Lucas Ngonda, presidente da FNLA

Por João Dias

 

O presidente da FNLA fala em novas dinâmicas e na reestruturação profunda do partido para que deste modo deixe para traz períodos marcados pelo desentendimento no seio dos “irmãos”.

O objectivo é restituir o lugar do partido à cena política nacional, o que vai depender em grande medida dos resultados eleitorais em 2017. Apesar de os anteriores terem sido sofríveis, Lucas Ngonda tem um optimismo vincado. Em entrevista ao Jornal de Angola, o líder da FNLA fala do actual quadro económico e financeiro do país e defende: “Temos de nos unir em torno de um projecto comum para tirarmos o país da crise” e para tal sugere que “cada cidadão seja chamado a dar a sua contribuição naquilo que é essencial para salvaguardar o interesse comum”. Lucas Ngonda, que acredita na força da juventude, sublinha que é preciso prepará-la para que assuma com responsabilidade e comprometimento o futuro do país. Realça o bom clima reinante no seio do partido e critica aqueles que pretendem protelar interesses superiores da organização política em nome de privilégios e interesses pessoais. Em face disso, a sua luta passa pela unidade e harmonização do partido.

Jornal de Angola – Como descreve o clima que reina actualmente no seu partido?

Lucas Ngonda – Estamos a trabalhar na reestruturação profunda da FNLA para que como partido histórico possa ocupar verdadeiramente o seu lugar no concerto da nação angolana e a reconquista de tudo quanto perdeu. Essa estruturação começa na direcção e se estende às províncias. Numa altura em que se aproximam as eleições, temos de tomar outra dinâmica, e é em função disso, que continuamos a trabalhar. Vale dizer que no seio do partido o clima é bom. Vencemos muitos obstáculos e continuamos a vencer outros. A vida política não é uma papinha feita e não é linear. Ela tem altos e baixos e a responsabilidade de assumir o bem comum, não visa agradar a gregos e troianos.
Jornal de Angola – Esta reestruturação profunda é necessária e urgente, fundamentalmente após a polémica que ocorreu no congresso de 2015?

Lucas Ngonda – Claro que sim, mas penso que uma das grandes ­características da política passa pela dimensão moral. Na política quando aplicamos muito sentimento acabamos por nos prejudicar a nós próprios. Precisamos de criar equilíbrio. Mas voltando ao congresso, devo dizer que o preparamos sob o signo da “unidade e reconciliação da FNLA” e, antes disso, convoquei um fórum de acordo com os estatutos para colocar a nu os problemas do partido. Todas as decisões que daí resultaram foram submetidas ao Comité Central e transitaram para o Congresso afim de reformular as novas estruturas do partido, o que já tinha sido feito no Comité central, que antes era de 320 membros foi alargado para perto de 500 membros e o bureau político que tinha 57 membros foi alargado para 90 membros. Só não esperávamos que aparecessem pessoas dispostas a perturbar o congresso.

Jornal de Angola – Tudo isso foi feito numa perspectiva de tentativa de promover a inclusão e conseguir alguma harmonia ideológica no seio do partido?

Lucas Ngonda – Exactamente. E estávamos no bom caminho e descansados de que tudo correria bem, mas o que chamou a nossa atenção foi o facto de durante a preparação do fórum, outras reuniões ocorriam para instigar as pessoas a não participarem no congresso que visava a unidade e reconciliação do partido. Todos que se revissem nos objectivos do partido eram bem-vindos. No Complexo 15 de Março estava muita gente naquele dia de chuva, mas nem todos foram para participar no congresso. Constatou-se que muitos levavam catanas, facas, paus e jindungo, bem como cartazes a exigir a morte de Lucas Ngonda. O que aconteceu é próprio de pessoas, que ou de política não entendem nada ou são assassinos por natureza, e querem fazer passar o banditismo que lhes encarna na vida partidária. O objectivo foi o de sabotar o congresso. Há pessoas que sempre se acharam acima dos interesses do partido e quiseram criar esta confusão e capturar a sua direcção. Mas a nossa luta já não é para verter sangue. É apenas para a unidade e harmonização do povo angolano e do partido. Só que infelizmente tivemos um morto.

Jornal de Angola – Após a morte de Holden Roberto desencadeou-se na FNLA uma fragilização seguida de um crónico desentendimento. Partilha desta ideia?

Lucas Ngonda – Não partilho desta ideia. Por que razão surgiram as reformas no partido? Mas não gostava de falar do presidente Holden, porque ele já não vive. Ele fez o que podia fazer, mas o que gostaria de dizer é que mesmo em vida o jornal “Folha 8”, que viria a tornar-se inimigo do partido, escrevia nas suas páginas “A defunta FNLA”, numa alusão a que o partido ia perdendo a sua dinâmica. Tínhamos de fazer sentir ao velho que nos tempos que corriam não era recomendável continuar assim. Na altura, era secretário nacional para a informação e tudo isso tocava-me directamente. O presidente Holden, após as eleições de 1992, voltou à França, onde fez dois anos sem regressar e houve muitos manifestos que apelavam ao seu regresso. Isso é só para dizer que existiam grandes fraquezas na altura que sugeriam reformas no partido. Fizemo-las, mas muita gente viria a chamar o partido de “FNLA renovada”. Nunca houve uma FNLA renovada. O partido sempre foi o mesmo.

Jornal de Angola – Depois das acusações de que foi alvo da parte de Ndonda Nzinga sente-se confortável para encarar as eleições de 2017?

Lucas Ngonda – Nem por isso, pois continuamos a preparar-se para as eleições e o povo também se prepara para um evento desta dimensão. É o que estamos a fazer e isto não depende de “a, b e c”. Depende do programa político da FNLA. Se o conseguirmos fazer passar junto do povo, vai passar e isso não depende de a, b e c ter deixado ou não o partido. Depende somente da dinâmica que o partido tem em relação aos seus desafios.
Jornal de Angola – Parece ter uma tarefa hercúlea pela frente, pois apesar da iniciativa de tentar congregar, unir e reconciliar o partido, as vozes dissonantes internas prosseguem. Falo de Ngola Kabango, que continua desavindo, e de Pedro Gomes.
Lucas Ngonda – Não estou aqui para falar de pessoas. Mas diria simplesmente que estas pessoas que citou as conheço profundamente e escuso-me a falar delas, pois quem tem interesses pessoais muito agudos dificilmente se alinha aos interesses superiores do partido. Esses interesses ofuscam o patriotismo das pessoas e é o que se está a passar na FNLA. Os verdadeiros patriotas, aqueles que promovem o interesse geral e a reabilitação da FNLA para que ocupe o seu lugar, não têm fundos e mundos e estão connosco. Acreditam nos ideais e sempre foi assim desde a luta de libertação. Aqueles que pensam que os ideais vêm depois e que as ambições pessoais passam primeiro e que devem ser privilegiadas, não têm outra batalha se não ofuscar os objectivos da direcção do partido. Estamos atentos e vamos continuar a lutar em nome dos nossos ideais. Falei com padres e pastores, bispos e homens de boa vontade para que este apelo fosse compreendido. Não foi. Mas digo: “Ninguém mais pode escrever sobre a libertação do país sem a FNLA. Podem falsificar tudo, menos isso”.

Jornal de Angola – Disse que a política não se compadece com sentimentos. Sente que conduziu o partido com algum sentimentalismo a certa altura?

Lucas Ngonda – Até certo ponto sim. Não conhecia bem as pessoas e não tomei as precauções necessárias, isto confesso. E à medida que fui avançando na luta, outras realidades resultantes do contacto directo com as pessoas foram-me revelando outras coisas. Hoje, o importante passa pela busca de equilíbrio. Na FNLA não tenho inimigos, nem adversários, pois sou um militante como qualquer outro e estou aqui para promover o interesse comum e preservar o marco histórico que nos possa dar um outro destino dentro deste país. Muitas vezes, os familiares, vendo-me a sofrer com as acusações, sugerem que abdique. Mas a política não é isso. Se Agostinho Neto e Holden Roberto abdicassem na sua luta contra o colonialismo o que mudava em Angola? Nada. Quando temos questões importantes a resolver e um destino a dar à nação ou a uma instituição como a FNLA, não se pode abdicar.

Jornal de Angola – A luta prossegue então, embora exija mais sacrifícios?

Lucas Ngonda – Continuamos a nossa luta e a causa justa acaba por vencer. Inimigos são muitos. É um complô em conluio com a comunicação social que só quer ver a FNLA a terminar. Por que razão o partido tem de terminar dentro deste país? Estão a mobilizar pessoas para este efeito. Eu digo: não são patriotas. Tenham as posições que tiverem, não sabem de onde Angola saiu e qual foi o nosso papel. Se o soubessem, respeitavam-nos mais. Eles pensam:”ou somos nós a dirigir o partido ou então tem de acabar”. Há algum patriotismo nesse tipo de sentimento? Acho que não. A FNLA vai continuar a desempenhar o seu papel dentro deste país.

Jornal de Angola – Enquanto líder partidário como vê o quadro económico e social do país?

Lucas Ngonda – O actual quadro económico que vivemos hoje era de esperar. Era de esperar porquê? Porque o país, independente há 40 anos, submetido às diatribes da guerra civil, não fez um plano de “economia de guerra”. A guerra era financiada pelo petróleo que jorrava ainda na “cabeça de cobre” que nunca foi tomada por qualquer adversário e sempre funcionou. Competia aos economistas fazer o plano. Nós não fizemos isso. Veio a paz em 2002 e continuamos com a mesma lógica de viver do petróleo. Então, esperávamos o quê? Temos de reconhecer que este país tão destruído como estava, precisava, de em primeiro ­lugar, recuperar todas as infra-estruturas. Qualquer governante, não tomaria outra decisão. Isto levou dinheiro e tempo. Recuperadas as infra-estruturas, devíamos organizar um plano de diversificação da economia, mas Angola esqueceu-se de que é um país essencialmente agrícola e que no tempo colonial exportava carne no domínio da criação de gado, no domínio das pescas exportava farinha de peixe, no domínio da agricultura éramos o quarto maior produtor mundial de café. A agricultura é fundamental. Era preciso que tivéssemos isto como uma base e ponto de partida para arrancar com a diversificação, mas assentamos todo processo no petróleo. Isto tem a mão externa e a depreciação levou-nos ao colapso que hoje está a repercutir-se na vida das populações.

Jornal de Angola – O que fazer numa fase tão difícil como esta em que a incerteza ensombra a vida de todos?

Lucas Ngonda – Sublinhe-se que a política não é uma linha recta. Não há nada que não seja difícil nesta fase, mas ainda assim se pode construir na dificuldade. Note que foram nas dificuldades que também recuperamos as estradas, pontes e barragens e ao lado destes planos devíamos ver que eram necessárias para que o país funcionasse. Não podemos chorar pelo leite derramado. Temos de nos unir em torno de um projecto comum para tirarmos o país da crise. Não existem milagres para Angola. O milagre deve ser a unidade, a reconciliação e a responsabilidade dos angolanos em construir o edifício do bem comum. Temos de preservar a paz, em primeiro lugar. Mas como fazê-lo se uns estão contra os outros? Se queremos preservar a paz, o nosso projecto deve ser integrativo para produzir o que salvaguarda os interesses superiores de Angola. Não fazemos apologia na FNLA dos discursos milagrosos. Não existe varinha mágica. Se assim pensarmos estamos a enganar o povo que em 1975 pensou que tudo era só maravilhas e hoje nunca questiona porque o marxismo deixou de imperar em Angola e voltamos à democracia, que era o projecto inicial da FNLA desde 1954.

Jornal de Angola – Não é paradoxo em tempos de grande dinâmica e mobilidade social falar da aposta do vosso partido na juventude já que são considerados “o partido dos velhos”?

Lucas Ngonda – Quem não apostar na juventude vai fazer o quê? Nos jovens está o futuro de qualquer nação. Nós vamos continuar a apostar em grande medida na juventude. Nós sempre tivemos dois programas. Um programa menor e um outro de longo prazo. Cumprimos o programa menor que consistiu na Independência de Angola. Agora, o programa maior passa pela aspiração de um dia a FNLA dirigir Angola. E isto é um problema de gerações. Os jovens estão aí a vir, mas têm de se preparar.

Jornal de Angola – Até que ponto é que a actual situação económica e financeira compromete o desempenho e o bom funcionamento dos partidos políticos, em particular do vosso?

Lucas Ngonda – Esta situação influencia, pois o partido político está inserido na vida da sociedade. As dificuldades que a população está a enfrentar neste momento repercute-se na vida de todas as forças políticas e de todos os sectores da vida nacional. Nós entendemos que por esta razão não podemos estar dizer que o Governo é que errou e que fez isto ou aquilo. Digo isso em alto e bom som: no momento actual não devemos procurar ajustes de contas. O que devemos fazer agora é procurar soluções conjuntas. Mas quem tem as rédeas do país tem de entender que sozinho não pode produzir os resultados que satisfaçam a todos. Quem tem o poder deve ter o bom senso de trabalhar na contínua busca da reconciliação nacional com as forças políticas para que possamos desempenhar um papel histórico importante num momento em que o nosso país está em dificuldades. Esta é a nossa forma de pensar, mas isto não quer dizer que alinhamos com isso ou aquilo.

Jornal de Angola – O que nos quer dizer?

Lucas Ngonda – A FNLA tem o seu próprio programa e tem os seus próprios objectivos, mas quando dos grandes atentados de Paris nos anos 1980, houve uma lição que tirei. O povo francês estava inseguro e então as diferenças políticas tiveram de fazer causa comum para vencer as adversidades. Era o país que estava em causa. Hoje é Angola que está em causa. Nós estamos todos no mesmo barco. Se o barco Angola afundar quem fica? Ainda que pretendamos fugir para um país estrangeiro, que vida teremos? Já vivi 20 anos no estrangeiro e sei bem o que é isso. Parecendo que não, para qualquer patriota, a pátria segue-lhe. Por isso, ao invés de termos de abandonar a pátria, o melhor é defendê-la até as últimas consequências agora que está em dificuldades. Cada cidadão é chamado a dar a sua contribuição naquilo que é essencial para salvaguardar o interesse comum.

Jornal de Angola – No que respeita à actividade parlamentar em Angola, somos confrontados com os partidos da oposição “asfixiados” pelo protagonismo do MPLA. Neste cenário, quais são as grandes propostas ou linhas de força da FNLA?

Lucas Ngonda – Não sei se a questão está bem colocada. Mas no formato do Parlamento, não há partido algum que tenha grandes linhas de força. A prova é que este Parlamento existe há mais de vinte anos e neste período nunca alguma disposição ou projecto legislativo proveniente da oposição foi aprovado. No ordenamento jurídico e nas leis votadas no Parlamento não há neste momento uma única que tenha sido um projecto da oposição submetido à discussão e aprovado. Não há, que me lembre.

Jornal de Angola – Na sua opinião tudo isso envia um sinal muito negativo à sociedade?

Lucas Ngonda – Claramente. Um sinal muito negativo para um Estado democrático e de direito. Mas em linhas gerais, esta é a lógica do Parlamento que temos. Como é que quer que não haja apatia, se tudo quanto se discute lá morre também lá. Daí a razão de exigirmos a transmissão em directo, pois, deste modo, o Parlamento estava a desempenhar a sua função pedagógica e a dizer ao cidadão que não é só do MPLA como se diz, mas onde todas as forças políticas discutem e têm alguma voz. Estamos numa democracia, mas neste momento o funcionamento do Parlamento é o modelo do partido único. Chegou-se ao ponto de se falar de Jamba e outras coisas mais em plena sessão. Sinceramente, nós não somos chamados para isso. Somos chamados para falar do tal projecto de reconstrução do país e da visão que devemos ter para o bem e futuro da nação angolana. As pessoas defendem-se como podem, mas esse tipo de contribuições não enriquece o debate parlamentar.

Jornal de Angola – A corrida às eleições começa a ganhar alguma velocidade da parte dos demais partidos. Como vai a FNLA neste aspecto?

Lucas Ngonda – O bureau político e o comité central, com vista a preparação das eleições, produziram um programa e nós estamos a trabalhar nele para atendermos as expectativas daquilo que entendemos fundamental para os desafios eleitorais. Estamos optimistas, porque o que manda no meio de tudo isto, é o nosso próprio trabalho.

Jornal de Angola – Nas eleições anteriores a FNLA saiu muito fragilizada e a justificar está o número de assentos conseguidos no Parlamento. Sente que em 2017 as coisas tendem a ser diferentes?

Lucas Ngonda – Estamos a lutar para que seja diferente. Mas não podemos entender as eleições anteriores se não colocarmos a problemática das eleições de 1992, altura em que dois grandes partidos históricos, FNLA com uma implantação nacional indubitável e o MPLA (…), a UNITA apareceu depois e agigantou-se no decurso da guerra civil, mas na luta de libertação não tinha expressão. A FNLA em 1992 saiu com cinco deputados. O velho Holden estava em vida. Isto não coloca uma reflexão aos jornalistas? Hoje o problema da FNLA é também um problema que os jornalistas criam ao partido. Veja: quando o partido exclui alguém da sua secretaria fá-lo como medida administrativa interna, mas estendem-lhe microfones para proferir disparates. Que instituição é que não tem regras ou estatutos? As pessoas devem cumprir o que está consignado nos seus estatutos. Quem não o faz, é sancionado. Mas basta que isso aconteça para no dia seguinte estar na imprensa. Acho isso uma falta de respeito à própria democracia. Uma pessoa que acolhemos aqui. Assumiu um papel de responsabilidade e depois sai a criticar. Como aceitar isso? Será que quem age assim é mesmo político?

Jornal de Angola – Quem é?

Lucas Ngonda – Para um bom entendedor meia palavra basta. Vocês é que fazem jornais, sabem de quem estou a falar. Isso só para dizer que o facto de o velho estar em vida e termos tido cinco deputados, diz muito. Os partidos criados de ocasião, tiveram oito deputados. Com todos os outros fazíamos 14 deputados, tirando a UNITA com 70 (…) Não acha estranho que com Holden Roberto em vida, a FNLA tenha tido só cinco deputados? Nós sabemos as razões. As eleições de 1992, embora fossem multipartidárias, o sentido da sua realização representou um duelo entre a UNITA e o MPLA. Do duelo militar passou-se para o duelo eleitoral. Foi o que se passou. Quanto aos resultados de 2008, podemos dizer que faltou uma reflexão profunda no seio do partido que permitisse deixar de parte as querelas pessoais. Pelo contrário, fomos agudizando as acusações gratuitas que só engorda o adversário e que até hoje continuam. Vamos lutar ­para conseguir melhores resultados.

Jornal de Angola – O senhor vai ser o cabeça de lista do seu partido às eleições?

Lucas Ngonda – Isso é constitucional e estatutário, mas sempre submeti esse tipo de questões aos militantes da FNLA, quando há eleições já que a soberania vem do povo. É o povo que diz quem quer e quem não quer. Sempre coloquei o meu lugar à disposição e quem quisesse podia avançar. Os militantes é que decidem.

Jornal de Angola – Pode adiantar-nos a vossa estratégia eleitoral para 2017?

Lucas Ngonda – Isso é um processo interno do partido. Para um país onde a FNLA tem muitos adversários políticos, não é o seu presidente que se mete aqui a revelar a estratégia eleitoral do partido. Mas digo-lhe que a estratégia passa pelo trabalho. Procuramos estar em todo lado e tentar desmitificar a mentira que paira algures. Os adversários da FNLA dizem isso e aquilo, assado e cozido e até ao ponto de dizer que comia pessoas. Meu ilustre jovem, acredita que em Angola houvesse pessoas que comessem outras pessoas? Quem encontrou dirigentes da FNLA a comer pessoas? Isso foi dito em nome da luta política mas nunca alguém veio a público pedir desculpas sobre isso e desmentir ao povo angolano que foi um erro político conjuntural. Nunca a FNLA comeu pessoas.

Jornal de Angola – Olhando para o panorama sociocultural e político do país, partilha da ideia segundo a qual a juventude é tomada pelo medo e que por isso se acanha ante o curso das dinâmicas e desafios?

Lucas Ngonda – Acho que não é medo. O problema tem sido ditado pela conjuntura e o quadro em que esta juventude nasceu. A Paz só chegou aos lares dos angolanos em 2002. Ainda não é o tempo suficiente para desfazer os traumas. Depois da guerra, entramos num período da moralização das consciências em que tudo deve apontar para a paz, tranquilidade e harmonia nacional. Quem foi envolvido nos 27 anos de guerra civil é o jovem, mas hoje muitos são os pais que nem sequer sabem onde está a campa dos seus filhos. Na guerra feita pelos africanos, não há a dignificação das pessoas que lutam. Não sei se um dia haverá um monumento com o nome de todos aqueles que lutaram como acontece na Europa.

Jornal de Angola – Defende então a construção de monumentos em homenagem a todos os jovens que se bateram e lutaram pelo país?

Lucas Ngonda – Sim. Pelo menos dois memoriais, um da luta de libertação e outro da guerra civil. Mas aqui tudo fica entregue ao túmulo do soldado desconhecido. É triste. Hoje é fundamental que não fabriquemos mais um destino que leve a juventude a cometer erros. Precisamos uma preparação consciente e responsável do jovem angolano para que assuma as responsabilidades e assim interprete a nação de uma outra maneira. Deve perceber que esta não é a nação dos revoltados contra outros jovens e que se deve abandonar o espirito que sempre existiu em que o jovem da FNLA se coloca contra o jovem da UNITA e este contra o do MPLA. Não se cria nação desta forma. Temos de moralizar a juventude e dar-lhe esperança. Estamos num Estado democrático e de direito e por isso os jovens devem escrever e discutir os grandes problemas da nação, do seu futuro e de acordo com que pensam o que deve ser Angola do amanhã. Quando levam a juventude para maratonas para os embebedar, aí já não concordo. Devemos dar riqueza de ideias para que ela saiba julgar e definir o que pretende.

Jornal de Angola – Na sua visão, que soluções são necessárias para a erradicação do lixo em Luanda?

Lucas Ngonda – Nós viemos das gerações deixadas pelo colono e vimos como é eliminado o lixo no exterior. Não acho que as medidas tomadas pelo governador, de quem respeito bastante, vão ser a solução. Tem entusiasmo em dirigir, mas quem tem entusiasmo diz tudo e mais alguma coisa. A taxa do lixo passou por que instituição para ser analisada? E será que resolve o problema? Penso que não. O problema do lixo é estrutural. Basta olhar para o modo como as nossas cidades estão construídas e urbanizadas. Mas além disso, está o sistema ou estilo de vida das pessoas e os mercados que pululam em quase todos os cantos. Tudo isso revela um problema estrutural. Não é o governo da província a entidade mais indicada para tratar do lixo. Enquanto não tivermos as autarquias, o problema vai continuar a existir seja qual for o modelo a­doptado.Este é um modelo do partido único que se transferiu para estruturas democráticas. A solução passa pela criação de câmaras municipais e de infra-estruturas para tratar do lixo.

Jornal de Angola – Tem alguma coisa a acrescentar?

Lucas Ngonda – Apenas chamar atenção do povo angolano para a necessidade de se mobilizar para salvaguardar o interesse nacional e a memória colectiva daqueles que lutaram para libertar Angola.

Político e sociólogo

Lucas Mbengui Ngonda é o actual líder da Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA). Nasceu em 1940 em Sanza Pombo, na aldeia de Kimbengui Ngonda. Passou pelas missões evangélicas do Kikuni, Kikiama e passou parte da sua vida na missão de Kikaia, onde viria a fazer a quarta classe. Em 1957 veio a Luanda e viveu durante alguns anos na casa verde, na estrada da Brigada. Formado em Sociologia e especializado em Antropologia do Desenvolvimento, Lucas Ngonda é leitor assíduo de livros de história, sociologia, livros e artigos científicos, lembra que foi Simão Toco que o introduziu na leitura ao aconselhá-lo a ler tudo. Ofereceu-lhe um livro intitulado “Estrangular Invisível”. Tem uma admiração pela literatura africana e os seus autores, com destaque para Cheikh Anta Diop e Aimé Césaire. Guarda os livros de Frantz Fanon. “Ele previu tudo quanto a África vive na actualidade. Ele viria a escrever: “Os africanos estão a bater-se muito para se libertar, mas esperamos que não sejam eles os colonos de amanhã ”. Considera a literatura africana rica e revela a grande admiração pelo escritor nigeriano Wole Soyinka e pelos angolanos Wuanhenga Xitu com o livro “Ministro” e as obras de Rui Monteiro. Aprecia a música clássica e a africana, mas expressa o fascínio pela melodia árabe. Vê séries televisivas e uma de que não se esquece é “Os Incorruptiveis”. Fazem parte das suas preferências filmes de espionagem e o destaque recai para a longa-metragem “Cicero” e lembra: “Todo o político tem o seu Cicero. Tem sempre ao lado uma pessoa de confiança”. Lucas Ngonda aprecia o funge.

Via JA

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    “NOSSA PRIORIDADE É COMBATER A FOME, A PROBREZA E ELECTRIFICAR TODAS AS SEDES MUNICIPAIS DO UÍGE.”

    Por António Capitão

    A prioridade da governação no Uíge passa pelo combate à fome e à pobreza, incluindo a electrificação das demais sedes municipais, além do Uíge, Negage e Maquela do Zombo, considerou o governador da província, em entrevista aos órgãos locais de comunicação social, que decorreu num dos estúdios da Rádio Uíge, do grupo Rádio Nacional de Angola (RNA). José Carvalho da Rocha revelou que os três municípios mencionados já beneficiam de energia eléctrica do sistema interligado nacional.

    Desde Outubro de 2020 que passou a dirigir os destinos da província, já andou pelos antigos 16 municípios, hoje 23. Como encara a situação das estradas que interligam as várias localidades?

    No Uíge, temos uma malha rodoviária que interliga os nossos municípios. Algumas estradas estão em bom estado, outras precisam da sua manutenção e recuperação e outras, ainda, precisam ser construídas. Precisamos de construir a estrada Songo-Lucunga-Bembe, voltar a construir o troço Alfândega-Alto Cauale, assim como Macocola-Milunga-Massau, Maquela do Zombo-Sacandica, Quimbele-Alto Zaza, Sanza Pombo-Buengas (agora Nova Esperança) e fazer, de forma alternada, Vista Alegre-Quipedro ou Ambuíla-Quipedro. Um trabalho que já deve incluir os sete novos municípios.

    Estes, são, de forma imediata, os grandes desafios que temos para continuarmos a melhorar a nossa malha rodoviária. Podemos fazer estas estradas, mas não tem de ser, necessariamente, vias asfaltadas. Podem ser aquelas com uma sub-base bem-feita, porque precisamos de forma imediata. Há exemplos deste tipo de rodovias que são desenvolvidas na África do Sul e na Namíbia que funcionam e nos podem permitir dar respostas às nossas necessidades de mobilidade.

    Pode apontar datas, senhor governador?

    O que nós queremos, de facto, longe de se prever datas, é que as populações do Sanza Pombo, Nova Esperança e todas as outras vias adjacentes tenham de volta os seus “sapatos”, como pediu o Rei Muana Uta ao Presidente da República, João Lourenço. Temos estado a trabalhar neste sentido e é importante verificar que temos um grande constrangimento, neste momento, por estarmos numa região que chove bastante e todo trabalho que já foi feito, deve ser revisto porque foram danificados pelas chuvas durante o tempo em que a empreitada esteve paralisada.

    Na última viagem que fomos ao antigo Buengas, saímos de lá por volta das 15 horas e, por conta da carga de chuva entre aquela região até ao Sanza Pombo, chegamos à cidade do Uíge apenas às nove horas do dia seguinte. É para se ver a dimensão do problema que temos para a construção desta estrada. Mas, o que vos posso garantir é que este “sapato” vai ser devolvido à população. Custe o que custar!

    Quanto ao município do Bembe, estamos a trabalhar com o Ministério das Obras Públicas e com o Governo Provincial do Zaire para que seja feita uma ligação entre Songo-Lucunga-Mbanza Kongo e Lucunga-Bembe. Os passos para este projecto estão avançados e esperamos que nos próximos tempos possamos ter várias novidades para as duas províncias. Vai ser uma estrada de terra-batida com solos melhorados e nos moldes dos países já mencionados.

     

    Para quando a transformação do Uíge numa das regiões tecnológicas do país?

    Ainda não conseguimos transformar a província do Uíge numa região fortemente tecnológica. Pois, com franqueza, o nosso sonho ainda não foi materializado. Estamos a caminhar e estamos felizes por termos encontrado muitas bases, quanto a isso. Primeiro, encontramos recursos humanos, dentre eles, muitos jovens formados na área da Engenharia Informática e, nós, procuramos criar um pequeno centro tecnológico que equipámos, pegámos nestes jovens engenheiros e demos a formação adicional de que eles precisavam.

    Demos a formação para que eles pudessem dominar tecnologia ligada à CISCO, uma das maiores empresas ligadas ao fornecimento de equipamentos e em Angola existe uma academia que atende o nosso país e São Tomé. O que fizemos foi pegar em 11 jovens que instruímos na área de utilizadores, na óptica profissional para que pudessem transportar estes conhecimentos para a província os conhecimentos em CCNA 1 e 2 que qualquer técnico ou engenheiro na área de IT (sigla em Inglês para Tecnologia de Informação) precisa, por ser a base e com certificação internacional.

     

    Onde é que tais cursos podem ser ministrados e pode dizer-nos se os mesmos têm certificação internacional?

    Transferimos para o nosso Centro de Formação Tecnológica do Uíge (CFTU) e, claro que estes cursos têm certificação internacional. Consta, igualmente uma área de eléctronica de reparação, pois fomos comovidos pelas nossas constantes visitas ao mercado municipal do Uíge, onde fiquei encantado ao encontrar vários jovens a mexerem em quase tudo, o que me faz perceber que precisam apenas de orientação.

    É isto que pretendemos fazer com o centro, além de outros projectos, como levar esta experiência ao Negage e Maquela do Zombo para podermos dar a oportunidade aos nossos jovens de participarem nas férias e workshops de tecnologias e criarem projectos para o desenvolvimento da província e acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mundo. Hoje, já se fala da Inteligência Artificial (IA) e temos de acompanhar todos estes desenvolvimentos.

    Da avaliação que faz, é possível notar se os jovens do Uíge têm sabido tirar bom proveito do CFTU?

    Pelo que sentimos, sim! Basta ir-se ao centro, quando se abre um período de formação, é possível constatar uma grande adesão de jovens da nossa província e de outras. Já tivemos também a oportunidade de formar jovens da vizinha província do Cuanza-Norte e o que queremos é que o centro atenda a toda essa região Norte.

    Temos sempre que pensar em algo maior, tendo em conta que o CFTU foi idealizado para este propósito. Marcamos os passos iniciais e, hoje, pelas exigências e interesses das pessoas, sentimos que ficamos ultrapassados e devemos pensar em uma infra-estrutura com maior capacidade.

     

    O Uíge já organizou três Feiras de Invenção Tecnológica e os expositores apresentaram vários projectos ambiciosos. Como o Governo do Uíge pretende aproveitar esses talentos, sobretudo os ligados à IA?

    O nosso objectivo é formar e permitir com que os jovens adquiram o máximo de conhecimento para que eles, depois, possam ser, também, grandes empreendedores. Este é o nosso grande objectivo. Existem muitos projectos com os quais temos estado a trabalhar. Por exemplo, há um bastante interessante que é o de descasque de ginguba em que desafiei os jovens inventores a resolverem o problema do ruído que o equipamento emite.

    Se eles, de facto, conseguirem resolver este problema, temos uma máquina que pode ser promovida para solucionar esta tarefa. Também os desafiei a olharem para fontes alternativas de energias, o que eles se comprometeram em solucionar. Caso consigam superar estas duas questões, vamos ter um equipamento que vai poder ser utilizado com muita frequência em qualquer zona do nosso país. Mas, o protótipo que eles têm já funciona e eu tenho um em casa que uso muito aos finais-de-semana para descascar a ginguba que produzo no meu campo.

    Como encara a questão das ravinas que, em muitas localidades, retira sono às populações?

    As ravinas são um grave problema que temos na nossa região, por conta das quantidades de cargas pluviométricas que caem aqui e pela qualidade dos solos em muitas zonas do Uíge. Há quem já se esqueça dos problemas que tivemos com as ravinas nos morros do Kimalalu e Matabicho, na via do Quimbele. Foi um grande esforço para se repor a circulação naquela estrada, uma vez que tivemos de conter 13 ravinas que tínhamos naquele troço.

    Estamos, agora, a engajar-nos para solucionarmos o problema das ravinas no troço Damba-Maquela do Zombo, onde estamos decididos que, com ou sem elas, a nossa população não perca a mobilidade. Na província do Uíge estão catalogadas mais de 50 ravinas de grandes dimensões e muitas outras em formação. É um trabalho que está a ser resolvido pelo Ministério das Obras Públicas, no âmbito do Plano Emergencial de Combate às Ravinas no país.

    Ainda assim, com os meios à nossa disposição, sempre que podemos, vamos tapando aquelas que estão em progressão e, dentro do programa emergencial do Ministério, têm sido tratadas muitas. Nesta altura, o grande desafio é na via do município de Milunga, onde as residências, construídas no âmbito do projecto dos 200 fogos habitacionais, estão em risco de desabarem, o que está a merecer a atenção especial do Ministério das Obras Públicas.

    Para quando o fim das dificuldades na circulação entre Uíge-Bengo-Luanda?

    As pessoas que passam por esta via têm constatado algum trabalho a ser feito pelo Governo do Uíge, tendo em conta que orientamos o nosso director provincial para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas no sentido de se evitar a presença de buracos na nossa parte da estrada. Fazendo um trabalho paliativo de tapa-buracos com os poucos recursos que possuímos, seja barro, areia, mistura de areia e cimento ou brita e asfalto.

    Esta orientação é no sentido de que desde a ponte sobre o rio Dange até à cidade do Uíge possamos andar com mais segurança. Pretendemos fazer o mesmo esforço até à cidade do Negage. É um desafio que temos de tapar os buracos, tendo em conta que se tratam de estradas nacionais e sua total intervenção é da responsabilidade do Ministério. Mas, como somos nós a estar no terreno, sentimo-nos na obrigação de contribuir para que as nossas populações tenham uma mobilidade normal e segura.

    Em relação ao tratamento que se deve dar à esta estrada devido ao capim, existem zonas que temos estado a melhorar. São 136 quilómetros, desde a cidade do Uíge até ao rio Dange em que devemos empreender muito esforço para melhorar a visibilidade. Devemos, neste esforço, destacar o contributo do comando da Região Militar Norte (RMN) das Forças Armadas Angolanas (FAA) nas acções de capina e desmatação das bermas desta estrada. A sua situação é preocupante porque nós, particularmente, usamos esta estrada com muita frequência e procuramos fazer com que, dentro do nosso território, existam as mínimas condições de transitabilidade.

    A julgar pelo que defende e pratica, é um incentivador da actividade agrícola. O desafio é transversal a todos os cidadãos ou apenas para alguns?

    Todos precisamos de começar. Na verdade, o nosso chão dá tudo. Qualquer dúvida, é sempre aconselhável que se visitem as nossas feiras de produção agrícola que realizamos com frequência onde os nossos papás e mamãs expõem a sua produção. Vivemos numa região linda e abençoada com muitos solos aráveis, uma vasta hidrografia composta por rios de diversas dimensões e lagoas, e um clima favorável.

    O que temos estado a fazer é incentivar as pessoas para podermos produzir alimentos com dois objectivos: termos os alimentos para a nossa alimentação e o excedente para comercializar e permitir que as famílias tenham renda, porque entendemos que desta forma elas vão poder melhor as suas condições de vida.

    Nós, particularmente, desafiamo-nos a produzir e lançámos este desafio às administrações municipais e, para a materializarmos, lançamos, dentro do Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP), no seu primeiro item, um subprograma que designamos de Programa Local de Apoio à Agricultura Familiar (PLAAF), uma iniciativa nossa do Uíge, onde preparamos terras para entregar às famílias para que elas possam produzir.

    Não está na hora do trabalho manual dar lugar à mecanização?

    Temos consciência que, nas actuais condições, já não é possível produzir, em grande escala, com enxadas, catanas e outros meios rudimentares e, por isso, com o apoio das administrações municipais, é feita uma contribuição pecuniária que já nos permitiu, desde 2024, comprar, todos os meses, um tractor, uma grade e uma alfaia. Nesta altura, já adquirimos 11 tractores e suas grades e alfaias.

    Este programa, está a permitir aumentar a quantidade de terras lavradas de forma mecanizada para oferecer às nossas famílias para produzirem. Fruto deste trabalho e das exposições apresentadas com produtos obtidos deste projecto, despertou a direção central do governo que orientou a criação do Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF), como instituição não bancária dedicada ao financiamento às actividades agrícolas para trabalhar connosco.

    Desta abertura do governo central, já foi possível financiar, aqui na província do Uíge, 32 cooperativas agrícolas com equipamentos de mecanização agrícola, permitindo, paulatinamente, aumentar a mecanização da actividade na província. É um trabalho que exige paciência, resiliência e força para atingirmos as nossas metas. Devo afirmar que estamos a fazer um bom trajecto com uma curva exponencial e temos estado a caminhar bem.

    Há exemplos do que podemos chamar de sucessos com o Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF)?

    Hoje, temos muitos municípios que são exemplos de sucesso devido à implementação do PLAAF, como o Uíge, Negage, Songo, Mucaba e Puri. No geral, todos os municípios se estão a integrar e isto é o que pretendemos, pois entendemos que se alinharmos o PLAAF à investigação científica, chamando o mundo académico a este trabalho, com realce para a Universidade Kimpa Vita, temos condições para sermos um verdadeiro celeiro para o nosso país.

    Àquelas administrações municipais onde o PLAAF ainda está longe de materializar os objectivos, devem perceber que este movimento é um comboio e todos devem estar alinhados. Queremos, agora, implementar o subprograma nos sete novos municípios para ver como eles se vão encaixar. Dentro do nosso subprograma de apoio à agricultura familiar, também entendemos, além da distribuição de meios de trabalhos, desenvolver um banco de sementes que está a ser implementado no município do Negage para suportar a nossa actividade e quem nos solicitar com sementes melhoradas.

     

    Os agricultores continuam a reclamar pela falta de apoios da banca. Qual tem sido a intervenção do Governo da província?

    Temos estado a trabalhar intensamente com a banca e com o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura (FADA). O que nós queremos, primeiramente, é que todos os interessados possam contactar o nosso gabinete provincial de desenvolvimento económico integrado para tratarmos da documentação necessária para que as pessoas tenham acesso aos créditos.

    Foi com apoio deste gabinete que permitiu que o FADA financiasse mais 32 cooperativas agrícolas na província e pretendemos que muito mais sejam financiadas. Estamos abertos a apoiar os camponeses. Basta que nos contactem. Precisamos prestar atenção e apoiar os produtores e, alinhar a isso também, as tecnologias para produzirmos bastante para abastecermos o país e contribuir no aumento das exportações.

    Como anda a aposta na electrificação da província?

    Temos estado a trabalhar bastante. É sabido que, desde que cheguei ao Uíge, andei, de forma ininterrupta, durante três meses por toda a província. Depois de toda constatação feita, cheguei à conclusão que se queremos caminhar para o desenvolvimento e mudar, efectivamente, esta nossa região, precisamos trazer aqui este catalisador que é a energia eléctrica.

    Nos tempos de hoje, nós precisamos deste catalisador. No entanto, tivemos que estabelecer um programa, ir à busca de apoio do Titular do Poder Executivo, o camarada Presidente João Lourenço, e dos Ministérios da Energia e Águas e das Finanças, assim como de outros órgãos. Nesta altura, tínhamos de organizar os termos de referências, usando várias mentes da província e de outras regiões, que conseguimos concluir depois de seis meses.

    Com este instrumento e os apoios obtidos, foi possível darmos e ultrapassarmos os diferentes passos, desde a mobilização do financiamento, vistos do Tribunal de Contas e negociações com a banca e, hoje, já podemos dizer que “já se vê uma luz no fundo do túnel” e, a qualquer momento, vai se dar início a todo este movimento na região em que a primeira fase se dá com o arranque dos trabalhos, nos municípios da Vista Alegre, Quitexe, Ambuíla, Bembe, Songo, Mucaba, Bungo, Nsosso e Puri.

    Onde começar inicialmente?

    Faremos, inicialmente, 11 municípios e suas aldeias com maior densidade populacional. Também estamos, paralelamente, a trabalhar para a segunda fase que vai encerrar os outros municípios que não me referi anteriormente. Andamos a fazer o trabalho de caso que também não tínhamos a noção que seria moroso, visto que temos de cumprir com a lei e mobilizar financiamentos desta dimensão.

    Mesmo com todos os constrangimentos possíveis e adversidades, queremos que as populações beneficiem deste catalisador de desenvolvimento. Queremos, com isso, alavancar a indústria transformadora onde a maracujá do Puri e Mucaba sirvam para produzir polpas, compotas e sumos. Que da mandioca saia a farinha. Para esta transformação para o desenvolvimento, é preciso a energia.

    Já vislumbramos uma província bem servida de energia eléctrica e desenvolvida. A vida passará a ser feita, verdadeiramente, nos municípios. Imaginem que ainda vivemos num período em que o administrador municipal tem que ligar o gerador de corrente eléctrica às 17 horas e depois o desligar depois das 23. Temos de vencer esta dificuldade e queremos que as aulas nocturnas aconteçam e que outras actividade possam ser desenvolvidas no período nocturno. Vai, de facto, acontecer uma mudança na vida dos nossos munícipes.

    Nesta primeira fase, para a electrificação dos 11 municípios, já foram mobilizados 190 milhões de dólares norte-americanos e para a outra fase se estima mobilizar outros 100 milhões de dólares, totalizando 290 milhões de dólares norte-americanos. Isto demonstra a vontade do Executivo, face a situações internas e externas adversas, em levar a província ao desenvolvimento.

    Que projectos estão em curso para o sector das águas?

    No domínio das águas, estamos a trabalhar, também, com o Ministério da Energia e Águas para a conclusão dos projectos de construção dos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água dos municípios de Maquela do Zombo e Damba. Tudo estamos a fazer para que a cidade do Uíge receba 15 mil novas ligações domiciliárias em zonas onde ainda não existem.

    Temos noção do problema, não apenas nestas três regiões, mais em todo o território e estamos a trabalhar para melhorar esta situação. Se as pessoas tiverem água corrente, se vai poder evitar muitas doenças, como, agora, o surto de cólera que assola o país. Devemos todos entender que água é vida.

    Como está a questão da segurança pública, sobretudo na principal cidade da província?

    Além de alguns relatos de criminalidade, eu acredito que andamos bem, pois também ando em todos os períodos na nossa cidade e tenho esta sensação. Os órgãos de defesa e segurança têm estado a fazer um esforço para que tenhamos, cada vez mais, segurança de noite e o que nós devemos fazer é apoiar estes órgãos nas suas actividades diárias para que as populações continuem a viver sem grandes constrangimentos.

    Assistimos uma melhoria nos níveis de criminalidade. Basta olharmos pela densidade populacional da província e as actividades nocturnas que se realizam. Tudo isso se reflecte na segurança que temos porque os órgãos de defesa e segurança têm estado a trabalhar intensamente.

    Ainda se continua a verificar a venda desordenada e em locais impróprios na cidade do Uíge. O Governo desistiu desta luta?

    É necessário insistirmos na educação das nossas populações para que percebam que a atitude delas não é correcta. Por isso, temos estado a desenvolver um programa conjunto com a Administração Municipal do Uíge no sentido de sensibilizar os cidadãos vendedores de ruas e nas ruas para que sejam retiradas destes locais não autorizados onde se encontram a realizar as suas actividades comerciais.

    As vendas devem ser feitas em condições higiénicas e em locais próprios. É isso que temos pedido aos nossos cidadãos e vamos continuar a trabalhar incessantemente para continuarmos a ter uma cidade cada vez mais acolhedora.

     

    Quanto à vandalização de bens públicos. Qual é a estratégia do Governo Provincial para se acabar com estas práticas?

    São todas estas situações que têm nos obrigado a reforçar as acções de educação cívica dos nossos concidadãos para que não enveredem por estas práticas e, ao mesmo tempo, temos estado a combater estas acções para que as pessoas compreendam que os bens públicos devem ser cuidados para servirem para todos nós enquanto habitantes desta região.

    Não vamos permitir que as pessoas continuem a vandalizar esses bens públicos. O Governo tem gasto muito dinheiro para a colocação destes bens essenciais à disposição da população, daí que temos que olhar que tudo aquilo que fizemos hoje, deve beneficiar esta geração e as outras vindouras. Portanto, temos a obrigação de cuidar deles e é uma obrigação de todos, enquanto cidadãos, na medida em que não devemos nos manter impávidos enquanto alguém esteja a vandalizar um bem público.

    É necessário que todos desenvolvam a cultura da denúncia. É isto que todos devemos fazer, até porque desta forma estaremos a ajudar os órgãos de defesa e segurança na proteção destes bens que, no fundo, todos nós utilizamos.

    Como anda o projecto do Governo para a distribuição de lotes de terrenos para a auto-construção dirigida?

    Andamos a ensaiar um programa com o qual queremos que os jovens, particularmente aqueles que queiram fazer as suas primeiras habitações, se interessem pelo mesmo. Este programa começou a ser desenvolvido no bairro Catapa, na zona adjacente ao projecto habitacional da juventude, e, agora, começamos junto à Centralidade do Kilumosso onde já distribuímos vários lotes há cerca de seis meses.

    Lamentavelmente, no início notamos que havia uma enorme pressão por parte dos jovens que tinham requerido os mesmos lotes de terreno, mas, até agora, pouco ou nada foi feito nestes espaços cedidos. Com base nesta constatação, estamos a estudar o fenómeno para entendermos o que realmente se passa para as pessoas não construírem as suas casas e vamos nos dar respostas a estas questões que nos auto colocamos.

    No entanto, é nossa intenção continuar a promover a aparição de novos bairros com o projecto de auto-construção dirigida com zonas urbanizadas e equipamentos sociais que tornem a vida mais bela e fácil. Estamos muito focados na região do Kilumosso onde já pode verificar alguma iniciativa privada de pessoas singulares e colectivas que estão a construir habitações.

    Esta experiência iniciada no município do Uíge, vamos replicar para o município de Negage ou, melhor para os 23 municípios que agora a província comporta. Estamos focados no município sede onde pretendemos tirar todas as ilações do programa para que mais facilmente possamos implementar em outras regiões da nossa província.

    Nesta altura, 400 jovens já receberam lotes de terreno para a auto-construção dirigida no Catapa e no Kilumosso. O período para eles darem início a construção das suas moradias é de seis meses. Passado este período, somos obrigados a nos inteirar sobre quais são os constrangimentos, que podem ser diversos, e esta avaliação vai nos permitir tomar uma atitude, muito brevemente, sobre que medidas a adoptar.

    O que tem a dizer sobre os constantes relatos de sinistros com famílias que vivem em zonas consideradas de risco?

    Lamentavelmente é a nossa realidade e que precisamos ultrapassar com urgência. O governo da província, sempre que tem condições, movimenta populações para os reassentar em zonas mais segura. Já fizemos aqui na zona da rotunda da Bangola e do Quitexe onde retiramos 40 famílias. Também reassentamos os antigos moradores do prédio AC e em outros pontos que achamos serem críticos.

    São sinais para poderem ver que estamos atentos a estas situações e sempre que tivermos condições que nos permitam construir novos reassentamentos, vamos continuar a movimentar famílias para lhes dar maior segurança.

    O Uíge possui vários recursos minerais e já se assiste uma crescente exploração ilegal dos mesmos. Que medidas estão a ser tomadas para travar o garimpo?

    Depois do potencial agrícola e turístico, o mineiro começa a despontar e o grande exemplo é o projecto Tetelo-Mavoio, a primeira mina subterrânea do país, a cerca de 600 metros de profundidade, no município de Maquela do Zombo que vai permitir que nos próximos tempos se explore e produza cobre, garanta mais empregos para a juventude local e contribua para a economia nacional.

    Existem outras empresas que estão a fazer prospecção de outros mineiros na nossa região. Mas devemos, de forma contundente, repudiar o crescimento preocupante da exploração ilegal de recursos minerais na província. Estamos agora com a “febre” do ouro no município do Songo e outras regiões, uma actividade que devemos combater energicamente.

    É necessário que o garimpo ilegal seja combatido devido às consequências ambientais e outras que esta prática traz para o nosso território. Estamos a trabalhar, conjuntamente, com o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, para se organizar e coordenar toda a exploração mineira na nossa região.

    Que avaliação faz do sector da Saúde e Educação na província?

    A área social, sobretudo Saúde e Educação, está no topo das nossas prioridades e principais preocupações, porque precisamos de levar a saúde à toda nossa população. O que temos feito é melhorar e capacitar os nossos recursos humanos, no âmbito do programa nacional do Ministério da Saúde de formação dos profissionais do sector em especialidades na área da Medicina, Enfermagem e outras de especialização. Estamos, também, a trabalhar na construção de mais infra-estruturas sanitárias para continuarmos a oferecer melhores serviços à nossa população. Ainda não atingimos algumas metas, por existirem, ainda, deficiências no atendimento aos utentes, na distribuição grátis de medicamentos, mas o mais importante é que estamos a fazer o caminho e continuamos atentos e a projectar uma melhoria dos nossos serviços à população.

    Existem, também, grandes desafios com o sector da educação, onde precisamos de diminuir o rácio aluno/professor nas salas de aulas, com a construção de mais infra-estruturas escolares, sobretudo no âmbito do PIIM que permitiu introduzir, até ao momento, 43 novas escolas na nossa rede escolar. Existe um programa do financiamento do Governo espanhol para a construção de 15 escolas de 24 salas de aulas, cada, das quais cinco já foram concluídas nos municípios do Uíge (2), Songo (1), Quimbele (1) e Maquela do Zombo (1).

    Estamos, agora, a trabalhar para a construção das outras 10 que deverão albergar institutos médios técnicos que são as principais solicitações dos alunos da província para os cursos de construção civil, electricidade, mecânica, electrónica e informática e soldadura industrial para que os nossos filhos, quando saírem destas escolas, não tenham que pressionar o Estado pela falta de emprego, mas que criem o auto-emprego e sejam empregadores.

    E o que se pode dizer do Ensino Superior?

    Neste segmento de ensino, o que devemos fazer é, primeiramente, fortalecer a base com cursos superiores variados, particularmente para os da área tecnológica. Sabemos que está a surgir o potencial mineiro, por isso precisamos de formar muitos técnicos e o diálogo mantido com a Universidade Kimpa Vita é que, além dos cursos já ministrados, que se oriente, também, para as tecnologia e engenharias.

    Precisamos, localmente, de ter um curso superior de construção civil, mecânica, electricidade e outras para absorverem as saídas nas escolas do ensino médio. Há, ainda, a necessidade de resolvermos o problema do défice de médico na província e a nossa Universidade é desafiada a promover o curso de medicina para formarmos quadros dos municípios e estes retornarem às suas áreas de proveniência para melhorar a assistência médica e medicamentos.

    É um diálogo permanente com a Universidade Kimpa Vita para sejam incluídos nos seus planos curriculares cursos ligados às áreas das tecnologia e engenharia, assim como a implementação dos graus de mestrados e doutoramentos. O mesmo apelo é extensivo para instituições de ensino superior privadas.

    Como tem sido a relação com as igrejas?

    Deve-se compreender que não só do pão vive o homem… Portanto, nós precisaremos das igrejas para nos ajudar a criar esta nova sociedade que pretendemos. Elas vão continuar a ser os nossos grandes parceiros sociais por tudo quanto representam na sociedade e por tudo quanto os servos de Deus têm estado a fazer no crescimento da nossa região, nos campos da educação, saúde, na moralização da população e nos trabalhos sociais para os quais podemos contar com elas em qualquer momento.

    Senhor governador, como avalia o trabalho feito pelos órgãos de comunicação social?

    Obrigado! Não é uma questão fácil, por isso nos devem compreender. Desde que cá chegamos, nossa avaliação tem sido positiva, pois começamos, logo, a fazer visitas de constatações às instalações da Rádio Uíge, Jornal de Angola, Agência Angola Press (Angop) e Televisão Pública de Angola (TPA), onde constatamos inúmeras dificuldades.

    Estas dificuldades vão desde a falta de materiais de trabalho, transportes, más condições das instalações onde trabalham. De forma conjunta, com as direcções destes órgãos, fizemos alguns esforços, os quais permitiram a reinstalação da TPA num edifício mais moderno e temos estado a olhar para os outros órgãos onde existe dificuldades, em termos de equipamentos tecnológicos e dentro das nossas possibilidades e limitações, temos apoiado.

    No geral, são estas as dificuldades que estamos a procurar solucionar. Pedimos, apenas que os órgãos de comunicação social continuem a fazer o seu trabalho com dedicação e que nos ajudem a fazer crescer a região, com acções que concorram para a melhoria das condições de vida da nossa população. Assumimos um compromisso com a classe jornalística, sobretudo em matéria de melhoria das suas condições sociais, onde nos predispomos a disponibilizar lotes de terrenos para a auto-construção dirigida. Estamos a criar condições para a sua materialização.

    Via JA

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