CAMINHOS DA VIDA : JORGE YAMBA, jovem de Maquela do Zombo no meio da fome realizou o seu sonho.

Por Rui Ramos

Levado para Luanda ainda muito jovem, Jorge Yamba enfrentou dificuldades extremas, vendeu água e lavou carros, mas nunca desistiu de estudar, cursou frio e tem uma licenciatura em Psicologia pela Universidade Católica.

Jorge Yamba, filho de Nicolau Yamba e de Paulina Kumba, camponeses, nasceu em 1989, há 31 anos, no município de Maquela do Zombo, província do Uíge.

Começou os seus estudos em Maquela do Zombo mas, com com apenas oito anos, em plena guerra civil que atormentou tragicamente as populações do Uíge, foi levado para Luanda para aí recomeçar os estudos. A família, no entanto, vivia em pobreza extrema, sem quaisquer proventos e, sem a ajuda familiar, Jorge Yamba, desamparado, defende-se, tenta tudo o que está aos eu alcance para sobreviver e não morrer de fome. Jorge Yamba junta-se então a um grupo de amigos, todos muito jovens, vendendo água nas ruas.

Em 2007, Jorge Yamba, já adolescente, consegue finalmente iniciar o primeiro ciclo do ensino geral, no colégio Amor e Paz, graças a algumas poupanças conseguidas com a venda de água. Três anos depois, para se matricular na décima classe, é obrigado a lavar carros numa lagoa e assim, no meio dos maiores sacrifícios pessoais, consegue terminar a décima segunda classe.

“Eu estava muito ansioso por entrar no ensino superior mas infelizmente isso não foi possível, as condições em que vivia eram muito precárias e eu recordo que fiquei muito triste e desiludido com a vida pois a pobreza sem solução impedia a realização dos meus sonhos.”

Mas Jorge Yamba, uma vez mais, não desiste, seca as lágrimas de tristeza, a sua força anímica é muito grande. Munido de conhecimentos de inglês, por ter frequentado um curso desta língua, lecciona no colégio Laymin. Mas o pequeno salário não lhe permitia continuar os estudos superiores porque a propina eram 24 mil kwanzas e ele ganhava muito menos do que isso no colégio.

Mas Jorge Yamba vai à luta e inscreve-se num curso profissional de frio e climatização, em 2011, que termina com bom aproveitamento, tenta trabalhar fazendo biscates, aguarda nova oportunidade e, no ano seguinte, pede ajuda ao pai para fazer a inscrição na Universidade Católica. Com muito sacrifício, abdicando de alguns valores, o pai de Jorge Yamba conseguiu ajudá-lo e o filho inscreveu-se e foi aprovado na admissão.

Jorge Yamba faz o primeiro ano do curso de Psicologia do Trabalho e das Organizações, em 2012, mas viu-se obrigado a desistir pois em casa não havia rendimentos e a fome reinava e as propinas tinham de ser pagas todos os meses, além das despesas com material escolar e provas. “As condições financeiras precárias em que continuava a viver não me permitiram dar continuidade aos estudos, eu nem dispunha de dinheiro para apanhar transporte nem para comprar um pão.”

Em Fevereiro de 2013 Jorge Yamba viaja para o Kwanza Sul, onde, graças a ao curso de inglês que tirou em 2006 no centro de formação profissional Dodet English School, consegue trabalho como tradutor de língua inglesa numa fazenda de vinhos de Higino Carneiro, no município de Calulo, mas meses depois o seu pai morre e tudo volta a ficar complicado para Jorge Yamba que tem de regressar a Luanda para apoiar a família que vive sem qualquer rendimento.

Incapaz de estudar e de ajudar a família, Jorge Yamba decide investir na profissão de frio, reparando arcas, geleiras e ACS. Jorge Yamba consegue alguns pequenos proventos e decide aprender a tocar piano e aí vai ele todas as sextas-feiras ao Palanca para tocar no fim de um espectáculo e voltar para casa de madrugada com 8 a 9 mil kwanzas que mal davam para ajudar a família, onde pontificam 8 irmãos. “Mesmo assim era um rendimento que eu conseguia, a juntar à profissão de frio, muito pouco mas atirei-me aos biscates, trabalhava sem parar com o objectivo de conseguir licenciar-me.”

Sem nunca desistir, Jorge Yamba tenta sempre, trabalha noite e dia, com as parcas poupanças consegue minimamente alimentar a extensa família. Jorge Yamba concluiu o ensino superior e hoje é Psicólogo de Trabalho, formado na Universidade Católica, “onde não é nada fácil concluir”, diz-nos.

Actualmente, Jorge Yamba orienta trabalhos de fim de curso e a profissão de frio é a outra sua fonte de sustentabilidade.

Fonte: JA

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