Sindika Dokolo: “O meu pai era Mukongo, Musi Ngombe…”

Por Luís Fernando

 

Luís Fernando

Sindika Dokolo: Nasci numa casa onde existia a paixão pela Arte”

Sindika Dokolo, 43 anos, um longo e notável caminho de colecionador sem tréguas. A ideia de serem juízos extra-africanos a definirem o valor da nossa ancestralidade medida em peças de arte, perturba-o. Lançou-se numa corrida só para maratonistas de fôlego: recuperar, o mais que puder, relíquias roubadas a África. Os primeiros resultados estão colhidos: Uma estatueta e duas máscaras Mwana Puó centenárias estão de volta a Angola. Não é uma questão de dinheiro nem de perseguição a velhos usurpadores, mas de moral, afirma. O PAÍS conversou com o patrono da Fundação que promove a III Trienal de Luanda. Foram, na verdade, minutos preciosos com um filósofo da Arte e do colecionismo

 

Comecemos pelo dado curioso de ter nascido a 16 de Março – o mesmo dia, mas de anos diferentes, obviamente – como o seu pai, o senhor Sanu Dokolo. Ele era um salfe made man, isto é, uma pessoa de mérito, agarrada a causas e que perseguia o sucesso; sempre com grande energia, como é descrito, um homem de grande cultura e uma enorme paixão por África e a sua Arte. Sente que herdou dele essa paixão pelas Artes, é genético esse “bichinho” que o transformou nesse colecionador empenhado que conhecemos?
Acho realmente que o percurso que tive ao nível da Fundação, ao nível do meu gosto pessoal pela Arte, tem muito a haver com essa oportunidade única que eu tive de nascer numa casa onde de facto existia essa paixão pela Arte, e onde eu tivesse esse acesso à Cultura Universal mas dum modo mais importante, à cultura africana. Foi uma oportunidade para mim de me construir enquanto indivíduo de dentro para fora, conhecendo primeiro o nosso contexto artístico africano, dando o devido valor à nossa arte, às nossas expressões artísticas que eu chamo clássicas, o que foi para mim obviamente uma fundação muito importante para depois poder interessar-me por outras formas de arte.
E esse de facto é o sentimento da dívida que, de uma certa forma, eu tenho com todos os outros africanos que não tiveram essa oportunidade, o de tornar a Cultura, a Arte, acessível. Costuma-se dizer que essa relação fácil com a arte, de borla digamos assim, desde cedo, desde criança, é um pouco como ensinar aos seus filhos uma língua estrangeira. Há um provérbio que diz que dar a oportunidade de aprender uma língua estrangeira desde criança é como oferecer uma alma suplementar ao seu filho.
E eu vejo muito essa questão do acesso à cultura nesse sentido, é por isso que tem sido esse o nosso principal objectivo ao nível da Fundação, não só querer tentar promover as artes mas facilitar o acesso de um maior número de meus concidadãos à Cultura e à Arte.

 

Na dimensão em que se move, a do colecionismo, existem evidentemente muitos outros africanos a fazerem o mesmo, com maior ou menor garra. Como é a relação que se estabelece, cooperam entre si ou há uma feroz concorrência?
Em relação a isto não pode haver concorrência, especialmente entre os africanos. Acho que todos nós, africanos que dispõem de meios para fazer viver uma associação cultural ou uma colecção, estamos todos um pouco na mesma situação, na mesma trincheira. Temos a visão, enquanto pessoas integradas num contexto moderno, contemporâneo, universal – hoje em dia todos viajamos, temos acesso à Internet, temos acesso à televisão – e reflectimos sobre todas essas questões que continuam fundamentais, as questões de se saber qual é a postura moral de qualquer africano perante os desafios fundamentais do nosso continente, como a educação, o subdesenvolvimento, a nossa visão enquanto africanos, como olhamos para nós próprios e para o mundo, a questão dos nossos valores…
E claramente que em relação a isso, todos, através do nosso trabalho, estamos a tentar de uma forma ou de outra trazer respostas concretas, construtivas, a essas grandes questões existenciais. É a razão pela qual não há nenhuma concorrência. De vez em quando e sempre que há oportunidade,partilhamos experiências.
Preocupado que se tem mostrado no seu trabalho com a valorização da arte africana no seu todo, tem algum apoio da União Africana ou, no mínimo, existe algum ponto de interseção, alguma aproximação que seja justo referir?
A minha experiência pessoal ao nível da trajectória da Fundação tem sido a de ser mais proactivo do que realmente estar à espera duma ajuda ou dum apoio. E eu acho que é um pouco esse o nosso dever. Nós todos que fazemos parte da sociedade civil, africanos em geral, temos de tentar primeiro fazer e resolver os problemas com os quais estamos confrontados. Então realmente, para ser honesto, ainda não cheguei a esse ponto de tentar identificar ao nível da União Africana quais os sistemas e as pessoas que poderiam realmente nos ser úteis. Prefiro construir de dentro para fora, começar primeiro a trabalhar aqui ao nível angolano com a sociedade civil, mesmo ao nível do Congo (que eu sou também congolês) e trabalhar mais com o nosso governo, com todas as instituições dos nossos países e talvez depois pensar na questão da União Africana, da Europa, do resto do mundo…
O que é certo é que Sindika Dokolo segue o seu percurso…
Prosseguindo: dispomos da informação de que a Fundação de que é patrono trouxe para Angola, numa recuperação notável, duas máscaras Mwana Puó e a estatueta Chi-Hongo, verdadeiras glórias artísticas do espaço antropológico cokwe.
Nós decidimos começar este projecto de procurar pelas obras de arte que foram roubadas de museus angolanos, neste caso específico no Museu do Dundo, das civilizações cokwes, porque 2015 é um ano especial, quadragésimo aniversário da Independência de Angola e pensamos que era um momento interessante para se fazer um pequeno balanço de qual é a nossa perspectiva histórica. A ideia de se fazer esse trabalho de descobrir ou de tentar nos reapropriar dos valores, do património dos nossos antepassados, pareceu-nos ser uma questão fundamental para a nossa sociedade. E de facto eu, que coleciono muito e a minha paixão inicial é a arte clássica africana – que uns chamam de arte primitiva ou tribal mas eu prefiro, por razões óbvias, “arte clássica – descobri que , estudando o mercado, muitas peças antigas (século XIX, século XVIII às vezes), cokwes, bacongo, luvale – só para citar estes três grandes grupos étnicos angolanos – estavam a ser celebradas ao nível do mercado e do mundo numa dimensão que nos escapava completamente a nós, africanos.
Descobri por exemplo que uma estátua muito conhecida na cultura cokwe, chamada chibinda ilunga (chibinda ilunga é o herói mítico fundador da civilização cokwe) hoje em dia, no mercado da Sotheby’s ou da Christie’s, pode custar acima de dez milhões de dólares. Se vir um nkisi konde, da minha etnia de origem, os bakongo, pode custar também na casa dos cinco milhões de dólares.
O que realmente me marcou muito foi considerar como é que era possível que uma coisa que corresponde às nossas raízes nos seja tão estranha, tão desconhecida e tão inacessível, a tal ponto que outros completamente alheios ao nosso contexto, nunca puseram um pé em África, não conhecem as nossas civilizações, a nossa cultura, a nossa contemporaneidade, valorizem mais o que realmente deveria ser nosso. E isso deu-nos a ideia de começarmos a fazer esse trabalho à volta do património. Daí o tema da trienal deste ano que é “Da Utopia à Realidade”, mas a ideia central é “Da Escravatura ao fim do Apartheid”, para justamente criar esse ponto de partida e essa trajectória que nos vai permitir depois nos projectar no futuro de maneira mais forte e mais profunda. Era esse o objectivo.

Sindia Dokolo

Para quem não é entendido em Arte cokwe, o que representa efectivamente o património que acaba de ser resgatado?
O Chi-Hongo é uma estatueta de divinação, uma máscara masculina que é utilizada durante um ritual cokwe, sendo que a máscara Mwana Puó é utlizada durante um ritual de passagem à idade adulta. Os jovens rapazes, durante esse ritual, homenageiam as antepassadas do lado matrilinear – a sociedade cokwe é de matriz matrilinear – e então é uma forma de homenagear essas mulheres com uma dança que retoma todas as virtudes da beleza física mas também da beleza moral da civilização cokwe. Celebram-se os valores fundamentais durante esse rito de passagem, a dizer que já não é criança, agora é adulto e é, moralmente de certa forma, depositário desses valores.
Há um elemento que nos chama a atenção. Sabemos que Sindika é da etnia kongo…
Mas também sou da etnia viking, cuidado com essas coisas de etnia (risos). A minha mãe é dinamarquesa, o meu pai era mukongo, mosingombe, etc etc. Faz parte das minhas raízes, claramente…
Tudo bem, mas pela sua raiz africana…
Notamos que, no seu empenho como colecionador de arte africana, que faz incidir muito a sua atenção, o seu foco, sobre a região cokwe, o espaço sociocultural cokwe. Há alguma razão especial para que isso aconteça? Vê algo de diferente, de extraordinário, de “mais puro” digamos assim, naquilo que de artístico se produz no universo cokwe, que se estende, como sabemos, por Angola (região Leste), Congo Democrático e Zâmbia?
Obviamente que há questões estéticas; quando se olha para a estatuária cokwe, para a estatuária kongo, há de facto um prazer, o olho na estética, a força dessa expressão artística. Mas ao mesmo tempo eu que sempre pensei ter duas colecções, uma de arte contemporânea e uma de arte clássica, aprendi a analisar e percebi que afinal o que eu gostava de arte era a “Arte Poderosa”, ou seja, a arte que choca com a minha sensibilidade. E ao ler Picasso, percebi, descobri, e ele chamava a isso “arte do exorcismo”.

Ele estava a descrever num livro que eu li há pouco, a sua primeira experiência, que foi em 1907, ou seja, há mais de cem anos atrás…Ele era um jovem pintor, artista, vivendo em Paris, foi a um mercado onde vendiam arte africana e a primeira reacção dele, foi uma reacção de desconforto. Ele disse: “isto parece bruxaria, são objectos que parecem dotados de alma”. E é exactamente isso que interessa na arte transversal, essa ideia da “arte poderosa”, da “arte do exorcismo”. A tal ponto que estamos a trabalhar ao nível da Fundação na criação de um movimento artístico que chamamos “The Power for Art” – arte poderosa ou do exorcismo -. Porque, fundamentalmente, descobrindo a relação dos nossos antepassados com a prática artística, podemos trazer muito ao debate sobre Arte Contemporânea, porque de facto eu acho que um bom artista africano, um bom artista como é o caso do Jean-Michel Basquiat, do Barceló, do Picardiá, do Picasso, são nomes importantes da Pintura, da Arte Moderna Contemporânea, e para mim são imagens grandes dessa “arte poderosa” e nós africanos somos depositários dessa prática artística.
Falando das máscaras cokwes, por exemplo: uma máscara cokwe é vista pelo mundo como uma obra de arte. É a máscara mais natural; a máscara não é a Arte, a Arte é a performance, essa maneira de entrarmos todos em transe, esse momento completamente único, onde a máscara é apenas um “media” para chegar a outro ponto, a um outro ponto além da percepção consciente, além da percepção intelectual.
E eu acho que é da mesma forma que os artistas africanos têm de ir às fontes dessa prática artística para inspirar a sua prática artística actual. Nós temos muito material, na cena artística obviamente, mas também na sociedade de todos nós, para redescobrirmos o que valor fundamental intrínseco das nossas tradições, das nossas culturas tradicionais…
Uma questão de transcendência, portanto…
Exactamente!
Bom, o que é certo é que as três peças cokwes de grande valor simbólico, patrimonial, estão de volta a Angola. Como é que os angolanos podem celebrar tudo isto, que é qualquer coisa de notável? Como é que os cidadãos se vão aproximar a elas?
Estão previstas duas fases neste processo de retorno dessas peças importantes do património nacional: a primeira, queremos criar um quadro solene de maneira a marcar o nosso imaginário colectivo; viver-se um acto político e simbólico muito importante e muito forte, que não deve passar despercebido; a ideia era que a primeira pessoa a poder ver essas duas máscaras e essa estátua do rito de iniciação seja o Senhor Presidente da República na presença dos reis cokwes, para marcar justamente a importância simbólica deste acto.
Na segunda fase, nós queremos ao nível da Fundação – como aliás tem sido sempre a nossa preocupação– tornar esse património acessível ao maior número de cidadãos; então nós decidimos, primeiro, aqui no Palácio de Ferro – que durante um ano vai funcionar como a sede da Fundação ao longo desta Trienal -, expor essas três peças, como também bastante material científico de apoio, justamente para que as pessoas possam conhecer, descobrir mais sobre o que é que são essas tradições, o significado, etcêtera, etcêtera, e o que foi a história fundamentalmente desse património, como é que saiu de Angola, como é que foi valorizado pelo mercado, no mundo, e como é que regressou a Angola.
A ideia é tornar o acesso completamente livre, gratuito obviamente.
Temos também com o BNA um acordo para que, quando se fizer a inauguração do novo Museu da Moeda – que fica mesmo ao lado da esplanada do BNA – se possa expor, além do resto do material museológico, essa estatueta e essas máscaras. A ideia é tentar justapor a ideia de património com a ideia de valor pois acho que é fundamental que esse trabalho de reapropriação, esse trabalho conjunto, colectivo, profundo, sobre os nossos valores, sobre o nosso património, possa ser feito pelo maior número de pessoas.
Duas perguntas agora: participei há umas semanas na conferência que a Fundação organizou no hotel Epic Sana e fiquei com a percepção que o seu patrono não gosta muito de se referir a números, ao custo das peças de arte, mas é mais do que óbvio que normal nas pessoas que quererão saber que valores estiveram envolvidos na recuperação das três peças cokwes; é a primeira questão. A outra, O PAÍS gostaria de saber se a Fundação e o seu patrono têm listadas outras peças de grande valor que tenham sido roubadas de Angola e se estão eventualmente no seu encalço para que as possam trazer de volta também para o país?
A questão do valor, obviamente, é uma questão que interessa a toda a gente. O valor de mercado dessas peças hoje em dia seria de natureza a surpreender o público de uma maneira geral. Para a maioria dos angolanos, nós não temos essa consciência, essa noção, do tipo de preço que estas obras de arte podem atingir. Aí estamos a falar talvez na casa dos cem mil ou cento e cinquenta mil dólares, às vezes muito mais. A arte cokwe pode chegar realmente a preços muito elevados.
Vou falar-lhe de uma estátua chibinda ilunga, por exemplo: acho que houve uma proposta que foi feita em tempos pelo Qatar para comprar a um privado americano a quinze milhões de dólares e o privado recusou. A questão fundamental qual é? Essas obras de arte foram roubadas, é um problema grave. Um roubo significa que, logicamente, a obra deve ser confiscada à pessoa; o detentor dessa obra devia ser provavelmente castigado…

Preso…
Bom, preso não sei… mas entendo que deveria enfrentar a Justiça. E então nós, ao nível da Fundação, estudámos as várias experiências, estudámos o modelo grego. O modelo grego é muito interessante. O Museu da Acrópole, que é relativamente novo, que foi muito bem feito, em Atenas, tem uma ala dedicada a Partenon na sala principal, que faz talvez 20 metros de comprimento (é um quadrado de 20 metros); tem grandes pedaços de uns 10 metros em gesso completamente em branco. Então quando visitava o museu com os meus filhos, o meu filho mais novo fez uma pergunta curiosa ao guia: “porquê é que vocês não fizeram um acabamento melhor com pelo menos uma placa explicativa do que aconteceu…pensamos todos que isto foi destruído por um terramoto ou alguma coisa do género”. O guia respondeu-lhe: “nós fizemos isto em branco de propósito para que todas as crianças gregas que visitarem este património fundamental da nossa História, da nossa nação, saibam que aquela parte do nosso património foi roubada e está hoje em dia em Londres, no Road Museum”. Isto é interessante. E os gregos têm fé que se vai devolver, daqui a cem anos, daqui a mil anos, leve o tempo que levar! Mas eu pensei realmente: “eles que pertencem a uma mesma família política, que é a União Europeia, não se conseguem entender, duzentos, trezentos anos depois daquilo ter sido roubado , não conseguiram ainda resolver o problema!”. Quando construíram o novo museu, consideraram que é tão importante o que foi levado que previram a sua recuperação. E é para que os ingleses não usem o argumento de que a Grécia não tem condições para acomodar essas obras, pois às vezes este costuma a ser o argumento com África, com o Egipto, etc. etc. Então concluí que vamos ter de encontrar uma outra via mais pragmática, mais concreta, mais imediata. E estudámos então a experiência da Nigéria. A Nigéria tem uma etnia chamada ifé que produziu e tem produzido obras excepcionais (às vezes terracota mas também de metal, estruturas dos séculos XIII, XIV, XV…). A Nigéria decretou uma espécie de embargo sob o mercado que proíbe a venda pública de obras originárias do reino de Ifé. Essa medida teve como consequência o mercado parar com todas as transações mas o mercado converteu-se em underground e tornou-se muito difícil encontrar obras do género. Não sei se o Museu Real Ifé conseguiu recuperar muitas peças.
Nós temos de ter uma postura que seja ao mesmo tempo muito rigorosa do ponto de vista jurídico mas de uma certa forma temos de encontrar uma fórmula que deve ser mais funcional. Daí começou uma abordagem que acho revolucionária ao nível dessas questões ligadas ao património, que é a questão de dizer ao detentor: “olha, pagamos-te uma indemnização”. Ou seja, não vamos pelo preço de mercado, vamos dizer que o preço de mercado é cem, identificamos uma obra que saiu ilegalmente do Museu do Dundo por exemplo, vamos ter com o proprietário actual, apresentamos-lhe as provas e propomos-lhe ou a via judicial – geralmente eles não gostam desta perspectiva – ou a proposta da Fundação, que é negociar uma indemnização , ou seja, a Fundação propõe-se a pagar o mesmo valor pelo qual o detentor adquiriu a peça …
Bom, mas voltando às nossas três peças cokwes, não vou dizer o preço, não vou dar a identidade das pessoas, faz parte do acordo que eu fiz com elas….

3Mas pode ao menos dizer-nos se estavam em mãos de particulares…
Sim sim, estavam em mãos de particulares, de colecções privadas. Eu comprei, paguei, indemnizei – rectifico, não digo que eu comprei porque não são minhas,são do museu, são de todos nós, de todos os angolanos –, pagou-se ¼ do valor de mercado dessas peças e as pessoas, os detentores, preferiram oferecer as peças. Eu enviei um convite para eles para que, depois da exposição aqui na Trienal, viagem a Angola para irem comigo até ao Dundo para devolvermos as peças na presença do rei dos cokwes porque, fundamentalmente, do que se trata não é uma questão de dinheiro, não é uma questão legal, mas é uma questão moral e humana. Nós, africanos, temos de exigir consideração. Esta opinião que defendo é a base fundamental de uma relação bilateral equilibrada.
Pode-se saber se eles aceitaram o convite?
Na verdade eles ainda têm um ano pela frente para decidir mas acho que eles ficaram um bocado receosos. É normal, não conhecem Angola, têm uma imagem feita de fora, são sempre vítimas, de certa forma, de uma ideia preconcebida mas temos de fazer-lhes sentir o que é a nossa realidade. Sabemos que lá fora, ao descobrirem a nossa realidade, a qualidade hoje em dia do angolano, a riqueza moral, a generosidade, a capacidade de acolhimento, a abertura de espírito, a modernidade do angolano de 2015, eles ficam admirados, deixam-se depois convencer, querem descobrir mais sobre a nossa realidade…
Bom, vamos acreditar que eles venham a aceitar o convite e que viagem para Angola. Vamos agora falar propriamente sobre a Trienal. Reparamos que a Fundação não faz uma abertura formal do evento. Neste momento, já estamos na Trienal ou ainda não?
– Estamos na Trienal já. Este ano, como é um ano especial pela celebração dos 40 anos da Independência, decidimos fazer a Trienal durante um ano inteiro. O objectivo da Fundação é que a Trienal seja recebida ao nível do público angolano, como a sua celebração, a sua festa. Não é aquela ideia, costumo dizer, eu vou à cozinha preparar a comida e vocês ficam à espera, depois trago à mesa, e se tiver muito sal vamos ter de comer todos à mesma. Eu gostaria que esta seja a festa de cada um, que o maior número de cidadãos possa participar.
Essa particularidade de se organizar as coisas assim só existe em Luanda, não há em nenhum outro sítio, a ideia de criar um museu a céu aberto. Durante a última Trienal a aposta que nós fizemos foi muito interessante, foi inclusive analisada por muitas instituições no mundo. Hoje em dia o conceito de museu é um pouco ultrapassada quando se trata do desejo de uma pessoa contemporânea de evoluir com a sua sensibilidade artística, de ver coisas, de descobrir, de passar um momento cultural. Da mesma forma que talvez possa estabelecer um paralelo – sem querer criar polémica, eu sou católico – com o que acontecia no passado: há quinhentos anos, obviamente que a ideia de quem queria abordar a sua espiritualidade, a arquitectura de uma catedral era uma coisa que lhe ia inspirar. Hoje em dia, um jovem ou menos jovem, uma pessoa contemporânea, cria um reflexo que o aproxima mais à Natureza, o Ambiente, o ar livre, para conceber a ideia divina. E para mim também ao nível da Cultura e da Arte é a mesma coisa. A ideia de um museu é um pouco “ontem”, tem de se repensar isso, porque infelizmente isso faz com que cada vez menos e menos pessoas, menos e menos jovens (mesmo nos países onde há muitos museus) têm interesse em visitar museus.
O conceito que a Trienal criou para ter os actores requisitados da cidade de Luanda a projectarem mensagens, a projectarem a Arte e a fazer de Luanda um museu a céu aberto, é uma ideia que é muito específica da Trienal de Luanda e tem muito a haver com a identidade, com a História, de como as artes contemporâneas têm evoluído na nossa sociedade do pós-guerra em Angola.

 

O homem da mais importante colecção de arte africana

 

Sindika Dokolo nasceu em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, em 1972.
O pai, Augustin Sanu Dokolo, é descrito como um congolês de vida discreta a respeito de quem se sabem poucos detalhes da vida privada. Foi dono de uma empresa de táxi e uma casa nocturna em Leopoldville (Kinshasa, hoje) onde o camaronês Manu Dibangu afirma ter iniciado a sua carreira musical. Em 1969, chamando-se ainda o país Zaíre, o impetuoso empreendedor lançou-se no projecto mais ambicioso da sua vida: fundou o Banco de Kinshasa, o primeiro banco ao sul do Sahara com capitais nacionais. Arrancou com um capital inicial de seiscentos mil dólares, uma colossal fortuna, à época.
Sindika Dokolo é o penúltimo de quatro irmãos. Dedica-se a negócios e coleciona arte. Detém a mais importante colecção de arte africana contemporânea, com um acervo de aproximadamente cinco mil obras.
mascareDesde os 15 anos de idade que estrutura, peça a peça, a sua vasta colecção.
É patrono da Fundação que leva o seu nome, por via da qual tem promovido diversas iniciativas artísticas e culturais. A Trienal de Luanda, que de Novembro deste ano a Novembro de 2016 movimenta a sua terceira edição, é dos mais visíveis eventos da Fundação Sindika Dokolo.
Reside em Angola desde 1999. Casado com a empresária Isabel dos Santos.

Via opais
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    “NOSSA PRIORIDADE É COMBATER A FOME, A PROBREZA E ELECTRIFICAR TODAS AS SEDES MUNICIPAIS DO UÍGE.”

    Por António Capitão

    A prioridade da governação no Uíge passa pelo combate à fome e à pobreza, incluindo a electrificação das demais sedes municipais, além do Uíge, Negage e Maquela do Zombo, considerou o governador da província, em entrevista aos órgãos locais de comunicação social, que decorreu num dos estúdios da Rádio Uíge, do grupo Rádio Nacional de Angola (RNA). José Carvalho da Rocha revelou que os três municípios mencionados já beneficiam de energia eléctrica do sistema interligado nacional.

    Desde Outubro de 2020 que passou a dirigir os destinos da província, já andou pelos antigos 16 municípios, hoje 23. Como encara a situação das estradas que interligam as várias localidades?

    No Uíge, temos uma malha rodoviária que interliga os nossos municípios. Algumas estradas estão em bom estado, outras precisam da sua manutenção e recuperação e outras, ainda, precisam ser construídas. Precisamos de construir a estrada Songo-Lucunga-Bembe, voltar a construir o troço Alfândega-Alto Cauale, assim como Macocola-Milunga-Massau, Maquela do Zombo-Sacandica, Quimbele-Alto Zaza, Sanza Pombo-Buengas (agora Nova Esperança) e fazer, de forma alternada, Vista Alegre-Quipedro ou Ambuíla-Quipedro. Um trabalho que já deve incluir os sete novos municípios.

    Estes, são, de forma imediata, os grandes desafios que temos para continuarmos a melhorar a nossa malha rodoviária. Podemos fazer estas estradas, mas não tem de ser, necessariamente, vias asfaltadas. Podem ser aquelas com uma sub-base bem-feita, porque precisamos de forma imediata. Há exemplos deste tipo de rodovias que são desenvolvidas na África do Sul e na Namíbia que funcionam e nos podem permitir dar respostas às nossas necessidades de mobilidade.

    Pode apontar datas, senhor governador?

    O que nós queremos, de facto, longe de se prever datas, é que as populações do Sanza Pombo, Nova Esperança e todas as outras vias adjacentes tenham de volta os seus “sapatos”, como pediu o Rei Muana Uta ao Presidente da República, João Lourenço. Temos estado a trabalhar neste sentido e é importante verificar que temos um grande constrangimento, neste momento, por estarmos numa região que chove bastante e todo trabalho que já foi feito, deve ser revisto porque foram danificados pelas chuvas durante o tempo em que a empreitada esteve paralisada.

    Na última viagem que fomos ao antigo Buengas, saímos de lá por volta das 15 horas e, por conta da carga de chuva entre aquela região até ao Sanza Pombo, chegamos à cidade do Uíge apenas às nove horas do dia seguinte. É para se ver a dimensão do problema que temos para a construção desta estrada. Mas, o que vos posso garantir é que este “sapato” vai ser devolvido à população. Custe o que custar!

    Quanto ao município do Bembe, estamos a trabalhar com o Ministério das Obras Públicas e com o Governo Provincial do Zaire para que seja feita uma ligação entre Songo-Lucunga-Mbanza Kongo e Lucunga-Bembe. Os passos para este projecto estão avançados e esperamos que nos próximos tempos possamos ter várias novidades para as duas províncias. Vai ser uma estrada de terra-batida com solos melhorados e nos moldes dos países já mencionados.

     

    Para quando a transformação do Uíge numa das regiões tecnológicas do país?

    Ainda não conseguimos transformar a província do Uíge numa região fortemente tecnológica. Pois, com franqueza, o nosso sonho ainda não foi materializado. Estamos a caminhar e estamos felizes por termos encontrado muitas bases, quanto a isso. Primeiro, encontramos recursos humanos, dentre eles, muitos jovens formados na área da Engenharia Informática e, nós, procuramos criar um pequeno centro tecnológico que equipámos, pegámos nestes jovens engenheiros e demos a formação adicional de que eles precisavam.

    Demos a formação para que eles pudessem dominar tecnologia ligada à CISCO, uma das maiores empresas ligadas ao fornecimento de equipamentos e em Angola existe uma academia que atende o nosso país e São Tomé. O que fizemos foi pegar em 11 jovens que instruímos na área de utilizadores, na óptica profissional para que pudessem transportar estes conhecimentos para a província os conhecimentos em CCNA 1 e 2 que qualquer técnico ou engenheiro na área de IT (sigla em Inglês para Tecnologia de Informação) precisa, por ser a base e com certificação internacional.

     

    Onde é que tais cursos podem ser ministrados e pode dizer-nos se os mesmos têm certificação internacional?

    Transferimos para o nosso Centro de Formação Tecnológica do Uíge (CFTU) e, claro que estes cursos têm certificação internacional. Consta, igualmente uma área de eléctronica de reparação, pois fomos comovidos pelas nossas constantes visitas ao mercado municipal do Uíge, onde fiquei encantado ao encontrar vários jovens a mexerem em quase tudo, o que me faz perceber que precisam apenas de orientação.

    É isto que pretendemos fazer com o centro, além de outros projectos, como levar esta experiência ao Negage e Maquela do Zombo para podermos dar a oportunidade aos nossos jovens de participarem nas férias e workshops de tecnologias e criarem projectos para o desenvolvimento da província e acompanhar o desenvolvimento tecnológico do mundo. Hoje, já se fala da Inteligência Artificial (IA) e temos de acompanhar todos estes desenvolvimentos.

    Da avaliação que faz, é possível notar se os jovens do Uíge têm sabido tirar bom proveito do CFTU?

    Pelo que sentimos, sim! Basta ir-se ao centro, quando se abre um período de formação, é possível constatar uma grande adesão de jovens da nossa província e de outras. Já tivemos também a oportunidade de formar jovens da vizinha província do Cuanza-Norte e o que queremos é que o centro atenda a toda essa região Norte.

    Temos sempre que pensar em algo maior, tendo em conta que o CFTU foi idealizado para este propósito. Marcamos os passos iniciais e, hoje, pelas exigências e interesses das pessoas, sentimos que ficamos ultrapassados e devemos pensar em uma infra-estrutura com maior capacidade.

     

    O Uíge já organizou três Feiras de Invenção Tecnológica e os expositores apresentaram vários projectos ambiciosos. Como o Governo do Uíge pretende aproveitar esses talentos, sobretudo os ligados à IA?

    O nosso objectivo é formar e permitir com que os jovens adquiram o máximo de conhecimento para que eles, depois, possam ser, também, grandes empreendedores. Este é o nosso grande objectivo. Existem muitos projectos com os quais temos estado a trabalhar. Por exemplo, há um bastante interessante que é o de descasque de ginguba em que desafiei os jovens inventores a resolverem o problema do ruído que o equipamento emite.

    Se eles, de facto, conseguirem resolver este problema, temos uma máquina que pode ser promovida para solucionar esta tarefa. Também os desafiei a olharem para fontes alternativas de energias, o que eles se comprometeram em solucionar. Caso consigam superar estas duas questões, vamos ter um equipamento que vai poder ser utilizado com muita frequência em qualquer zona do nosso país. Mas, o protótipo que eles têm já funciona e eu tenho um em casa que uso muito aos finais-de-semana para descascar a ginguba que produzo no meu campo.

    Como encara a questão das ravinas que, em muitas localidades, retira sono às populações?

    As ravinas são um grave problema que temos na nossa região, por conta das quantidades de cargas pluviométricas que caem aqui e pela qualidade dos solos em muitas zonas do Uíge. Há quem já se esqueça dos problemas que tivemos com as ravinas nos morros do Kimalalu e Matabicho, na via do Quimbele. Foi um grande esforço para se repor a circulação naquela estrada, uma vez que tivemos de conter 13 ravinas que tínhamos naquele troço.

    Estamos, agora, a engajar-nos para solucionarmos o problema das ravinas no troço Damba-Maquela do Zombo, onde estamos decididos que, com ou sem elas, a nossa população não perca a mobilidade. Na província do Uíge estão catalogadas mais de 50 ravinas de grandes dimensões e muitas outras em formação. É um trabalho que está a ser resolvido pelo Ministério das Obras Públicas, no âmbito do Plano Emergencial de Combate às Ravinas no país.

    Ainda assim, com os meios à nossa disposição, sempre que podemos, vamos tapando aquelas que estão em progressão e, dentro do programa emergencial do Ministério, têm sido tratadas muitas. Nesta altura, o grande desafio é na via do município de Milunga, onde as residências, construídas no âmbito do projecto dos 200 fogos habitacionais, estão em risco de desabarem, o que está a merecer a atenção especial do Ministério das Obras Públicas.

    Para quando o fim das dificuldades na circulação entre Uíge-Bengo-Luanda?

    As pessoas que passam por esta via têm constatado algum trabalho a ser feito pelo Governo do Uíge, tendo em conta que orientamos o nosso director provincial para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas no sentido de se evitar a presença de buracos na nossa parte da estrada. Fazendo um trabalho paliativo de tapa-buracos com os poucos recursos que possuímos, seja barro, areia, mistura de areia e cimento ou brita e asfalto.

    Esta orientação é no sentido de que desde a ponte sobre o rio Dange até à cidade do Uíge possamos andar com mais segurança. Pretendemos fazer o mesmo esforço até à cidade do Negage. É um desafio que temos de tapar os buracos, tendo em conta que se tratam de estradas nacionais e sua total intervenção é da responsabilidade do Ministério. Mas, como somos nós a estar no terreno, sentimo-nos na obrigação de contribuir para que as nossas populações tenham uma mobilidade normal e segura.

    Em relação ao tratamento que se deve dar à esta estrada devido ao capim, existem zonas que temos estado a melhorar. São 136 quilómetros, desde a cidade do Uíge até ao rio Dange em que devemos empreender muito esforço para melhorar a visibilidade. Devemos, neste esforço, destacar o contributo do comando da Região Militar Norte (RMN) das Forças Armadas Angolanas (FAA) nas acções de capina e desmatação das bermas desta estrada. A sua situação é preocupante porque nós, particularmente, usamos esta estrada com muita frequência e procuramos fazer com que, dentro do nosso território, existam as mínimas condições de transitabilidade.

    A julgar pelo que defende e pratica, é um incentivador da actividade agrícola. O desafio é transversal a todos os cidadãos ou apenas para alguns?

    Todos precisamos de começar. Na verdade, o nosso chão dá tudo. Qualquer dúvida, é sempre aconselhável que se visitem as nossas feiras de produção agrícola que realizamos com frequência onde os nossos papás e mamãs expõem a sua produção. Vivemos numa região linda e abençoada com muitos solos aráveis, uma vasta hidrografia composta por rios de diversas dimensões e lagoas, e um clima favorável.

    O que temos estado a fazer é incentivar as pessoas para podermos produzir alimentos com dois objectivos: termos os alimentos para a nossa alimentação e o excedente para comercializar e permitir que as famílias tenham renda, porque entendemos que desta forma elas vão poder melhor as suas condições de vida.

    Nós, particularmente, desafiamo-nos a produzir e lançámos este desafio às administrações municipais e, para a materializarmos, lançamos, dentro do Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP), no seu primeiro item, um subprograma que designamos de Programa Local de Apoio à Agricultura Familiar (PLAAF), uma iniciativa nossa do Uíge, onde preparamos terras para entregar às famílias para que elas possam produzir.

    Não está na hora do trabalho manual dar lugar à mecanização?

    Temos consciência que, nas actuais condições, já não é possível produzir, em grande escala, com enxadas, catanas e outros meios rudimentares e, por isso, com o apoio das administrações municipais, é feita uma contribuição pecuniária que já nos permitiu, desde 2024, comprar, todos os meses, um tractor, uma grade e uma alfaia. Nesta altura, já adquirimos 11 tractores e suas grades e alfaias.

    Este programa, está a permitir aumentar a quantidade de terras lavradas de forma mecanizada para oferecer às nossas famílias para produzirem. Fruto deste trabalho e das exposições apresentadas com produtos obtidos deste projecto, despertou a direção central do governo que orientou a criação do Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF), como instituição não bancária dedicada ao financiamento às actividades agrícolas para trabalhar connosco.

    Desta abertura do governo central, já foi possível financiar, aqui na província do Uíge, 32 cooperativas agrícolas com equipamentos de mecanização agrícola, permitindo, paulatinamente, aumentar a mecanização da actividade na província. É um trabalho que exige paciência, resiliência e força para atingirmos as nossas metas. Devo afirmar que estamos a fazer um bom trajecto com uma curva exponencial e temos estado a caminhar bem.

    Há exemplos do que podemos chamar de sucessos com o Fundo de Apoio à Agricultura Familiar (FAAF)?

    Hoje, temos muitos municípios que são exemplos de sucesso devido à implementação do PLAAF, como o Uíge, Negage, Songo, Mucaba e Puri. No geral, todos os municípios se estão a integrar e isto é o que pretendemos, pois entendemos que se alinharmos o PLAAF à investigação científica, chamando o mundo académico a este trabalho, com realce para a Universidade Kimpa Vita, temos condições para sermos um verdadeiro celeiro para o nosso país.

    Àquelas administrações municipais onde o PLAAF ainda está longe de materializar os objectivos, devem perceber que este movimento é um comboio e todos devem estar alinhados. Queremos, agora, implementar o subprograma nos sete novos municípios para ver como eles se vão encaixar. Dentro do nosso subprograma de apoio à agricultura familiar, também entendemos, além da distribuição de meios de trabalhos, desenvolver um banco de sementes que está a ser implementado no município do Negage para suportar a nossa actividade e quem nos solicitar com sementes melhoradas.

     

    Os agricultores continuam a reclamar pela falta de apoios da banca. Qual tem sido a intervenção do Governo da província?

    Temos estado a trabalhar intensamente com a banca e com o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura (FADA). O que nós queremos, primeiramente, é que todos os interessados possam contactar o nosso gabinete provincial de desenvolvimento económico integrado para tratarmos da documentação necessária para que as pessoas tenham acesso aos créditos.

    Foi com apoio deste gabinete que permitiu que o FADA financiasse mais 32 cooperativas agrícolas na província e pretendemos que muito mais sejam financiadas. Estamos abertos a apoiar os camponeses. Basta que nos contactem. Precisamos prestar atenção e apoiar os produtores e, alinhar a isso também, as tecnologias para produzirmos bastante para abastecermos o país e contribuir no aumento das exportações.

    Como anda a aposta na electrificação da província?

    Temos estado a trabalhar bastante. É sabido que, desde que cheguei ao Uíge, andei, de forma ininterrupta, durante três meses por toda a província. Depois de toda constatação feita, cheguei à conclusão que se queremos caminhar para o desenvolvimento e mudar, efectivamente, esta nossa região, precisamos trazer aqui este catalisador que é a energia eléctrica.

    Nos tempos de hoje, nós precisamos deste catalisador. No entanto, tivemos que estabelecer um programa, ir à busca de apoio do Titular do Poder Executivo, o camarada Presidente João Lourenço, e dos Ministérios da Energia e Águas e das Finanças, assim como de outros órgãos. Nesta altura, tínhamos de organizar os termos de referências, usando várias mentes da província e de outras regiões, que conseguimos concluir depois de seis meses.

    Com este instrumento e os apoios obtidos, foi possível darmos e ultrapassarmos os diferentes passos, desde a mobilização do financiamento, vistos do Tribunal de Contas e negociações com a banca e, hoje, já podemos dizer que “já se vê uma luz no fundo do túnel” e, a qualquer momento, vai se dar início a todo este movimento na região em que a primeira fase se dá com o arranque dos trabalhos, nos municípios da Vista Alegre, Quitexe, Ambuíla, Bembe, Songo, Mucaba, Bungo, Nsosso e Puri.

    Onde começar inicialmente?

    Faremos, inicialmente, 11 municípios e suas aldeias com maior densidade populacional. Também estamos, paralelamente, a trabalhar para a segunda fase que vai encerrar os outros municípios que não me referi anteriormente. Andamos a fazer o trabalho de caso que também não tínhamos a noção que seria moroso, visto que temos de cumprir com a lei e mobilizar financiamentos desta dimensão.

    Mesmo com todos os constrangimentos possíveis e adversidades, queremos que as populações beneficiem deste catalisador de desenvolvimento. Queremos, com isso, alavancar a indústria transformadora onde a maracujá do Puri e Mucaba sirvam para produzir polpas, compotas e sumos. Que da mandioca saia a farinha. Para esta transformação para o desenvolvimento, é preciso a energia.

    Já vislumbramos uma província bem servida de energia eléctrica e desenvolvida. A vida passará a ser feita, verdadeiramente, nos municípios. Imaginem que ainda vivemos num período em que o administrador municipal tem que ligar o gerador de corrente eléctrica às 17 horas e depois o desligar depois das 23. Temos de vencer esta dificuldade e queremos que as aulas nocturnas aconteçam e que outras actividade possam ser desenvolvidas no período nocturno. Vai, de facto, acontecer uma mudança na vida dos nossos munícipes.

    Nesta primeira fase, para a electrificação dos 11 municípios, já foram mobilizados 190 milhões de dólares norte-americanos e para a outra fase se estima mobilizar outros 100 milhões de dólares, totalizando 290 milhões de dólares norte-americanos. Isto demonstra a vontade do Executivo, face a situações internas e externas adversas, em levar a província ao desenvolvimento.

    Que projectos estão em curso para o sector das águas?

    No domínio das águas, estamos a trabalhar, também, com o Ministério da Energia e Águas para a conclusão dos projectos de construção dos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água dos municípios de Maquela do Zombo e Damba. Tudo estamos a fazer para que a cidade do Uíge receba 15 mil novas ligações domiciliárias em zonas onde ainda não existem.

    Temos noção do problema, não apenas nestas três regiões, mais em todo o território e estamos a trabalhar para melhorar esta situação. Se as pessoas tiverem água corrente, se vai poder evitar muitas doenças, como, agora, o surto de cólera que assola o país. Devemos todos entender que água é vida.

    Como está a questão da segurança pública, sobretudo na principal cidade da província?

    Além de alguns relatos de criminalidade, eu acredito que andamos bem, pois também ando em todos os períodos na nossa cidade e tenho esta sensação. Os órgãos de defesa e segurança têm estado a fazer um esforço para que tenhamos, cada vez mais, segurança de noite e o que nós devemos fazer é apoiar estes órgãos nas suas actividades diárias para que as populações continuem a viver sem grandes constrangimentos.

    Assistimos uma melhoria nos níveis de criminalidade. Basta olharmos pela densidade populacional da província e as actividades nocturnas que se realizam. Tudo isso se reflecte na segurança que temos porque os órgãos de defesa e segurança têm estado a trabalhar intensamente.

    Ainda se continua a verificar a venda desordenada e em locais impróprios na cidade do Uíge. O Governo desistiu desta luta?

    É necessário insistirmos na educação das nossas populações para que percebam que a atitude delas não é correcta. Por isso, temos estado a desenvolver um programa conjunto com a Administração Municipal do Uíge no sentido de sensibilizar os cidadãos vendedores de ruas e nas ruas para que sejam retiradas destes locais não autorizados onde se encontram a realizar as suas actividades comerciais.

    As vendas devem ser feitas em condições higiénicas e em locais próprios. É isso que temos pedido aos nossos cidadãos e vamos continuar a trabalhar incessantemente para continuarmos a ter uma cidade cada vez mais acolhedora.

     

    Quanto à vandalização de bens públicos. Qual é a estratégia do Governo Provincial para se acabar com estas práticas?

    São todas estas situações que têm nos obrigado a reforçar as acções de educação cívica dos nossos concidadãos para que não enveredem por estas práticas e, ao mesmo tempo, temos estado a combater estas acções para que as pessoas compreendam que os bens públicos devem ser cuidados para servirem para todos nós enquanto habitantes desta região.

    Não vamos permitir que as pessoas continuem a vandalizar esses bens públicos. O Governo tem gasto muito dinheiro para a colocação destes bens essenciais à disposição da população, daí que temos que olhar que tudo aquilo que fizemos hoje, deve beneficiar esta geração e as outras vindouras. Portanto, temos a obrigação de cuidar deles e é uma obrigação de todos, enquanto cidadãos, na medida em que não devemos nos manter impávidos enquanto alguém esteja a vandalizar um bem público.

    É necessário que todos desenvolvam a cultura da denúncia. É isto que todos devemos fazer, até porque desta forma estaremos a ajudar os órgãos de defesa e segurança na proteção destes bens que, no fundo, todos nós utilizamos.

    Como anda o projecto do Governo para a distribuição de lotes de terrenos para a auto-construção dirigida?

    Andamos a ensaiar um programa com o qual queremos que os jovens, particularmente aqueles que queiram fazer as suas primeiras habitações, se interessem pelo mesmo. Este programa começou a ser desenvolvido no bairro Catapa, na zona adjacente ao projecto habitacional da juventude, e, agora, começamos junto à Centralidade do Kilumosso onde já distribuímos vários lotes há cerca de seis meses.

    Lamentavelmente, no início notamos que havia uma enorme pressão por parte dos jovens que tinham requerido os mesmos lotes de terreno, mas, até agora, pouco ou nada foi feito nestes espaços cedidos. Com base nesta constatação, estamos a estudar o fenómeno para entendermos o que realmente se passa para as pessoas não construírem as suas casas e vamos nos dar respostas a estas questões que nos auto colocamos.

    No entanto, é nossa intenção continuar a promover a aparição de novos bairros com o projecto de auto-construção dirigida com zonas urbanizadas e equipamentos sociais que tornem a vida mais bela e fácil. Estamos muito focados na região do Kilumosso onde já pode verificar alguma iniciativa privada de pessoas singulares e colectivas que estão a construir habitações.

    Esta experiência iniciada no município do Uíge, vamos replicar para o município de Negage ou, melhor para os 23 municípios que agora a província comporta. Estamos focados no município sede onde pretendemos tirar todas as ilações do programa para que mais facilmente possamos implementar em outras regiões da nossa província.

    Nesta altura, 400 jovens já receberam lotes de terreno para a auto-construção dirigida no Catapa e no Kilumosso. O período para eles darem início a construção das suas moradias é de seis meses. Passado este período, somos obrigados a nos inteirar sobre quais são os constrangimentos, que podem ser diversos, e esta avaliação vai nos permitir tomar uma atitude, muito brevemente, sobre que medidas a adoptar.

    O que tem a dizer sobre os constantes relatos de sinistros com famílias que vivem em zonas consideradas de risco?

    Lamentavelmente é a nossa realidade e que precisamos ultrapassar com urgência. O governo da província, sempre que tem condições, movimenta populações para os reassentar em zonas mais segura. Já fizemos aqui na zona da rotunda da Bangola e do Quitexe onde retiramos 40 famílias. Também reassentamos os antigos moradores do prédio AC e em outros pontos que achamos serem críticos.

    São sinais para poderem ver que estamos atentos a estas situações e sempre que tivermos condições que nos permitam construir novos reassentamentos, vamos continuar a movimentar famílias para lhes dar maior segurança.

    O Uíge possui vários recursos minerais e já se assiste uma crescente exploração ilegal dos mesmos. Que medidas estão a ser tomadas para travar o garimpo?

    Depois do potencial agrícola e turístico, o mineiro começa a despontar e o grande exemplo é o projecto Tetelo-Mavoio, a primeira mina subterrânea do país, a cerca de 600 metros de profundidade, no município de Maquela do Zombo que vai permitir que nos próximos tempos se explore e produza cobre, garanta mais empregos para a juventude local e contribua para a economia nacional.

    Existem outras empresas que estão a fazer prospecção de outros mineiros na nossa região. Mas devemos, de forma contundente, repudiar o crescimento preocupante da exploração ilegal de recursos minerais na província. Estamos agora com a “febre” do ouro no município do Songo e outras regiões, uma actividade que devemos combater energicamente.

    É necessário que o garimpo ilegal seja combatido devido às consequências ambientais e outras que esta prática traz para o nosso território. Estamos a trabalhar, conjuntamente, com o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, para se organizar e coordenar toda a exploração mineira na nossa região.

    Que avaliação faz do sector da Saúde e Educação na província?

    A área social, sobretudo Saúde e Educação, está no topo das nossas prioridades e principais preocupações, porque precisamos de levar a saúde à toda nossa população. O que temos feito é melhorar e capacitar os nossos recursos humanos, no âmbito do programa nacional do Ministério da Saúde de formação dos profissionais do sector em especialidades na área da Medicina, Enfermagem e outras de especialização. Estamos, também, a trabalhar na construção de mais infra-estruturas sanitárias para continuarmos a oferecer melhores serviços à nossa população. Ainda não atingimos algumas metas, por existirem, ainda, deficiências no atendimento aos utentes, na distribuição grátis de medicamentos, mas o mais importante é que estamos a fazer o caminho e continuamos atentos e a projectar uma melhoria dos nossos serviços à população.

    Existem, também, grandes desafios com o sector da educação, onde precisamos de diminuir o rácio aluno/professor nas salas de aulas, com a construção de mais infra-estruturas escolares, sobretudo no âmbito do PIIM que permitiu introduzir, até ao momento, 43 novas escolas na nossa rede escolar. Existe um programa do financiamento do Governo espanhol para a construção de 15 escolas de 24 salas de aulas, cada, das quais cinco já foram concluídas nos municípios do Uíge (2), Songo (1), Quimbele (1) e Maquela do Zombo (1).

    Estamos, agora, a trabalhar para a construção das outras 10 que deverão albergar institutos médios técnicos que são as principais solicitações dos alunos da província para os cursos de construção civil, electricidade, mecânica, electrónica e informática e soldadura industrial para que os nossos filhos, quando saírem destas escolas, não tenham que pressionar o Estado pela falta de emprego, mas que criem o auto-emprego e sejam empregadores.

    E o que se pode dizer do Ensino Superior?

    Neste segmento de ensino, o que devemos fazer é, primeiramente, fortalecer a base com cursos superiores variados, particularmente para os da área tecnológica. Sabemos que está a surgir o potencial mineiro, por isso precisamos de formar muitos técnicos e o diálogo mantido com a Universidade Kimpa Vita é que, além dos cursos já ministrados, que se oriente, também, para as tecnologia e engenharias.

    Precisamos, localmente, de ter um curso superior de construção civil, mecânica, electricidade e outras para absorverem as saídas nas escolas do ensino médio. Há, ainda, a necessidade de resolvermos o problema do défice de médico na província e a nossa Universidade é desafiada a promover o curso de medicina para formarmos quadros dos municípios e estes retornarem às suas áreas de proveniência para melhorar a assistência médica e medicamentos.

    É um diálogo permanente com a Universidade Kimpa Vita para sejam incluídos nos seus planos curriculares cursos ligados às áreas das tecnologia e engenharia, assim como a implementação dos graus de mestrados e doutoramentos. O mesmo apelo é extensivo para instituições de ensino superior privadas.

    Como tem sido a relação com as igrejas?

    Deve-se compreender que não só do pão vive o homem… Portanto, nós precisaremos das igrejas para nos ajudar a criar esta nova sociedade que pretendemos. Elas vão continuar a ser os nossos grandes parceiros sociais por tudo quanto representam na sociedade e por tudo quanto os servos de Deus têm estado a fazer no crescimento da nossa região, nos campos da educação, saúde, na moralização da população e nos trabalhos sociais para os quais podemos contar com elas em qualquer momento.

    Senhor governador, como avalia o trabalho feito pelos órgãos de comunicação social?

    Obrigado! Não é uma questão fácil, por isso nos devem compreender. Desde que cá chegamos, nossa avaliação tem sido positiva, pois começamos, logo, a fazer visitas de constatações às instalações da Rádio Uíge, Jornal de Angola, Agência Angola Press (Angop) e Televisão Pública de Angola (TPA), onde constatamos inúmeras dificuldades.

    Estas dificuldades vão desde a falta de materiais de trabalho, transportes, más condições das instalações onde trabalham. De forma conjunta, com as direcções destes órgãos, fizemos alguns esforços, os quais permitiram a reinstalação da TPA num edifício mais moderno e temos estado a olhar para os outros órgãos onde existe dificuldades, em termos de equipamentos tecnológicos e dentro das nossas possibilidades e limitações, temos apoiado.

    No geral, são estas as dificuldades que estamos a procurar solucionar. Pedimos, apenas que os órgãos de comunicação social continuem a fazer o seu trabalho com dedicação e que nos ajudem a fazer crescer a região, com acções que concorram para a melhoria das condições de vida da nossa população. Assumimos um compromisso com a classe jornalística, sobretudo em matéria de melhoria das suas condições sociais, onde nos predispomos a disponibilizar lotes de terrenos para a auto-construção dirigida. Estamos a criar condições para a sua materialização.

    Via JA

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