“Foi em 1969 que saímos de Kinkuzu e nos fixámos na COBA, numa composição de um batalhão reforçado. Instalaram o comando numa região onde encontraram os chefes guerrilheiros como o Paulo da Glória e o Nzambi Nzengani. Eu e o comandante Sousa, comandante Bunda fomos mandatados a estabelecer o primeiro comando do Uíge na região de Mongo a Mbuela”. Mais tarde Pedro Bunda, mais conhecido por Ngongotá, nascido em Nkusu Mpete, em Maquela do Zombo, passou a adjunto de Londres, segundo Luvambu que reconheceu as qualidades combativas do antigo cabo do posto do Lembua.

Neste ano as forças portuguesas como indicou estavam muito activas, sujeitando a guerrilha a muita pressão. Operavam com helicópteros puma, que fustigava incessantemente as áreas em que estavam as bases guerrilheiras. “Quando chegavam, vasculharam as matas, nos madiada ou naquelas ervas, onde as pessoas se escondiam. Os helicópteros baixavam e faziam descer os comandos, em cordas para apanharem as pessoas escondidas e logo levantavam com elas”.

O povo quando viu isso falou com o comandante, que era o Londres, informando-o das peripecias que as acções dos comandos portugues provocavam. “Comandante aqui estamos mal. Devemos mudar o calibre das armas  e também deve-se adquirir antiáreas para o abate dos aviões. Agora, os helicópteros conseguem levar as pessoas escondidas e às vezes lançam fios com os quais apanhavam as pessoas, três ou quatro. Mesmo soldado com arma você vai. Isso está mal”, disse já com o olhar distante aos dias daquelas empreitadas nacionalistas.

Embora trêmula, com a idade, a fala do então combatente ainda revela conhecimento do encontro muito renhido que tiveram com a população nessa base onde ouviram até os depoimentos de civis e soldados subalternos, sobre a catástrofe que provocavam as operações portuguesas dificilmente ripostadas pelas armas inadequadas que tinham.

O comandante Londres indicou o seu adjunto, o comandante Pedro Bunda, o Ngongotá, que se recusou terminantemente de levar ao presidente as inquietações das bases. “O homem disse não, eu não vou. É melhor você mesmo é que vai”.

O comandante Londres regressa então para o Congo para expor ao mando superior esses e outros problemas, constatados aqui, discutir as soluções necessárias,“para ver se o presidente Holden Roberto mudasse o calibre das armas”.

No encontro que mantiveram, de acordo com Pinto Luvambu, primeiro houve concordância, mas depois as coisas não correram bem. Não foi conforme queríamos.O presidente disse que desta vez ainda não, mas que todo o homem cadete, que foi aprender estatística militar fora, tinha de ir para as matas, porque o povo quer render-se, a massada era demais.

Então, disse, o Comandante Londres deixou Kinshasa indo para Kinkuzu onde encontrou uma manifestação de quadros e das chefias militares. “Aí o Tonta faz o memorando para que todos assinassem para que o Holden aceitasse a vontade deles, que era de mudar o presidente Holden. Quando o Londres chega, lhe obrigam também a assinar”.

Esses apresentaram ao comandante Londres um manifesto, que entre outras questões levantava a ideia da substituição do comandante em Chefe, o presidente Holden, pela ineficiência que julgavam haver na condução da luta.

“Já que você é de confiança dele e até te mandou ao estrangeiro para reconhecer o exército, tens de assinar e seremos nós a substituir o presidente no comando”. Desconfiando das consequências que ia dar, insistentemente o comandante Londres se recusava a assinar, mas depois de muita pressão por parte dos companheiros o homem acabou por assinar, disse.

Adiantou que após isso colocou-se a seguir o problema de quem levaria o memorando ao presidente. O comandante Tonta sabia que Londres, até então, era o oficial de quem o presidente tinha muita confiança, pela qualidade profissional e académica, muito elevada em relação à maioria dos demais. Aproveitando-se disto, sugeriu que fosse o Londres o mensageiro que entregaria o memorando ao Holden.

Londres ainda recusou alegando que tudo isto daria em confusão ainda por cima na terra alheia e que se o propósito falhasse haveria consequências drásticas, lembrou o ancião, que mais tarde aventou a possibilidade de que a maioria tinha caído numa cilada montada pelo comandante Tonta, que tinha o propósito dele mesmo ascender à chefia do movimento.

Nas suas lembranças Luvambu revelou que “afinal, o Tonta já estava a receber mensageiro de Brazzaville. O Tonta nasceu e estudou em Brazzaville. Estudou com o presidente Marien Nguabi. Muitas vezes nos falava, o outro já é presidente e eu ainda apenas sou comandante”.

Depois de assinarem a carta, ele, o Tonta, e um pequeno grupo parte de Kinkuzu para Kinshasa para fazer contactos fora do grupo, antecipando a equipa do Londres. Quando Mobutu tomou conhecimento do conteúdo do memorando deteve imediatamente o grupo do Londres. “Isso também porque não tinha gostado das palavras que o miúdo, o filho do Gourgel, lhe dirigiu de que ele não tinha nada a ver com o nosso caso, porque nós somos oficiais académicos”. A isso o Mobutu respondeu-lhe que era ele o dono do país e não podia estar indiferente com o que se passava. Sentiu-se ofendido e mandou-os deter.

A seguir foram retirados da cidade de Kinshada e transferidos para Kinkuzu, acusados de várias coisas já modificadas, que depois nos chegaram à base onde nos tinha deixado o nosso comandante Londres, referiu com nostalgia o antigo guerrilheiro.

Ao contrário do que o povo nas matas esperava, receberam as informações que indicavam a tentativa de um golpe contra o Holden. O comandante Ngongotó que foi adjunto do comando do batalhão foi quem recebia as informações que vinham de Kinshasa sobre o hipotético golpe, via rádio.

Fuzilamento de comandantes

A situação confusa que se instalara nas matas obrigou a uma reunião do comando da guerrilha de diferentes posições. “Fomos chamados, por ele, todos os comandantes do Uíge e Kwanza Norte, mais os outros como o Roneto, o Distraído, o Manuel Bernardo e outros. Sentamos. Temos de dizer alguma coisa ao presidente para salvar os outros. Também não vamos defender o mal. O que é certo, estamos numa situação um pouco complicada. Não temos país e o português nos persegue”, ainda se lembra Pinto Luvambu do debate que tiveram sobre o assunto.

Os maquisards temiam pelo abate dos companheiros, em uma sentença quase certa em casos de golpes falhados. “Agora esses quadros, vão mesmo desaparecer (morrer)? Uma vez desaparecem o que será da revolução? Entretanto, se recusavam a enveredar em confusão ou a intervirem militarmente. “Também fazer confusão no meio da guerra de libertação não dá porque não temos país. E se o Congo nos corre daí, onde vamos ficar para fazer a política”?

Pinto Luvambu disse que perante a indefinição decidiram defender a continuidade da luta para a libertação do país, tendo em contrapartida comunicado ao presidente que eles cometeram erros, mas que devia encontrar outra solução e não o fuzilamento. Entendiam que o presidente tinha de ver que o país onde estavam a formar a tropa e a viver não é Angola. Se houvesse confusão neste país, que é alheio, seriam expulsos e teriam dificuldades em como sustentar a guerra.

“Se estes comandantes morrem estamos a matar o partido, porque todos os comandantes que se prevê abater têm famílias nas matas e no Congo também, caso essas famílias ouvissem que os filhos deles foram executados. Não vão saber o motivo do fuzilamento e vão apenas fazer confusão. Sugerimos que se encontrasse uma outra solução”, lembrou.

No Congo, o presidente Holden Roberto mandatou uma comissão chefiada por Peterson para inquirir em Kinkuzu os meandros da tentativa de sublevação, como entendia, cuja investigação seria extensiva aos quadros e comandantes que estavam nas matas e com ordens para a tomada de medidas necessárias.

A intersecção dos comandantes no maquis, através de cartas e de conversas por rádio com o próprio Holden, não surtira efeitos nenhum. “Os homens foram mesmo fuzilados. Houve tristeza profunda. Mas não podíamos nos rebelar por causa da situação ambígua que nos encontrávamos”.

Contou que Mobutu colocou forças transportadas a volta de Kinkuzu, enquanto outra tropa mista tinha perfilado à frente da formatura dos homens condenados. “Se quem faz golpe, falha, é executado. O presidente Holden manda executar os homens. Todos quantos estavam presos”. Foram presos em Kinshasa e executados numa parada em Kinkuzu.

Estavam nas matas a lutar contra a força colonial e no Congo estávamos em terras alheias, uma ambiguidade que teriam apenas de suportar em silêncio.“Os portugueses estavam a nos perseguir e conheciam os nomes dos comandantes, seus adjuntos e outros chefes. Não tínhamos como. Tínhamos que encontrar maneiras de gerir a situação, mesmo com a nossa tristeza e frustração. Vamos combater o colonialismo português e quem mais tarde quiser perguntar o que se passou, vamos contar.

Depois de fuzilarem dezenas e dezenas de comandantes em Kinkuzu, o presidente entendeu abandonar a extensão do abate dos chefes guerrilheiros que encontravam no interior. “Já não fuzilaram mais ninguém. Todos os nossos nomes estavam na lista. Estávamos no plano, éramos tratados por famílias do Londres. Queriam também nos prender e fuzilar, nós os que fazíamos parte do grupo do Londres”, que era o comandante do batalhão da frente norte.

Pinto Luvumbu, como informou, pertenceu, na época, ao comando do quartel central do Uíge que estava cubicado no actual território de Ambuíla, no Mongo Ambuela, propriamente, na Pedra do Nzenzu, uma das 7 maravilhas de Angola. “Era nas furnas da Pedra do Nzenzu que abrigamos. Era a nossa base. É aqui que Londres nos deixou para ir apresentar as preocupações da frente”.

Fragilidade da FNLA

Mais tarde, o mesmo presidente Holden mandou buscar o comandante Ngongotó, que era o adjunto de Londres. Este escoltado pelos guerrilheiros chefiados por Pinto Luvumbu seguiu para responder à chamada do comandante em chefe. Foi na posição de Nkenka, que encontraram o Tonta, que tinha substituído o Londres em termos de confiança do presidente, que os recebeu.

Segundo avaliação de Pinto Luvambu, quando o Londres levou o memorando ao presidente o Tonta já o tinha feito, antecipando-se, contando outra versão que incriminava os outros. “Ele enganou os outros”, disse o ancião com a justificação do facto de ele não ter seguido o mesmo destino dos demais que tinham assinado o memorando.

Para ele, a morte de Londres foi uma conspiração do Tonta. “Ninguém ficou satisfeito, mas tínhamos um peso enorme de um país para libertar do colonialismo português”.

Pinto Luvambu considerou grande derrota a morte do Londres. “A morte do Londres e de outros companheiros fragilizou a FNLA, fragilizou o exército do ELNA, no enfrentamento do inimigo e nos desafios do período de transição”. Ao contrário de Tonta, todos os que foram fuzilados eram quadros relevantes com formações em várias academias militares no estrangeiro.

Demonstrando remorso, Pedro Luvambu não quis citar os nomes dos comandantes que tombaram naquele dia. Limitou-se a lembrar que essa gente falava várias línguas.Tinham formações muito elevadas, quer a nível da academia, quer a nível militar. Conheci vários irmãos que eram intelectuais extraordinários. Todos morreram lá. Não tenho prazer de estar aqui a falar dos nomes deles”.

Já em lágrimas suspirou, “tombaram o Sengele Roberto, o José Jaime Augusto, o Miguel Pedro… A maioria dos primeiros dirigentes e instrutores do centro da base de Kinkuzu morreu neste dia. Continua a dar muita tristeza contar isso”.

O Londres apenas queria que se mudasse a mentalidade da guerrilha, da forma de luta e dos equipamentos de guerra, declarou rebuscando a realidade que testemunhara, tendo enfatizado:“A política é complicada”. Referiu que “o nosso grupo tinha ficado nas matas e esperávamos pelo comandante Londres que ia explicar ao presidente as necessidades dos guerrilheiros e dos anseios do povo nas matas. Já mais regressou, Tinha caído numa cabala e morto pelos seus companheiros”.

Relacionamento complicado

A situação do abate dos dirigentes tinha deixado marcas profundas na organização, que enfrentava especulações de várias natureza. O presidente admitia dificuldades de relacionamento com o efectivo proveniente do Uíge, uma realidade que o inquietava ultimamente, depois da situação de Kinkuzu.

Num dos dias chegou aos ouvidos do Presidente que muitos guerrilheiros oriundos do Uíge tinham se rendido ao exército colonial como sinal de pretexto pela morte dos comandantes.

“Preocupado o presidente mandou-nos para inquirir o que realmente se passava nas bases, numa missão que era dirigida pelo então mensageiro, agora militar, Manuel Bernardo, e coadjuvado por mim, Pinto Luvumbu”. Manuel Bernardo, aquele que instigava os levantamentos populares havidos, a partir do 15 de Março contra os assentamentos coloniais, era agora o comissário político da frente norte.

Foram encarregados de inquirir o que se tinha passado em Mukaba, região de Kinvuenga, indicada pelos boatos como o da deserção dos guerrilheiros. Quando chegaramos aqui contactamos o capitão que encontramos na base do Bala, arredores da aldeia com o mesmo nome, que estranhou a natureza da informação.

“Viemos saber se havia mesmo deserção em massa ou não”. Depois foram a base que o oficial do movimento os indicara, onde encontraram mais de um batalhão, uma prova de que não existira deserção entre o efectivo. O grupo estava tudo intacto.

Apesar disso “disseram-nos que não se tinham rendido mas sim haviam tropas portugueses negras que se tinham rendido por causa das acções guerrilheiras”. Cumprida a missão marcharam de regresso, quando tiveram uma surpresa inusitada, segundo informou Pinto Luvambu.

“Chocamos com militares do exército português. Estes chegaram transportados em três unimogs. Também surpreendidos, procuraram saber a nossa proveniência. Nós explicamos que viemos de kinkuzu, mas somos angolanos que vivem nas matas. Eu, particularmente, disse que foi há dias que vim do coba, o comando operacional da Frente norte. Ao longo da guerra de guerrilha essa entidade mudou de sigla, passando depois para COA, e no pós- independência, isso durante a luta fratricida, chamou-se cofa.

Depois de uma certa hesitação os militares portugueses desceram dos Unimogs e abraçamo-nos, isso aconteceu no território de Mucaba.

Via JA
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    5 de MARçO de 1965

    Por Sousa Jamba

    Há datas que não entram apenas na história: entram na carne moral de um povo. O 15 de Março de 1961 é uma dessas datas severas, dessas datas que deixam de pertencer ao calendário para passarem a pertencer à consciência. Foi nesse dia, no Norte de Angola, que a contestação ao colonialismo português deixou de ser murmúrio clandestino, conspiração fragmentária ou esperança sem armas, para se converter em guerra. A UPA, operando a partir de bases no Congo-Léopoldville, desencadeou a insurreição que transformou o nacionalismo angolano numa rebelião rural de massas. Milhares de homens atravessaram a fronteira; a autoridade colonial foi atingida com violência; e o império português descobriu, de súbito, que Angola já não cabia na ficção burocrática das «províncias ultramarinas». A partir desse momento, a questão angolana impôs-se, com urgência própria, como problema africano e internacional.

    É precisamente por isso que o silêncio em torno da FNLA, herdeira directa da UPA, tem qualquer coisa de excessivamente útil para ser inocente. Não se trata de simples esquecimento, nem de uma modesta economia pedagógica. Trata-se, antes, de uma operação mais funda e politicamente mais rentável, pela qual uma parte decisiva da história de Angola foi sendo empurrada para a margem, depois para a penumbra, e por fim quase para a inexistência. Ora, a FNLA não foi um acidente periférico da libertação angolana, nem um episódio menor que a marcha ulterior dos vencedores pudesse legitimamente reduzir a nota de rodapé. Em meados da década de 1960, FNLA, MPLA e UNITA eram reconhecidos como os três movimentos principais na disputa da liderança nacional; e foram precisamente esses três que surgiram inscritos no processo de transição consagrado em Alvor. O rebaixamento retrospectivo da FNLA não nasceu dos factos. Nasceu, isso sim, da vitória posterior de uma narrativa de Estado, mediante a qual um poder triunfante converte a contingência da sua ascensão em necessidade histórica e a vantagem militar em superioridade moral.

    A caricatura mais repetida sustenta que a FNLA não passou de uma expressão bakongo, étnica e circunscrita. É evidente que a espinha dorsal do movimento se encontrava no Norte e nas comunidades exiladas do Congo. Mas reconhecer esse dado não equivale a desqualificar o movimento; identificar uma origem não é o mesmo que decretar um cativeiro. A UPA nasceu nesse espaço porque ali existia uma base social efectiva, uma memória política anterior ao traçado colonial e uma experiência concreta de mutilação territorial. O antigo Reino do Kongo precedera as fronteiras coloniais. Numerosas famílias bakongo viviam a linha Angola-Congo não como verdade histórica, mas como corte administrativo imposto de fora. E a repressão portuguesa tornava quase impossível qualquer forma de organização legal dentro de Angola, empurrando activistas para o exílio, onde podiam recrutar, treinar, imprimir propaganda e estabelecer contactos. Nada disto diminui a legitimidade da UPA. Pelo contrário: inscreve-a num padrão mais vasto da história africana do século XX, no qual diversos movimentos de libertação se organizaram fora do território colonialmente dominado. Uma raiz não é uma prisão.

    A transformação da UPA em FNLA constituiu, justamente, o esforço deliberado de conferir ao movimento uma moldura mais ampla, mais articulada e mais nacional. Sob Holden Roberto, a causa angolana adquiriu contactos, voz diplomática, presença em fóruns internacionais e uma estrutura política que lhe deu contorno, consistência e duração. Em 1962, a criação do GRAE, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio, representou um passo decisivo: pela primeira vez, uma estrutura angolana apresentava-se não apenas como movimento de resistência, mas como autoridade que reivindicava representar Angola perante o exterior. Estados africanos e a Organização da Unidade Africana reconheceram essa estrutura e trataram-na como interlocutora legítima da causa angolana. Não se concede semelhante estatuto ao que é irrelevante. Não se reconhece, com tal solenidade, aquilo que não pesa.

    A FNLA construiu igualmente uma máquina política e militar real. Nos campos de treino próximos de Kinshasa, milhares de combatentes foram preparados para a guerra de guerrilha; a ELNA não era uma ficção musculada para consumo externo, nem uma cenografia ideológica erguida para iludir observadores estrangeiros. O movimento organizou, além disso, assistência a refugiados e programas médicos destinados aos deslocados. E, apesar da sua forte implantação bakongo, a FNLA não foi um corpo etnicamente selado. Entre os nomes ligados ao governo no exílio figuram José Lihauca, médico na área da Saúde, e Dr Jonas Malheiro Savimbi, que desempenhou funções relevantes na representação externa antes da ruptura que o afastaria de Holden Roberto. A composição do movimento era, portanto, mais larga do que a caricatura permitiu admitir, e mais complexa do que a simplificação escolar se mostrou disposta a tolerar.

    Digo tudo isto também a partir de uma memória pessoal, que não substitui a história, mas por vezes a ilumina. O meu pai, Tavares Hungulu Jamba, pertenceu à UPA, tendo sido recrutado por quadros enviados do Norte para o Planalto Central, concretamente para a Missão do Dondi. A minha irmã, Altina Flora Jamba, foi membro sénior da Ala Juvenil da FNLA no Planalto Central. Lembro-me dos homens vindos do Norte, sentados em nossa casa, entregues a conversas longas, densas e tensas, como se cada frase transportasse, ao mesmo tempo, um segredo e um risco. Vários familiares próximos, depois do exílio de 1961, acabaram integrados na UPA. A FNLA teve braços, fidelidades e circuitos humanos muito para além da caricatura escolar. Passou por casas, atravessou geografias, tocou famílias, deixou marcas. Não foi, para muitos angolanos, uma abstração; foi uma presença.

    A caricatura persistiu porque era útil. A verdade complicava em excesso a liturgia dos vencedores. Implicaria reconhecer que a UNITA emergiu, em parte, do mesmo tronco histórico; que figuras posteriormente denunciadas como traidores haviam sido, em certo momento, jovens angolanos movidos por impulsos nacionalistas inteligíveis; que atravessaram fronteiras não por venalidade, mas porque queriam juntar-se à luta. A história real raramente oferece a pureza moral com que os regimes sonham educar os seus catecismos. É sempre mais ambígua, mais desconfortável, mais resistente à pedagogia do poder. A FNLA não precisa de hagiografia. Precisa, simplesmente, de lugar histórico. Negar-lhe esse lugar não é fazer história; é administrar o esquecimento como se ele fosse património privativo de um partido, prolongando, em tempo de independência, a mesma lógica de mutilação selectiva que o colonialismo exercia sobre os corpos, agora exercida sobre a memória.

    Angola merecia melhor. Merecia que o 15 de Março pudesse ser pronunciado sem catecismos nem reflexos condicionados; que a UPA fosse reconhecida como a faísca que incendiou o Norte e obrigou o império a despertar da sua arrogância; e que a FNLA regressasse ao lugar que lhe cabe, não o de remorso incómodo da historiografia oficial, mas o de um dos actores centrais da libertação, com grandezas e misérias, como todos os outros. Um país que consente semelhante fraude contra a sua própria memória empobrece o seu futuro, porque ensina os vivos a venerar, não a verdade, mas a versão autorizada dela.

    15 DE MARçO DE 1961, DIA DA GRANDE REVOLTA NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

    O 15 de março de 1961 ocupa um lugar central na história de Angola como um dos momentos mais decisivos que marcaram o início generalizado da luta armada contra o domínio colonial português. Neste dia, uma grande insurreição eclodiu no norte do país, especialmente nas regiões do Uíge, Zaire e Cuanza Norte, transformando-se num dos episódios mais dramáticos do processo de libertação nacional.

    A revolta foi conduzida por membros da UPA (União das Populações de Angola), movimento dirigido por Holden Roberto, que organizou ataques coordenados contra fazendas de café, postos administrativos e outras estruturas associadas ao sistema colonial. As áreas mais atingidas incluíram localidades como Carmona (actual Uíge) e São Salvador (actual M’banza Kongo), regiões onde o regime colonial havia estabelecido grandes plantações agrícolas e uma forte presença administrativa.

    O contexto em que essa revolta ocorreu era de profunda tensão social e política. Durante décadas, a população angolana viveu sob um sistema colonial marcado por trabalho forçado, exploração económica, repressão política e discriminação racial. Muitos angolanos eram obrigados a trabalhar nas plantações ou em obras públicas em condições extremamente duras, o que alimentava um crescente sentimento de revolta contra o regime colonial.

    Os acontecimentos de 15 de março de 1961 resultaram numa grande tragédia humana. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham perdido a vida, incluindo colonos portugueses, suas famílias e também trabalhadores africanos que, por diferentes razões, não participaram ou não aderiram à revolta. A violência deste momento revelou a profundidade das tensões existentes e marcou o início de um conflito prolongado que viria a transformar profundamente a história do país.

    A resposta do regime português foi imediata e severa. O governo de António de Oliveira Salazar enviou rapidamente milhares de soldados para Angola, numa operação militar que ficou conhecida pelo slogan “Para Angola, rapidamente e em força.” Seguiu-se um período de forte repressão militar que intensificou ainda mais o conflito e transformou Angola num dos principais cenários da chamada Guerra Colonial Portuguesa.

    O impacto desses acontecimentos ultrapassou as fronteiras de Angola. No próprio dia 15 de março de 1961, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido em Nova Iorque, discutiu a situação em Angola, evidenciando a crescente pressão internacional contra o colonialismo português em África.

    Este episódio é frequentemente lembrado em conjunto com o 4 de fevereiro de 1961, data em que militantes ligados ao MPLA realizaram ataques a prisões em Luanda numa tentativa de libertar presos políticos. Ambas as datas são consideradas marcos importantes do início da luta pela independência de Angola.

    Devido à dimensão e ao impacto da revolta de 15 de março, alguns sectores políticos e historiadores defendem que esta data deveria ser reconhecida como o verdadeiro início da luta armada de libertação nacional. Em particular, membros e simpatizantes da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) — sucessora política da antiga UPA — argumentam que a revolta no norte teve uma escala muito maior do que os acontecimentos de 4 de fevereiro, envolvendo amplas mobilizações populares e confrontos em várias regiões.

    Dentro desta perspectiva histórica, há quem defenda que o 15 de março deveria ser reconhecido como feriado nacional ou como a data oficial do início da luta armada, em vez do 4 de fevereiro, actualmente celebrado em Angola como o Dia do Início da Luta Armada.

    Este debate reflete também as diferentes narrativas históricas construídas pelos movimentos que participaram na luta pela libertação nacional. Cada organização procurou destacar os acontecimentos que considerava centrais no despertar da resistência contra o colonialismo.

    Apesar dessas interpretações distintas, tanto o 4 de fevereiro quanto o 15 de março de 1961 são hoje reconhecidos como momentos fundamentais do processo histórico que conduziu Angola à independência. Ambas as datas simbolizam o início de um período de resistência intensa e o sacrifício de milhares de angolanos que lutaram pela liberdade e pela autodeterminação do país.

    Recordar o 15 de março de 1961 é honrar a memória daqueles que participaram, de diferentes formas, no processo histórico que levou à libertação de Angola. É também um momento de reflexão sobre os sacrifícios feitos no passado e sobre o compromisso contínuo com os valores de liberdade, unidade, justiça e progresso para o futuro da nação angolana.

    Fonte: Perfeito Masamba

    História do Kongo

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    DOM PEDRO VIII, REI DO CONGO (1923–1954)

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