O importante povoamento dos Kongo em Portobelo (Panamá) no Caribe no século XVI e sua cultura atual

Por Samba Tomba Justes Axel (*)

A cidade de Portobelo, situada no norte de Panamá, com visto no mar de Caribe, foi fundada no final do século XVI pelo Cristóvão Colombo. Essa cidade recebeu vários contingentes dos escravizados africanos, cujos mais importantes foram contingentes dos Kongo vindo do antigo reino do Kongo Dia Ntotila, no século XVI antes mesmo da fundação da cidade, que foi uma cidade de desembarque, como testemunha a matriarca da cultura Kongo Mama Ari.

Portobelo, cidade que fica na província de Colón no norte do país, é hoje, quase abandonada. Ela tem cerca de 4 mil habitantes, a maioria preta de cor. Mas essa cidade é também uma cidade muito histórica, como testemunham o forte colonial de San Lorenzo com muros antigos e é considerado um Patrimônio Mundial desde 1980, o Cristo Negro (estatua de madeira encontrada ao redor da cidade) que fica na igreja San Felipe.

E sobretudo essa cidade de Portobelo é muito histórica pela chegada dos Kongo e da sua cultura que ainda é forte e se vive ao cotidiano pela maioria da população de descendência africana Kongo.

Com efeito, o império escravista e colonial espanhol tendo o domínio jurídico sobre a maioria das terras das Américas, de acordo com o Tratado de Tordesilhas de 1494 assinado entre portugueses e espanhóis sub olhar do papa Alexandre VI, as duas potencias escravistas, exportou milhares de escravizados nas suas colônias hispânicas, através dos portugueses que tiveram o ‘‘Asiento’’ (direito dado pelos reis espanhóis de exportar escravizados nas colônias hispânicas da América) de 1510 e de 1518. Nesse tráfico dos escravizados nas Américas, a então colônia de Panamá recebeu vários contingentes dos escravizados na suas várias cidades portuárias cuja cidade de Portobelo, uma das grandes portas de entrada dos escravizados no atual país da América Central. E o lugar foi considerado muito atraente pela geografia, como o nome indica mesmo em português ‘‘Porto Bello’’.

Nessa chegada dos escravizados na cidade de Portobelo, chegaram no século XVI, vários contingentes Kongo vindo da África Central. Segundo os dados avançados por David Eltis, o império espanhol exportou entre 1519 a 1675, nas todas suas colônias hispânicas continentais das Américas, 339,3 mil escravizados no total. No mesmo período, a África Central exportou 787,4 mil escravizados nas Américas em geral em todas as colônias europeias, segundo o mesmo banco, seja 78,0% no total do comércio, portanto a África Central sendo a primeira fornecedora.

Obenga e Vansina falam de 4.000 a 5.000 escravizados vendidos no Kongo e esse número passou de 6.000 a 7.000 escravizados por ano até 1540 1 . O pesquisador congolês (do Congo Brazzaville) Brice Matingout 2 disse que até 1540, o número de escravizados vendidos na África Central, eram de 10.000 a 20.000 escravizados desembarcados pelo antigo e maior porto na África do século XVI, o porto de Mpinda.

A esse número, é preciso adicionar 5.000 a 10.000 escravizados Bantu que sucumbiram na captura na África Central, na travessia e a na chegada nas Américas, como resultados das vítimas colaterais.

Esses fatos históricos mostram claramente que os contingentes Kongo e da África Central em geral foram os mais importantes em número dos escravizados Africanos a chegar nas Américas. Essa presença preponderante dos Kongos ou dos Bantu entre Africanos, é vista hoje nas manifestações religiosas e culturais dos Afrodescendentes do Uruguai até nos Estados Unidos da América, que são marcas antropológicas incontestáveis da presença massiva dos Bantu nas Américas. Quem pode negar esses fatos históricos, é uma simples ignorância ou um tentativa de falsificação da história.

Então hoje, Portobelo tem uma cultura imensamente kongo com seus habitantes.

Segundo a mama Ari, matriarca e responsável da cultura kongo na cidade, a língua é kongo, tudo que é feito no cotidiano da cidade, é kongo. 95% da população da cidade é de descendência africana e usa a cultura kongo. A fortaleza colonial militar com seus armas direcionadas foi construída com corais recolhidos na profundeza do mar do caribe pelos escravizados africanos, segundo essa mulher.

Desde 3 anos (contando a partir de 2017 até 2019), a cidade de Portobelo tem seu museu que tem como nome ‘‘Casa Cultura Congo’’, que ensina a história da luta pela liberdade pelos escravizados, a história de adaptação da cultura kongo ao novo meio ambiente, a história dos cimarrons ou ex escravizados fugidos e resistentes (equivalente do Quilombo no Brasil ou Palenque na Colômbia). Pois, é preciso lembrar que no século XVI, havia duas colônias espanholas principais no istmo do Panamá, o Nombre de Dios na costa do Caribe e o Panamá na costa do Pacífico, essas duas colônias foram o teatro das mais violentas revoltas e fugas repetitivas dos escravizados na toda América hispânica, que foram Cimarrons. Além disso, Portobelo ficava na colônia de Costa do
Caribe.

Além disso, o museu é composto de fotografias dos Afrodescendentes da cidade de geração em geração, de objetos de escultura, como estatuas de pessoas, de animais, tambores(ngomas), de quadros de artes com imagens das mulheres vestindo saias tradicionais kongo, e outros objetos de percussão.

Essa história importante e singular fez com que a Cultura Kongo de Portobelo a ser classificada como patrimônio cultural imaterial da Unesco, desde novembro de 2018. Segundo Lourdes Gutteres, diretora da Fundação Bahia Portobelo: ‘‘Toda a população é orgulhosa dessa decisão, pois é o reconhecimento duma cultura. É a história da luta de um povo liberado da escravidão, tornou-se cimarron, e que se lembra da sua história com orgulho. Esperamos que muitas pessoas vão vir mais que como de hábito, que vão se interessar à história, à cultura, à natura de Portobelo’’.

Entre costumes kongo de Portobelo, a dança faz parte do elemento essencial. A dança é expressão de lutas antigas e atuais pela liberdade. Ela simboliza a expressão de alegria e de emancipação dos povos afrodescendentes no Panamá maioritamente Kongo, oprimidos pela escravatura. E há outros riquezas culturais de marca kongo.

A presença e a hegemonia da cultura kongo no cotidiano dos povos de Portobelo, no Panamá mostra mais uma vez, a evidencia que dizemos cada vez nas pesquisas, de que os povos Bantu em geral e Kongo em particular, foram os povos africanos que povoaram mais a América em geral que outros povos africanos, tomando em conta a presença antiga portuguesa no reino do Kongo desde 1482, antes da exploração do Brasil, e da hegemonia portuguesa do comercio negreiro nos 2 primeiros séculos intensos desse comércio vergonhoso nas Américas.

 

1-TOMBA SAMBA, J. A. Às Origens dos Escravizados Bantu de África Central deportados Às Américas dos séculos XVI-XIX. Artigo científico publicado nos Anais eletrônicas da XXIX Simpósio Nacional de História. Brasília: Anpuh. 2017. P.7.
2-TOMBA SAMBA, J. A. Idem. P.8.

(*) SAMBA TOMBA Justes Axel, é congolês da República do Congo ou Congo- Brazzaville. É licenciado em História (com especialidade em história da civilização e história do Reino do Kongo e história Transatlântica dos Bantu nas Américas) e frequenta o nível de segundo período de mestrado. É pesquisador em História da civilização Kongo em África Central e sobre em Antropologia Sócio-Cultural dos Bantu nas Américas, nomeadamente as sobrevivências culturais Bantu.
Membro da União Nacional de Escritores e Artistas Congolês (U.N.E.A.C.). Ele já publicou muitos artigos históricos sobre a civilização Kongo e a história do Congo Brazzaville.
Actualmente ele estuda no Brasil no Rio de Janeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . Ele é membro da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (APBN) e membro do laboratório de Estudos Áfricanos (LEAFRICA/UFRJ) e do Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades
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